Chácara, poesia de Domingos Pellegrini

29 06 2012

Ipê Rosa, s/d

Funchal Garcia (Brasil, 1889-1979)

óleo sobre madeira, 50 x 60 cm

Chácara

Minha chácara sempre surpreende

ora com novo canto passarinho

ora com a picada de um espinho

porém do mesmo ramo onde a flor pende

A lesma vai lambendo seu caminho

cachorro olha como quem entende

e o beija-flor é o único que tem de

mostrar pressa aqui nesse mundinho

Quando menos se espera amadurecem

frutos e idéias entre sentimentos

que de janela aberta adormecem

Para varrer emprego o Senhor Vento

embriagado sempre que florescem

os meus mais perfumados pensamentos

Em: Gaiola aberta: 1964-2004, Domingos Pellegrini, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2005





Travessura, poesia infantil de Sílvio Ribeiro de Castro

9 06 2012

Desconheço a autoria dessa ilustração.

Travessura

Sílvio Ribeiro de Castro

O menino jogou

—————uma pedra

———————–para o alto

no mesmo instante

——-que uma estrela cadente

riscou o céu e caiu

Mãiê, juro que foi

———————sem querer!

Em: Poesia Simplesmente, [coletânea de poetas contemporâneos] org. Roberto Pontes, Rio de Janeiro, PS: 1999.





Noturno, poema de Jayme Quartin

7 06 2012

Paisagem com lua, 1925

Max Beckmann (Alemanha,1884-1950)

óleo sobre tela

Noturno

Jayme Quartin

Noturno de coruja

vagalume e grilo

noturno das vacas

silentes mastigantes

pensamentos brotam

do capim gordura

destacam-se das

sombras

os silêncios profundos

como lontras emergentes

do rio

pescando delineadas

lâminas em prata

que os antigos

chamavam

de peixe.

Noturno dos piados

esquisitos no alto

da mangueira

e o cajado

do fantasma

batendo no chão.

Noturno de brisas.

Noturno de

odores

multifaceiro

veloz e a

cores.

Nas asas misteriosas

da noite

o vôo do bacuráu!

Em: Ray-ban, de Jayme Quartin, 1995.





Amigos, poesia de Yde Blumenschein

3 06 2012

Ostende, s/d

Jean Jacques René (França, 1943)

óleo sobre tela, 65 x 81 cm

Coleção Particular

Aos meus amigos

Ide Blumenschein

Não sei como expressar o sentimento

De gratidão imensa que me invade…

Parece até um dos sonhos que eu invento

Essas provas de afeto e de amizade,

Que de Vocês recebo. É um monumento

A sua indiscutível lealdade:

Na jornada que há tanto tempo enfrento,

Não pode haver maior felicidade.

Que essa de ter amigos como os tenho,

E que, de conservar, tanto me empenho,

Feliz, agradecida, emocionada.

Não sei como dizer … Mas, essas provas

De bem querer são esperanças novas,

Semeando roserais em minha estrada.

Yde Schloenbach Blumenschein [ pseudônimos: Colombina e Paula Brasil] nasceu em São Paulo em 1882. Fez seus estudos tanto no Brasil como na Alemanha. Falava alemão, francês, inglês, espanhol e italiano. Poeta, cronista teve seus poemas publicados em A Tribuna, de Santos. Colaborou em revistas e jornais como O Malho, Fon-Fon, Careta e Jornal das Moças. Faleceu em 1963.

Obras:

Sândalo, poesia, 1941

Distância, poesia, 1947

Versos em lá menor, poesia, 1949

Lampeão de gás, poesia, 1950

Gratidão, poesia, 1954

Manto de Arlequim,poesia, 1956

Inverno em flor, poesia, 1959





Simplicidade, Felicidade… poema de Guilherme de Almeida

20 05 2012

Paisagem com pastora, s/d

Gentil Garcez (Brasil, 1903-1992)

óleo sobre tela, 43 x 60 cm

Simplicidade, Felicidade…

Guilherme de Almeida

Simplicidade… Simplicidade…

Ser como as rosas, o céu sem fim,

a árvore, o rio… Por que não há de

ser toda gente também assim?

