Para uma estátua — poesia de Gracia Levine

13 03 2011

Mulher sentada, cerca de 1890

Jean-Léon Gerome ( França 1824-1904)

Mármore policromado

Museu do Instituto de Arts de Detroit

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Para uma estátua

                                           Gracia Levine

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Acorda!

É meia-noite!

A lua brilha no teu mármore branco.

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Nua,

teu rosto deitado

nos braços

dobrados sobre os joelhos erguidos,

ninguém está aqui, agora,

para olhar-te

em teu pedestal.

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Em: Poesia Simplesmente, [coletânia de diversos poetas] com prefácio de Roberto Pontes, 1999





Pirilampos, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

12 03 2011

Ilustração, Vagalumes, de Leslie Harrington.

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Pirilampos

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Henriqueta Lisboa

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Quando a noite

vem baixando,

nas várzeas ao lusco-fusco

e na penumbra das moitas

e na sombra erma dos campos,

piscam piscam pirilampos.

São pirilampos ariscos

que acendem pisca-piscando

as suas verdes lanternas,

ou são claros olhos verdes

de menininhos travessos,

verdes olhos semitontos,

semitontos mas acesos

que estão lutando com o sono?

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Henriqueta Lisboa (MG 1901- MG 1985), poeta mineira. Escritora, ensaísta,  tradutora professora de literatura,  Com Enternecimento (1929), recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras.  Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Obras:

Fogo-fátuo (1925)

Enternecimento (1929)

Velário (1936)

Prisioneira da noite (1941)

O menino poeta (1943)

A face lívida (1945) — à memória de Mário de Andrade, falecido nesse ano

Flor da morte (1949)

Madrinha Lua (1952)

Azul profundo (1955);

Lírica (1958)

Montanha viva (1959)

Além da imagem (1963)

Nova Lírica ((1971)

Belo Horizonte bem querer (1972)

O alvo humano (1973)

Reverberações (1976)

Miradouro e outros poemas (1976)

Celebração dos elementos: água, ar, fogo, terra (1977)

Pousada do ser (1982)

Poesia Geral (1985), reunião de poemas selecionados pela autora do conjunto de toda a obra, publicada uma semana após o seu falecimento.





O coração, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

2 03 2011

Crianças e coração, s/d

Romero Britto ( Brasil, 1963)

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O coração

                             Walter Nieble de Freitas

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Trago no peito uma joia

Pequenina, delicada,

Tão pequenina que lembra

Esta mãozinha fechada.

Nela se aninha a bondade,

O carinho, a gratidão;

O seu nome tem poesia,

Pois se chama coração.

Não pensem que ele foi feito

Com gemas de alto valor:

É um presente de Deus

Esta obra prima de amor!

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Numa cadência de marcha,

Bate sempre sem parar,

Como se fosse um pandeiro

Que não para de vibrar.

Mas se eu faço travessuras,

Meu coração contrafeito,

Muda o compasso e transforma

Em batucada o meu peito!

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Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis,  de Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Editora Difusora Cultural: 1961

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Walter Nieble de Freitas ( Itapetininga, SP)  Poeta e educador, foi diretor do Grupo Escolar da cidade de São Paulo.

Obras:

Barquinhos de papel, poesia, 1963

Mil quadrinhas escolares, poesia, 1966

Desfile de modas na Bicholândia, 1988

Simplicidade, poesia, s/d

Chico Vagabundo e outras histórias, 1990





Minha cama — poesia infantil de Sérgio Capparelli

26 02 2011

Hipopótamo na banheira

Adam Fryda  (Inglaterra, contemporâneo)

gravura 20 x 16,5 cm

www.adamfryda.co.uk

Minha cama

                                                 Sérgio Capparelli

Um hipopótamo na banheira

molha sempre a casa inteira.

A água cai e se espalha

molha o chão e a toalha.

E o hipopótamo: nem ligo

estou lavando o umbigo.

E lava e nunca sossega,

esfrega, esfrega e esfrega

a orelha, o peito, o nariz

as costas das mãos, e diz:

Agora vou dormir na lama

pois é lá a minha cama!

Sérgio Capparelli (MG, 1947) é um escritor de literatura infanto-juvenil, jornalista e professor universitário.

VEJA O PORTAL DO AUTOR:  http://www.capparelli.com.br/





Limerique infantil de Tatiana Belinky — “minhocas”

23 02 2011
Zá Carioca empresário de minhocas, Ilustração Walt Disney.

