Ilustração, Margaret C. Hoopes
O destino nos ensina
mensagens que são verdades:
– Quem só enfrenta neblina
fraqueja nas tempestades !…
(José Valdez de Castro Moura)
O destino nos ensina
mensagens que são verdades:
– Quem só enfrenta neblina
fraqueja nas tempestades !…
(José Valdez de Castro Moura)
Almir Correia
Homem de palha
coração de capim
vai embora
aos pouquinhos
no bico dos passarinhos
e fim.
Autorretrato com Saturno, 2007
Marta Kiss (Hungria, 1974)
óleo sobre tela, 70 x 50 cm
Carlo Rovelli, A ordem do tempo
Menina com libélula
Nato Gomes (Brasil, contemporâneo)
acrílica, 20 x 28 cm
Gustavo Teixeira (1881-1927)
Entre os juncos das bordas da lagoa
Onde bebem a fera e a pomba mansa,
Voa a leve libélula, revoa,
E sutilmente sobre as águas dança.
Sem rumo, sobe e desce, gira à toa,
Fixa-se no ar e – alada flecha – avança.
Só quando a terra de astros se coroa,
A dançarina alígera descansa.
Num flexível caniço que a aura entorta
E oscila ao choque de uma folha morta,
Dorme, a sonhar com o lago, que se estrela.
Assim que a noite o lábaro desfralda,
O pirilampo acende em torno dela
Pequeninas auroras de esmeralda…
EM: Poesias completas, Gustavo Teixeira, Eme: 2018
Mater
Sérgio Martinolli (Itália-Brasil, 1938)
óleo sobre tela, 80 x 60 cm
Antero de Quental
(1842-1891)
Mãe — que adormente este viver dorido,
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas ate o fio
Do meu pobre existir, meio partido…
Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio…
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido…
Eu dava o meu orgulho de homem — dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,
Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!
Orlando, 2024
Nikoleta Sekulovic (Itália-Espanha, contemporânea)
pastel, grafite e tinta acrílica sobre tela, 194 x 225 cm
Fernando Pessoa
Retrato de M. V. Dobuzhinsky à mesa, 1913
Boris Kustodiev (Rússia, 1878-1927)
óleo sobre tela
“na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco”
José Luís Peixoto
Um filósofo de peso
é desta sentença o autor:
o beijo é fósforo aceso
na palha seca do amor.
(Bastos Tigre, 1882-1957)
O manuscrito, 1921
Francis Ernest Jackson (Inglaterra, 1872 – 1945)
Ashmolean Museum, Oxford
Cecília Meireles
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
No livro Viagem (1939)