O tempo entre costuras, de María Dueñas, uma GRANDE AVENTURA

18 10 2010

A costureira, 1916

Joseph DeCamp (EUA, 1858-1923)

Óleo sobre tela, 36,5 x 28 cm

Corcoran Art Gallery, Washignton DC

Procurando por uma excelente história?  Por um livro que não quer ser esquecido de nenhuma maneira?  Por aquela leitura que nos envolve e empurra para frente e nos obriga a fazer tempo para ler, para saber como tudo se desenrola?  Tenho o livro para você:  O tempo entre costuras, da escritora espanhola María Dueñas  [Planeta Brasil: 2010].   Li este livro compulsivamente e agradeci o tempo chuvoso do fim de semana que me permitiu permanecer em casa com essa maravilhosa história nas mãos.

Este é um romance excitante cujo enredo é complexo e fascinante; é um livro de aventuras e mostra como uma pessoa comum, sem nenhum treino específico além de uma grande vontade de viver e acaba  participando da resistência a um poder absoluto e se torna parte de uma grande causa. Ela é Sira Quiroga ,uma mulher jovem que aprendeu ofício de costureira com sua mãe e que desconhece o pai.  Uma jovem que contava com um futuro certo pela frente, talvez um pouco insosso – é verdade – mas um futuro sólido com um bom e confiável marido.  Às vésperas dos esponsais ela se vira numa outra direção, abandona o noivo e o casamento.  A alavanca é um outro homem.  No entanto, à medida que a história se desenvolve, percebemos que talvez essa jovem costureirinha madrilenha, soubesse intimamente  que a vida poderia ter-lhe reservado muito mais do que um futuro regrado.  Porque ela se joga, sem pára-quedas, na aventura de viver, com todos os altos e baixos que essa decisão poderá lhe trazer.

O pano de fundo das aventuras de Sira Quiroga é a ditadura espanhola de Franco.  Essa situação política, que no início do romance parece ser uma descrição de época, torna-se a verdadeira base para o desenrolar da trama.  A cada capítulo, a cada dezena de páginas, essa ditadura, esse governo de extremos, se mostra como iminência parda, regulando  as ações de todos à sua volta, assim como aquelas de nossa heroína.  Porque esta é uma história de espionagem, de resistência, de contestação a um poder ditatorial.  É uma história de pessoas comuns contribuindo para evitar que a Espanha se tornasse ainda mais envolvida com o poder nazista do que já estava.

María Dueñas

Esta é uma história de ação.  Lembrou-me tantas e tantas outras obras, livros e filmes, que retratam o movimento da resistência francesa ao regime Vichy.   E como aquelas,  O tempo entre costuras  é excitante, sedutor, um verdadeiro rodamoinho de emoções, perigo e de fantasias  aguçadas pelo medo.  Tudo isso centralizado nas ações de uma bela e jovem mulher, costureira, não muito letrada, não muito sofisticada, mas corajosa e inteligente.   Este é um ótimo romance, cinco estrelas, que tem como finalidade uma narrativa rápida, de ação, bem baseada em fatos verídicos, com figuras históricas amplamente documentadas.  Com ele aprende-se um pouco da realidade espanhola nas mãos do Generalíssimo; e um pouco sobre os serviços de espionagem internacionais que se mantinham atentos ao namoro e noivado do governo espanhol com a Alemanha de Hitler.  Uma história que ainda tem muito a ser contada, muito a ser descoberto pelo resto do mundo.

Uma leitura que entretém, sempre, mesmo quando nela aprendemos sobre a Espanha.  Recomendadíssimo.

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AQUI: UMA ENTREVISTA COM A AUTORA — EM ESPANHOL

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A costureira e o cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles

1 10 2010

 

O Cangaceiro, 1988

Aldemir Martins ( Brasil, 1922-2006)

Acrílica sobre tela, 55 x 46 cm

Este ano, pelas minhas contas, li 39 livros de ficção tanto brasileira quanto estrangeira, e acho que acabei de ler o melhor de 2010.  Se não for o melhor ficarei surpresa.  Isso me levará a considerar  o ano extraordinário pela riqueza de bons textos: significa que ainda vou ter surpresas mais espetaculares do que tive com o livro de Frances de Pontes Peebles, intitulado A Costureira e o Cangaceiro [Nova Fronteira: 2009].  Foram 616 páginas que virei com prazer, curiosidade, ansiedade pelo desfecho e ainda fiquei com o gosto de “quero-mais”.

Este é um romance enraizado no estado de Pernambuco, que segue a vida de duas irmãs nascidas no início do século XX numa pequena cidade do interior do estado.  Emília só pensa em sair dali.  Faz de tudo para o conseguir.  Luzia que, ainda criança sofreu um acidente que a deixou com uma deficiência física, se vê sem futuro.  Mas a vida traz surpresas para ambas.  Cada qual persegue e procura um sonho, uma maneira de se realizar.  Seus caminhos são muito diversos, mas mesmo assim há uma forte conexão entre elas, que sem se falarem conseguem se manter “em contato” uma com a outra.  Nesse ínterim, a história do Brasil,  que no início do século parecia uma simples continuação do século XIX, dá uma guinada e Vargas sobe ao poder.  A vida de cada uma é inesperadamente virada pelo avesso com essa mudança feita lá no sudeste do país, por um gaúcho.   Ao longo do caminho, aprendemos muito sobre o Brasil, sobre a política regional de Pernambuco, sobre a oligarquia brasileira.  Ao fechar o volume, compreendemos que além de seguirmos as peripécias dessas duas mulheres fortes e corajosas, seguimos também os caminhos do país e em particular do estado de Pernambuco.  Finalmente compreende-se  a duplicidade das vidas urbana e do sertão em Pernambuco, que como irmãs gêmeas xifópagas, não podem ou conseguem viver separadamente.

