Resenha: “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

15 05 2016

 

 

David PadwornySem título

David Padworny (EUA, contemporâneo)

 

 

 

É bem apropriado que agora na segunda década do século XXI quando a Colômbia já está equilibrada na guerra ao narcotráfico, que obras literárias, filmes e séries televisivas surjam dando a seus leitores uma melhor ideia do mundo de  Pablo Escobar e seus companheiros.  A grande surpresa é que O ruído das coisas ao cair, conta a história situada nos anos 70 do século passado, mas sem muita violência. O enredo é simples, Antonio Yammara, professor universitário faz conhecimento no salão de bilhar com Ricardo Laverde que acabou de sair da prisão.  Têm uma ou outra conversa, mas não chegam a ser próximos. Um dia, quando a amizade começava a se desenvolver, quando os dois andam na rua, Ricardo é assassinado, sem razão aparente. Antonio, ao seu lado, também é vítima de um tiro, é hospitalizado e leva muito tempo para se recuperar física e emocionalmente.  Nesse processo, de alguns anos, resolve descobrir as razões para Ricardo Laverde ter sido alvo dos assassinos.

O processo da descoberta é lento e tortuoso. E o leitor acompanha passo a passo e só consegue segui-lo graças à voz narrativa de Juan Gabriel Vásquez que se destaca como um bom contador de histórias, à maneira dos clássicos do século XIX, que pausada e detalhadamente volta duas gerações na narrativa.

 

 

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Na tradição das narrativas de causos voltamos aos avós de Ricardo Laverde, seus pais, sua esposa e filha, que, inacreditavelmente também se encontra numa procura semelhante à de Antonio, pois precisa descobrir detalhes da vida de seu pai.  Há grande mérito na habilidade de escrita de Vásquez, pois sem ela, a história poderia se perder na sequência de evento após evento.  A fascinação de Antonio Yammara pelo parceiro de bilhar não me pareceu forte o suficiente para justificar praticamente o livro inteiro de procura sobre mais detalhes; mesmo tendo ele sofrido um tiro que lhe abalou a saúde.  Faltava um comprometimento emocional maior do professor universitário em relação ao companheiro de jogo, para justificar a caça aos fatos, ainda que Antonio Yammara pareça mesmo uma pessoa distante, sem grande habilidade de conexão emocional, como mostra sua relação com Aura e Letícia, sua mulher e filha.

 

juan gabriel vásquezJuan Gabriel Vásquez

 

Eu gostaria de ter tido maior simpatia pelos personagens com quem passei essas horas de leitura.  Mas nenhum deles, nem do núcleo do professor quanto do núcleo de Ricardo Laverde foram capazes de aprisionar meus sentimentos.  A linguagem de Vásquez é bastante refinada e há momentos de grande  beleza, principalmente nas descrições da natureza colombiana. É um livro de leitura rápida e de temática muito interessante.  Ótimo enfoque.  Mas ele me deixou fria.

 

 





Resenha, “Isso também vai passar” de Milena Busquets

6 05 2016

 

 

andré derain landscape-at-cadaques, 1913, ostPaisagem de Cadaqués, 1913

André Derain (França, 1880-1954)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

 

Sempre admirei a capacidade dos escritores ingleses de escrever histórias de muito interesse nem sempre repletas de dramas, de questões filosóficas, mas centradas em ações enraizadas no dia a dia, que refletem as pequenas frustrações cotidianas e dão uma sensação de satisfação ao leitor que se reconhece, que entende o drama emocional contido numa indecisão, num gaguejar, na dúvida excruciante.  Os britânicos são mestres da insinuação, das reticências carregadas de emoção ou frustração. Essa maneira de retratar os pequenos dramas diários humaniza os personagens. Parte-se do pequeno gesto para se encontrar a verdade universal.

A escritora catalã Milena Busquets dedica-se também à literatura “do nada”, ao relatar do corriqueiro aparentemente sem propósito ou sem pertinência na vida de Blanca personagem principal de Isso também passará, que se encontra no processo de luto por sua mãe recentemente falecida.  Vamos com ela à cidade praiana de Cadaqués, acompanhados de suas amigas, das crianças, dos dois ex-maridos e do amante. Conhecemos o cachorro do passado. Memorizamos os nomes de uma enormidade de personagens que a rodeia. Todos bebem, fumam, namoram, flertam, dormem mostrando um comportamento de grupo semelhante ao de adolescentes tardios, ainda que estejam aproximadamente na quarta década de suas vidas.

 

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Milena Busquets tenta trazer para a ficção a difícil arte de Woody Allen no cinema, como uma citação na própria capa do livro rotula. Mas Blanca se diferencia das personagens de Allen  porque não parece nem complexa nem particularmente inteligente. E não tem nada a dizer.  Ao contrário, demonstra não ter pleno desenvolvimento psicológico.  Enquanto a acompanhamos em seu processo de luto somos convidados a testemunhar os não-eventos de sua vida, num interminável rosário do corriqueiro. Mas para quê?  O que ela ou nós leitores retiramos dessa festa de detalhes?

O livro que chegou ao Brasil repleto de boas apresentações: “Melhor Livro de 2015” de acordo com o jornal espanhol La Vanguardia; “Comovente…o retrato de uma geração” diz o jornal francês Le Monde —, desaponta. As credenciais da autora no mundo editorial talvez tenham ajudado na tradução de sua primeira obra de ficção para 32 línguas.  Mas por mais que tente Milena Busquets não chega a amadurecer a personagem principal.  Perde-se o fio condutor, o eixo emocional, que leve Blanca a encontrar a verdade anunciada no título da obra.

