Os relógios, poema de Décio Valente

26 09 2012

Ilustração Kaili.

Os relógios

Décio Valente

Sempre andando,

sem parar um segundo,

vão eles,

em monótono tique-taque,

levando o Tempo

nos finos braços,

que se enlaçam

em contínuos abraços

e marcam,

minuto a minuto,

a pontualidade

das horas tristes e alegres,

que passam…

Em: Cantiga Simples: poesias, Décio Valente, São Paulo:1971





Andorinhas, poesia de Stella Leonardos

23 09 2012

Andorinhas no galho, aquarela, Sherri Friesman.

Andorinhas

Stella Leonardos

Namoradas do sol, andorinhas inquietas,

Poesia dos beirais de asas leves e errantes!

Vocês vêm vocês vão como versos trissantes

De sílabas azuis, de rimas incompletas.

Andorinhas azuis de revoadas constantes!

Você me lembram sempre a saudade dos poetas

Incansáveis da altura e dos céus mais distantes.

Em: Pedra no Lago, Stella Leonardos, Rio de Janeiro, Livraria São José:1956, p. 27

Stella Leonardos da Silva Lima Cabassa (Rio de Janeiro RJ, 1923). Poeta, tradutora, romancista, com mais de 70 obras publicadas, em poesia, prosa, ensaios, teatro, romances e literatura infantil.  Considerada membro expoente da 3ª geração de poetas modernistas.  Um dos maiores nomes da poesia contemporânea no Brasil.





A cidade, poesia de Luís Pimentel

8 09 2012

Dia de chuva em São Paulo, 2009

Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 80 x 110 cm

www.cgentil.com.br

A cidade

Luís Pimentel

Uma cidade não é medida

por becos e logradouros,

nem lembra contas e cálculos

que a gente parte e reparte.

A cidade é o que fica:

solidão, engenho e arte.

Uma cidade é um rosário,

voltando sempre ao começo.

Não é o filho querido,

que quando cresce evapora.

A cidade  é o que se conta

no calcanhar da memória.

Em: O calcanhar da memória, Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2004





Narciso e o Regato — poema de Bastos Tigre

2 09 2012

Eco e Narciso, 1903

John William Waterhouse (Inglaterra, 1849-1917)

óleo sobre tela, 109 x 189 cm

Walker Art Gallery, Liverpool

Narciso e o Regato

Bastos Tigre

Sobre um tema de Oscar Wilde

Morreu Narciso. A triste nova

Correu, veloz, vale e colina,

Em luto, as flores todas da campina,

De pesar como prova,

Choraram longamente a morte de Narciso.

De repente, cessou o alegre riso

Que enchia o campo todas as manhãs.

Narciso era a beleza

Que iluminava a Natureza

E espalhava no espaço harmonias pagãs.

Por isso as flores todas da campina

Choraram tanto, tanto,

Que já não tinha gotas a neblina

Com que pudesse alimentar o pranto

Das desoladas flores.

Resolveram pedir a linfa cristalina

Do regato, um bocado de sua água;

E falaram-lhe assim:  — Narciso é morto!

À  nossa dor à nossa funda mágoa

O pranto falta que nos dê conforto.

Dá-nos uma pouco de tua água pura.

Mas o regato retorquiu: — Não posso…

Meu sofrimento inda é maior que o vosso!

A água que tenho não me basta

Para afogar a minha própria dor…

Sabeis? Narciso a sua face linda

Mirava, todo o dia, em minha face…

— E amavas tanto vê-lo? interroga uma flor

— Não é que o não amasse

(Volve o regato) mas o meu desgosto

Aqui vo-lo revelo,

Não é a falta de lhe ver o rosto

Mas porque, quando em mim se contemplava,

Nos olhos de Narciso eu me mirava

E me achava tão belo! E me achava tão belo!

Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, vol. I, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves: 1982





Vidas simples, Corrêa Júnior

26 08 2012

Carro de boi, s/d

João Bosco Campos (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Blog do José Rosário

Vidas simples

Corrêa Júnior

Eis-me aqui, na bucólica doçura

desta risonha e encantadora vila,

onde gozo, há dois meses, a ventura

de uma vida suavíssima e tranquila.

Palpitante de cores e de festas,

a mata em flor abre-se em mil botões…

Que alvoroço de ninhos, nas florestas!

Que infinito de paz, nos corações!

Aqui tudo à alegria nos exorta;

há pureza nas almas e no clima;

o ar sadio da terra nos conforta,

a bondade dos homens nos anima.

Vendo, assim, tão perto a natureza

cheia de encantos e de exemplos sábios,

a gente há de ter sempre, com certeza,

mais ternura nos olhos e nos lábios.

Longe da agitação e do barulho,

ante a moldura desta vida calma,

o homem se despe da maldade e orgulho,

e veste de esperanças a sua alma.

E, quando, um dia, ele regressa à vida

agitada das grandes capitais,

a alma que nele volta agradecida,

dessas paragens não esquece mais!

Em: Criança Brasileira, terceiro livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos,  [edição especial para o Rio Grande do Sul],  Rio de Janeiro, Agir: 1950.





Sem melar as mãos, poesia infantil de Francisco Azevedo

4 08 2012

Margarida toma sorvete, ilustração de Maurício Sousa.