Raramente temos um romance brasileiro – um romance histórico – com a precisão de detalhes dados de forma interessante sobre um específico período.  O que Frances de Pontes Peebles faz, é criar duas personagens críveis, na base de “gente como a gente”, e colocá-las interagindo com a sociedade brasileira já estabelecida.  As duas irmãs encontram por si só os caminhos que as levam a viver e sobreviver num mundo que só tem horizontes muito limitados para cada uma delas.  E nessa luta, nessa garra de não sucumbir às demandas sociais, nessa ânsia que ambas demonstram de sair do patamar em que ficariam, caso permanecessem na pequenina Taquaritinga do Norte, aprendemos sobre o Brasil, sobre a sociedade brasileira de uma época em que mal se votava e que nem as mulheres tinham direito ao voto. 

O que faz esse romance tão especial?  São muitas as razões: a voz narrativa, forte, sedutora.  Mas há mais: personagens interessantes e complexos: não nos encontramos com os típicos estereótipos nordestinos quer nos personagens, quer na paisagem; cada detalhe descrito encontra sua razão de ser ao longo da narrativa, até mesmo os que parecem estar lá para dar uma ambientação; na falta de outra documentação, a reconstituição histórica é maravilhosamente baseada nos trajes de época—que marcam a vida da costureira e nos levam através das décadas em questão.  Não há excessos.  Os detalhes fazem a história e seus personagens tridimensionais, o roteiro se mostra bem amarrado, e parece incrível dizer-se isso de um romance de mais de 600 páginas: mas é sucinto.  Como uma boa costureira, Frances de Pontes Peebles não dá ponto sem nó. 

Frances de Pontes Peebles

É necessário ressaltar a excelente tradução de Maria Helena Rouanet, cujo texto em português é riquíssimo em vocabulário e flui com uma destreza de mestre.  Uma das melhores traduções que encontrei recentemente de romances estrangeiros.   Frances de Pontes Peebles nasceu no Brasil,  mas passou grande parte de sua vida nos Estados Unidos.  Filha de mãe brasileira e de pai americano ela se sente mais à vontade no uso da língua inglesa.  E antes deste romance – que é o seu primeiro,  já havia publicado contos nos Estados Unidos.  Hoje ela mora no Brasil e quem quiser pode seguir suas aventuras aqui: http://francesdepontespeebles.com/

Não perca essa leitura.  Você vai adorar!   O meu grupo de leitura aprovou este romance por unanimidade.  É realmente muito bom.





Para ler: Os diários de pedra, de Carol Shields

31 07 2010
Jardim com lago, ilustração de revista de 1923.

Tenho  muito prazer em ler biografias, memórias, diários de pessoas comuns.  Cito a propósito de ilustração dois exemplos deste tipo de leitura:  The memoirs of Gluckel of Hameln, Schocken Books:1977 [ As memórias de Gluckel de Hameln – não traduzido para o português–] – um diário começado em 1690 por uma mulher alemã, judia, que retrata suas preocupações diárias e A família de Guizos: história e memórias, de Ivna Thaumaturgo, [Civilização Brasileira: 1997] composto das memórias de uma carioca sobre a vida no Rio de Janeiro da 1ª metade do século XX.  Diferentes em proposta e em desenlace, esses dois livros me enriqueceram, tanto quanto muitos outros no gênero que fui coletando ao longo dos anos.

O que todos têm em comum é a preservação de um momento passageiro, de uma idéia, preocupação ou emoção que em geral achamos difícil associar ao legado material que nos resta de outras gerações.  Quem, por exemplo, subindo os degraus para o átrio de alguma igreja antiga, vendo na pedra o desnível em lugares específicos  que estabelecem os milhares de pés que se apoiaram exatamente no mesmo lugar ao subir aquela escadaria,  não pensou nessas pessoas invisíveis cuja única recordação de que existiram está justamente na corrosão de um pedaço de pedra?  Esta observação chega a ser lugar comum para quem costuma visitar sítios históricos, no entanto ela demonstra a nossa realização da grandeza de um passado evanescente. 

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Para mim, a leitura de diários de pessoas comuns, de um passado próximo ou distante, me faz testemunha de uma era que não vivi.  Ao longo do caminho, tenho a oportunidade de apreciar aqueles cujas vidas nos trouxeram aos nossos dias e saber como pensavam e com que se preocupavam.  Mesmo que o anotado sejam questões corriqueiras, que se apliquem, por exemplo, à quantidade de farinha necessária para assar mais broas numa taverna ou onde melhor esconder dos bandidos de estrada, numa viagem entre cidades, a cavalo, a única moeda de prata que se traz na algibeira?  A leitura desses diários, dessas memórias, me presenteia e enriquece porque eles fazem o passado mais rico e inteligível.  Mais presente.  E trazem consigo a sabedoria de séculos, a sabedoria popular que pode e, com freqüência,  é esquecida nas gerações seguintes.  E como sabemos: quem não conhece a história está condenado a repetir seus erros.

É justamente isso que o romance da escritora canadense Carol Shields (1935-2003), explora em  Os diários de pedra, [Record: 1996], trabalho que recebeu dois grandes prêmios de literatura, tanto o Pulitzer como o National Book Critics Circle em 1995.  E por minha conta parecem prêmios muito merecidos.  Esse romance é uma testemunha do poder da imaginação, porque conta a história de uma mulher comum de classe média — como milhões de outras pessoas que conhecemos e que nos precederam —  cujas vidas parecem não ter nenhum grande evento ou nenhuma grande manifestação além daquela de ter, criar e educar filhos e acima de tudo sobreviver com dignidade até os últimos dias.