 

milena busquetsMilena Busquets

 

Cada um de nós lida com a perda de um ente querido de maneira diferente. Blanca aos quarenta anos, ainda não amadureceu emocionalmente. Procura e encontra no sexo seu único momento de alívio pela perda emocional. Não é lá que irá encontrar o abrigo para sua alma ferida.  Falta a Blanca um mínimo de reflexão, uma pequena luz que a leve à descoberta de si mesma, algo que também permita o leitor a ter interesse sobre seu destino; que faça com que ele se interesse pelo futuro: chegará Blanca ao outro lado da crise ou será absorvida por ela?  O dito “isso também passará” não proporciona uma resolução satisfatória.

Pena que haja quem descreva a personagem e suas falhas como características de uma geração.  Pois esse é o retrato do vazio do lugar comum. A geração nascida há quarenta anos merece uma caracterização mais rica e complexa. A obra deixa a desejar. Não recomendo.





Resenha de “Euforia” de Lily King

2 05 2016

 

 

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Sydney Parkinson, (GB, 1745-1771)

gravura

 

 

Considerado o livro do ano em 2014 tanto pela crítica inglesa quanto pela americana fui com sede ao pote de Euforia, livro de Lily King, lançado no Brasil no início deste ano.  O romance histórico baseado na vida da antropóloga americana Margaret Mead, durante a década de 1930, cobre suas aventuras no sudeste asiático, quando acompanhada de seu segundo marido Reo Fortune,[ Schyler Fenwick, no livro], um antropólogo natural da Nova Zelândia, vem a conhecer aquele que se tornará seu terceiro marido, Gregory Bateson [Andrew Bankson, no livro].

Margaret Mead foi muito mais do que uma revolucionária no estudo da antropologia, tornou-se também um ícone do movimento feminista por ter advogado a liberação sexual, depois de publicar o livro Coming of Age in Samoa em 1928. Talvez tenha sido por essa aura de importância, pela fama de rebelde, iconoclasta, por ter quebrado tabus sociais e culturais no ocidente com ideias adquiridas na observação de povos primitivos; por ter sido defensora da observação in loco; por ter tido três casamentos; por ter ensinado antropologia na Universidade de Columbia; ter sido conservadora do American Museum of Natural History; por ter recebido, ainda que postumamente, a “Presidential Medal to Freedom”, a mais alta honraria dada pelos Estado Unidos, que a vida de Margaret Mead, romanceada tenha sido tão elogiada pela crítica e pelo público.  Talvez tenha sido o público, sempre curioso pela dedicação romântica, apaixonada, renovadora da antropóloga, que levou esse livro  a ser tão bem considerado. Essa é a justificativa que encontro para o sucesso extraordinário deste romance histórico e para os elogios abundantes dos dois lados do Atlântico.

 

 

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Em visita a um museu não apreciamos o retrato de uma pessoa famosa pelo que ela fez. É a arte do pintor ao retratá-la que nos fascina.  Não fosse isso, nenhum de nós atravessaria meio mundo para observar por alguns minutos o retrato da Mona Lisa, por exemplo, cuja vida particular nos é tão pouco conhecida. É a habilidade de Leonardo da Vinci que nos leva ao Louvre.  São suas pinceladas, sua técnica que nos fascinam ao contemplar La Gioconda. O mesmo não acontece com Euforia. Margaret Mead, sua vida e sua paixão são o que nos atrai. Não foi a arte literária de Lily King, a narrativa excepcional.

Euforia trata do início da paixão entre Nell Stone e o antropólogo inglês Andrew Bankson. Inicialmente a atração dele por ela é intelectual. Mesmerizado pela maneira de pensar, pela dedicação, pelos métodos de pesquisa de Nell Stone, Andrew a aprecia prontamente. É sua mente que o atrai primeiro. Depois sua liberdade, sua franqueza, sua essência americana.

“Seus olhos queimavam dentro dos meus quando eu tinha uma ideia de que ela gostava. Seguia cada palavra que eu dizia; voltava a elas mais tarde. Quando escrevi o nome de Martin no gráfico, ela passou o dedo sobre as letras. Eu sentia que em alguns aspectos tínhamos feito alguma espécie de sexo, sexo mental, sexo de ideias, sexo de palavras, enquanto Fen dormia…” [183-4]

 

 

kinglilynotebooksfwLily King

 

 

Euforia não é uma biografia.  Tampouco é uma obra literária de peso.  Trata-se de um romance tradicional, que conta as circunstâncias e o desenvolvimento do mais longo relacionamento de Margaret Mead, 14 anos: seu casamento com Gregory Bateson. É uma ficção histórica. Leve.  Uma obra que nos dá em grandes pinceladas uma ideia do que pode ter sido a vida desses antropólogos trabalhando no início do século XX, estudiosos que mudaram o rumo do estudo do homem, de seu ambiente e sua cultura.  Tem um ar de aventura, sem a excitação de As minas do rei Salomão, de Henry Rider Haggard, por exemplo. E talvez seja essa a minha grande crítica: o livro nem é bem uma biografia, nem um livro de aventuras que deixem o coração palpitando.  Não é uma obra que prime pela qualidade literária, sua escrita é corriqueira.  É morno. Nem isso, nem aquilo. É uma leitura que entretém, rápida. Algo para uma tarde de verão, para um dia de férias.





Resenha: “O pescoço da girafa” de Judith Schalansky

27 04 2016

 

 

GrandvillefullAs metamorfoses do dia, 1829, ilustração de Grandville.