Ser como as rosas: bocas vermelhas

que não disseram nunca a ninguém

que têm perfumes… mas as abelhas

e os homens sabem o que elas têm!

Ser como o espaço, que é azul de longe,

de perto é nada… Mas quem o vê

— árvores, aves, olhos de monge —

busca-o sem mesmo saber porquê.

Ser como o rio  cheio de graça,

que move o moinho, dá vida ao lar,

fecunda as terras… E, rindo, passa,

despretencioso, sempre a cantar.

Ou ser como a árvore: aos lavradores

dá lenha e fruto; dá sombra e paz;

dá ninho às aves; ao inseto, flores…

Mas nada sabe do bem que faz.

Felicidade– sonho sombrio!

Feliz é o simples que sabe ser

como o ar, as rosas, a árvore, o rio:

simples, mas simples sem o saber!

Em: Poesia Brasileira para a Infância, de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1968, Coleção Henriqueta.

Guilherme de Andrade e Almeida (SP 1890- SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Formou-se em direito em 1912, pela Faculdade de Direito de São Paulo.

Obras:

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).





Abrem-se os lírios, poesia de Alice de Paula Morais

8 05 2012

Florista

Manoel Costa (Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 45 x 60 cm

Abrem-se os lírios

Alice de Paula Freitas

É mês de maio… na fria noite

Bailam felenas, tontas, pelo ar…

Brincam as folhas ao leve açoite

Das brisas mansas, sob o luar…

Fosforescentes, de vaga-lumes

Passa entre as silvas o leve bando…

No ar se esgarçam vagos perfumes

De rosas brancas se desfolhando…

Escuta… os ruídos que vêm da mata

Baixinho ferem nossos ouvidos…

Grilos que cantam a serenata

Em semibreves… em sustenidos…

Suspira a noite… plácida, a lua,

Lividamente, vaga no além…

Tão linda e branca, brilhante e nua…

… E as magnólias que inveja têm!

Desce a neblina… a curva serra

Seu alvo manto toda branqueia!

É mês de maio… Na minha terra

Abrem-se os lírios à lua cheia!

Alice de Paula Morais (SP 1908-?)  Nasceu em Ilhabela. Professora.

Obras:

Folhas ao vento, poesia

Poemas do outono, poesia, 1969

Rumo ao poente, poesia, 1979

 





A Camões — soneto de Manuel Bandeira

22 04 2012

 

Mosteiro de Batalha, Portugal, *

Azulejaria portuguesa

A Camões

Manuel Bandeira

Quando nalma pesar de tua raça

A névoa da apagada e vil tristeza,

Busque ela sempre a glória que não passa,

Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,

Te resumiste em ti toda a grandeza:

Poeta e soldado… Em ti brilhou sem jaça

O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente

Da estirpe  que em perigos sublimados

Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá, sem poetas nem soldados,

A língua que cantaste rudemente

As armas e os barões assinalados.

Em:  Bandeira, antologia poética, Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Sabiá:1961, 5ª edição.

* Escolhi uma representação do Mosteiro de Batalha, em Portugal por ser uma das obras arquitetônicas que conheço de maior impacto. É realmente um monumento extraordinário.  Infelizmente desconheço alguma pintura de pintor português que represente esse local ou até mesmo detalhes desse local.





Cabral, poema de Raquel Naveira

19 04 2012

Cabral

(a Pedro Álavares Cabral)

Cabral,

Navegador,

Bom soldado,

Cristão,

Leal,

Chefe ideal

Da esquadra de Portugal.

Partiram as treze naus,

Semanas e semanas no oceano,

Com medo de dragões,

Serpentes aladas

Que brotavam dos sonhos maus.