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Carol Shields

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Ora narrado na primeira pessoa, ora por outro narrador, cuja escolha às vezes parece deixada ao acaso, limitada talvez, pela falta de testemunhas num passado comum, Os diários de pedra, contam a vida de Daisy Stone Goodwill, uma dona de casa — filha, mãe e avó — que “fazia um delicioso bolo de carne, que sabia como replantar uma figueira-da-Índia,  que sabia o que fazer com uma carta de trunfo”.  Seguimos Daisy do nascimento em 1905 nos Estados Unidos à sua vida no Canadá e finalmente à sua morte na Flórida, com mais de 80 anos.  Carol Shields faz mágica com esse texto.  Ela reconstrói a vida de Daisy  com diários, relatos de testemunhas desse ou daquele evento em que Daisy era uma participante.  Ela traz à tona bilhetes deixados por amigas, uma lista de enxoval, uma carta dobrada na gaveta de uma cômoda e até mesmo uma seleção de fotografias que representam alguns dos membros da família.  Com um punhado de “provas” da existência desse personagem, ela constrói uma colcha de retalhos encantadora, sensível e espessa.  E ao longo do caminho ela também desvenda a vida de alguns de seus companheiros de viagem, do pai às amigas e aos filhos, mostrando  também seus motivos e até suas excentricidades, perfeitamente naturais e em sintonia com os tempos.

O resultado é fascinante: ao juntar todos esses pequenos documentos que testemunham, muitas vezes obliquamente, a existência de um personagem e fazem-no real, parecendo ter existido além dos limites da imaginação da autora, Carol Shields deixa ao longo do caminho espaço suficiente para pequenas considerações sobre o magnífico milagre que é a sobrevivência de cada um; que é a superação das tragédias corriqueiras, das perdas e ganhos, que podem até parecer pequenos mas que para cada um de nós podem vir a ser gigantescas batalhas. Esse livro é um hino de alegria, um elogio ao ser humano que na sua pequenice, na sua vida comum, sem medalhas de mérito, sem prêmios de interpretação, consegue se superar e manter uma dignidade condizente com sua personalidade.  Esse romance está impregnado  com o maravilhoso prazer de viver, com o contentamento, o júbilo de uma vida imperfeita, frustrante e ainda assim significativa.   É leitura obrigatória para o enriquecimento da alma. 





Clara Hoyt, um perfil de mulher: a prosa deliciosa de Louis Auchincloss

15 07 2010

Coquetel, ilustração de 1944, assinada Eric.

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Em janeiro deste ano a nota de falecimento de Louis Auchincloss não chegou a fazer manchetes no Brasil, onde o autor é pouco conhecido. Mas, para mim e milhares de outros fãs do escritor americano, ficou o vazio de se saber que não mais poderíamos contar com a sutileza, a crítica elegante e mordaz, assim como a prosa límpida que preenchia, sempre sem exageros, as páginas de seus romances: ia embora  um dos grandes e mais tenazes observadores da sociedade americana, um autor que reinou  ímpar por grande parte  do século XX. 

Foi com a intenção de despedida, com o aceno do adeus, que me dediquei à leitura de um dos pouquíssimos livros do autor, dentre suas mais de 50 publicações, traduzidos e publicados no Brasil:  A infinita variedade dessa mulher, São Paulo, Editora A Girafa: 2004.  O romance se passa entre 1937 e 1963 – trinta e poucos anos que remodelaram o mundo, as economias americana e mundial; período em que a vitória das forças aliadas na guerra leva os Estados Unidos a um papel ainda mais central no mundo ocidental, como potência econômica, militar e cultural.   Mas ainda que este seja o horizonte em que a vida de Clarabel Hoyt – principal personagem do romance – se aprume, ainda que esta seja a paisagem contra a qual as oportunidades que lhe aparecem são possíveis, o retrato que estudamos nas 280 páginas do livro é aquele de uma mulher em busca de sua razão de vida.

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Louis Auchincloss foi o autor que, no século XX, melhor retratou a sociedade rica e poderosa dos Estados Unidos, o grupo social que age nos bastidores da política americana.  É daí que invariavelmente políticos de qualquer partido são escolhidos,  vice-presidentes ou executivos de grandes corporações.  Esse é o grupo social que frequenta as escolas particulares aos moldes ingleses, as universidades de maior prestígio [Ivy League Schools], os clubes fechadíssimos na cidade e no campo. Seus membros são dificilmente visíveis em lugares públicos e nunca chamam atenção para si mesmos.  Este é o grupo que age há séculos, como eminência parda do poder, num país que se diz uma gigantesca sociedade de classe média.  Sem entender que é desse grupo social que vêm as grandes reformas políticas, sociais e econômicas daquela sociedade — de direita ou de esquerda — é não compreender completamente as forças econômicas e sociais que fazem o país tão dinâmico.    Direto em estilo e refinado na linguagem, como Henry James o era, Auchincloss lembra, no retrato da sociedade nova-iorquina de poder, a herança cultural recebida por aquele autor.  E nesse simples retrato de mulher essa semelhança com o seu antecessor não deixa de ser lembrada.

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Louis Auchincloss

 

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Perfis de mulher estão entre os assuntos mais revisitados na obra de Auchincloss, ao retratar a nata da sociedade nova-iorquina.  E Clara Longcope Hoyt Tyler é mais uma delas.  No início do romance, vemos uma jovem frequentando as melhores escolas, e demonstrando mais personalidade do que suas colegas.  Ao se apaixonar  por um rapaz sem a ambição necessária ao sucesso, segue os conselhos de sua mãe, uma mulher bem-nascida mas frustrada com o resultado do casamento que fizera —  e não se casa com ele.   Nossa simpatia começa com Clara.  Mas, aos poucos, à medida que ela dá largas a sua ambição, vamos nos distanciando dessa mulher.  Nós e o escritor, que através de uma narrativa de grande destreza se encarrega de nos separar gradativamente da heroína.  Até a mãe de Clara, que no início nos parece fria e calculista, de quem resguardamos nossos corações, aos poucos vai também desacreditando dos meneios de sua filha para chegar onde quer.  Clara é o retrato da mulher fria e calculista, que se atreve a usar de sua influência como mulher e intelectual para chegar ao poder.  Com ela Auchincloss faz um excelente retrato das atitudes femininas de meio-século, distintas nas décadas de antes e depois da guerra: nos anos 40 fica claro que as mulheres tinham de usar seus atrativos femininos para atingir ao seu potencial intelectual.  Já depois da guerra a atitude passa a ser diferente, e como Clara descobre é necessário jogar de igual para igual com os homens para conseguir o que deseja. —-

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A leitura desse romance é rápida; sua narrativa é cristalina, amplamente dignificada com a tradução de Sérgio Viotti.  A poderosa e pequena sociedade fechada nova-iorquina é sutilmente retratada.  E a manipulação para chegar ao poder precisamente crível.  Leia.  É uma ótima maneira de preencher um final de semana de inverno.





