Palavras para lembrar — Beverly Cleary

14 11 2012

Histórias da hora de dormir, 2009

Betty B. Thurmond (EUA, 1927)

Acrílica sobre tela, 41 x 62 cm

Flickr

“Sempre fui uma criança muito observadora.  Os meninos dos meus livros são baseados nos meninos, meus vizinhos, de quando eu era criança”.


Beverly Cleary





Um jogo de espelhos em Amsterdam de Ian McEwan

12 11 2012

Prinsengracht, Amsterdam, 2009

Mark Christian Soetebier (Holanda, contemporâneo)

Aquarela sobre papel

The Watercolor Gallery

Amsterdam* é um romance centrado em dois personagens, o editor de um jornal, Vernon Halliday e o compositor Clive Linley,  um verdadeiro par de personalidades que se assemelham mais do que imaginamos a principio e cujas reações se complementam, movendo a trama do romance num crescendo cantábile até um final surpreendente.  Apesar de parecerem distintos, com profissões, estados civis e temperamentos diversos, esses dois amigos de longa data se completam.  Conhecemos a dupla, logo na abertura da narrativa, no enterro de Molly, a amante que ambos tiveram em comum.  Daí em diante começamos a compreender as diversas maneiras em que esses homens de meia idade tiveram suas vidas emaranhadas num labirinto de interconexões.

Usando desse artífice Ian McEwan consegue em meras 184 páginas fazer um verdadeiro ensaio na forma de ficção sobre alguns problemas éticos que nos afligem.  A que custo devemos perseguir o sucesso profissional?  Quando a ambição passa dos limites?  Temos direito à censura antecipada? O que separa a vida privada da vida pública?  Testemunhar uma tentativa de crime incorre em obrigações sociais?  A eutanásia pode ser encomendada?  Esses e outros assuntos estão constantemente nos assediando.  Enquanto escrevo essa resenha acompanho no rádio o caso do ex-diretor do CIA que pediu demissão por uma traição amorosa, enquanto o jornal da manhã mostrava a diretoria da BBC embaraçada com os escândalos de pedofilia.  E na semana passada o Congresso brasileiro passou a lei Carolina Dieckmann  de proteção à privacidade de pessoas públicas na internet.  Esses são assuntos de hoje, do dia a dia, que já estavam na pauta de Ian McEwan em 1998, quando esse romance foi publicado.

Toda a tensão nesse romance tem como base o pequeno número de personagens.  Em primeiro plano aparecem as conturbadas emoções manifestadas pelos desejos de Vernon e Clive. É grande a ambição de ambos, que já chegaram ao ápice de suas carreiras e podem olhar para o futuro ocaso de suas vidas com o sentimento de dever cumprido.  Mas a morte de Molly, ainda jovem, os desestabiliza.  São obrigados a incluir em seus horizontes seus próprios fins.  Vemos também se imiscuir entre eles recalques e desejos deixados de lado e agora relembrados nessa amizade.  Em comum eles têm não só a mesma amante mas a traição, já que ambos conheciam e eram amigos do marido de Molly.

Ian McEwan

Esta é uma amizade repleta de inveja, raiva, fidelidade,  ódio, culpa; de uma gama enorme de sentimentos  contraditórios e complementares.  Essas emoções que os unem, inicialmente aparecem em cores brandas, se intensificando à medida que o romance se desenvolve.  Mas é a competitividade entre eles, já existente desde os tempos de Molly, que eventualmente os arma e prova até o último momento o quanto esses dois amigos se assemelham.  Amsterdam é um excelente ensaio sobre as emoções que afligem o ser humano de hoje, homens complexos e destemidos, ambiciosos e egoístas.  É uma janela na alma humana corroída pela liberação de antigas regras éticas.

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* Os dicionários nos dizem que a forma Amsterdam – com a letra “m” no final não existe em português.  O correto seria Amsterdã, no Brasil, ou Amsterdão em Portugal.  Essa grafia é um anglicismo inútil, porque não adiciona nenhuma outra conotação para uma palavra muito bem grafada em português, e fica a pergunta: por que um livro editado no Brasil a usa?  Depois reclamamos que as pessoas não sabem mais escrever … é por essas e outras.





Palavras para lembrar — Bell Hooks

12 11 2012

Mulher lendo, s/d

Elena Drobychevskaja (Belarússia, 1963)

Técnica mista, 50 x 70 cm

“As ideias que transformaram minha vida sempre vieram a mim através dos livros”.