 

 

No livro “Jokes and their relation to the unconscious”, Sigmund Freud explana sua teoria do humor como expressão do sublime. Sublime neste contexto tem o sentido de assombroso, supramundano, semelhante ao seu sentido na literatura gótica da virada do século XVIII para o XIX.  Os surrealistas, quase cem anos atrás, usaram o conhecimento das teorias de Freud para justificar o que se convencionou chamar humor negro: a porta de entrada para o inconsciente. Um estudo sobre o surrealismo por Anna Balakian mostra que o humor negro era um canal para retratar uma realidade ou uma crise incompreensível.  E é justamente assim, através de um humor de justaposições irracionais e de gosto duvidoso, que somos apresentados à realidade de Inge Lohmark, professora de biologia no Colégio Charles Darwin, na antiga Alemanha Oriental.

Inicialmente nos dobramos de rir ao perceber as comparações que Frau Lohmark faz entre o mundo animal e o comportamento de seus alunos.  Baseando-se na teoria da evolução de Darwin, Inge Lohmark cativa a atenção do leitor, por explicar de modo claro, como o comportamento das crianças na sala de aula espelha aquele dos animais na eterna busca pela sobrevivência do mais forte.  Aos poucos, no entanto, começamos a perceber o desequilíbrio emocional da mestra.  A mudança é sutil.  Só quando o leitor já se vê cansado das teorias de Lohmark sobre o mundo, ele percebe, de repente, que entrou no fluxo de pensamento dela, como se testemunhasse a escrita automática que André Breton e seus cúmplices do movimento surrealista advogavam.

 

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O humor era entendido pelos surrealistas como uma crítica implícita aos mecanismos mentais convencionais. O conhecimento da obra de Freud lhes deu o ponto de partida para explorar o humor negro, ignorando a lógica como uma maneira de pensar, a fim de recuperar a verdade encontrada na percepção sensorial.  Este parece ser mais ou menos o caminho escolhido por Judith Schalansky para levar avante esta obra da qual qualquer escritor que tivesse assinado o Manifesto Surrealista de 1924 se sentiria justificado. Humor, ironia, chiste são os recursos usados para que o véu que esconde a verdadeira natureza da professora de biologia seja levantado. E o que se encontra, pode não ser tão bonito assim.

Inge Lohmark é uma professora idosa, amarga, infeliz, que passa a narrativa ruminando sobre o sistema escolar na antiga Alemanha Oriental, lugar onde havia nascido, crescido e estudado.  Suas ruminações são por vezes hilárias.  Mas as mudanças vindas com a unificação do país se mostram difíceis de abraçar no âmbito profissional, político e pessoal.  Sua interpretação baseada na sobrevivência das espécies que explica quase tudo à sua volta é inicialmente  interessante, por ser inesperada,  mas logo se torna cansativa.  À medida que vislumbramos a solidão e amargura da professora, à medida que ela parece mais humana, a narrativa perde a força, ainda que se possa ver com maior claridade a inépcia de Frau Lohmark em se adaptar às mudanças que a vida requer.  E o argumento, a crítica mordaz desencadeada pelas observações da mestra, perde força e claridade com o desenrolar da trama.

 

Judith Schalansky1Judith Schalansky

 

Tenho a impressão de essa obra, essa crítica ao sistema escolar e ao ensino na Alemanha Oriental, pode ser repassada para outras escolas e sistemas de ensino em países diversos, mas não consigo deixar de sentir que esta narrativa é mais significativa para os alemães e talvez para alguns europeus.  Há muito que se perde na mudança de uma cultura para a outra. É uma obra que qualquer escritor surrealista estaria feliz em ter assinado.

É um livro difícil de recomendar. Pode-se entender seu objetivo.  Mas duvido da qualidade de sua mensagem para um público estrangeiro.





Resenha: Bonita Avenue, de Peter Buwalda

21 04 2016

 

 

photoLigações Perigosas, 1935

René Magritte (Bélgica, 1898-1967)

óleo sobre tela

LACMA, Los Angeles County Art Museum

 

 

 

Siem Sigerius é um grande matemático especializado na teoria dos nós e reitor de uma universidade holandesa.  É também um dos narradores de Bonita Avenue, assim como seu principal personagem.  Ainda que ele divida com Joni, sua enteada e Aaron o namorado dela a apresentação ao leitor dos eventos que levaram ao colapso da família, é seu o papel principal dessa obra.

Diz a teoria dos nós que : “O artesão que faz uma trança, uma rede, ou alguns nós estará preocupado, não com questões de medidas, mas com aquelas de posição: o que ele vê ali é a maneira na qual os fios estão entrelaçados”. [Wikipédia] Como um bom entendedor de nós, e de seus emaranhados, Siem, na segunda metade da obra quando começa a perceber a teia em que ele se encontrava, começa a desatar um a um os nós que estruturavam as relações familiares.  Até o momento em que precisa ele mesmo desaparecer.  Desse ponto de vista seu suicídio é previsível.  E para os que acham que posso estar revelando segredos, acalmem-se: o suicídio é contado logo no início do livro.  Pois não só a narrativa é baseada em três vozes, como ela é apresentada no presente e no passado sem qualquer ordem que possa ser detectada pelo leitor.

 

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Bonita Avenue não é para o leitor de coração fraco, ou do que gosta de uma narrativa linear.  Nem é para o leitor que deseja simplesmente se divertir.  Temos que trabalhar o cérebro para seguir essa trama espetacular, confusa, estranha e, sobretudo questionadora dos comportamentos modernos, pós-internet.  No coração dessas questões está o hábito do consumo de pornografia na rede, assim como a questão curiosa sobre a imagem das mulheres e homens que se expõem em sites pornográficos: são ou não profissionais da prostituição?  Os atores pornográficos são exibicionistas? E suas identidades podem de fato se manter desconhecidas?  A identidade na rede é uma das questões levantadas nessa obra abrangente sobre a vida moderna.