Fal Azevedo assombra em Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite

24 06 2010

Vaso com flores, 1988

Fang (China/Brasil, 1931)

gravura, 48 x 58 cm

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Tenho um fraco por esculturas.  Num seminário em história da arte, há muitos anos, escrevi um artigo sobre o uso do espaço vazio, do vão, digamos assim, como parte vibrante das esculturas de Henry Moore e Giacometti: no trabalho de ambos e de maneiras diferentes, o que não está presente, o buraco (em Henry Moore) ou o espaço à volta (em Giacometti)  tem uma função tão grande, tão intensa que faz parte da escultura que vemos, que analisamos, com o mesmo peso que as formas do bronze que nos fascinam.  Este é o vazio positivo, sentido mas não visto, que conta com o ausente, tanto quanto com o que está exposto.  Pensei nesse artigo, enquanto lia o romance de Fal Azevedo, Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, Rocco: 2008.  Nele, o que não é dito, conta.  Fala.  Nos move e comove.  A eloquência desses pequenos silêncios  pode ser vista no minúsculo parágrafo, que cito aqui por inteiro:

O gato amarelo veio fumar comigo.  Ele morde meu dedão, charmosa tentativa de me convencer de ir até a cozinha.  A coisa mais fofa nesse gato é que, quando eu choro, ele apoia a  pata no meu rosto.  Como agora.”

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O texto segue, com outro assunto, com outro momento.

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Quantas vezes ela precisou chorar para perceber esse comportamento do gato?  Por que chorava?   O conforto de um gato seria o único conforto dado à autora dessas frases?   Não sabemos, não nos é explicado.  Passamos rapidamente para o assunto seguinte.  A vida é curta.  Há muito acontecendo.  O peso do passado também assombra.  No entanto, o sofrimento implicado pelo texto fala alto.  E nos cala.  Fal Azevedo trabalha com a elipse, a omissão do sentimento retratado,  assim como Henry Moore trabalhava com um buraco no meio do corpo de uma mulher reclinada.   Tanto em um como no outro, cabe ao leitor/observador fazer a conexão, participando ativamente do encontro.   Envolvendo-se.   O resultado sedutor, mostra um texto, que carregado de tristeza, consegue ser leve, irônico e muito, muito agradável.

Figura reclinada, década de 1980

Henry Moore ( Grã-Bretanha 1898-1976)

Litografia

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Presenciamos nesse romance a chegada de Alma, personagem principal, à segunda metade de sua vida.  Aos 44 anos, já viveu muitas vidas e mortes.  Homeopaticamente conhecemos um pouco destes eventos através de lembranças doloridas, de cicatrizes mal curadas.  Tudo é passado a limpo: as dezenas de passados, as dúzias de vidas.  Alma escrupulosamente exorciza seus fantasmas e nos lembra dos nossos.  É impossível não ter empatia.  É impossível ignorarmos a nós mesmos.  O que lhe vem à mente, chega em pequenos parágrafos, camafeus de potencialidades perdidas, nódoas de sofrimento físico e emocional do passado que ajudam a caracterizar o dia a dia de um tempo mais atual, que também presenciamos.  Estes são quase entradas em um diário, que têm, como pano de fundo, o passado.  O estilo é sucinto.  Twitter sucinto.  A cada parágrafo um tempo, uma realidade.  E sempre, sempre a angústia das vidas vividas.  O medo.  A dor.  A consciência da solidão.  

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 De grande auxílio é o formato do texto: intercala o tempo mais contemporâneo com as lembranças do passado, em diferentes parágrafos.  Cada qual tem sua própria aparência gráfica, o que facilita o entendimento da trama.  Este artifício simplifica e esclarece também um quase fluxo de consciência que nos permite conhecer Alma intimamente.   Conhecemos os eventos.  Imaginamos as emoções.

Apesar da tristeza latente, das dores auto-geradas e das auto-impostas, das frustrações e  sofrimentos dessa mulher, uma artista plástica em busca de uma identidade profissional, esse romance é repleto de otimismo, de gosto pela vida e de humor.  Oferece então, ao leitor,  uma válvula de escape e um ponto de apoio nas lutas diárias pela sobrevivência física e emocional.  Sem ser piegas, sem ser auto-ajuda essa história nos força a refletir sobre a nossa própria existência e nas ramificações dos nossos atos.  

  

Fal Azevedo

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Eu poderia continuar nesse tópico por muito tempo.  De especial ironia são as cenas e os pensamentos na galeria de arte.  Tão real…  Mas quem não gostaria de ter os amigos de Alma como amigos?  E de receber emails tão precisamente relevantes quanto ela?  Tão irônicos e concisos?  E quem não gostaria de ter como vizinho um Seu Lurdiano, que como um anjo da guarda, alimenta sua amiga com comida do corpo e da alma?  Quem não gostaria de um amigo com quem se pode ficar calado por algumas horas na mais perfeita intimidade?

Mas nenhum desses amigos, nenhum desses emails, se os tivéssemos, nada,  conseguiria dar ao leitor o prazer desse texto e os parâmetros para a auto-reflexão que esse livro consegue gerar.  Aqui fica a sincera recomendação para a leitura desse pequeno mundo mágico de Alma.  Um dos melhores livros que li em 2010 e certamente um dos mais interessantes livros que li de autor brasileiro há muito, muito tempo.  Não percam.