Bell Hooks





Palavras para lembrar — Arthur Phelps

9 11 2012

Menina com livro, s/d

Murman Kuchava (Georgia, 1962)

óleo sobre tela

“A leitura às vezes é uma engenhosa ferramenta para evitar a reflexão.”

Arthur Phelps





E você como organiza a sua biblioteca?

8 11 2012

A bibioteca da Filadélfia, 1875

George Bacon Wood ( EUA, 1832-1910)

óleo sobre tela

Como anda a sua biblioteca particular?  Geraldine Brooks publicou uma pequena crônica no The Global Mail, titulada People of the Bookshelf [Gente da Prateleira de Livros] muito engraçada sobre os hábitos das pessoas ao guardarem livros.  Assumindo que a maioria de nós não é profissional de biblioteca, não trabalha com catalogação, que normas devemos seguir? Há aqueles que os guardam em ordem por autor, — último nome sendo o normal nos países de língua inglesa — e aqueles que os guardam por título.  E quando se trata de biografias?  Vamos por biografado ou pelo autor?

Parece uma questão supérflua, mas acho que a organização de livros demonstra parcialmente o que eles representam para nós.  As minhas estantes estão organizadas só por assunto: História Antiga, Medieval, Surrealismo, Renascença, Romances.  Depois dentro de cada uma dessas há subdivisões.  Literatura sempre foi divida pelos países de origem e pelas línguas… E biografias são organizadas de acordo com o biografado e não com o autor… Depois de notar esses detalhes, sobre os quais nunca havia pensado, concluo: organizo tudo pelo assunto.

E vocês?





Imagem de leitura — Francisco Manna

5 11 2012

Descanso no parque

Francisco Manna (Itália, 1879 – Brasil, 1943)

óleo sobre tela, 80 x 72 cm

Coleção Particular

Francisco Manna nasceu na Sicília, na Itália em 1879.  Imigrou para o Brasil, em 1888, onde primeiro se radicou no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde aprendeu os rudimentos da pintura com o artista plástico Romoaldo Pratti.  Depois, em 1903, aos 25 anos mudou-se para o Rio de Janeiro onde estudou pintura na Escola Nacional de Belas Artes com Henrique Bernardelli, Zeferino da Costa e Baptista da Costa.  Aluno aplicado, logo, em 1906 consegue menção honrosa no Salão. Faleceu no Brasil em 1943.





Palavras para lembrar — Abraham Lincoln

5 11 2012

Lendo na murada da praia, 2009

Judi A. Gorski (EUA, contemporânea)

acrílica sobre tela

http://judigorski.blogspot.com

” A capacidade e o gosto pela leitura dão acesso a tudo que já tenha sido descoberto por outros”.

Abraham Lincoln





Imagem de leitura — Eric Wallis

2 11 2012

Sem título

Eric Wallis (EUA, 1968)

óleo sobre tela

www.wallisart.com

Eric K. Wallis nasceu nos Estados Unidos em 1968.  Começou a pintar aos sete anos, orientado por seu pai também pintor, Kent R. Wallis.  Os dois pintavam lado a lado, cenas simples, da natureza.  Eric continuou pintando durante os anos escolares formativos, ganhando diversos prêmios, como jovem talento, antes entrar para a Universidade de Utah, onde estudou pintura com Adrian Van Suchtelen e com Glen Edwards, ambos dedicados pintores figurativos.  Graduou-se em pintura em 1992. Mas desde 1990 começara a expor em galerias de arte particulares.  Pinta até hoje de 10 a 12 horas por dia e tem muitas obras em diversos museus e coleções particulares nos EUA.





Palavras para lembrar — Helen Simonson

29 10 2012

Mulher lendo no banho

Chen Bolan ( China, 1955)

óleo sobre tela

“Não importa o que se leia, autores preferidos, assuntos específicos, desde que se leia alguma coisa.  Não é importante nem mesmo possuir livros”.

Helen Simonson





Helen Simonson e “O Major Pettigrew”, um revolucionário dos costumes sociais

28 10 2012

Aldeia inglesa

Peta Carley ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Uma preciosa contribuição à ficção inglesa contemporânea foi feita por Helen Simonson na aventura  passada no interior da Inglaterra, onde um major do exército britânico de 68 anos, aposentado e viúvo, se encontra, para surpresa própria, na expectativa de um novo romance com a dona de uma loja de conveniência em um pequeno vilarejo em Sussex.   A última façanha do Major Pettigrew [Rocco: 2010] é uma narrativa recheada de grande senso de humor, que nos leva do sorriso à gargalhada sonora; onde testemunhamos as dificuldades das decisões apropriadas e os tropeços sociais do protagonista, que por timidez, por limitações da boa educação atrapalha-se quando mais quer impressionar, numa clássica tensão entre desejo de acerto e comportamento social antagônico, como rege a comédia inglesa.