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Ao ver uma velha coroca

fritando um filé de minhoca

o Zé Minhocão

falou pro irmão:

“Não achas melhor ir pra toca?”

Tatiana Belinky

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Em:  Poesia fora da estante, Vera Aguiar ( coord.), Simone Assumpção e Sissa Jacoby, Porto Alegre, Projeto: 2007

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Tatiana Belinky nasceu em São Petersburgo na Rússia em 1919.  Imigrou com a família para o Brasil, onde se instalaram em São Paulo.  Tatiana tinha 10 anos e idade.  Escritora, poeta, roteirista de tv, tradutora.   É hoje uma das mias importantes escritoras infanto-juvenis no país com mais de 120 obras publicadas.  Depois do curso secundário, estudou Filosofia na Faculdade São Bento, mas abandonou o curso em 1940 quando se casou com o médico Júlio de Gouveia.  Junto com o marido, criou muitas várias adaptações de histórias infantis para teatro.  Juntos  montaram peças para os teatros da Prefeitura de São Paulo e de lá pularam para encenações de peças no início da televisão no Brasil.  Trabalhou também como roteirista de programas para a televisão btrasileira desde 1952, na  extinta TV Tupi.  Desde 1985 escreve para jovens leitores.

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Algumas de suas obras infanto-juvenis ( não inclui peças de teatro, e dezenas e dezenas de traduções e adaptações de outros autores):

O caso dos ovos, 1985

O sapateiro remendão, 1987

Que horta, 1987

A alegre vovó Guida que é um bocado distraída, 1988

Cinco trovinhas para duas mãozinhas, 1988

A história da ursa-parda, 1988

Represália de Bicho, 1988

Histórias de Fantasma, 1989

Olhos de ver, 1989

Transplante de menina, 1989

Acontece cada uma…, 1990

Bidínsula e outros retalhos, 1990

As coisas boas do ano, 1990

Di-versos russos, 1990

Quatro amigos, 1990

Di-versos hebraicos, 1990

Saladinha de queixas, 1991

Tatu na casca, 1991

Assim, sim!, 1992

Bumburlei, 1992

Micha, 1992

Quem tem casa, casa?, 1992

Ratinho manhoso, 1992

Rimadinho, 1992

A ratinha presunçosa, 1993

Di-versos alemães, 1993

Grande cão curso, 1993

O caso do vaso, 1994

Bom remédio, 1995

O caçador valente, 1995

Beijo não!, 1997

Cachtanga artista por acaso, 1998

Diversidade, 1999

Que tal?, 1999

Coral dos bichos,  2000

Chorar é preciso?, 2001

Contanabos, o senhor das montanhas, 2001

Curto-circuito, 2001

O gato professor, 2001

Mandaliques (com endereço e tudo), 2001

O livro dos disparates, 2001

As três respostas, 2001

O samurai e a cerejeira, 2001

O simplório e o malandro, 2001

Ogro, 2001

Sou do contra: limeriques,  2001

Vrishadarbha e a Pomba, 2001

Acontecências, 2002

A aposta, 2002

Criança feliz: contos e cantos, 2o03

O que eu quero, 2003

Trazido pela rede, 2003

Um caldeirão de poemas, 2003

Mentiras… e mentiras, 2003

Aparências enganam, 2004

Cantiga do Tiribiri-biribim, 2004

O livro das tatianices, 2004

Vovô Majai  e as lebres, 2004

 Abc e numerais pra brincar é bom demais, 2005

 17 È Tov !, 2005

Kanniferstan, 2006

Limeriques para pinturas, 2006

A torre do Reno, 2006

Desatreliques, 2006

Limeriques da Coroa Implicante, 2006

Limeriques dos Tremeliques, 2006

Monstros e medos, 2006

Sete vezes sim!, 2006

Hoje é dia de festa!, 2006

As moedas estrelas, 2006

Um zoológico de papel, 2007

Bicholiques, 2007

O cão fantasma, 2007

Salada de limeriques, 2007

Limeriques da cocanha, 2007

Limeriques das causas e efeitos, 2007

O nariz, 2008

A charada do gorducho, 2009





História de uma pamonha, poesia infantil de Ofélia e Narbal Fontes

15 02 2011
Ilustração Renata Morais, do blog Aquarela em Cores  — http://aquarelaemcores.blogspot.com

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História de uma pamonha

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Ofélia e Narbal Fontes

Era um ovinho dourado,

Que um dia foi enterrado.

