Ilustração, Walt Disney
Devo-te oitenta! Mas quero
pagar-te em nota de cem…
– Me empresta mais vinte! Espero
devolver no mês que vem!
(Renato Alves)
Devo-te oitenta! Mas quero
pagar-te em nota de cem…
– Me empresta mais vinte! Espero
devolver no mês que vem!
(Renato Alves)
Operários, 1933
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1973)
Óleo sobre tela, 150 x 205 cm
Acervo do Palácio do Governo do Estado de São Paulo
João Xavier de Matos
Pobre ou rico, vassalo ou soberano,
Iguais são todos, todos são parentes;
Todos nasceram ramos descendentes
Do trono antigo do primeiro humano.
Saiba, quem de seus títulos ufano
Toma por qualidade os acidentes,
Que duas gerações há só dif’rentes
Virtude e vício: tudo mais é engano.
Por mais que afete a vã genealogia
Introduzir nas veias a natureza
De melhor sangue, do que Adão teria:
Não fará desmentindo a natureza
Que seja sem virtude a fidalguia
Mais que um triste fantasma da grandeza.
(1789)
João Xavier de Matos (Portugal, c. 1730-1789)
Por sobre as ondas serenas,
a gaivota, em seu compasso,
é uma tesoura de penas,
cortando o pano do espaço.
(Onildo Campos)
““O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê! ”
Florbela Espanca
Em: Cartas a Guido Barteli
João Dantas de Sousa
(N’um Álbum.)
Vem cá, feiticeira, vem junto a meu lado,
Pois quero ao ouvido dizer-te um segredo…
Esquiva tu foges?… não fujas, louquinha;
Não vejo o que possa causar-te assim medo.
Tu dizes qu’eu fale? – já tu, por ventura,
Ouviste dizer-se segredos assim!
Há coisas que ao mundo ser devem ocultas;
Vem, pois, queridinha, não fujas de mim.
Sorris-te! Não brinques…- Se assim continuas
Então meu segredo não quero contar-te.
Escuta se queres; — são poucas palavras;
E julgo com elas não hei de enfadar-te…
Ao fim te chegaste…. Bem hajas! — Agora,
Escuta o segredo de teu trovador:
Eu te amo….» Que vejo? … tu foges corando!
Pois foge, que ao menos ouviste o melhor.
(1859)
Em: Poesias, João Dantas de Souza, Editora de Almeida, 1859.
Fausto Guedes Teixeira
Negro o cabelo, a fronte iluminada,
O nariz curvo, a boca pequenina,
Nos olhos escuríssimos cravada
Uma estrela no fundo da retina.
Nas faces uma rosa desmaiada
E outra rosa nos lábios purpurina,
Seus pequeninos pés os duma fada
E o seu corpo um corpinho de menina.
Todos os traços cheios de expressão,
Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,
Porque eu lhe pus nas mãos o coração.
Eis o esboço rápido daquela
Que, sempre que na vida alguém a veja,
Nunca mais vê ninguém senão a ela!
Quando há pedras nos caminhos,
não fujo rumo aos atalhos,
sou daqueles passarinhos
que não temem espantalhos.
(Ney Damasceno)
Leitura matutina, 2010
Roberto Ploeg (Holanda,Brasil, 1955)
óleo sobre tela
Cecília Meireles
Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.
Em: Cânticos, Cecília Meireles, São Paulo, Moderna: 1981
Almir Correa
Fiz um poema
e não sei se vale a pena
poemar.
É um poema com pena
pena do céu
pena da terra
pena do mar.
Não tem mais pena de índio
Porque índio já não se acha em nenhum lugar.
Mas ainda tem
pena de arara azul
pena de galinha sem cabeça
pena de pato pateta.
Tem tanta pena
pena até de travesseiro.
Só não tem pena nenhuma do burro
porque burro não tem pena.
Em: Poemas Malandrinhos, Almir Correa, São Paulo, Atual:1992