Paz na Terra, poesia de Francisco Azevedo

7 12 2012

Natal, ilustração de Pauli Ebner.

Paz na Terra

Francisco Azevedo

O céu que vejo de manhã

é cor-de-rosa

de um sol virando na cama

pr’ acordar

pequenas nuvens violetas

outras mais pro azul-claro

a estrela do pastor

segue o seu rumo

e os anjos

em ritual silêncio

fazem

com um beijo

a troca da guarda.

(Rio, 1982)

Em: A casa dos arcos, Francisco Azevedo, Paz e Terra: 1984, Rio de Janeiro

Francisco José Alonso Vellozo Azevedo, (Rio de Janeiro, RJ , 23/2/1951) –  formado em direito, diplomata, escritor, roteirista, cinematógrafo e poeta.

Obras:

Contra os moinhos de vento, poesia e prosa, 1979

A casa dos arcos, poesia, 1984

O arroz de palma, romance, 2008

Doce Gabito, romance, 2012

Unha e carne, teatro

A casa de Anaïs Nin, teatro





Natal brasileiro, texto de Júlia Lopes de Almeida

6 12 2012

B2-N-5306-W13Y-KG

Neste esfacelar de usos e tradições, poucas pessoas encontram ainda encanto em seguir costumes de avós que se foram há muito tempo, e de quem as caveiras, lá no fundo das covas, já não guardam nem resquícios de pele!

A nossa vida agitada precisa de um esforço para relembrar os divertimentos antigos, e não é senão por condescendência que muita gente faz horas para ir à missa do galo ou que deixa o espetáculo pela ceia caseira, obrigada a certos pratos que o desuso tornou para muitos paladares simplesmente abomináveis.

Noites quentes, maravilhosas noites de verão, banhadas de luar, impregnadas do aroma da magnólia e do jasmim-manga, convidando por certo muito mais aos passeios pelos arredores da cidade, ouvindo cigarras e violas de serenatas, do que a fecharmo-nos em uma sala, em frente a um prato de canja fumegante, entre os globos de gás a toda a luz e uma toalha branca onde a louçaria brilhe com o seu luzimento de esmalte.

Estas festas são doces às mamães, porque chamam para o seu redil as ovelhas soltas por diversos pontos da cidade. Nestes dias, como que se ouvem badaladas de sinos de ouro que, a cada repique, dizem assim:

— Vinde para casa! Vinde para casa! É aqui que vos amam! E as ovelhas param, escutam, torcem caminho e voltam para o aprisco de onde tinham partido.

A amante que espere, pensam os rapazes; que se estorça de raiva vendo-se preferida. É preciso também contentar a mamãe, que sorri acudindo a tudo e a todos com a mesma paciência de há trinta anos, quando os filhos eram pequenos e não sabiam de nada na vida que igualasse à sua companhia!

“Boa mamãe! dizem-lhe eles agora, perdoai os nossos desvarios de rapazes! Nós cá estamos no teu regaço, olhando para o teu rosto, beijando as nossas irmãs.”

E a mamãe vai e vem, com os lábios risonhos e os olhos brilhantes. E o sino de ouro da casa, cujas badaladas se ouvem ao longe, mal ela o sabe! É o seu coração angustiado, pisado de sofrimentos, de dúvidas, de saudades, mas que todo se enflora ainda de esperanças, porque é de mãe!

Festas familiares sois peregrinamente bondosas e dementes para os velhos!

Sim, é por condescendência que muita gente deixa a noitada ao relento pela ceia caseira, em que se comem coisas suculentas, se ouvem valsas marteladas ao piano, ou se conversam assuntos repisados.

Na roça é que estas festas do Natal e do Ano-Bom têm uma cor mais brasileira. Aqui na cidade fazemo-las seguindo os costumes portugueses. O frio do Natal europeu impele as famílias para o interior das suas casas, para o calor dos fogões e das ceias fumegantes. O nosso Natal é tão diverso! Em vez da neve temos o sol; em vez da ventania áspera, que obriga as pobres criaturas a irem para a igreja envoltas em capotes, salpicadas de lama e de chuva, temos noites estreladas, cheirosas, em que moças e rapazes vão à meia-noite ouvir a missa do galo, com trajes alegres, sem recear bronquites, podendo folgar pelos caminhos à luz das estrelas palpitantes e coloridas. Na roça é assim. A criançada come ao ar livre pinhões cozidos e faz a algazarra que apraz. As moças dançam no terreiro com os namorados, e os velhos, sentados sob o alpendre, contam anedotas, rememoram visitas a presépios antigos, até que o sino os chame e eles partam todos, aos magotes, para a capela tão sua conhecida, tão sua amada!