A história circula em volta da família Sigerius entre os anos de 1980 e 2000. É uma família moderna. Segundo casamento de ambas as partes com filhos dos compromissos anteriores. Também é uma família disfuncional. Seus personagens são fascinantes e incluem além do matemático conhecido mundialmente, um fotógrafo, uma marcineira e uma  atriz pornô.  Há referências ao judô, a doenças mentais e sobretudo à indústria pornográfica na internet.  A família não é feliz.  A época em que foi mais feliz se resume aos anos passados na Califórnia, em Berkeley, num endereço na Bonita Avenue.

 

Peter BuwaldaPeter Buwalda

 

Peter Buwalda tem uma maneira singular de narrar.  Paga seus tributos à literatura do século XIX dando-se ao trabalho de apresentar personagem por personagem logo no início da obra.  Mas são poucos. Isso contribui para a sensação de claustrofobia, e também para dar a impressão de que o enredo não progride.  O que lembra de novo as obras do século XIX, em particular a afirmação da escritora inglesa Geoge Eliot em relação à linha do tempo de uma obra:  “O melhor fogo não é o que se acende mais rapidamente.” Buwalda toma seu tempo e diferente da literatura mais tradicional apresenta seus personagens com viés:  todos parecem caracterizados pelos seus piores aspectos, como se os víssemos só pelo lado B de suas personalidades. Outro artifício é a apresentação de um enredo simples centrado na família, mas contado com tantas interferências de fatos irrelevantes, anedotas, histórias paralelas que parece chegar ao essencial paulatinamente, comendo pelas beiradas.

Uma história espetacular, em que personagens fora da norma nos convidam a reflexões nem sempre fáceis. É violenta. Ocasionalmente bastante gráfica, inclusive na pornografia.  Mas não é para qualquer um. Você precisa gostar de uma história apresentada de maneira complexa, não linear e com final em aberto.  Fora isso, magistral.





Resenha: “Memórias de um casamento” de Louis Begley

3 04 2016

 

Konstantin Razumov (Russia,1974)Elégante sur la terrasse, ost, 33 x 22 cmElegante no terraço

Konstantin Razumov (Rússia, 1974)

óleo sobre tela, 33 x 22 cm

 

 

Na capa de trás da edição brasileira de Memórias de uma casamento, somos  informados de que aqui encontraremos “um olhar profundo sobre uma classe e seus privilégios, numa trama que se desenvolve entre Paris e Nova York, Long Island e Newport”. Coroando essa apresentação, como que para justificá-la temos uma citação atribuída ao Washington Post: “Entre os escritores contemporâneos, Begley talvez seja o crítico mais sagaz e devastador do sistema de classes da sociedade americana”.  Nada mais ilusório.  Ainda que os personagens dessa narrativa sejam pessoas da classe social mais alta nos EUA, o foco está no retrato de uma mulher, complexa, vazia, intolerante, fútil, provavelmente ninfomaníaca, certamente  desequilibrada emocionalmente.  Como ela, existem centenas de outras em qualquer classe social. Ela causa danos a qualquer grupo familiar. Não importa, na verdade, onde nasceu, em que família, com quem casou.  Tipos como o dela não precisam ser da mais alta sociedade.  Eles existem em todo canto.

 

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Louis Begley é fiel a dois de seus predecessores: Henry James, grande mestre da literatura americana de final de século, também produziu, como mandava o seu tempo, romances  retratando tipos de mulher: Portrait of a Lady; Daisy Miller vêm à mente;  enquanto  Louis Auchincloss, já em pleno século XX,  também se esmerou nesse gênero como o fez em Sybil, The Dark Lady e outros. No Brasil, deste autor, encontramos em tradução:  A infinita variedade dessa mulher mais um de seus perfis de mulher.  Curiosamente, ambos Henry James e Louis Auchincloss se especializaram nos retratos de mulheres das classes sociais mais altas dos EUA.  No Brasil, a tradição literária dos perfis de mulher,  não se limita às classes mais altas, mas, como nos EUA, começa no século XIX, com Machado de Assis [Helena] e sobretudo com José de Alencar [Senhora, Diva, Lucíola, entre outros].

 

louis begleyLouis Begley

 

Ficam por aí as comparações. Ainda que a prosa de Louis Begley  seja agradável e os olhos corram sem obstáculos pelo texto, a apresentação da personagem principal Lucy De Bourgh, herdeira de mais de uma família importante da Nova Inglaterra,formada por pessoas  vindas no Mayflower e no Arabella, portanto entre os primeiros a chegar no continente americano, é monótona. Não há diálogos nestas 194 páginas. Há monólogos  de Lucy, de Jane.  Há cartas.  Em suma, falta dinamismo no texto. Temos diversos relatos, por diferentes pessoas. Contudo o texto flui.  Não só por habilidade do autor, mas também pela malévola e mórbida curiosidade despertada no leitor para saber sobre os detalhes, tintim por tintim, do malfadado casamento, onde o respeito pelo próximo é inexistente.

Tivesse Louis Begley usado de outros meios para narrar talvez pudesse ter despertado maior interesse nesta leitora.  Como está, trata-se de uma obra um tanto medíocre se comparada às suas anteriores, principalmente Sobre Schmidt e Schmidt Recua.





