Num Postal com dois cachorrinhos…, poema de Carlos Drummond de Andrade

15 12 2015

 

cachorro e gatinho de natal

 

Num postal com dois cachorrinhos e enfeites de Natal — perdão, com um gato e cachorrinho

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Este gato não é de araque,
é de copo de conhaque,
e o malandro cacholinho
fica olhando de fininho
para ver se a dona chega
e acaba com a bagunça.
Enquanto a dona não vem,
os dois fazem seu Natal
entre bolas, contas, flores,
pois neste mundo, afinal,
os dois bichinhos de truz,
como as damas e os senhores,
são filhinhos de Jesus.





Sublinhando…

8 12 2015

 

 

 

Louise Catherine Breslau (Swiss, 1856-1927). Oil on wood. Schweizerische Eidgenossenschaft, Bundesamt für Kultur, BernNa biblioteca

Louise Catherine Breslau (Suíça, 1856-1927)

óleo sobre madeira

Schweizerische Eidgenossenschaft, Bundesamt für Kultur, Berna

 

 

“Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada…”

 

 

Em: Velho Tema, de Vicente de Carvalho (Brasil, 1866-1924), Poemas e canções, 4ª edição, São Paulo, Editora O Livro: 1919.





Poema de Natal, Carlos Pena Filho

8 12 2015

 

 

sinos vermelhos, 1934Sinos, 1934.

 

 

Poema de Natal

 

Carlos Pena Filho

 

 

— Sino, claro sino,

tocas para quem?

— Para o Deus menino

que de longe vem.

 

— Pois se o encontrares

traze-o ao meu amor.

— E que lhe ofereces

velho pecador?

 

— Minha fé cansada,

meu vinho, meu pão,

meu silêncio limpo,

minha solidão.

 

 

Em: Melhores poemas, Carlos Pena Filho, Sel. Edilberto Coutinho, Editora Global:2000, 4ª edição, p.36.

 





Trova do nosso destino

4 12 2015

 

estrada, Stevan DohanosEstrada, ilustração de Stevan Dohanos, 1956.

 

Destino é força que esmaga…
Credor austero, tremendo:
– Manda a conta e a gente paga,
sem saber que está devendo.

 

(Barreto Coutinho)





Paralelos

28 11 2015

 

Thomas CoutureJovem cosendo, c. 1870

Thomas Couture (França, 1815-1879)

óleo sobre tela, 92 x 73 cm

Coleção Particular

 

 

 

“Pegando da costura à luz da claraboia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de joia.”

 

 

Em: Rústica, de Francisca Júlia (Brasil, 1874-1920) Esfinges, São Paulo, Monteiro Lobato & Cia, s/d, pp. 39-40





Poetas na Arte, Os objetos, poesia de Odylo Costa Filho

25 11 2015

 

ray.jpg chardinNatureza morta com arraia, 1728

Jean-Baptiste-Siméon Chardin (França, 1699-1779)

óleo sobre tela, 114 x 146 cm

Museu do Louvre, Paris

 

 

Os objetos

 

Odylo Costa Filho

 

 

No fechado silêncio dos objetos

mais simples mora um toque de magia.

De um só tijolo nasce a casa: afetos,

barro, sol, água, mesa, moradia,

 

e a presença tenaz das mãos humanas

afeiçoando o mistério da existência

e dando às coisas mais cotidianas

senso de vida — e de sobrevivência.

 

Chardin, quando há dois séculos viveu,

uma arraia pintou, disforme, aberta

em sangue e dentes, agressiva e forte.

 

Veio o tempo e com ele emudeceu

muita moda que a glória julgou certa.

Aquela arraia sobrevive à morte.

 

 

Em: Boca da noite, Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, Salamandra: 1979, p. 47

 





Trova humorística do recruta

22 11 2015

 

soldado, 1926, ruth egerIlustração Ruth Eger, 1926.

 

 

Ao recruta João Leal

indaga o cirurgião:

– Onde é que te sentes mal?

Diz ele: – No batalhão!

 

(Severino Uchôa)





Trova das mentiras

19 11 2015

 

mulher de chapéuDesconheço a autoria da ilustração.

 

Do dia a dia na cena

a verdade não prefiras,

que a vida só vale a pena

por suas lindas mentiras.

 

 

(Gilka Machado)

 





Lira Itabirana, poesia Carlos Drummond de Andrade

15 11 2015

 

 

Holmes Neves - Paisagem Mineira - 1984 - O.S.T - a.c.i.e. - 50x61 cm - Medidas com moldura 53,5x64 cmPaisagem mineira, 1984

Holmes Neves (Brasil, 1925)

óleo sobre tela, 50 x 61 cm

 

 

Lira Itabirana

 

 

Carlos Drummmond de Andrade

 

 

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

 

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

 

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

 

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?

 

(1984)
PS: Agradeço aos leitores que me mandaram esta poesia de Drummond tão preciosa nos dias de hoje.




Trova das horas contadas

3 11 2015

 

 

moça à noite, Ilustração F Cayley RobinsonMoça à noite, ilustração de F. Cayley Robinson.

 

 

Nos dedos eu conto as horas,

não sei contar diferente,

mas, hoje, sei que demoras

bem mais do que antigamente.

 

(Amália Max)