Palavras para lembrar — Christopher Morley

19 10 2012

Ned Anshutz lendo, c. 1900

Thomas Pollock Anshutz ( EUA, 1851-1912)

óleo sobre tela, 96 x 68 cm

Museu do Brooklyn, Nova York

“O verdadeiro objetivo dos livros é laçar a mente para fazê-la pensar por si própria”.


Christopher Morley





A dama e o unicórnio de Tracy Chevalier, uma leitura leve

15 10 2012

Tapeçaria da Série A Dama e o Unicórnio, c. 1470-1475

Museu de Arte Medieval, França

Tracy Chevalier me encantou há alguns anos com sua Moça com Brinco de Pérola, que li muito antes do filme ter chegado aos cinemas.  Mais tarde li o romance  Viva Chama, que apesar de interessante já não me pareceu tão evocativo de uma era.   Por isso mesmo deixei passar um bom tempo para ler A dama e o unicórnio.  Raramente a boa experiência de leitura de um autor se duplica na leitura seguinte se ainda estou sob o feitiço do primeiro encontro.  E temi que este livro sobre as famosas tapeçarias francesas da proto-renascença  pudesse me trazer descontentamento.   Posso garantir no entanto que este é um livro charmoso, agradável e um testemunho da grande criatividade da autora que se revela muito hábil ao imaginar as situações que poderiam ter levado à produção das tapeçarias assim como as vidas dos artesãos que as teceram.

O encanto do livro Moça com brinco de pérola não se repetiu.  Mas também não saí ao final dessa leitura desapontada: esta é uma narrativa leve, sensual, que tem o mérito de respeitar aquilo que se sabe hoje sobre as tapeçarias em questão. E ainda, este é um romance que traz aos olhos do século XXI, aos não historiadores, a quem não precisa refletir sobre as condições de vida e de trabalho no século XV, uma perspectiva de como seria a vida de então, com suas restrições, suas liberdades, as regras das guildas artesanais, o papel do monastério de freiras na vida de uma mulher.  Porque sua pesquisa foi bem feita, Tracy Chavalier instrui ao mesmo tempo que assume o papel de uma Sherazade.

Se por um lado a trama é tênue e previsível, por outro ela se salva pela acuidade na representação do trabalho artesão e de fatos históricos.  Isso  releva quaisquer faltas no comportamento quase licencioso retratado em alguns personagens femininos, comportamento  inexato pelo que se sabe serem as normas vigentes na época.  Não obstante,  A dama e o unicórnio oferece um entretenimento leve e informativo.





Imagem de leitura — Edward Hopper

5 10 2012

Hotel ao lado da estrada de ferro, 1952

Edward Hopper (EUA, 1882-1967)

Óleo sobre tela, 79 x 101 cm

Coleção Particular

Edward Hopper  nasceu em Nyack no estado de Nova York em 1882.    Mostrou talento artístico desde cedo no que foi incentivado pela família.  Fez um curso de arte por correspondência antes de estudar no New York Institute of Art and Design, onde estudou por seis anos inclusive algum tempo com William Merrit Chase.  Admitiu ter sido muito influenciado pelos mestres franceses: Édouard Manet e Edgar Degas. Começou a trabalhar em ilustração a partir de 1905, deixando este aspecto das artes gráficas nos anos 20.   Só em 1923 teve obras aceitas para exposições de arte.  Mas daí para frente, com alguns altos e baixos iniciais, sua carreira tomou fôlego fazendo com que ele  se tornasse um dos mais importantes pintores do século XX, um verdadeiro retratista da alma americana.  Faleceu em Nova York em 1967.





O labirinto em Serena, de Ian McEwan

4 10 2012

Relatividade, 1953

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia

Inicialmente pensei que a imagem mais apropriada para ilustrar o livro Serena de Ian McEwan fosse uma das paisagens de Estaque do pintor francês e fundador do cubismo, Georges Braque, tal como Viaduto de Estaque ilustrado abaixo.   Nesta tela vemos uma paisagem com algumas casas rodeadas de vegetação e um viaduto romano ao fundo.  Nós compreendemos a cena, e ainda a vemos mais completa, porque somos instruídos — através da criativa maneira de pintar desenvolvida pelos cubistas, inspirados por Cézanne —  sobre as demais facetas da paisagem que revela diversos elementos vistos por diferentes ângulos, que não estariam dentro das nossas possibilidades entrever.  Com o  uso de múltiplas perspectivas Georges Braque neste caso permite que  conheçamos “o outro lado da lua”, ou seja: os dois lados de um telhado que nossa visão não permitiria perceber, ou a fachada de uma casa,  que ele levanta  ligeiramente,  por cima das casas na frente, para que vejamos a série de janelas paralelas corridas.  Essa visão compreensiva, giroscópica,  do tema, dos objetos ou pessoas retratadas, explorada pelos cubistas constitui em grande parte a maneira narrativa de Ian McEwan.

Viaduto de Estaque, 1908

Georges Braque (França, 1882-1963)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Museu de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris

Mas à medida que o texto avançou e certamente depois que cheguei ao fim do romance,  a visão cubista, ainda que interessante,  não me satisfez.  Porque é um texto que se renova, que se reencontra e que recomeça.  É um labirinto com alguns becos, algumas passagens em múltiplos níveis, com algumas realidades paralelas, como se estivéssemos num jogo digital e uma vez ou outra achássemos a porta que nos leva direto até o próximo nível, sem termos que lutar com o dragão ou algum inimigo inesperado.  Esta é uma história que vai e volta e se aprofunda em diversos níveis sem que saibamos por que estamos sendo levados por aquele caminho e de repente, parecemos voltar ao ponto inicial como em um rondó musical ou em uma fita de Möebius.  E foi pensando nela que acabei selecionando uma das muitas gravuras de M. C. Escher para dar o tom visual do que acontece com o leitor de Serena.  Escolhi a gravura Relatividade, uma litografia cuja primeira tiragem foi feita em 1953, porque esse artista holandês é quem, nas artes plásticas, de meu conhecimento, melhor exemplifica a minha experiência ao terminar esse texto.

