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Forno de pão [Hamburgo Velho], 1956
Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)
óleo sobre tela, 297 x 138 cm
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“A virtude paradoxal da leitura é que ela nos abstrai do mundo para encontrar nele algum sentido.”
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Daniel Pennac
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Forno de pão [Hamburgo Velho], 1956
Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)
óleo sobre tela, 297 x 138 cm
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Daniel Pennac
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Marie Françoise Caroline Vallée (ativa em Paris no século XIX)
óleo sobre tela, 56 x 69 cm
Christie´s Auction House, 2010
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Emile Faguet
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Fotografia da Biblioteca Nacional da Escócia, ilustrando o artigo mencionado.–
Ando fascinada com as pesquisas sobre os hábitos de leitura do passado: é aí que a historiadora em mim se revela. Como todos sabem dedico boa parte do meu tempo na leitura de diários, notas, memórias, preferencialmente de pessoas comuns de tempos passados. A pesquisa sobe os hábitos das pessoas de gerações passadas recebeu grande impulso nos últimos 50 anos culminando recentemente, para o leitor não especialista, na coleção História da Vida Privada.
A descoberta dos hábitos e costumes do passado nos ajuda a entender a seleção natural através dos séculos que definem muitos dos paradigmas da sociedade atual. Nossa maneira de ser, de considerar o que é importante para o grupo social, vem sendo filtrado pelas gerações que nos precederam. Foram essas pessoas que desconhecemos, nossos antepassados remotos, que escolheram o que deveria ser considerado importante, essencial, em termos sociais, relogiosos, políticos. Com suas escolhas elas deixaram o lastro cultural no qual a nossa visão de nós mesmos se baseia.
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O fascinante estudo do que líamos no passado está em pleno andamento como mostrou Jennifer Howard, no artigo Secret Reading Lives, já mencionado no blog anteriormente. A lista de publicações e de referâncias sobre os hábitos de leitura de outros tempos, aumenta a cada dia e a Reading Experience Database — RED, mostra como a internet, na Inglaterra, um país que sempre teve interesse pela sua própria história, pode auxiliar no levantamento das riquezas do passado. O RED é uma fonte de material de primeira mão, de cartas, diários, livros de poesias favoritas, selecionadas por pessoas comuns, um hábito bastante popular durante o século XIX. O RED, poderia muito bem dar exemplo e incentivar iniciativas semelhantes, em países como o Brasil que tanto necessita de pesquisadores e de novas visões sobre uma história tão mal contada, empobrecida por mais de 500 anos, de descaso.
Um dos exemplos curiosos ilustrando o artigo na revista The Chronicle of Higher Education é a descoberta de que a leitura feita na linha de batalha, por soldados engajados na 1ª Guerra Mundial, diferente do que se preconizava, não era leitura de panfletos propagandísticos ou políticos, mas que a leitura mais procurada era a de jornais de suas cidades natais, prosaicas lembranças, escapistas, de uma vida mais mansa, romântica, idealizada. São detalhes como esses que podem nos oferecer uma ideia do que se passava no início do século XX; como a guerra foi conduzida e por quem; mas muito mais que isso: o comportamento de seres humanos em períodos de grande estresse. Pesquisa enriquecedora que levanta um espelho para o nosso comportamento emocional e para a herança deixada por esses que viveram cinco, seis gerações antes da nossa. Fascinante.
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Senhora à mesa com livro, 1916
Anton Faistaeur (Áustria, 1887 – 1930)
óleo sobre tela,
ColeçãoParticular em Saltzburg
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Jean-Paul Sartre
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“Isso vem a propósito de minhas lembranças de bondes-de-burro. Neles andei, talvez numa de nossas viagens ao Rio ou, mais certamente, depois de nossa vinda definitiva de Juiz de Fora. Quando? não posso dizer com exatidão, pois minhas recordações desse Aristides Lobo da infância surgem empilhadas e a fotografia positiva que delas obtenho resulta da revelação de vários negativos superpostos, cuja transparência permite que as imagens de uns se misturem com as luzes dos outros. O essencial é que me lembro dos bondes de burro com seus poucos bancos, com o condutor e o cobrador, os dois sem farda, de terno velho, colarinho duro, chapéu de lebre, ou chile, ou bilontra – e a bigodeira solta ao vento carioca. O primeiro governava os burros a chicotadas mais simbólicas do que propriamente para valer e principalmente, com a série de ruídos que tirava dos beiços, da língua, das bochechas, das goelas, e que eram muxoxos e chupões, assovios e estalos, brados monossilábicos e gritos churriados – a que as adestradas alimárias respondiam com o passo, a marcha, o trote, a andadura e a parada. De distância em distância as parelhas cansadas eram trocadas por outras mais frescas, nas mudas dispostas ao longo dos itinerários. Uma destas perpetuou-se no nome que se estendeu a um bairro todo – o da Muda da Tijuca. Lembro-me bem da que ficava à esquina da Marquês de Sapucaí e Salvador de Sá, onde foi depois uma estação de elétricos – estação não no sentido de paragem, mas do local onde se recolhiam os bondes. Quem vinha de Aristides Lobo, era ali que trocava os burros. Eles eram soltos ao mesmo tempo que as correntes que os prendiam à trave que era desengatada conjuntamente, do veículo. Quando eles se sentiam livres, empinavam as cabeças, zurravam e corriam, sem necessidade de serem conduzidos, para dentro da muda, para suas águas e seu capim. Iam rebolando as ancas, repiqueteando os cascos ferrados, num tilintar de cadeias arrastadas. Compunham uma representação de movimento e som que vim a recuperar quando o cinema começou a explorar as dançarinas de rumba com suas bundas de potranca, suas caudas farfalhantes, seu agudo bater de saltos e suas secas castanholas. Sempre que as via, reinundava minha alma do encanto infantil com que assistia à troca das bestas naquela esquina. E sempre que passo nesse cruzamento de ruas, reassumo meus cinco, meus seis anos e ouço o trincolejar de grilhões raspando no lajedo. Os bondinhos de tração animal seriam substituídos pelos elétricos, na Zona Norte, aí por volta de 1909.”
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Em: Baú de Ossos, Pedro Nava, Rio de Janeiro, Sabiá: 1972, PP. 372-3
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Senhora à mesa de café, s/d
Harry J. Pearson (EUA, 1872 – 1933)
Óleo sobre madeira, 51 x 41 cm
Coleção Particular, Gavin Graham Gallery, Londres
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Jennifer Howard, Secret Lives of Readers
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Mulher descansando, s/d
Heinrich Lossow (Alemanha, 1847-1897)
óleo sobre tela
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Hilaire Belloc