Se fosse possível deveríamos inventar festas adequadas ao nosso clima, estabelecê-las, fixá-las, torná-las nossas.

Os costumes europeus não podem, em absoluto, ser reproduzidos aqui. Há no Brasil climas mais frios do que em alguns países da Europa; no alto Paraná o gelo quebra os galhos das árvores e o aldeão tirita lavrando terra. Mas de que vale isso, se as estações são trocadas e o nosso Natal desabrocha em pleno verão! O nosso Natal! Bem que ele precisa de outro emblema. O velho de longas barbas brancas, nariz cor de morango maduro, capote espesso lanzudo e gorro de peles, é filho das terras nevadas, cortadas pelos uivos do vento, tão cruel para os pobres. O nosso Natal é moço, é risonho, é caritativo; abriga os sem vintém, e as criancinhas nuas não o temem, porque ele afaga-as o seu bafo cheiroso e veste-as com a sua luz quente e doirada!

Em: Livro das Donas e Donzelas, Julia Lopes de Almeida, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1906  — EM DOMÍNIO PÚBLICO





O Natal em poucas palavras — Roy L. Smith

6 12 2012

Natal, cartão postal.

“Quem não tem o espírito do Natal em seu coração nunca o achará debaixo da árvore”.

Roy L. Smith





Natal — poema de Sabino de Campos

5 12 2012

Sagrada Família

Il Pesarese, Simone Cantarini (Itália, 1612-1648)

óleo sobre tela, 72 x 55 cm

Museu do Prado, Madri

Natal

Sabino de Campos

Natal.  É noite silente.

Numa pobre manjedoura,

Maria, divinamente,

No venttre um Deus entesoura.

José murmura, almo e crente,

Uma prece.  Do Alto, loura

Réstia de luz, docemente,

A face calma lhe doura.

Para reger o destino

Do mundo, nasce o Menino

Entre glórias na amplidão.

Os galos cantam nos prados

E seus clarins reiterados

Ecoam na solidão!

(Versos da meninice)

Cachoeira, Ba

Em: Natureza, Sabino de Campos, Rio de Janeiro, Pongetti, 1960





Planos de escrita, texto de Plínio Bastos

4 12 2012

Gari Melchers, O sermão, 1886,  ost, [EUA, 1860-1932]

O sermão, 1886

Gari Melchers (EUA, 1860-1932)

óleo sobre tela,  159 x 219 cm

Smithsonian American Art Museum, Washington DC

“ O professor saiu da janela e sentou-se à mesinha onde estavam seus livros.  Abriu o bloco de papel branco; experimentou a caneta tinteiro; desenhou um arremedo de templo grego bem no alto da página.  Primeiro faria um esboço do seu livro, sobre o qual ainda há pouco pensara tanto, anotando as cenas principais, as personagens que iria criar ou reproduzir, as ideias que precisava desenvolver. Mais tarde, quando voltasse para casa, completaria o que estivesse apenas esboçado. O cenário do livro seria Santo Estefânio, cujo nome talvez trocasse, e a história se desenvolveria partindo de um núcleo: seu amor de quarentão pela jovem Madalena, amor que recordaria sua paixão por Lenora, paixão que o faria refluir à sua pequena cidade do nordeste, à Elsie, a protestante, e à sua igrejinha, que ficava de frente para a lagoa enorme de águas tranquilas. Adolescente, rapaz, quarentão, nos meios mais diferentes, o seu amor não variava de estilo, seguia sempre os mesmos caminhos, embora diferisse o objeto do seu amor. E mostraria no livro, sem piedade para consigo mesmo, a constância das situações ridículas em que se enleiava sempre que se apaixonava. A cena da festa de natal na Igreja dos protestantes, o rosto em fogo, sem saber onde colocar as mãos, atento aos movimentos e à expressão do rosto do Pastor, sem ânimo para fugir, as irmãs de Elsie cochichando, contendo o riso, olhando de soslaio em sua direção. E depois a passagem do Pastor, alto e seco, pelo tapete que ia do púlpito à porta de entrada, acompanhado da esposa, Elsie de olhos brilhantes, sorrindo e sem ohar para os lados, as irmãs de cabeça baixa, contendo o riso, e ele sem poder fugir, morrer, não existir, tal como era o seu desejo naquele momento”.

Em: A estrela e o professor, Plínio Bastos, Rio de Janeiro, Liv. Império: 1956.

Plínio Bastos, (Brasil) professor, romancista, poeta e historiador.