Papa-livros: O tigre branco de Aravind Adiga

19 04 2010

Andando de riquixá, 2003

J. Hossain

aquarela em preto e branco  — 35 x 55 cm

http://www.bengalartgallery.com

Passamos a semana em discussões sobre a possibilidade de os países do grupo BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China  — formarem um acordo para juntos negociarem com os gigantes do primeiro mundo.  Isso me lembrou que em fevereiro deste ano, o meu grupo de leitura se dedicou ao romance vencedor do prêmio Man Booker em 2008:   O tigre branco de Aravind Adiga.  Como emprestei o livro imediatamente após a leitura, com forte recomendação, retardei sua resenha por dois meses, até poder reler algumas passagens.

Esse é um romance que se esbalda no humor negro e sarcasmo.  Retratada de início ao fim  está a história de Balram Halwai, que toma para si a incumbência de explicar através de longas cartas e com muita ironia —  para o Primeiro Ministro da China, que está com visita à Índia marcada para uma data próxima — “o mundo como ele é”, na Índia.  Não é nada bonita a realidade que Balram nos passa e da qual se intitula justo representante.  Esse homem, que fez de tudo, incluindo assassinar sem empregador para poder subir na vida, se apresenta como o verdadeiro indiano, produto de um sistema social arcaico, extremamente injusto e feito mais corrupto ainda depois da ocidentalização do país através do colonialismo inglês.  Nascido nas camadas sociais mais carentes – habitando um mundo quase invisível para os dirigentes do país, um lugar a que ele chama Escuridão–  ele explica como desde o dia em que veio ao mundo estava, assim como milhões de outros exatamente como ele, predestinado ao fracasso, subordinado às máfias locais, à corrupção dos dirigentes.

O grande trunfo desse romance, seu motor, está na narrativa.  O uso da primeira pessoa permite que desde o início os leitores se identifiquem com Balram, afinal, vemos o mundo através de seus olhos e mesmo que as ações, os valores descritos se mostrem desprezíveis, seu tom, a ingenuidade, a candura com que mostra seus mais deploráveis sentimentos, no deixa presos entre a simpatia e o desprezo.   No final, a narrativa é cativante:  ela seduz pela solidariedade. Não podemos evitá-la ao contemplarmos as sórdidas condições de vida de Balram; mas é uma narrativa que nos diverte também quando sua visão simplória do mundo nos mostra um outro ângulo: aquele das necessidades da sobrevivência.  Com essa mistura de pontos de vista somos obrigados a perpetuamente reconsiderar o que sabemos, não só sobre a realidade da Índia, mas temos que checar os nossos valores morais.  Há razão para assumirmos que eles são ou devem ser universais?

A ironia é mestra nessa narrativa.  A imensa pobreza incomoda e a naturalidade com que somos obrigados a aceitá-la machuca.   Mas é uma história de vitória, de sobrevivência, em termos diferentes daqueles que estamos acostumados a considerar, a ver, a aplaudir por exemplo no cinema americano.  Somos colocados diante dos mesmos paradigmas das histórias de menino pobre que chega a mega empresário apesar de todas as dificuldades que lhes são impostas. Mas o protótipo dessas histórias não é válido para essa realidade, a história de Balram é diferente, e temos que julgá-la e julgar os nossos preceitos, os nossos preconceitos e valores, apesar de, no final, os resultados serem muito semelhantes aos que conhecemos dos heróis cinematográficos. 

Aravind Adiga

Esse é um livro para ler e pensar.  Recomendo sem restrições.  Um dos melhores livros lidos recentemente.  Não perca tempo, abra suas páginas e garanto que a  leitura será inesquecível.





Precisando de um bom livro para o seu adolescente?

28 03 2010

 
 
 
 
 
 
 

Lago de jardim, fragmento de pintura mural do Antigo Egito
18ª Dinastia, c. 1350 aC.
[Pintura mostrando um lago cheio de peixes, flores do lótus, e tilápias;  papiros crescem à sua volta, assim como palmeiras, figueiras e arbustos]. 
Museu Britânico,  Londres.

 

No início deste mês tive o prazer de ler O peixe de Amarna, de Cícero Sandroni, que vou recomendar aqui, com bastante ênfase, para aqueles que procuram alguma coisa brasileira, que interesse a leitores adolescentes.   Esta é a história de Juca, um jovem carioca, de 18 anos, pobre, que arruma seu primeiro bom emprego, com carteira assinada, trabalhando como motorista de um professor do Centro  Multidisciplinar de uma universidade.   Juca se surpreende logo, desde o início, quando percebe que a vida de motorista de professores, trabalhando com tecnologia de ponta, pode ser muito  mais arriscada do que pensava, a princípio.   Não tinha conhecimento de que havia no Brasil tanto conhecimento científico de qualidade, e queira ou não queira seu emprego se mostra mais complexo pois a técnica desenvolvida pelos professores que Juca leva e trás para diversos pontos do Rio de Janeiro, está sob a mira dos espiões industriais.

 

 

Esta é uma história cheira de peripécias, diárias,  tanto no cotidiano do trabalho desse motorista no Rio de Janeiro, quanto nas viagens a lugares que Juca nunca havia pensado em conhecer.   É por aí, com um bocado de espionagem industrial, com um bocado de briga e garra,  nesse misto de suspense, ação,  golpes de judô e disfarces que aparecem uma surpresa atrás da outra, uma ação a cada virar de página.  Juca acaba indo ao Egito como motorista, guarda-costas,  logo ele, que como todo bom carioca, poderia ter feito parte do time do Deixa-disso.  Com um linguajar atualizado, e uma maneira de escrever correta e realista,  Cícero Sandroni nos mostra Juca  desejando a todo momento que tivesse prestado mais atenção às aulas de história — em que costumava dormir — para poder entender melhor por que seus empregadores eram alvo de tanta confusão.   Nosso herói viaja.  Com ele damos uma passadinha no Louvre, em Paris, mas também vamos ao Egito.  O Egito de hoje, moderno se torna menos importante do que o outro Egito, dos faraós.  Juca viaja e nos leva com ele através da história para o Antigo Egito, de 3500 anos atrás.   Lá,  ele se familiariza com o faraó Aquenaton, marido de Nefertite, jovem famosa por sua beleza.    Aquenaton foi não só o fundador da cidade de Aquenaton, hoje Amarna, como também um faraó que lutou , com o culto de Aton, para que a civilização do Antigo Egito se tornasse monoteísta. 