Na terra, ele inchou, inchou,

E em dez dias rebentou.

Não pensem que ele morreu;

Sua casquinha rompeu,

Mas, em vez de um pintinho

Surgiu um broto verdinho.

O broto tanto espichou

Que em planta se transformou

Com folhas muito alongadas

e cortantes como espada;

E tinha, prá se aguentar,

Raiz no chão e no ar.

Depois que a chuva caiu,

Um pendão de flor abriu.

E, um pouquinho mais abaixo,

Uma boneca de cacho…

Um boneca engraçada,

Cabeludinha e barbada.

Mas, assim que ela cresceu,

Chegou alguém e a colheu,

Despiu toda pobrezinha

E ralou-a na cozinha,

E o sangue dourado dela

Pôs, com água, na panela.

Mexeu com colher de pau

E transformou-se em mingau.

Pôs-lhe açúcar, temperou

E no fogo a cozinhou.

E, por fim, deu-lhe uma mortalha

No vestidinho de palha.

A boneca transformou-se

No mais delicioso doce.

Mas agora tem vergonha

De ser chamada pamonha.

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Esta poesia é contribuição do leitor Robson Leite.  Sua lembrança dessa poesia  — que ele decorou quando era aluno do curso fundamental —   contribui ainda mais para o sucesso desse blog.  Muito obrigada, Robson!

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Ofélia e Narbal Fontes, casal de educadores brasileiros, paulistas, que escreveram livros em conjunto, na sua maioria didáticos.  Ofélia de Avelar Barros Fontes (SP 1902 –1986) poeta, biógrafa, autora didática, tradutora, romancista, teatróloga, professora, radialista; Narbal de Marsillac Fontes (SP 1899– RJ 1960) Poeta, biógrafo, cronista, teatrólogo, professor, jornalista, diplomado em medicina (1930), médico.

Livros:

No Reino do Pau-Brasil – Crônicas humorísticas (1933)

Senhor Menino – Poesias –

Regina, A Rosa de Maio

Romance de São Paulo – Romance — (1954)

Rui, O Maior – Biografia Rui Barbosa

Precisa-se de Um Rei — Literatura infanto-juvenil

Anhangüera, o gigante de botas – Literatura infanto-juvenil, (1956)

Coração de Onça – Literatura infanto-juvenil

O Talismã de Vidro — Literatura infanto-juvenil

Heróis da comunidade Mundial — biografias

A Gigantinha

A Espingarda de Ouro

Aventuras de Um Coco da Bahia

Esopo, O Contador de Estórias

Novas Estórias de Esopo

A Falsa Estória Maravilhosa

Espírito do Sol — Literatura infanto-juvenil

O Micróbio Donaldo  — Saúde e higiene — paradidático — (1949)

História do Bebê — Saúde e higiene — para didático

Ler, Escrever e Contar

Ilha do Sol

Segredos das mágicas — Literatura infantil

Brasileirinho – Música (1942)

Companheiros: história de uma cooperativa escolar (1941)

Pindorama

O Menino dos Olhos Luminosos

A Boa Semente

A Vida de Santos Dumont – Biografia Santos Dumont — (1935)

O Bicho “Sete-Ciências”  — Literatura infanto-juvenil

O Gênio do Bem —

Cem Noites Tapuias – Literatura infanto-juvenil

Ascensão – Poesia – (1961)

Um Reino sem mulheres – Biografia: Villegagnon

O leão obediente — (1915)

Libretto de La Traviata — Música — (1940)





Questão de pontuação — poema de João Cabral de Melo Neto

8 02 2011

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Questão de pontuação

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                                                       João Cabral de Melo Neto

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Todo mundo aceita que ao homem

cabe pontuar a própria vida:

que viva em ponto de exclamação

(dizem tem alma dionisíaca);

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viva em ponto de interrogação

(foi filosofia, ora é poesia);

viva equilibrando-se entre vírgulas

e sem pontuação (na política):

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o homem só não aceita do homem

que use a só pontuação fatal:

que use, na frase que ele vive

o inevitável ponto final.