Resenha: “O Rouxinol”, de Kristin Hannah

19 03 2016

 

 

Corporal Elspeth Henderson and Sergeant Helen Turner, 1941 by Laura KnightCabo Elspeth Henderson e Sargento Helen Turner, 1941

Laura Knight (G.B. 1877-1979)

óleo sobre tela, 125 x 95 cm

Royal United Services Institute

 

 

O Rouxinol, de Kristin Hannah é um livro de leitura rápida, com uma história que engaja o leitor. O livro perfeito para a semana da Páscoa, para um feriado prolongado. Explora a Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. É um quase thriller, com uma boa dose de sentimentalidade, o que agradará aos corações românticos. Além disso, tem uma característica rara dos livros dos meus anos formativos, mas que nesse século se tornou comum: mulheres fortes que por temperamento ou por necessidade desempenham papeis importantes em situações de extremo perigo.

Muito se tem escrito sobre a Segunda Guerra. A enormidade do agravo que dominou a humanidade por anos seguidos no século passado, afetando muitos países dentro e fora da Europa, diversas etnias, religiões, minorias e acima de tudo demonstrando o que há de pior no ser humano, não pode deixar de ser escrito, descrito, relembrado, analisado, esmiuçado, quer por historiadores, quer pelos descendentes daqueles que foram perseguidos e assassinados, por poetas, escritores, artistas sob pena de um dia ainda encontrarmos monstros capazes de repetir a dose. É item obrigatório na consciência humana.

O livro de Kristin Hannah situado na França sob domínio alemão traz à tona alguns aspectos nem sempre mostrados nas obras sobre a guerra. O papel essencial da mulher na luta de todos é um desses tópicos. Boa parte do movimento feminista da década de 1960-70 teve raízes na guerra. Com os homens indo para o front, restou às mulheres o trabalho que anteriormente havia sido designado como “trabalho de homem”. Elas descobriram que podiam fazer aquilo que antes pertencia exclusivamente ao mundo masculino. Isso aconteceu não só nos países europeus, mas em todos os países envolvidos no conflito. No total cerca de 1 bilhão e 900 milhões de pessoas se envolveram na guerra, dos quais estima-se que 72 milhões morreram. E em todos os países envolvidos, quer entre os Aliados ou entre os países do Eixo, quer no Oriente, na Austrália ou no Brasil, a mulher adquiriu postos de trabalho originalmente delegados aos homens.

 

 

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Na França do governo Vichy (França ocupada) formou-se um movimento de resistência ao domínio alemão, formado por pessoas comuns que em um circuito secreto passavam informações, liberavam prisioneiros, protegiam perseguidos, salvavam vidas e lutavam de maneira secreta, correndo risco de vida diariamente, na maioria das vezes sem o uso de armas. Historiadores ainda estão se debruçando sobre os dados desse movimento oculto. Suspeita-se que não tenha sido tão difundido quanto a imaginação dos sobreviventes da guerra o faz. No entanto, o movimento existiu e seus membros correram riscos verdadeiros, diários e muitos foram assassinados pelas tropas alemãs, quando descobertos. Nessa guerra oculta, onde o segredo, as relações de amizade, família e confiança se mostraram essenciais, as mulheres se sobressaíram. A Resistência Francesa não teria tido o sucesso que teve sem a contribuição das mulheres. Kristin Hannah mostra muito bem como isso aconteceu e explora ainda mais intensamente como as mulheres acabavam se envolvendo nesse contexto de guerra, fora dos parâmetros conhecidos do embate. Ela explora o assunto dedicando-se às duas irmãs que retrata, Isabelle e Vianne Rossignol. Duas irmãs, de diferentes personalidades, idades, com maneiras diversas de encarar a vida, que na guerra da França sob a governança de Philippe Pétain e Pierre Laval, se mostram igualmente lutadoras e corajosas, ainda que cada qual se aproxime dessa decisão por diferentes meios. Mas vale lembrar que todos os que lutaram na Resistência precisaram de uma enorme coragem moral e resistência física, quer elas sejam requeridas nos meios escolhidos por Isabelle, quer naqueles encontrados por Vianne.

A rebelde Isabelle se vê desde os dezenove anos envolvida na Resistência, travando batalhas pessoais, salvando vidas. Vianne é muito mais insegura, com uma filha para cuidar e o marido na guerra, acha-se em situação precária depois que soldados alemães ocupam sua casa. Cada qual enfrenta seus próprios demônios, quase todos originários de um relacionamento insatisfatório com o pai e ausência da mãe falecida. Vianne representa um lado dessa guerra que também é pouco explorado na literatura: o papel do colaborador. A pergunta que não cala: qual é o ponto de virada num ser humano, quando ele deixa de lado valores tradicionais como honra e lealdade e passa a ser um colaborador com o inimigo.

 

kristin-hannah4Kristin Hannah

 

Philippe Pétain que havia sido um herói nacional da França durante a Primeira Guerra Mundial justificou sua subserviência ao regime nazista dizendo que menos franceses morreriam nessas circunstâncias. Errou. Auxiliado por Pierre Laval ambos fizeram um grande mal ao cidadãos franceses. A questão dos colaboradores e dos resistentes tem ocupado um bom número de estudiosos. Rab Burnet com seu livro Under the Shadow of the Swastika: the moral dilemmas of Resistance and Collaboration in Hitler’s Europe, talvez seja o mais recente estudo do fenômeno. Mas Michael Gross, Idith Zaital e outros têm-se dedicado ao tema. A vida de Vianne se desenrola no início fazendo um paralelo à política nacional de Pétain. Quando Laval coordena a deportação de judeus nascidos fora do território francês, encorajando a deportação de crianças, as coisas começam a mudar para Vianne. Esses atos repercutem diretamente em sua vida, porque ela vê sua melhor amiga Rachel levada pelos nazistas, com um dedo de sua própria e até então inocente colaboração. Kristin Hannah não chega a explorar o dilema moral de Vianne. Passa por cima. Perde uma boa oportunidade de transformar a personagem em elemento mais rico e complexo. A contaminação moral, causada pelas execuções em massa, pela tortura, deportações, pelos trabalhos forçados é fato conhecido. Essas ações criaram desconfiança e subverteram a confiança cultural coletiva dos franceses. Colaboradores em geral não se apresentavam voluntariamente, mas o faziam como consequência de coerção. O dilema de Vianne, que tinha um membro do exercito nazista em sua própria casa, e sua melhor amiga, uma judia na casa ao lado, poderia ter sido mais bem explorado.