 Garrafa na forma de peixe, Antigo Egito
18ª Dinastia, Reina do de Akhenateon ( c. 1390-1336 aC)
Vidro policromado, 14,5 cm
Museu Britânico, Londres

 

Cícero Sandroni consegue, com essa aventura de espionagem, não só mostrar um pouco da história do antigo Egito, como também situar com exatidão a importância das pesquisas científicas feitas no Brasil, que podem e são frequnetemente alvos de espionagem industrial e estrangeira.  Raramente vemos nos livros para adolescentes a colocação do real valor do trabalho e das pesquisas dos professores e pesquisadores universitários no país.  O livro tem a vantagem também de abrir um horizonte maior, mais versátil, de possíveis profissões, apontando para as muitas escolhas que podem ser feitas, mesmo por um jovem pobre, para uma vida repleta de excitação, aventura e conhecimento.  Escolhas que não se apoiam no tradicional triângulo do esporte, da música e do circo.  A cabeça, o pensar, o estudo aparecem como uma bela opção para uma vida cheia de aventuras.  E tem mais uma coisa importante: o texto  não  é dogmático, não dá lição de moral.  Muito, muito bom.

Cícero Sandroni

 

Cícero Augusto Ribeiro Sandroni (São Paulo, 1935)  jornalista e escritor brasileiro.  Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1946, com a família.  Formou-se em jornalismo, PUC-Rio.  Nessa profissão trabalhou para a Tribuna da Imprensa,  o Correio da Manhã e  o Jornal do Brasil.  Em  1958 foi para o jornal O Globo, e mais tarde para o Diário de Notícias. Em 1961 mudou-se para  Brasília. Em 1974 ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo.  Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

O Diabo só Chega ao Meio-dia, contos, 1985.

O Vidro no Brasil, ensaio histórico, 1989.

Austregésilo de Athayde: o Século de um Liberal, 1998.

Cosme Velho, ensaio literário sobre o bairro do Cosme Velho (Rio de Janeiro), 1999.

50 anos de O Dia, história do jornal, 2002

O peixe de Amarna, romance, 2003





Chuva dourada, de Gina B. Nahai

26 02 2010

Sócios no aprendizado, s/d

Elia Benzaquen ( Escócia, 1965)

Quando eu ainda morava nos Estados Unidos, fiz amizade com um casal judeu iraniano. Quando os conheci, a minha ignorância sobre o Irã e sua população era tão grande que não pude esconder a minha surpresa ao aprender que no Irã da época do Xá, havia uma grande comunidade judaica, a maior no Oriente Médio fora de Israel.  Naqueles anos, o  Aiatolá Khomeini já havia se cansado de requisitar a cabeça do escritor Salman Rushdie pelo livro Versos Satânicos!  Levando isso em conta, simplesmente assumi que a maioria dos judeus persas houvesse emigrado.  No entanto, para escrever a resenha do livro que acabo de ler, busquei informações na rede e me surpreendi, uma vez mais, ao  saber que ainda há uma pequena e devota comunidade judia na capital, Teerã.  A mim, parecia improvável que houvesse tolerância no mundo xiita aos judeus, principalmente no Irã, que nas últimas décadas não tem sido visto como um país particularmente aberto a opiniões que diferem do conservadorismo xiita.  Abordo esse assunto porque as famílias dos personagens centrais do livro  Chuva dourada, de Gina B. Nahai [Ediouro: 2007],  pertencem a famílias judias, residentes no Teerã, e suas histórias se passam nos anos imediatamente anteriores à revolução que depôs o Xá da Pérsia.

Este foi um romance me deixou silenciosa e pensativa.  Acabei de ler suas 332 páginas em dois dias  e passei a tarde e a noite do último dia, após fechar o último parágrafo,  tendo que considerar a potência dos preconceitos contra mulheres, que também afetam os homens.  Preconceitos  arraigados por religiões e  culturas milenares limitam, cerceiam, podam e contorcem os espíritos ricos, as mentes empreendedoras, os gritos rebeldes das almas que precisam se expressar.  De particular amargor é ver mais uma vez o retrato da discriminação contra a mulher.  Este é um assunto que me cala.  Mas ainda é difícil imaginar o rancor que mulheres como Bahar [nome que em farsi significa Primavera ], personagem principal da trama, trazem dentro de si, encobrindo como um manto todos os desejos de crescimento emocional e educacional a que aspiram e que preconceitos variados lhes tolhem, a todo momento, o simples ato de viver bem ou dignamente.  Inadvertidamente, essas mulheres, passam para suas filhas, para a próxima geração,  os mesmos traumas com que cresceram, repetindo numa cadeia infinita, as pragas de se ter uma filha mulher, a tristeza de não se ter um filho homem.  Perpetuam assim a injustiça que sofreram e da qual não conseguiram se libertar.

A história de Bahar, tenho certeza, não é única.  Nem é simplesmente um excesso da imaginação de uma iraniana que se libertou e emigrou para os EUA, como aconteceu com a autora.  Aos 17 anos Bahar encontra Omid [ cujo nome em farsi significa Esperança]. Ela é de uma família judia pobre.  Ele de uma família judia rica.  Eles se casam contra a vontade da família dele.  E o que deveria ter-se tornado um conto de amor, passa a ser uma história de abuso, de preconceito, de tortura, não dos agentes que poderíamos esperar, mas da sociedade, da cultura, do círculo familiar.  Omid logo encontra o amor de sua vida, uma mulher muçulmana, livre, amante de um outro homem.  E por sua própria inabilidade de administrar a vida, os sentimentos e o mundo em que vive, só piora a situação em casa, em seu próprio casamento.  Mais uma calamidade aflige  o casal, e principalmente Bahar, eles têm uma filha com surdez progressiva.  A já depauperada, oprimida Bahar, agora sofre duplamente, não só é mulher e teve uma única filha, também mulher, mas esta filha não preenche todos os requerimentos necessários, pois não é “perfeita”.