Obras:

A vida comercial, 1954

A Estrela e o Professor, romance, 1956

Talvez Alguém se Salve, romance, 1958

Um Crime, romance, 1961

Justiça Triste, romance, 1962

História do Mundo, história, 1960

História do Brasil, história, 1959

As Grandes Mitologias do Mundo, 1959

Galeria de brasileiros ilustres, biografias, 1953





O Natal em poucas palavras — Hamilton Wright Mabie

4 12 2012

Cartão Postal, Alemanha.

“Bendita seja a data que une a todo mundo numa conspiração de amor”.

Hamilton Wright Mabie





Cartões de Natal com pássaros II

3 12 2012

Cartão de Natal alemão.  Sem data.

Cartão de Natal, americano, desenho de Michael Coulter.

Pintarroxo no galho, cartão de Natal.

Chilreios de Natal, década de 1970 (EUA).

Pintarroxo cantando, cartão de natal, ilustrado por M. Morris.

1 -- flamingos_popFlamingos com trenó, Natal na Flórida, cartão postal de Natal.

1 -- PÁSSARINHOS NO NATAL -- NEVEDuas meninas alimentam os passarinhos na neve, (França)

O tema de alimentar animais e pássaros está associado à caridade, qualidade que deve fazer parte das celebrações do Natal e se encontra em diversos cartões e postais de Natal de quase todos os países europeus e naqueles como os EUA e Canadá que mantiveram as tradições europeias da estação.

1 -- cartaõ de natalPassarinhos se acomodam em galho sobre a neve (EUA).

1 -- cc_el_110169Pintarroxo em galho coberto de neve e trenó de Papai Noel voando no céu da noite de Natal (França).

1 -- POMBINHOS ornu2tigCasal de pombinhas, presente de Natal, em cesta florida com ninho, c. 1900.

1 -- Natal com pombinhas e sinoPombinhas arrumam a guirlanda de Natal, cartão em relevo, c. 1900.

01 -- PASSARO-- CISNE NATALINO POINSETTIAPrimeiro e único cisne da minha coleção, com poinsettias, D. McCorcle, 2010.

01 POMBA DA PAZA pombinha da paz no Natal (EUA)

1 -- PÁSSAROS NA JANELA frohliche-weihnachtenPassarinhos no peitoril da janela atraídos pelo calor do lar (Alemanha).

1 -- BirdCardParece ser uma cena primaveril, mas é um cartão de Natal.
1 -- christmasbirdspcPintarroxos em noite de luar (EUA).

1 -- PASSARINHOS EM BANDO NA PAISAGEMUm bando esvoaçante de pássaros, depois da nevasca natalina (EUA).

1 -- 06PelicanTree
Árvore de Natal formada por pelicanos (EUA).

P

1-- PASSARINOS, PENGUINSPinguins de Natal, (EUA).

1 -- pombo voandoPomba da paz (EUA).




O Reisado no Natal– texto de Gilberto Amado

3 12 2012

assis costa reisado floral

Reisado floral, 2009

Assis Costa ( Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela

Assis Costa

“Para criança, o reisado é um deslumbramento. Os vestidos das pastoras e rainhas, o brilho dos canutilhos de folheado, o espelhante dos enfeites de latão, os laços de fita e os frocados de papel de seda, o relampejar das coroas de reis, rainhas e princesas, as sapatinas de cetim, todo ouropel da vestimentária já é uma festa. Os cantos, “Ò minha barca bela”, “Ó minha gurinhatá, aonde vais beber?”“, trançados de recordações da colonização e da adaptação à terra, o mar presente, os pássaros, os bichos, tudo isso tecido de episódios impregnados de drama, mostra a riqueza do gênio popular. A criança participava do reisado como se fosse personagem dele. Menino no reisado sente-se também rei como o rei da festa.

A muitos natais assisti em Itaporanga em tempo de férias. Menino está sempre em casa a esse tempo. Quando já taludo, nos tormentos da puberdade, peguei namoro num desses natais com uma dançarina de reisado, uma sertanejazinha levada da breca, cuja família por sinal acabou estabelecendo-se em Itaporanga. Encontrávamos, para  nossos idílios, no fundo do quintal da casa dela que acabava ao pé do oiteiro, lugar que seria ideal para esses encontros sem a água de um valado que passeava por ali. Na casa junto morava o estafeta dos telégrafos inaugurados havia pouco. Cantadiano (era seu nome) dava-se à brincadeira de irromper de dentro de umas toiças altas assim que nos juntávamos e de passar num ruído de bicho rasgando o mato e fazendo com que, na pressa com que nos separávamos, sujássemos os pés no valado. Divertia-se o idiota com essa perversidade”.