E é justamente por essa escolha, digamos assim, mais popular, mais democrática no entendimento, que O Rouxinol não recebe todo o meu apoio. Não me surpreenderia ver esse livro rapidamente transformado em um filme. Há elementos que traem essa intenção. No início, quando a bela cidadezinha francesa é descrita, bucólica com gerânios nas janelas em vasos de barro, tive a sensação de estar num mundo perfeito demais, próprio para um set Hollywoodiano. Depois vem a hipérbole narrativa. Os sofrimentos são enormes, as alegrias também, os amores profundos. O ressentimento de ambas as irmãs com o pai é extremo e duvido muito que na época, nos anos 30-40 do século passado tenham sido tão fora do comum quanto nos parece hoje. A educação era diferente. Era mais dura, menos dada às emoções enunciadas hoje pela cultura popular. Há também o mito romântico sobre a Resistência, que é uma Rainha de Sabá cultural, ganhando sedução justamente pelo numero que véus que a encobre. Kristin Hannah não conseguiu se deslindar de muitos lugares comuns, como mensagens comunicadas pelas cortinas abertas ou fechadas em uma janela, por exemplo. O final melodramático, em que só faltamos ouvir uma trilha sonora de violinos para acompanhar as lágrimas barateia um tema tão rico.

Dou quatro estrelas de cinco a esse livro principalmente porque estou ciente de que ele pode servir de porta entreaberta para o conhecimento, para um leitor mais jovem que nunca tenha ouvido falar desse outro lado da guerra. Talvez grande parte do meu desapontamento se deva à experiência como leitora. Por via das dúvidas ficam aqui quatro estrelas. Mas eu não hesitaria em ler essa obra ou em dá-la de presente a um jovem leitor. Francamente, comprei-o de presente para uma sobrinha.





Resenha: “As aventuras de um coração humano” de William Boyd

13 03 2016

 

Danielle Klebes (EUA,)Dalton the writer, ost,50x60cmDalton, o escritor

Danielle [Klebes] James (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 60cm

 

As aventuras de um coração humano é um livro extraordinário e se destaca na literatura contemporânea. Meu primeiro contato com William Boyd foi com Brazzaville Beach, lido no início dos anos 90. Seduzida pela narrativa, procurei e li as obras anteriores do autor: The Ice Cream War e A Good Man in Africa, e mais tarde Armadillo. Depois, dei uma pausa. Comprei Solo e Restless. Ambos se encontram na minha estante. Mas não os li. Fui aconselhada a ler As aventuras de um coração humano. Ainda bem que segui o conselho. Que obra! Ficção da melhor qualidade.

Trata-se da história de Logan Mountstuart, cidadão inglês, nascido em 1906. Acompanhamos sua vida desde a universidade, Oxford, onde ele se esforça para obter um diploma em história. Seguimos sua trajetória até falecer, aos oitenta e cinco anos, em 1991. Nosso conhecimento do personagem é intimo, pois vem através de seus diários. Sabemos o que faz, seus motivos, suas fragilidades. Tomamos conhecimento do que lhe dá medo, prazer, alegria, desespero. Podemos achar que é um bobo, um sem-vergonha, um escritor inteligente, um oportunista, um homem honesto, um herói. Rico ou pobre (ele vai de um extremo ao outro) seguimos sua vida, a aventura de viver, sua saga particular.

 

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No ano passado, as teorias do Dr. Arthur Aron que há mais de 20 anos mostrou como duas pessoas desconhecidas poderiam se apaixonar, se respondessem a 36 perguntas íntimas, olhando nos olhos um do outro, voltaram às notícias científicas. Sua teoria, que muitos haviam questionado, parece ter sido redescoberta e reavaliada. O que se provou é que há maior probabilidade de uma paixão ser iniciada quando há aproximação, contato entre duas pessoas, através do conhecimento de detalhes íntimos que são revelados enquanto se olha nos olhos do interlocutor até então desconhecido. É claro que o leitor de As aventuras de um coração humano não consegue olhar nos olhos de Logan Mountstuart, mas é capaz de conhecer intimamente o homem através de seu diário, revelador de detalhes íntimos, de desejos recônditos, desgostos, esperanças, amores e fantasias eróticas. Acompanhamos esse homem por mais ou menos sessenta anos. E assim como na teoria de Arthur Aron professor de psicologia na SUNY [State University of New York], nos apaixonamos por Logan Mountstuart à medida que o conhecemos intimamente. Amor que independe das idiossincrasias, do comportamento ocasionalmente duvidoso, do conhecimento de motivos nem sempre nobres do nosso herói do cotidiano do século XX.