Chuva Dourada não é um romance leve, cheio de momentos bucólicos.  Muito pelo contrário.  É uma história triste e fascinante, de um mundo que – aqui no ocidente, numa cultura de inclusão como a nossa – parece pertencer a um tempo cravado nos primeiros séculos da Idade Média, cuja realidade custamos a acreditar co-habite com a nossa, dia a dia, ano a ano.   Muito bem narrada, a autora  não poupa ao leitor o sofrimento de Bahar e de todas as mulheres nela representadas.  Este é um romance sobre expectativas nunca alcançadas.

Gina B. Nahai

Recomendo esse livro.  Com todas as cinco estreles que me dão.  Estou emprestando meu volume a todos os amigos que gostam de boa literatura.  E também porque não posso deixar de tentar abrir os olhos, sempre que possível, para o problema da discriminação contra a mulher.  Vá ler Chuva Dourada.  Não é leve.  Mas vale todas as palavras nele escritas.

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NOTA:

Há horas em que tenho a impressão de que não há ninguém no comando das nossas editoras.  É impressionante a falta de cuidado com os livros aqui impressos.  No caso deste livro, de Gina B. Nahai a pergunta que não cala é:  Quem foi que deu a este romance o título de Chuva Dourada?  Procure pelo título na internet e verá o que qualquer pessoa com um pouco mais de conhecimento percebe:  esta é a expressão usada para  a urofilia, ou seja para a prática sexual em que a urina está envolvida.  Alguém dormiu no volante… É simplesmente inacreditável!   O título no original em inglês é Caspian Rain. Caspian se refere ao Mar Cáspio.  No romance a palavra Caspian está associada à cor do Mar Cáspio… Por que então não evitar a infeliz conotação implicada no título em português?  Ei,  onde estava o editor?  Onde estavam as cabeças pensantes da Ediouro?  O livro não chegou às livrarias com esse título sem a aprovação de alguém…





As fogueiras do rei, romance histórico de Pedro Casals

8 02 2010

O tribunal da inquisição, 1812-1814

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Museu da Real Academia de São Fernando, Madri

 

Como estudante de mestrado em história da arte participei de um seminário sobre Goya.  Foi o meu primeiro grande contato com a  cultura espanhola.  Naquela época, para trabalhar com a iconografia desse pintor, li  diversos clássicos da literatura espanhola, uma das mais ricas em textos do século XVI ao XVII, os séculos de ouro.  Mas, depois dessa época, só ultimamente tive  a oportunidade  de  rever  e de conhecer alguns clássicos daquele país.

Foi com grande prazer, então, que me entretive com o livro de espionagem de Pedro Casals, intitulado As fogueiras do rei, [Record: 1990].  Apesar de ter sido publicado há vinte anos é um livro que, por ser um romance histórico, não perdeu a atualidade.  Ao que eu saiba, é o único romance do escritor publicado no Brasil, ainda que com o livro La Jerenguilla Casals tenha sido finalista para o prêmio Planeta de 1986 e em 1989 com este  romance aqui discutido.  Em 1992 ganhou o prêmio Ateneu de Sevilha, com o livro: El infante de la noche.

 

As fogueiras do rei  não é só um romance histórico, mas um romance de intriga palaciana, numa época crucial da cultura espanhola.  Uma época importante, simultaneamente para a Inglaterra,  Portugal e até mesmo o Brasil, porque além de tratar da Inquisição, retrata também o período anterior à invasão holandesa no Brasil, ou seja anterior à coroa de Portugal passar para as mãos espanholas.  Desse modo podemos entender com maior clareza  a interdependência dos países europeus, através das ligações matrimoniais  entre diversas famílias reais.  A história se passa no final do século XVI durante o reinado de Felipe II (1527-1598).

Princesa de Éboli, desconheço a autoria.

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Sinceramente, eu não sabia muito a respeito de Felipe II.  Lembrava-me de um retrato dele feito por Ticiano. [Essa é uma das falhas do historiador da arte, às vezes só conhecemos a história por causa das pinturas de época]!   Mas, corrigindo qualquer falha anterior, aprendi, com esse romance um pouco mais sobre Felipe II.  Familiarizei-me com sua vida, suas preocupações e suas conquistas amorosas.   E, principalmente, com a Princesa de Éboli, Doña Ana Mendoza y de La Cerda, uma das grandes aventuras amorosas do rei, que deve ter sido uma mulher fascinante: mesmo tendo tido um ferimento no olhos direito e obrigada a usar uma venda ,  Ana de Mendoza era de uma beleza a que poucos podiam resistir.  Teve dez filhos e uma enormidade de amantes.  É verdade, que para ajudá-la havia muito poder e grande fortuna já que era a  única herdeira de uma poderosa casa nobre da Espanha   E ela é uma das  personagens centrais na trama que se desenrola em As fogueiras do rei.

