Curiosidade literária

15 01 2024

Os escritores russos Leon Tolstoi e Ivan Turgenev foram amigos próximos por muito tempo. Até que se afastaram, em grande parte por causa do gênio de Tolstoi, que parecia aquele personagem  Do Contra, da Turma da Monica de Maurício de Sousa.  Turgenev reclamava: “se eu digo que estou com bronquite, ele [Tolstoi] não faz caso, considera se tratar de uma doença imaginária.”  “Se eu gosto da sopa, tenho certeza de que Tolstoi vai detestá-la ou vice-versa.” Isso continuou por algum tempo até que Tolstoi se meteu na vida particular de Turgenev.

Numa reunião na casa de amigos, no meio de uma conversa geral, Tolstoi (que nunca se considerava errado sob qualquer circunstância) criticou a maneira como Turgenev educava sua filha concebida fora de um casamento legal.  Tolstoi afirmou que Turgenev a educava de maneira diferente porque não era filha legítima. Turgenev, enraivecido, quase saiu aos tapas com Tolstoi.  Mesmo depois de terminado o jantar em que estavam, a briga continuou, por anos.

Continuou, no entanto, por cartas e recados escritos e passados de um para outro até que Tolstoi, sempre querendo uma briga, desafiou Turgenev para um duelo, chegando a  encomendar um jogo de pistolas.  Mas, depois de passado algum tempo, decidiram nunca mais se falarem.  “Precisamos agir como se existíssemos em planetas diferentes, Turgenev escreveu.  Assim permaneceram sem se falar como se o outro não existisse, mesmo morando muito próximos. 

Até o momento em que Tolstoi encontrou Deus, ou seja, se tornou religioso.  Na boa tradição religiosa, procurou remendar as amizades que tinha destruído ao longo da vida, para redimir sua alma. A lista era longa. Turgenev aceitou o pedido de desculpas de Tolstoi, mas os dois nunca voltaram a ser amigos de novo.

 





Curiosidade literária

8 01 2024

Charles Dickens e a pequena Nell (personagem de A velha loja de curiosidades), 1890

Francis Edwin Ewell (EUA, 1859-1934)

Bronze

Parque Clark, Filadélfia, EUA

 

 

 

O afamado escritor inglês Charles Dickens colocou em seu testamento que não queria nenhuma estátua de si mesmo, nenhum monumento.  Ele detestava esse tipo de honraria. E no entanto, no momento existem três bronzes que retratam o escritor. Há um na Pensilvânia (EUA), um em Sidney (Austrália) e o mais recente, na sua própria cidade natal, na Inglaterra: Portsmouth.

No monumento na Filadélfia ele está retratado com Nell, talvez a personagem mais querida de todas as obras de Dickens.  A maioria de suas obras foi publicada em série nos jornais (assim como muitas obras do século XIX aqui no Brasil, também, de autores brasileiros).  Nell era tão querida que, quando os navios chegaram à Nova York trazendo os últimos capítulos de A velha loja de curiosidades, uma multidão de seis mil pessoas chegou às docas, para perguntar aos viajantes ou marinheiros se a Pequena Nell morria no final do livro, tal era sua popularidade no Novo Mundo.

Interessante saber também que Charles Dickens detestava Filadélfia não tendo nada de bom a dizer sobre a cidade.  No entanto, este monumento, hoje é um dos perfis do bairro onde está, que todos os anos, produz uma festa para Dickens comemorando seu aniversário (7 de fevereiro) quando sua estátua e a de Nell são coroadas com guirlandas de flores e há leituras por horas de suas obras assim como muita música e dança.   Não adiantou nada ele não gostar de Filadélfia,  eles nem se incomodaram com isso.





Uma biblioteca sem seu guardião, que fazer?

3 01 2024
Harry C. West na nossa primeira biblioteca no Rio de Janeiro.