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Em: Agrestes, João Cabral de Melo Neto, Riio de Janeiro,  Nova Fronteira: 1985

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João Cabral de Melo Neto – (PE 1920 – RJ 1999) poeta e diplomata. Membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras:

Pedra do Sono, 1942

Os Três Mal-Amados, 1943

O Engenheiro, 1945

Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode, 1947

O Cão sem Plumas, 1950

O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade do Recife, 1954

Dois Parlamentos, 1960

Quaderna, 1960

A Educação pela Pedra, 1966

Morte e Vida Severina, 1966

Museu de Tudo, 1975

A Escola das Facas, 1980

Auto do Frade, 1984

Agrestes, 1985

Crime na Calle Relator, 1987

Primeiros Poemas, 1990

Sevilha Andando, 1990

Tecendo a Manha, 1999





O trenzinho da infância leva a Maceió, poesia de Oliveiros Litrento

19 01 2011

Fumareira na estação da Ribeira, em Itapemirim, ES, s/d

Mauro Ferreira ( Brasil, 1958)

óleo sobre tela

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O trenzinho da infância leva a Maceió

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Oliveiros Litrento

Teu namorado pela vida afora,

vou viajando agora pelas matas,

com usinas de cana bordejante

o caminho que vai para Alagoas.

No trenzinho da infância vou chegando

às vilas alagoanas encantadas.

E São José da Lage vai ficando

longe. Logo trem pára em União,

a terra onde nasceu Jorge de Lima.

Satuba, Rio Largo, Fernão Velho:

cidades embalando Bebedouro,

bairro dos pastoris, do Bonifácio

da antiga Maceió, formosa e lírica.

No trenzinho da infância vai passando

o bairro proletário  da Levada

com sururus e cheiro de canoas.

O trem vomita a praia do Sobral

na viagem agora terminando.

Quero rever São Luis, Camaragibe

e conhecer a cidade de Penedo.

Mas fico na Manguaba e o Mundaú.

A meninice, alada como um pássaro,

lâmpada azul de sonho e litoral,

ondula em águas verdes das lagoas

o chão da infância, o meu país natal.

Em:  O Leopardo Azul, Oliveiros Litrento, Rio de Janeiro, Livraria São José: 1965

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Oliveiros Litrento nasceu em S. Luis de Quitunde, Alagoas, em 1923.





O galo, poesia infantil de Francisca Júlia

9 01 2011

Galo, ilustração de Artus Scheiner (1863-1938)

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O galo 

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                                                                                                                                          Francisca Júlia

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Passo lento, olhar profundo,

Valente, brioso e grave,

O galo é a mais linda ave

Dentre todas que há no mundo.

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Um pé adiante, outro atrás,

Bico aberto, o galo canta;

Tem a glória na garganta

E nas esporas que traz.

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O galo é sempre o primeiro

A anunciar a s auroras.

Repara bem: tem esporas

E é por isso cavaleiro.

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Coroa tem e de lei,

Coroa em forma de crista

Que ganhou numa conquista:

Por isso julga-se rei.

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Pendentes até o peito,

Vermelhas, grandes e belas,

Tem barbas que são barbelas

Que lhe dão muito respeito.

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Com que delicado amor

Ele defende e acarinha

Ora o pinto, ora a galinha

Com seu gesto protetor!

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De cabeça levantada,

Altivo sobre o poleiro,

Ele é o rei do galinheiro

E o cantor da madrugada.

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Vivem todos sob a lei

E ordens que o galo decreta:

Soldado, músico e poeta,

Pastor, cavaleiro e rei!

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Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.  Começou a  colaborar na imprensa paulistana e carioca aos 20 anos. Na revista  A Semana, alcança rápido prestígio literário.  Casou-se em 1909, recolhendo-se à vida particular e praticamente abandonando a atividade literária.

Obras:

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)





Uma versão musical belíssima de uma antiga cantiga folclórica brasileira

6 01 2011

Anjo com coração, de Claudia Quioda.

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Se essa rua, se essa rua fosse minha

Canção folclórica brasileira

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Se essa rua, se essa rua fosse minha,

eu mandava, eu mandava ladrilhar,

com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,

para o meu, para o meu amor passar.

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Nessa rua, nessa rua tem um bosque,

que se chama, que se chama solidão,

dentro dele, dentro dele mora um anjo,

que roubou, que roubou meu coração.

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Se eu roubei, se eu roubei teu coração,

tu roubaste, tu roubaste o meu também.

Se eu roubei, se eu roubei teu coração,

foi porque, só porque te quero bem.

AGORA OUÇA:

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