Felipe II da Espanha e de Portugal,  c. 1550

Ticiano  Vecellio, dito Ticiano  (Itália, c. 1490-1576)

Óleo sobre tela, 185 x 103 cm

Sala da Ilíada,  Palácio Pitti,  Florença

Um auto da fé é a cena em torno da qual a história se desenrola.  Assistindo às punições dos hereges,  está um grupo de especialistas em espionagem e contra-espionagem representando diversos interesses da política interna e externa do reinado.  O leitor acompanha as intrigas e  tentativas mais variadas para a subida ao poder desde a coroa da Inglaterra,  ao meio-irmão de Felipe II, filho bastardo de Carlos V,  D. João da Áustria.  Mas mais interessante ainda do que essa intriga palaciana é o entendimento com que saímos, após a leitura do livro, não só dos judeu-portugueses, dos marranos, dos cristão-novos, mas  suas preocupações e meios de sobrevivência.  E acima de tudo, nos enfronhamos na Inquisição na Espanha para desvendar que ela não foi só uma maneira de estabelecer  o domínio da Igreja Católica contra a religião muçulmano, ou contra os judeus, mas foi, também, uma maneira de evitar o crescimento dos ensinamentos de Lutero, que ameaçavam  tornarem-se populares.  Além disso, fica claro o modo da Inquisição, com suas práticas subjetivas,  deter a subida da burguesia,  um interesse da realeza que o Vaticano protegia das ameaças que a nobreza considerava perigosas, nos exemplos vindos dos Países Baixos, onde a burguesia subia e tomava conta do poder.  Essa  era a preocupação da nobreza, era um futuro, que sem os ensinamentos da Igreja Católica,  poderia vir a acontecer e derrubar o poder das grandes casas nobiliárquicas, mesmo que, na Península Ibérica, estas tivessem muito sangue judeu.

Pedro Casals

Curioso, também,  foi saber que apesar de haver muitos hábitos e costumes considerados desrespeitosos à Igreja,  esses mesmos costumes eram praticados pela realeza e pela classe dominante: astrologia, leituras dos textos de Erasmo,  simpatias as mais diversas oriundas de crendices ligadas às bruxarias.   E aos poucos podemos fazer uma pequena lista das obras impressas, que preenchiam os gabinetes de leitura da nobreza e que eram proibidas pela Santa Inquisição, só para perceber que elas incluem os grandes clássicos da literatura não só espanhola como da portuguesa:  Amadis de Gaula, Palmerim de Inglaterra, Obras de Teresa d’Ávila, Lazarillo de Tormes, A Celestina: tragicomédia de Calixto e Malibeia,  Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, e assim por diante.

Mais do que um romance de espionagem, As fogueiras do rei é um excelente romance histórico, que leva o leitor a considerar os acontecimentos do século XVI na Espanha sob um novo olhar, um olhar de dentro.   Quem está à procura de um romance que vai além de uma mera distração,  um romance que enriquece o leitor com os detalhes históricos coletados, Pedro Casals oferece bastante conteúdo para um aprendizado rápido e compreensivo.





Papa-livros: A pesca do salmão no Iêmen, de Paul Torday

12 01 2010

 

A pesca do Salmão no Dee

Joseph Farquharson (Escócia 1846-1935)

óleo sobre tela

Quem anda à procura de um romance leve, muito diferente e com um bom senso de humor não deve deixar de ler A Pesca do Salmão no Iêmen do escritor inglês Paul Torday [Record:2008].    O mínimo que posso dizer é que este romance é muito original.  A começar pela forma com que a história é contada.  Lembra, em muitos aspectos, os romances epistolares, pois é feito de cartas, e-mails, páginas de diário, relatórios da Câmara dos Deputados na Inglaterra (House of Commons), programas de entrevistas, até emails relacionados a Al Qaeda fazem parte dessa “pilha” de documentação que conta a história.  Cada capítulo traz à tona uma nova faceta do desenvolvimento de um projeto ambicioso, imaginado por um xeique iemenita, de trazer a cultura do salmão para o seu país a fim de propiciar aos seus habitantes o esporte a que ele se dedicava em sua propriedade na Escócia: a pesca do salmão.  A engenharia social que atrai o abastado xeique seria proporcionar ao Iêmen uma das únicas atividades em que todos, de quaisquer classes sociais, poderiam participar de igual para igual, lado a lado à beira do rio.

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Este é um livro construído como uma sátira aos governos,  a toda a burocracia governamental, que aqui aparece retratada na Inglaterra, mas que com pequenos ajustes é universalmente insana.    O projeto de se fazer a pesca do salmão – um peixe de água doce muito fria–  no Iêmen, um país no deserto é considerado desde o primeiro capítulo como uma loucura, um projeto sem pé nem cabeça.  Mas, por razões diversas e principalmente para favorecer ao primeiro-ministro, este projeto começa a crescer e toma vida própria.  Não só cresce como se torna um projeto imprescindível para o governo inglês.  E ganha mais combustível ainda depois que Alfred Jones, nosso herói, um cientista do Departamento de Pesca do governo, contrário ao projeto, vê-se frente a frente e seduzido pela filosofia do xeique em questão.   O resultado é imprevisível.

 

 

Nesse meio tempo, entre “provas” escritas – emails, diários, cartas, entrevistas – temos uma das mais divertidas narrativas que ironizam e satirizam a vida contemporânea, os casamentos de conveniência, o discurso político.  O que nos resta, por incrível que pareça, é uma mensagem sóbria, gratificante: a esperança é imprescindível para nos dar direção a nossas vidas.  A gente vive, sonha e faz planos, os mais diversos.  Mas mesmo que o que planejamos não venha a se concretizar, aquela esperança que nos ajudou a tentar construí-lo já é o suficiente para dar sentido à nossa vida.    Por trás disso há uma diferença importante entre dois conceitos e quem nos ensina é o xeique:  há religião e espiritualidade.  Ás vezes elas se misturam, às vezes não.    Mas a espiritualidade, quando somos íntimos dela, pode ser encontrada nos recantos mais exóticos, onde jamais esperaríamos encontrá-la.  E é ela quem nos salva. 

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Recomendo a leitura de A pesca do salmão no Iêmen.  Principalmente se você anda desiludido com os seus políticos, com a falência dos seus sonhos.  Há muito material aqui, para dar uma outra vida ao cotidiano, para ver um problema por um outro ângulo.    Achei que esse romance perde um pouco o ritmo no meio das suas 360 páginas.  Mas devo alertar o meu leitor que esta pode ser uma observação só minha.  Ultimamente tenho tido a impressão que na maioria dos romances que leio p texto poderia ter sido cortado, editado, para melhoria do ritmo da narrativa.  Talvez seja um problema meu e não do autor neste caso.  Fica de qualquer maneira, aqui, a minha forte recomendação a esta divertida leitura.