A vida de Logan se desenvolve em paralelo e por dentro da história do século passado. Por isso, vemos como os eventos que nada têm a ver com o homem comum, chegam a influenciar suas decisões, sua sorte, seu destino. Isso, adicionado às escolhas feitas, às vezes por capricho, pode ter consequências inimagináveis na vida de uma pessoa. A sorte distribui suas benesses, vendada. Sobreviver é “matar um leão por dia”, mas muito do que fazemos, muito do que decidimos, tem uma grande percentagem da ocasião, do momento, da chance, do azar, da coincidência. Logan não é um herói, é um homem comum, um escritor que atinge um certo sucesso. No entanto sua vida tem viradas incríveis, ocasionais, acontecidas por decisões pequenas, dele ou daqueles que o circundam, ou até mesmo daqueles que não conhece. É natural, portanto, que ao final da vida ele escreva: “No fim, é isto que se leva da vida: o agregado de toda a sorte e de todo o azar que se experimenta. Tudo é explicado por essa fórmula simples. Junte tudo — olhe as respectivas pilhas. Não há nada que se possa fazer: ninguém compartilha, aloca isso para esse ou para aquele, simplesmente acontece. Temos que sofrer as leis da condição humana silenciosamente, como diz Montaigne.” [p. 482] Logan luta pela sobrevivência física, profissional, emocional toma decisões que nem sempre são as melhores e por vezes só encontra suas consequências uma ou duas décadas mais tarde. Mas ele não deixa de ser um herói do dia a dia, um homem comum que reflete tudo que fazemos com heroísmo para a sobrevivência.

Muito deve ser dito a respeito da maravilhosa montagem dessa história. Li numa entrevista de William Boyd para o jornal inglês The Guardian, em novembro de 2004 [Nice one, Cyrill] que uma das coisas que ele achou mais difíceis foi escrever as entradas nos diários, em linguagem plena, sem ser uma linguagem literária, e que não viesse a descortinar o futuro, porque quando se escreve um diário, não se tem ideia daquilo que virá a ser importante na sua vida no futuro. “O futuro é um vazio: não sabemos se esta decisão que tomamos virá a mudar a nossa vida.” [The future is a void: we don´t know if this decision we have taken will be life-changing…] Por isso, escrever ficção como entradas em um diário parece requerer outra dose de criatividade.

 

118438099_boyd_367375cWilliam Boyd

 

William Boyd trabalhou seu texto com excelente artesania. Tão convincente, de fato, tão preciso na escolha dos detalhes da cena artística europeia da primeira metade do século passado, e de novo tão verossímil nas descrições do mundo das artes em Nova York depois da Segunda Guerra, tão crível, que me encontrei, mais de uma vez, procurando por Logan Mountstuart no Google, certa de que se tratava, de fato, da vida de algum um escritor e crítico de arte de pequeno porte, mas do mundo real e não imaginário. Isso graças à enorme pesquisa de detalhes das cenas artísticas de Paris, Londres e Nova York, fatos talvez nem tão importantes, e certamente desconhecidos da maioria do público, mas que sendo verdadeiros dão uma imensa riqueza na contextualização do personagem.

Em 2010 li um livro de ficção, também em forma de diário da escritora canadense Carol Shields, que achei uma obra espetacular, de grande criatividade. Chama-se Os diários de pedra [RJ, Record:1996]. Também em forma de diário, esse livro me deixou igualmente perplexa: saber que se trata de ficção, mas simultaneamente não acreditar que tudo, tudo não fazia parte de uma vida real, foi difícil. O livro de Shields, no entanto, baseava-se quase todo em fatos imaginados, e os eventos descritos tinham a ver quase que exclusivamente com os personagens envolvidos. A obra ainda se apoiava em fotografias em preto e branco dos supostos membros da família retratada. As aventuras de um coração humano não usa desse artifício, nem precisa. E além disso, a ficção se entremeia tão bem com a vida histórica que outros leitores também expressaram sua perplexidade, sua descrença de que não se tratava de alguém que havia de fato existido. Suas opiniões no site da Amazon, como no site Goodreads, mostram que eles também tiveram reações semelhantes à minha.

Quando Logan Mountstuart chega ao final, viveu uma vida plena. Compartilhamos suas ilusões e frustrações. Somos seus amigos. Sabemos de quem se trata. Ele consegue ainda assim nos surpreender, mas de acordo com sua filosofia de vida. E sentimos o seu fim, como sentimos a morte de um amigo, de alguém que conhecemos bem. Poucas vezes me emociono com o que leio. Mas reconheço que fiquei entristecida ao saber do fim, desse amigo que eu adquirira através as quinhentas e poucas páginas do livro. Acho que você também poderia gostar dele. Não perca essa oportunidade.

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Resenha: Setembros de Shiraz, de Dalia Sofer

30 01 2016

 

 

Fakhraddin Mokhberi (Irã, 1965) ostEstudando

Fakhraddin Mokhberi (Irã, 1965)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

 

 

 

Leio hoje que a Itália, ao receber o presidente iraniano, cobriu as antigas obras de arte de nus e não serviu vinhos para não ofender o visitante, ao passo que a França fez justamente o contrário, não cedeu às imposições geradas pelo ortodoxismo islâmico. Essas ações mostram como a leitura que fiz nessa semana, Setembros de Shiraz, está atualizada e nos ajuda a entender o momento presente.  O texto de Dalia Sofer se concentra no período imediatamente após a queda do Xá da Pérsia [Irã]. E descreve os problemas dos cidadãos persas que não seguiam os preceitos da nova teocracia, uma ditadura com a intenção de acabar com qualquer vestígio de influência cultural fora do islamismo.

A autora é descendente de uma dessas famílias e emigrou da Pérsia para os Estados Unidos. Lá elas encontraram um lugar em que puderam manter intactas tanto a herança cultural, quanto sua religião. Dalia Sofer é judia e o personagem principal do livro, Isaac Amin, foi baseado nas experiências sofridas por seu pai, preso pelo regime instalado na revolução iraniana de 1979.

