Mário Quintana, “Destino atroz”

29 05 2018

 

 

 

c167b4bfcb26ded4807730aeef50f9c2Ilustração da revista Cosmolitan, Janeiro 1960.

 

 

Destino Atroz

 

Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

 

Em: Caderno H, (1945-1973), Mário Quintana, Porto Alegre: Editora Globo, 1973.





Trova da Terra

29 05 2018

 

 

 

agua poluidaIlustração Maurício de Sousa.

 

 

 

Ao sofrer uma agressão

a terra não choraminga

nem esboça reação,

mas… cedo ou tarde, se vinga…

 

(Adélia Victória Ferreira)





“Lápis coloridos” poesia de Maria da Gaça Almeida

25 05 2018

 

 

colorindo, Marli Soares Borges, aquarela_01Ilustração de Marli Soares Borges.

 

 

 

Lápis coloridos

 
Maria da Graça Almeida

 

Perfilados, apontados,
estão todos bem guardados
numa caixa tão bonita,
desenhada e com fitas!

São eretos, são brilhantes
coloridos, elegantes!
Têm o corpo de madeira,
têm a cor na cabeleira!

O azul colore o céu,
o verdinho aviva as folhas.
Pra pintar um bom painel,
o tom fica a sua escolha.

Tenho um sol brilhante e belo
com o lápis amarelo!
Lápis preto escurece
e o desenho entristece.

Com o branco passo apuros,
mas às vezes nele aposto,
sua cor em fundo escuro
quando vejo sempre gosto!
 





Convite, poema de Alfredo de Souza

12 05 2018

 

 

 

joseph_caraud_a2889_the_love_birdsDois pombinhos, 1897

Joseph Caraud (França, 1821-1905)

óleo sobre tela, 60 x 45 cm

 

 

 

Convite

 

Alfredo de Souza

 

Vem, sem demora, ver estes pombinhos

Que se beijam tão ternos, venturosos,

Deixando muito tempo os seus biquinhos

Colados em transportes amorosos;

 

Vem — mirar como fazem seus carinhos;

Ora arrulando em cantos maviosos,

Ora as asas batendo para os ninhos

— Ninhos plenos de odor, ninhos ditosos.

 

E já que tu sentiste quanto é bela

Essa cena que vimos, dando ensejo

De imitá-la por dentro da janela…

 

Resta apenas dizer-te, ó minha flor,

Que colemos os lábios, num só beijo,

Fingindo de pombinhos, meu amor!

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, ed. Frederico Trotta, Rio de Janeiro, Editora Vecchi: 1965, p. 232.

 

Alfredo de Souza  (Rio de Janeiro, 1880 — ??) — Foi jornalista e funcionário público.

Bibliografia

Aurora, sem data

 





Trova da praia

11 05 2018

 

 

smock-vintage-beach-at-night-with-moon-patternIlustração japonesa, praia à noite.

 

 

Mostrando ser feminina,

a praia ouve os segredos

que o mar, por trás da neblina,

conta baixinho aos rochedos.

 

(Durval Mendonça)

 





Maluquices do “H”, poesia de Pedro Bandeira

13 04 2018

 

 

 

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Maluquices do H

 

 

Pedro Bandeira

 

O H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…

Se você vem para cá,
Vamos juntos tomar chá.
Se o sono aparece,
tem um sonho e adormece.
Se sai galo do poleiro,
pousa no galho ligeiro.
Se a velha quiser ler,
vai a vela acender.
Se na fila está a avó,
vira filha, veja só.
Se da bolha ele escapar,
Uma bola vai virar.
Se o bicho perde o H,
com um bico vai ficar.
Hoje com H se fala,
sem H é uma falha.
Hora escrita sem H,
ora bolas vai ficar.

H é letra incrível,
muda tudo de repente.
Onde ele se intromete,
tudo fica diferente…

 

 

Em: Mais respeito, eu sou criança, Pedro Bandeira, São Paulo, Moderna: 1994

 





Trova dos teus caminhos

5 04 2018

 

 

martine+et+jeanIlustração de Marcel Marlier ( Bélgica, 1930-2011)

 

 

Trago minhas mãos manchadas

de sangue, pelos espinhos

das mil rosas perfumadas

que espalhei nos teus caminhos…

 

 

Izo Goldman





Oceano, poema de Manuel Bandeira

2 04 2018

 

 

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Oceano

 

Manuel Bandeira

 

Olho a praia. A treva é densa.

Ulula o mar, que não vejo,

Naquela voz sem consolo,

Naquela tristeza imensa

Que há na voz do meu desejo.

 

E nesse tom sem consolo

Ouço a voz do meu destino:

Má sina que desconheço,

Vem vindo desde eu menino,

Cresce quanto em anos cresço.

 

– Voz de oceano que não vejo

Da praia do meu desejo…

 

Em: Estrela da Vida Inteira- poesias reunidas, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, José Olympio: 1979, pp 30.





Quarta-feira de Cinzas, poesia Isabel Morais Ribeiro Fonseca

14 02 2018

 

 

 

Geraldo de Castro, Procissão, ost, 90x90Procissão

Geraldo de Castro (Brasil, 1914 – 1992)

óleo sobre tela, 90 x 90 cm

 

 

 

Senhor sou pó e voltarei ao pó
Aumenta a minha pobre Fé
Nesta Quarta Feira de Cinzas

 

Nesta Quarta Feira de Cinzas
Não se esqueça que…
Tu és pó e ao pó vais voltar.

 

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

 

 





Trova do acordar

6 02 2018

 

 

acordar John_Gannam, junho 1948, St Narys blankletsIlustração de John Gannam, 1948.

 

 

Entra o sol pela vidraça

e em teu leito empalidece,

deslumbrado pela graça

que teu corpo lhe oferece.

 

 

(Durval Mendonça)