2024 chegou e trouxe a decisão de começar a dar um destino para a já diminuida biblioteca daqui de casa.  Chegamos ao Rio de Janeiro com aproximadamente 2,800 livros, com mobiliário reduzido, meu piano de meia cauda, minha coleção de azulejos persas dos séculos XVIII e XIX e pela primeira vez a combinação de nossos livros em um único cômodo.  Sim, moramos nos Estados Unidos com o luxo de cada um ter sua própria biblioteca, seu próprio computador, sua própria impressora, suas poltronas favoritas, e todos os outros objetos que compõem uma biblioteca-escritório de pessoas estudiosas. 

Depois de escolher o lugar para morar, no RJ, voltamos para os Estados Unidos determinados a reduzir nosso mobiliário, livros, objetos.  Deixávamos para trás uma casa em centro de terreno com um jardim extenso, uma pequena floresta ao fundo por onde corria um riachinho cantante  na linha divisória com os vizinhos de trás, distante cento e vinte metros da casa. Este terreno tinha um bocado de vida silvestre, difícil de imaginar que estávamos num ambiente urbano, a oito quilômetros do movimentado centro da cidade, capital do estado.  Nossos companheiros de endereço faziam um conto de Rudyard Kipling parecer americano.  Tínhamos corujas, gambás, esquilos, como os do Brasil, uma meia dúzia de famílias de chipmunks (não achei tradução porque não são esquilos, mas da família), pombinhas, passarinhos de todo tipo, toupeiras, guaxinins, coelhinhos com rabo de pompom, lesmas, borboletas, grilos aos milhares… Todos nós convivendo felizes em pouco mais de 2100 metros quadrados de jardim sombreado por mais de 20 carvalhos de 30 metros de altura, alguns pinheiros e uns dez dogwoods, além de arbustos e plantas que eu mesma tocava. Pouca grama, ainda bem, só na frente da casa.

 

 

Harry em sua mesa favorita, (apesar de ter uma escrivaninha): mesa de jogo, na biblioteca.  A mim parece e era desconfortável, mas ele gostava.

 

 

Saímos deste local para morarmos num apartamento de cento e oitenta metros quadrados, no Rio de Janeiro.  Tínhamos que reduzir.  Passamos aproximadamente oito meses nos preparando, empacotando, selecionando objetos. Nossas bibliotecas foram podadas.  A minha concentrada em arte moderna europeia  e na arte dos séculos XVII e XVIII, em história medieval além, é claro, de muita literatura europeia dos séculos XIX e XX, com ênfase na Inglaterra e França.  Harry, por outro lado tinha uma vastíssima coleção de diversas traduções dos clássicos gregos e romanos (ele gostava de comparar traduções), grande coleção de filosofia, que também apresentava diversas cópias do mesmo texto com diferentes traduções para o inglês.  Psicologia era seu campo de estudos aplicados à literatura americana.  E todos os textos da literatura americana do século XIX, sua especialidade, além dos teoristas contemporâneos de Lacan a Bachelard, James Hillman e outros.  Chegamos ao Brasil com um container de 40 pés grande parte dele dedicado a livros, manuscritos, papelada, que só a nós interessava.  Isso foi antes dos livros digitalizados do Kindle ou de qualquer outro dispositivo.  Calculamos que deixamos metade dos nossos livros para trás.  Mas não contamos.

Em 2009 nos mudamos para outro endereço.  Menor.  Lá se foram outros tantos livros, a maior parte dos meus livros de arte.  Estava ficando fácil arranjar imagens na internet que me permitiam continuar a trabalhar sem ter que folhear livros pesados e fólios.  Nossa filiação com as universidades americanas começava a dar frutos substanciais quanto à pesquisa, porque tínhamos o direito de consultar livros já digitalizados desses locais.  [Hoje eu assino alguns sites onde encontro as mais recentes publicações sérias.]  O mundo mudou.

 

 

Nosso mundo.