 

 

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Ditaduras são sempre iguais, sejam elas de direita, de esquerda ou religiosas, ou ambas. Elas interferem nos direitos essenciais dos seres humanos.  Cortam a liberdade do pensamento.  Cansamos de ver ditaduras no século XX, Alemanha, Rússia, China, Cuba, Brasil, Chile,Venezuela, Iraque, Irã são apenas algumas que ainda detêm grande parte da nossa memória coletiva. Ditaduras reduzem e deformam a grandiosidade da experiência humana. Definhamos sob seu domínio.  A comunidade judia que estava estabelecida há mais de quatro milênios na Pérsia foi uma das minorias atacadas pelos Aiatolás do novo regime. E sem boa causa essas famílias que ajudaram a formar a história do lugar foram singularmente destacadas para sacrifício, prisão e morte nas cadeias, numa continuação tardia de atos semelhantes da Segunda Guerra Mundial na Europa.  Por isso mesmo a história de Isaac Amin e sua família, que se assemelha a tantas outras vindas da Pérsia nesse período, precisa ser contada e recontada para que não se esqueça os fundamentos, as raízes mesmo, do pensamento ocidental.

 

 

Dalia SoferDalia Sofer

 

Setembros de Shiraz faz esse trabalho. Detalha a vida diária de uma família de um comerciantes judeu, classe média alta, que é mandado para a prisão por causa nenhuma a não ser por ter servido ao Xá, por manter bebidas alcoólicas em casa, por ter posse de objetos de luxo, por ter parentes em Israel, por conseguir pensar além dos horizontes locais. Conhecemos a vida dos filhos, da esposa, dos pais de Isaac Amin, dos empregados.  Sabemos das vantagens e das dificuldades que eles passaram antes e depois da prisão e conseguimos reconstruir, sem nunca termos ido ao Irã, como seria essa vida.  O livro é detalhado nesse aspecto e a narrativa flui em pequenos capítulos cobrindo da vida diária no Irã às aventuras de sobrevivência do filho do casal estudante nos EUA.

O que faltou nesse livro: melhor resolução dos conflitos.  Talvez, porque esteja tão baseado na vida de seus pais, e como a vida nem sempre se resolve por grandes atos, mas por acomodação paulatina a uma nova realidade, a narrativa perde impacto no final.  Até mesmo o romance do rapaz em Nova York com Rachel, uma menina de uma família judia ortodoxa, simplesmente se dissolve, perdendo o momento. Este é o meu grande senão sobre a obra, ela perde o ímpeto inicial.  Mas para quem tem curiosidade sobre a época, o livro oferece uma fatia interessante do dia a dia desse período no Irã, detalhada e complexa.

 





Resenha: “Um homem chamado Ove” de Fredrik Backman

22 01 2016

 

Anne Redpath (Escócia, 1895-1965), aquarela, Casas em Skye, 1965Casas em Skye, 1965

Anne Redpath (Escócia, 1895-1965)

aquarela sobre papel

 

 

Nem todo livro de ficção fica conhecido pelo estilo poético do autor, pelo torneio de frases. O de Fredrik Backman será lembrado pelo oposto: consegue extrair grandes emoções, através da narrativa fria e impassível detalhando as idiossincrasias de um personagem carrancudo e sem senso de humor. Talvez por isso, esse improvável herói literário consiga desde o primeiro capítulo cativar o leitor. Todos nós conhecemos alguma versão de Ove. Quem não tem na família, no bairro, no emprego, algum conhecido que mantém hábitos de pensamento e ação rígidos? Os cinquenta e nove anos de posicionamentos imutáveis são a coluna dorsal de Ove, o homem simples que habita essas páginas.  Suas verdades incontestáveis e valores incorruptíveis são a essência do seu caráter.

Apesar de sua postura irredutível sobre muitos aspectos do dia a dia, Ove é capaz de grandes paixões.  Paixões cegas, que não admitem qualquer desvio.  Elas podem ser pela marca de um carro ou por uma mulher.  Através dessas paixões conhecemos a lealdade desse herói escandinavo. Nos apaixonamos por ele assim como Sonja, sua esposa, o fez.

 

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Quando encontramos Ove, ele está deprimido.  Aposentado aos cinquenta e nove e viúvo, sente o peso da solidão.  Tudo o que deseja é seguir o caminho dela.  No outro lado.  A vida perdeu a razão de ser.  Planeja cuidadosamente um suicídio.  Depois outro e ainda outro, mas é interrompido cada vez pela mão do acaso, na figura de vizinhos bisbilhoteiros, que parecem tão determinados nas suas demandas quanto ele na sua decisão.  Porque se trata de pessoa tão meticulosa, o dar errado de cada tentativa é inesperado. Narrado com objetividade a situação leva o leitor a rir.  Não só a sorrir.  Mas rir. Com gosto.  Divertido.

No entanto, logo depois, nas conclusões dos capítulos somos presentados com um pensamento de Ove, sucinto, que exprime sua dor, seu amor, a falta que Sonja lhe faz.  E do riso brotam as lágrimas. Com a mesma facilidade.

 

backmanFredrik Backman

 Um homem chamado Ove demonstra a necessidade humana de ser útil, e de ser membro de um grupo. Na falta do amor, amigos mostram como a nossa presença é importante para o melhor desempenho deles.  Mesmo o mais turrão dos homens, a pessoa menos gentil de um grupo, tem com que contribuir para o bem estar de todos e de si próprio.  Essa é uma história que faz bem à alma e nos eleva.  Acabamos a leitura com a lembrança do que nos faz humanos.  Poucas histórias conseguem isso.  Divertido e sensível, recomendo a todos, homens e mulheres, jovens ou anciãos. É tempo de lembrar do nosso mais importante quinhão: a cooperação.  E de sua consequência, a aceitação.