Retrato de duas meninas e sua governanta
Abraham Solomon (GB, 1823-1862)
óleo sobre tela
“O poema é um segredo dividido por pessoas que não se encontraram.”
Charles Simic
Retrato de duas meninas e sua governanta
Abraham Solomon (GB, 1823-1862)
óleo sobre tela
Charles Simic

Flautista, 1934
Cândido Portinari (Brasil, 1903-1962)
óleo sobre madeira, 46 x 37 cm
Coleção Particular
Mauro Mota
Para onde fui? Ou essa
música de onde veio?
Uma flauta divide
a noite pelo meio.
Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.
Ilustração de Maud Tousey Fangel.
Paulo Setúbal
Um bebê… Ai que ventura
Do nosso peito extravasa!
Há um mês que é a nossa loucura,
Que é a joia da nossa casa.
Mimo não há, sem enleio,
Que mais alinde as vivendas,
Do que um bercinho bem cheio
De laçarotes e rendas.
E nesse ninho de luxo,
— Com dois berloques e um guiso,
Ver um petiz, bem gorducho,
Que nos envia um sorriso.
Ah! Nada eu sei de mais preço,
Nem nada mais inocente,
Do que um sorriso travesso
Numa boquinha sem dente!
E ao ver-te, entre o fofo arranjo
Do teu bercinho tão doce,
Eu sinto bem que és um anjo
Que Deus ao mundo nos trouxe…
E assim, bebê cor de leite,
Com olhos da cor do mar,
Tu és o único enfeite
Do nosso lar!
Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 179-180.
Zé Carioca procura por seus amigos, ilustração de Walt Disney.
Wilson W. Rodrigues
Cadê o pé de cantiga
que quando criança cantei?
Nem minha gente se lembra
e nem na saudade achei.
Que sabe o verso perdido?
Por que ninguém o guardou?
Onde leva a nossa vida
que o verso bom não levou?
Quem me recorda sua rima?
Quem minha lembrança traz,
para cantar a cantiga
de que não me lembro mais?
Nem me responde a alegria
Nem a tristeza responde.
Cadê o pé de cantiga
onde vou encontrá-lo? Onde?
Em: Bahia Flor: poemas, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1949.p. 19.
Humberto da Costa (Brasil, 1941)
óleo sobre tela, 27 x 22 cm
Dona Margarida
Paulo Setúbal
Conheço apenas Dona Margarida
Por tê-la visto, acaso, num salão.
Seu negro olhar, cheio de fogo e vida,
Deixava em cada peito uma ferida,
Em cada peito abria uma paixão.
E eu, como os outros, vendo-a tão querida,
Tão moça, tão formosa, tão feliz,
Trouxe comigo, na alma dolorida,
A funda mágoa, Dona Margarida,
De não ter dito o que dizer lhe quis.
Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920] p. 109-110.
Ilustração de Walter Crane, 1877.
Paulo Setúbal
“Vamos?” disseste… E eu disse logo: vamos!
Ia no céu, nos pássaros, nos ramos,
Uma alegria esplêndida e sonora;
E tu, abrindo ao sol como uma tenda,
Tua sombrinha de custosa renda,
Partimos ambos pela estrada afora…
Com que emoção — recordas? — com que gozo,
Eu vinha te esperar, vibrante e ansioso,
Nessas novenas de plangências cavas.
E como um cavalheiro que se preza,
Timbrava em te levar, depois da reza,
Até ao portão da chácara em que estavas.
Certa vez… Vá, não cores desse jeito!
Era de noite. Arfava-nos o peito.
Ardia em nós um lânguido desejo,
Tomei-te as mãos… Sorriste… E aí, num assomo,
As nossas bocas sem sabermos como,
Famintamente uniram-se num beijo!
Em: Alma cabocla, poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 135-136
Senhora idosa e menino à luz de vela
Mathias Stom (Holanda(?) Bélgica (?), c. 1600 — depois de 1652)
óleo sobre madeira, 58 x 71 cm
Birmingham Museums Trust, Birmingham, Inglaterra
Jorge de Lima
Põe azeite na tua lamparina
Para que a treva eterna se retarde.
A tarde há de ensombrar a tua sina
E a Morte é indefectível como a tarde.
Observa: a sua luz não tem o alarde,
Que as combustões de súbito confina.
O fogaréu indômito ilumina,
Mas, quase sempre, em dois instantes arde.
A lamparina, entanto, muito calma,
— Luz pequenina, que parece uma alma,
Que à Grande Luz celestial se eleva –,
Espera nesse cândido transporte,
Que, extinto sendo o azeite, chegue a Morte,
Que a luz pequena para a Grande leva.
Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 52
Chuva, ilustração de Tatsuro Kiuchi.
Wilson W. Rodrigues
Chuva — miçangas do céu
de um invisível colar
que na amplidão se partiu
veio na terra tombar.
Chuva — miçangas do céu
feita de pingos de luz;
cada pingo — estojo d’água
que um diamante conduz.
Chuva — miçangas do céu
do colar que se partiu;
miçanga — orvalho perdido
que no seu peito luziu.
Em: Bahia Flor – Poemas, Wilson W. Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: s/d, p. 127
Nota: Na publicação original a palavra miçangas encontra-se escrita com dois esses — missangas. Ambas as formas: miçangas e missangas estão corretas. No entanto, desde a publicação deste livro [acredito que tenha sido publicado nos anos 50 do século passado] convencionou-se que a forma missanga é a correta em Portugal enquanto que a forma miçanga é a correta no Brasil. Assim, ao postar este poema troquei a grafia para corresponder à forma correta no Brasil.
Ilustração de Russell Strambrook.
Paulo Setúbal
Foi pelo tempo alegre da moenda,
Quando aos quinze anos, tudo nos sorria,
Que nós tecemos, juntos, na fazenda,
Toda uma história de infantil poesia.
E sob um pessegueiro, amplo e robusto,
Cheio de frutos e de passarinhos,
Foi que nós ambos, pálidos de susto,
Nos encontramos certa vez, sozinhos.
Tão confusos, tão tímidos ficamos,
Ao vermo-nos juntinhos no pomar,
Que nós, olhando os pêssegos nos ramos,
Nem tínhamos coragem de falar.
Mas de repente — que ventura louca!
Ela sorriu-me, trêmula de pejo,
E eu lhe furtei da pequenina boca,
Um pequenino e delicioso beijo…
Foi desde então que na minh’alma eu trouxe,
Como lembrança desse amor fagueiro,
Esse beijinho estaladinho e doce,
Que nós trocamos sob o pessegueiro.
Em: Alma cabocla,Poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 87-88
Armando Romanelli (Brasil, 1945)
óleo sobre tela, 60 x 60 cm
Wilson W. Rodrigues
Tão longe, tão longe,
nas ondas do mar,
nos véus da neblina,
no vento a cantar,
na areia doirada
do fundo das águas
eu ouço Iemanjá…
Nem velas, nem brumas
vêm onde ela está,
nem sonho de amante
um dia virá…
Tão longe, tão longe
amada longínqua,
fantasma do mar.
Tão longe as rosas
que vão-se afogar,
levando a tristeza
que não sei matar,
por essa lonjura
que a vida separa
de minha Iemanjá…
Tão longe, tão longe,
minha alma a cantar,
há muito já foi,
pro fundo do mar,
sofrer do mistério
da amada distante,
ó doce Iemanjá!…
Em: Bahia Flor: poemas, de Wilson W Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1948, p.35-36.