Sem melar as mãos

Francisco Azevedo

Nesta vida

a gente vai tomando sorvete

como pode.

O pescoço torto

lambe em volta

pra não cair respingo.

De repente, suspense:

a língua salva

em segundos

o excesso que escorre.

Os olhos não enxergam

um palmo adiante do nariz:

riscos e cuidados

sujeira por um triz.

Ao final

(Mesmo de colher)

só os raros chegam

sem melar as mãos.

— Me alcança um guardanapo, vai.

(New York, 1982)

Em: A casa dos arcos, Francisco Azevedo, Paz e Terra: 1984, Rio de Janeiro

Francisco José Alonso Vellozo Azevedo, (Rio de Janeiro, RJ , 23/2/1951) –  formado em direito, diplomata, escritor, roteirista, cinematógrafo e poeta.

Obras:

Contra os moinhos de vento, poesia e prosa, 1979

A casa dos arcos, poesia, 1984

O arroz de palma, romance, 2008

Doce Gabito, romance, 2012

Unha e carne, teatro

A casa de Anaïs Nin, teatro





O galo, poesia de José Paulo Moreira da Fonseca

26 07 2012

Galo cantando, ilustração de Walter Tomlin, capa da Revista House & Garden, de julho de 1927.

O galo

José Paulo Moreira da Fonseca


Antes do rubor da aurora

O teu vermelho canto se ergue em flamas

Ferindo a noturna paisagem, mas tão rude e sôfrego

Que dir-se-ia tudo perdido. E o repetes

E um novo cantar, ao longe, nos relembra a imensidão das sombras.

Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968





Quadrinha da chuva

21 07 2012

Chuva, ilustração de Walter Crane.

Em manhã chuvosa, a vida
canta no seio da mata
e há notas de água caída
no piano da cascata.

(José Lucas de Barros)





Romance das matas no Rio de Janeiro, poema de Celina Ferreira

11 07 2012

Morro do Borel, Rio de Janeiro, 1971

Armando Vianna ( Brasil, 1897-1992)

óleo sobre tela, 81 x 65 cm

Romance das matas no Rio de Janeiro

Celina Ferreira

Navios vão-se atracando,

chegam noturnos mineiros,

andarilhos vêm andando

e em cavalos, cavaleiros

trocando o sul e os cavalos,

as colheitas e o dinheiro

por uma braça de um rio

de inexistente janeiro.

As casas vertiniginosas

na floresta de cimento

sobem doidas, caprichosas,

arranhando o firmamento.

As ruas crescem, comprimem

o corpo azul do gigante

que se levanta irrascível,

touro raivoso e espumante.

Medrosos troncos se abraçam

na floresta verdadeira.

Cipós covardes se enlaçam

pelo corpo das palmeiras.

Tudo debalde. O homem lança

um olhar de certeira flecha,

dardo de fogo que alcança

o coração da floresta.

Ai soluço ressequido,

pranto escuro de carvão!

Ai fundo e negro suspiro

que se eleva na amplidão!

Línguas de um fogo faminto

estralam gula e paixão.

Ai! Das matas sobe um grito,

descem lavas de um vulcão.

Os homens plantam sementes

de fogo e míseras casas,

crivam duros alfinetes

na renda verde das matas.

Nas grimpas nuas, as chagas,

ontem, rubras de clarão,

hoje são tendas plantadas

entre reboco e carvão.

E a miséria fecundada

no gineceu das taperas

rebenta nas densas matas

uma estranha primavera.

Em: Poesia Cúmplice, Celina Ferreira, Rio de Janeiro, Livraria São José Ed.: 1959

Celina Ferreira — nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1928. Jornalista, dedicou-se também à literatura infantil.

Obras:

A princesa Flor-de-Lótus , 1958

Papagaio gaio: poeminhas, 1998

Obra poética:

Poesia de ninguém, 1954

Poesia cúmplice, 1959

Hoje poemas, 1967

Espelho convexo, 1973





Tupi, poesia infantil de Ladyce West

8 07 2012

Ilustração Ray C. Strang, capa da revista americana The Country Gentleman, de junho de 1930.

TUPI

Ladyce West

Hoje acordei bem cedo.
Vou pra casa da vovó!
Vou feliz e vou sem medo,
Vou levando o meu totó.

Tupi é meu melhor amigo.
Um vira-lata legal!
Quando o peguei no abrigo,
Chamava-se Tiquinho de tal.

Este nome não lhe cabia,
Já que era bem grandão!
Musculoso, ele se fazia
Respeitar na multidão.

Tupi, um nome guerreiro.
De índio, bem brasileiro!
Foi assim que o batizei,
No dia em que o adotei.

Com Tupi vou a todo lado,
De minha casa para escola,
Da pracinha pro gramado
Onde sempre jogo bola.

Vovó gosta das visitas
Que eu e Tupi lhe fazemos.
Prepara uma mesa bonita,
Com quitutes que comemos.

Tupi gosta do passeio.
Grunhe e corre, late e pula.
Nem um pingo de receio,
Vovó lhe incentiva a gula.

Truques e truques ele faz:
Para e senta, deita e rola.
Quer bolachas da sacola
Que vovó sempre lhe traz.

Da série: Pequetita, poesias infantis, Rio de Janeiro: 2008

© Ladyce West, 2008, Rio de Janeiro