
“A pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.”
Olavo Bilac

Olavo Bilac
Bernard Boutet de Monvel (1881-1949) Elegante nos jardins de Versailles.
Vera Siqueira de Mello
Bendita seja a lágrima que rola
Pela face de alguém, que triste está,
Pois é ela, na vida que consola,
Que na aflição, maior alívio dá.
Sendo este mundo a verdadeira escola,
Onde aprendemos as lições da vida,
Devemos bendizer tão santa esmola,
Aos tristes e infelizes, concedida.
Vós, que seguis na vida, caminhando,
Ao fitardes a estrada percorrida
E fordes as tristezas recordando,
Não lastimeis a lágrima perdida,
Pois, feliz é aquele que, chorando,
Consegue aliviar uma ferida!
Em: Conflitos interiores, Vera Siqueira de Mello, 1938.
Pássaros na cidade, ilustração de Sylvie Daigneault.
Cruza o espaço a passarada,
no seu voo alegre e arisco,
levando à manhã menina
as bênçãos de São Francisco.
(Corrêa Júnior)
Xilogravura japonesa policromada, Ukiyo-e.
Vai o rio em cantochão…
Suas águas se lamentam.
-Parecem pedir perdão
às pedras que as atormentam.
(Durval Mendonça)
Castelo de cartas, ilustração de H. B. Long.
Guilherme de Almeida
Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que já lá vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!
Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?
Como vais, como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?
Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.
Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas,
Porque és puro e porque és bom!
Céu e água II, 1938
M.C. Escher ( Holanda, 1898-1972)
Xilogravura
Antes do voo da ave,
que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal
que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece,
e assim deve ser,
O animal,
onde já não está
e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve,
o que não serve para nada.
A recordação
é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza
de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada,
e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa,
e ensina-me a passar!
Em: Poemas completos de Alberto Caeiro, Mensagem, Fernando Pessoa, Lima, Peru, Los Libros Mas Pequeños del Mundo: 2011, páginas 149-150.
Noite enevoada
Barbara Fracchia (EUA, contemporânea)
Óleo sobre tela, 60 x 50 cm
Vem a neblina… e a cidade
goteja um pranto silente…
– Neblina é como a saudade
molhando os olhos da gente.
(Joubert de Araújo Silva)

Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
(Dorothy Jansson Moretti)
Gato peludo, ilustração de Harrison Fisher (1875-1934).
Bobagem grande, de fato,
que o meu bom senso rejeita…
Mas que inveja dá-me o gato
que no teu colo se deita!…
(A. A. de Assis)
Ilustração de Pierre Brissaud.
Antonio Cícero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Em: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2008, página 11