Em: História da minha infância, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1966, 3ª edição, pp 76-77.

NOTA WIKIPÉDIA:

Reisado é uma dança popular profano-religiosa, de origem portuguesa, com que se festeja a véspera e o Dia de Reis. No período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, um grupo formado por músicos, cantores e dançarinos vão de porta em porta anunciando a chegada do Messias e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam e dançam. Reisado também é muito conhecido como Folia de Reis.

O Reisado é de origem portuguesa e instalou-se em Sergipe no período colonial. Atualmente, é dançado em qualquer época do ano, os temas de seu enredo, variam de acordo com o local e a época em que são encenados, podem ser: amor, guerra, religião entre outros.

O Reisado se compõe de várias partes e tem diversos personagens como o rei, o mestre, contramestre, figuras e moleques. Os instrumentos que acompanham o grupo são violão, sanfona, ganzá, zabumba, triângulo e pandeiro.





Natal — poema de Olavo Bilac

3 12 2012

Adoração ao Menino Jesus, 1500

Ambrigui Bergognone (Itália, 1453-1523)

Natal

Olavo Bilac

Jesus nasceu. Na abóbada infinita
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda a vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria…


Não houve sedas, nem cetins, nem rendas
No berço humilde em que nasceu Jesus…
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha de morrer na Cruz.


Sobre a palha, risonho, e iluminado
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o Menino-Jesus, que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.


Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz deste lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes
Foi para os pobres seu primeiro olhar.


No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presepe os guia,
Vem cobrir de perfumes e de flores
O chão daquela pobre estrebaria.


Sobem hinos de amor ao céu profundo;
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo,
Quem ama os fracos, quem perdoa o Mal!


Natal! Natal! Em toda a Natureza
Há sorrisos e cantos, neste dia…
Salve Deus da Humildade e da Pobreza
Nascido numa pobre estrebaria.

Em: Terra Bandeirante, 4º ano — pequena antologia sobre a terra, o homem e a cultura do estado de São Paulo, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

Vocabulário:

abóbada — teto arqueado

infinita — sem fim

oferendas — presentes

palpita — agita-se

pompa — luxo, riqueza

reluzente — brilhante

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Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.

Obras:

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957) e obras didáticas





Crônica de Natal, Marques Rebelo, extraído do romance A mudança

2 12 2012

Cartão de Natal, 1990s.

24 de dezembro [1941]

A árvore, embora atarracada, não ocupa muito espaço – um canto de sala, o canto menos acessível, do qual foi removido o musgoso vaso com espadas-de-são-jorge, que alem de decorativas, segundo Felicidade, nos protegem do mau-olhado. O chacareiro queria um dinheirão por um pinheirinho de seis palmos, Luísa descalçou a bota na loja de novidades. Trouxe-a embrulhada em papel pardo como volumosa sombrinha, e armá-la foi uma operação fácil e divertida.

— Veja! – e Luísa exibiu-a, eriçada como um imenso paliteiro.

Meus olhos se anuviaram – as invenções deviam ter limites. A imitação infunde desprezo, mudo desprezo, a quem amou as árvores do Trapicheiro, ardentemente esperou por elas e substituiu o amor e a espera pela saudade. É duma substância assim como o celulóide, lustrosa como escama de cobra, dum verde horripilante, com frutinhos vermelhos, na ponta dos galhos, que lembravam os olhinhos dos ratos-brancos, que Pinga-Fogo criava e trazia ao ombro, sob o nojo e a reprovação de Mariquinhas, tão artificial quanto o mito que propaga.

Não pus na sua ornamentação, bastante carregada, com um odioso cometa no cimo, os meus dedos descrentes, tão hábeis para respingar pela ramaria antiga as velinhas multicores, as lanterninhas, o algodão como se fosse neve. Deixei a tarefa para as mãos de Luísa e das crianças, neófitas aranhas, que alegremente se emaranhavam na teia de fios prateados que espalhavam pela galharia dura e simétrica.

Quando ficou pronta, e ao pé dela as crianças plantavam os ávidos sapatinhos, Luísa perguntou radiante:

— Não ficou linda?

(Não destruamos as ilusões dos amadores. Pelo menos algumas. Que culpa têm de que o tempo prático e mercantil ofereça um material tão reles e sem seiva?):

— Sim, está muito bonita.

— E serve para muito tempo!

(Ó desalentadora durabilidade!):

— É ótimo.

E a sensação me invade, não sei se de tédio ou de derrota”.

***

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962