As caravelas ligeiras

Singravam os mares,

Uma sumira;

De repente, algas marinhas,

Aves nos ares,

De terra à vista,

O sinal.

Em: Casa e Castelo, Raquel Naveira, São Paulo, Escrituras: 2002, [Poemas dos livros Casa de Tecla e Senhora].





Pralapracá, poesia de Cassiano Ricardo, uso escolar

30 03 2012

Desconheço a autoria dessa ilustração.

Pralapracá

Cassiano Ricardo

E começa a longa história

do navio que ia e vinha

pela estrada azul do Atlântico:

Ia, levando pau-brasil

e homens cor da manhã, filhos do mato,

cheios de sol e de inocência;

vinha trazendo delegados…

Ia, levando uma esperança;

vinha trazendo foragidos de outras pátrias

para a ilha da Bem-aventurança.

Ia levando um grito de surpresa;

————- da terra criança;

e vinha abarrotado de saudade

————–portuguesa…

Em: Martim Cererê de Cassiano Ricardo, Rio de Janeiro, José Olympio: 1974

Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.

Obras:

Dentro da noite, poesia, 1915

A flauta de Pã, poesia, 1917

Jardim das Hespérides, poesia, 1920

Atalanta, poesia, 1923

A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924

Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925

Vamos caçar papagaios, 1926

Martim Cererê, poesia, 1928

Canções da minha ternura, poesia, 1930

Deixa estar, jacaré, poesia, 1931

O Brasil no original,  crítica, teoria e história literárias, 1937

O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938

Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939

Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939

Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942  

O sangue das horas, poesia, 1943

Paulo Setúbal, o poeta,  crítica, teoria e história literárias,  1943

A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943

Um dia depois do outro (1944-1946),  poesia 1947

Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950

A face perdida, poesia, 1950

Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952

Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953

O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954

Meu caminho até ontem, poesia, 1955

O arranha-céu de vidro, poesia, 1956

João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956

Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956

Poesias completas, poesias,  1957

Poesia, poesia,  1959

Martins Fontes, 1959

Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias,  1959

Montanha russa, poesia, 1960

A difícil manhã, poesia, 1960

O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964

A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964

Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964

Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966

Jeremias sem-chorar (1964)

Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970

Serenata sintética, poesia XX

Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971

Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972

Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias,  1974

Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974





Língua Portuguesa — soneto de Lindolfo Gomes

24 03 2012

Natureza morta com tinteiro, s/d

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela, 38 x 51 cm

Língua Portuguesa

Lindolfo Gomes

Amo-te, ó minha Língua Portuguesa,

Doce, maviosa, rica e feiticeira,

De todas do universo és a primeira,

Que nenhuma haverá de mais beleza.

Do carme expressional da Natureza

Em ti ressoa a sinfonia inteira…

E, transplantada à terra brasileira,

Mais formosa ficaste com certeza.

Vingaram de teu tronco outros renovos,

Do esplendor destas matas no conchego…

És Bíblia de três raças e dois povos…

Resumes num vocábulo um poema:

Saudade, flor das plagas do Mondego,

Mais saudosa na pátria de Iracema!

Em: 232 Poetas Paulistas: antologia, ed. e seleção Pedro de Alcântara Worms, Rio de Janeiro, Conquista:1968.

Lindolfo Eduardo Gomes (SP 1875 – RJ 1953) Poeta, Jornalista, contista, ensaísta, folclorista, professor e teatrólogo.  Passou sua juventudo em Resende, no estado do  RJ, mudando-se mais tarde para Juiz de Fora, MG, onde passou grande parte da sua vida profissional tendo redigido para os jornais O Pharol, Jornal do Commercio, Diário do Povo, Diário Mercantil, revista Marília, entre outros.

Obras:

Folclore e Tradições do Brasil, 1915

Contos Populares Brasileiros, 1918

Nihil novi, 1927