Minutos de sabedoria: Olavo Bilac

11 10 2018

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“A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”

 

Olavo Bilac





Lágrima, poesia de Vera Siqueira de Mello

9 10 2018

 

 

 

Bernard BOUTET de MONVEL (1881-1949) Elegante dans les jardins de VersaillesBernard Boutet de Monvel (1881-1949) Elegante nos jardins de Versailles.

 

 

Lágrima

 

Vera Siqueira de Mello

 

Bendita seja a lágrima que rola

Pela face de alguém, que triste está,

Pois é ela, na vida que consola,

Que na aflição, maior alívio dá.

 

Sendo este mundo a verdadeira escola,

Onde aprendemos as lições da vida,

Devemos bendizer tão santa esmola,

Aos tristes e infelizes, concedida.

 

Vós, que seguis na vida, caminhando,

Ao fitardes a estrada percorrida

E fordes as tristezas recordando,

 

Não lastimeis a lágrima perdida,

Pois, feliz é aquele que, chorando,

Consegue aliviar uma ferida!

 

Em: Conflitos interiores, Vera Siqueira de Mello, 1938.

 

 

 

 





Trova para São Francisco de Assis

4 10 2018

 

 

 

passaros na cidade, Sylvie DaigneaultPássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.

 

 

Cruza o espaço a passarada,

no seu voo alegre e arisco,

levando à manhã menina

as bênçãos de São Francisco.

 

(Corrêa Júnior)





Trova do rio

1 10 2018

 

 

girl-by-river-vintage-japan-ukiyo-e-woodcut-just-eclecticXilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.

 

 

Vai o rio em cantochão…

Suas águas se lamentam.

-Parecem pedir perdão

às pedras que as atormentam.

 

(Durval Mendonça)





“Coração”, poesia de Guilherme de Almeida

11 09 2018

 

 

castelo de cartas, jb longCastelo de cartas, ilustração de H. B. Long.

 

 

 

Coração

 

Guilherme de Almeida

 

 

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!





Antes do voo da ave, Fernando Pessoa

27 08 2018

 

 

 

sky-and-water-ii.jpg!LargeCéu e água II, 1938

M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)

Xilogravura

 

XLIII

 

Antes do voo da ave

 

Antes do voo da ave,

que passa e não deixa rasto,

Que a passagem do animal

que fica lembrada no chão.

A ave passa e esquece,

e assim deve ser,

O animal,

onde já não está

e por isso de nada serve,

Mostra que já esteve,

o que não serve para nada.

A recordação

é uma traição à Natureza,

Porque a Natureza

de ontem não é Natureza.

O que foi não é nada,

e lembrar é não ver.

 

Passa, ave, passa,

e ensina-me a passar!

 

 

Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.

 

 





Trova da névoa

10 08 2018

 

 

Fracchia_Foggy-Evening_0423Noite enevoada

Barbara Fracchia (EUA, contemporânea)

Óleo sobre tela,  60 x 50 cm

 

 

Vem a neblina… e a cidade

goteja um pranto silente…

– Neblina é como a saudade

molhando os olhos da gente.

 

(Joubert de Araújo Silva)

 





Trova das garças

28 07 2018

 

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Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas,

adornando o pantanal.

 

(Dorothy Jansson Moretti)





Trova do gato

19 07 2018

 

gato peludo Harrison Fisher (1875 - 1934)Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).

 

 

Bobagem grande, de fato,

que o meu bom senso rejeita…

Mas que inveja dá-me o gato

que no teu colo se deita!…

 

(A. A. de Assis)





“Guardar”, poema de Antonio Cícero

12 07 2018

 

 

Illustration by Pierre BrissaudIlustração de Pierre Brissaud.

 

 

 

Guardar

 

Antonio Cícero

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

Por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

 

 

Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11