É a habilidade narrativa de McEwan que permite que se chegue ao final da trama capaz de entender os diversos níveis em que ela se desenvolve. E ser surpreendido.  Totalmente surpreendido.  Este é um romance, um thriller, que aparenta tratar de espionagem na década de 60 do século passado. Espionagem envolvendo o fabuloso serviço inglês MI5 já bastante caracterizado na literatura, no cinema e em programas televisivos pela sua invencibilidade.   Não há nenhum James Bond, mesmo em se tratando de Londres, cidade onde Serena,  que acabou de terminar o curso superior numa excelente universidade inglesa, arranja seu primeiro emprego.  A jovem é a nossa porta de entrada para esta aventura literária que insiste em parecer simples e direta.  Até que, em certo momento, temos a sensação de que talvez não estejamos lendo coma atenção necessária.  No meu caso foi lá pela página 140, quando parei e voltei ao início.  Mas tive relatos de outros leitores, talvez mais sensíveis, mais perceptíveis, que o fizeram umas 50 páginas antes.  De qualquer modo, o leitor sente que  há algo no ar mas não sabe onde, nem o quê, nem o porquê. E assim se desenrola a narrativa.

Ian McEwan

Mais do que um thriller, Serena é um livro sobre ficção.  Sobre diversos níveis de ficção. Sobre a ficção que encontramos no dia a dia, na fabricação de quem somos, no contar e recontar de nossos movimentos de nossas ações.  Temos a ficção de espiões e a ficção de quem escreve ficção.  Este é um   romance baseado no ato de simular, na habilidade do fingimento.  Ian McEwan explora aqui  a tênua linha que define realidade.  Este romance é uma ode à imaginação.  À nossa habilidade, à capacidade humana de iludir e de aceitar ser iludida.  A narrativa é um quebra-cabeça, um Cubo de Rubik com faces de espelhos, onde tudo se encaixa, a qualquer momento em qualquer hora,  porque tudo, absolutamente tudo não passa de ficção.  Uma narrativa brilhante.

Minha objeção está na personagem que achei o menos crível dos elementos.  Mas como acreditar em um personagem que nos ajuda a construir o ficcional?  Como julgar aquele que nos faz crer e que nos ajuda a descrer. Este é o impasse a que chegamos.  E a mensagem é simples: não creia, não acredite.  Tudo não passa de ficção.  Nem mesmo eu, nem você que me lê, nem Serena.





Palavras para lembrar — Benjamin Franklin

3 10 2012

Lisa

Jackie Knott (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Coleção Particular, Texas

www.texasportraitpainter.com

” Ou escreva algo que valha a pena ler, ou faça alguma coisa que valha a pena escrever”.


Benjamin Franklin





Palavras para lembrar — Angela Carter

29 09 2012

Sem título, s/d

Ned Bittinger (EUA, 1951)

óleo sobre tela

Ned Bittinger

“Ler um livro é como se você o reescrevesse.   Você traz para o romance, qualquer um que leia, toda sua experiência de vida.  Você traz a sua história e o lê nos seus termos”.

Angela Carter

Salvar





E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho

29 09 2012

Rua de Jerusalem, s/d

Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)

aquarela e lápis sobre cartão, 38  x 27 cm

Coleção Particular

No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012).  Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa.  Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.

E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim.  Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz.  Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.

Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito.  Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel.  Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente.   E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior.  Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato  e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir —  é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo.  É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver  à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e  dá a sensação de estarmos vivos.  VIVOS!  Alertas!  Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada  é viciante, porque a adrenalina se faz presente  e transforma a nossa percepção do mundo ao redor.  Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a  certeza de que preciso de pouco para viver bem.  Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia.  É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.

Alexandra Lucas Coelho

Este é um romance leve, o retrato de uma paixão.  Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo.  No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat.  Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas.  Passamos  simplesmente a acompanhar  o caso amoroso.  É aí que o ritmo da leitura se desacelera.  Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece.  Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável.  Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.





Palavras para lembrar — B. F. Skinner

25 09 2012

Menina lendo

Anne Bozellec (França, 1942)

Desenho

“Não deveríamos ensinar os grandes livros; deveríamos ensinar o amor à leitura”. 


B. F. Skinner





Imagem de leitura — Xavier Gosé

24 09 2012

Mulher lendo

Xavier Gosé (Espanha, 1876-1915)

Guache sobre papel

=

Xavier Gosé i Rovira nasceu em Alcalá de Henares, na Catalunha em 1876.  Depois da morte do pai, quando ele tinha quatro anos, foi para Barcelona com a família de sua mãe. Estudou de arte com José Luís Pellicer.  Terminado o aprendizado, trabalhou com ilustração para as  maiores revistas da época, de 1895 a 1898.  Expõe na Catalunha, inclusive no conhecido Quatre Gats.  Em 1900 mudou-se para Paris onde passou a contribuir primeiro  com caricaturas para revistas de humor e depois para todo tipo de publicação. Tornou-se um ilustrador requisitado por todo o mercado. Com a aproximação da Primeira Guerra Mundial retornou à Catalunha.  Mas, morreu logo a seguir,  em Lleida,  em 1915, de tuberculose.





Palavras para lembrar — C.S. Lewis

19 09 2012

O cérebro da criança, 1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888 – 1978)

Óleo sobre tela, 81 x 75 cm

Coleção Breton, Paris

“Lemos para saber que não estamos sozinhos”.

C.S. Lewis