Ainda que pertencente à tradição da comédia de costumes tão bem explorada por Jane Austen,  Major Pettigrew divide com “Mr. Darcy” do romance do século XIX algumas poucas  características: o interesse pela pessoa inesperada; aptidão de ignorar os costumes sociais da época; inabilidade de se expressar da melhor maneira possível em circunstâncias delicadas e a galhardia.   Enquanto em Orgulho e Preconceito sorrimos mentalmente com as observações de “Lizzie”, neste romance, podemos rir às gargalhadas com a deficiência de coordenação entre a vontade e a ação do herói e pretendente amoroso.

A tensão nessa comédia é grande, causada pelo frequente embaraço do personagem.  A pressão entre a situação vivida e a vontade do Major é tanta que muitas vezes Pettigrew lembra em seu comportamento Basil Fawlty, personagem principal do programa Fawlty Towers da BBC, da década de 1970, onde no texto escrito e desempenhado por John Cleese há descompasso semelhante, se bem que na comédia para a televisão as ambições de Basil Fawlty, gerenciando seu pequeno hotel não tenham nada em comum com as situações vividas pelo major aposentado.

Muitos são os herdeiros literários de Jane Austen e eles se diferenciam não só pelo nível da crítica social como também pela época em que escrevem, porque as caracterizações na comédia de costumes dependem disso.  No século XX tivemos, entre outros, duas grandes mestras nessa arte: Barbara Pym e Elizabeth Bowen.  Helen Simonson parece mais relacionada a Barbara Pym.  Não tem o tom às vezes soturno de Elizabeth Bowen.  Como Barbara Pym, Helen Simonson manteve a trama na pequena aldeia, em personagens comuns aos vilarejos ingleses e ainda na característica de que a realidade e os planos feitos pelos personagens quase sempre têm somente um certo grau de sucesso e frequentemente aquele que não era esperado. A arte de retratar as pequenas frustrações do cotidiano de qualquer individuo, sem cair no dramalhão ou no ridículo é uma das características mais cativantes da literatura inglesa desse gênero.  Vidas prescritas pelas circunstâncias sociais, a traição de segredos mantidos a sete chaves, a transformação das vidas de personagens quando forças incontidas sobem à superfície são alguns dos pontos em comum entre todas essas escritoras.  A mestria das meias-palavras, do ofuscamento, das reticências, tão tipicamente ingleses, são nuances que nem sempre conseguem ser transportadas para outra língua ou cultura.  E aqui se faz necessário aplaudir a excelente tradução de Waldéa Barcellos que não poupa esforços para transmitir a insinuação maldosa dos personagens, o artifício literário  do não dito pelo dito.

Helen Simonson

Além do tremendo senso de humor, da análise sagaz de tipos que todos nós conhecemos, há outros aspectos que fazem dessa publicação um deleite.  Este romance é sobretudo contemporâneo nas situações, nos preconceitos, na realidade de uma Inglaterra pós império colonial.  Ter que aceitar súditos de países colonizados está na agenda social de todos  os países europeus colonizadores que no final do século XX, por causa da integração na Comunidade Europeia, tiveram que abdicar de suas colônias na África e na Ásia.  Cada um fechou o domínio colonial de maneira diferente, mas todos tiveram que aceitar em seu território muitos cidadãos que não tinham o perfil visual e cultural dos países sede.  Consequentemente temos na Europa hoje a abundância de coloridos de peles, de religiões outrora estrangeiras, de costumes alimentares diferenciados.  Como essa aceitação se faz na Inglaterra é um dos assuntos tratados por Helen Simonson, assim como: problemas de heranças, entre pais e filhos, e expectativas que temos de amigos e que eles têm de nós.  Tudo  habilmente administrado por uma escritora que diverte e dá ao leitor uma pausa e espaço para refletir sobre esse novo mundo: uma bem-vinda moratória aos jargões óbvios do politicamente correto.  Por tudo isso,  este é um livro para ser lido e degustado.