Outras mudanças, doença, fizeram dos originais 2.800 livros no Rio de Janeiro, talvez uns 1700. Hoje selecionei 231 volumes para doação. Foi a primeira seleção. Vou repetir essa limpeza ainda umas duas vezes neste mês. Guardei todos os que ainda tinham anotações. Aprendi com Harry a marcar os livros nas próprias páginas. Porque esses eram livros de trabalho. Muitos deles, que hoje guardei, já estão com dorsos e capas desgastados pelos trinta e cinco anos em que Harry ensinou na universidade. Guardei também porque têm sua letra, tão bem elaborada, tão distinta, tão fácil de ler e sua assinatura nas páginas de rosto. Estes eu guardei. Não tive coragem ainda de me desfazer deles, assim como ainda tenho os manuscritos dos dois livros já acabados mas faltando polir, que ele deixou para trás. Tentei ainda conversar nos últimos anos, ajudá-lo na edição nos cortes (sou boa de cortes), mas seu interesse já não estava lá.

Nossa biblioteca era vasta porque apesar de trabalharmos nas humanidades, havia poucos pontos em comum nas nossas áreas de interesse. Havia poucas duplicatas. Exceto, e foi assim que nos apaixonamos, quando comparávamos notas: eu trabalhando com Freud e outros da psicologia, porque minha especialidade era a arte surrealista e Harry se dedicando aos pós-Junguianos na interpretação dos grandes escritores americanos do século XIX: Hawthorne, Poe, Emerson, Melville, Whitman e Throreau. Ele aprendeu sobre as artes plásticas comigo e passou a visitar museus com outros olhos. Tivemos também a sorte de viajar muito, e residir em alguns diferentes países. Desta ligação, eu saí ganhando, porque ele me educou nos textos clássicos gregos e romanos, assim como nos filósofos da renascença. Por sua causa devorei Edgar Alan Poe, Nathaniel Hawthorne e meu favorito entre esses, Emerson e seus ensaios. Mas além da primeira geração de clássicos americanos, também me familiarizei com Emily Dickinson, Henry James, Stephen Crane, Kate Chopin e outros. Nessa troca, ganhei mais, porque a literatura havia sempre sido um interesse meu, afinal de contas comecei meus estudos em letras, em francês. E Harry só se interessou pelas artes visuais depois de nos conhecermos. Mas fizemos uma boa dupla que se entendeu e se completou. Fico, portanto, ainda com muitos de seus livros ‘primários’, aqueles que têm sua letra cobrindo páginas, e sublinhados com pontos de interrogação ou menção do caminho para levar adiante. Quanto a seus manuscritos ainda não tive coragem de deixá-los ir. Mas estou abrindo espaço nas prateleiras. Ainda leio muito, ainda leio em papel. Ultimamente compro a versão digital e se gosto do livro, compro o mesmo livro em papel. Caminho para uma vida mais leve.





A Peregrina escolhe os melhores livros do ano!

28 12 2023

Interior com senhora lendo

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 50 x 65 cm

Musée de Belas Artes de Lyon, Coleção Tomaselli

 

 

Este foi um ano irregular de leituras.  Ou seja:  muitos livros começados.  Muitos livros sem terminar.  Muitos livros terminados aos trancos e barrancos.  Muitos livros relidos.  Muitos livros lidos exclusivamente para aulas.  E alguns meses sem qualquer vontade de ler.  Dizem que o vai e volta é típico de quem passa pelo processo de luto.  Termino este ano consciente que faz um pouco mais de um ano e meio que me encontro viúva; o luto realmente mexe com a cabeça da gente.  Mas daqueles que li tenho alguns que achei MUITO BONS.  Como sempre, posto aqui a lista dos que li para depois colocar meus favoritos. 

 

Lições, Ian McEwan

Ninféias negras, Michel Bussi

A tenda vermelha, Anita Diamant

O mistério de Henri Pick, David Foenkinos

Hotel Portofino, J. P. O’Connell

Orgulho e preconceito, Jane Austen — RELIDO desta vez em português

A última livraria de Londres, Madeline Martin

Uma mulher singular, Vivian Gornick

Caderno proibido, Alba de Cespedes

O sol também se levanta, Ernest Hemingway 

Véspera, Carla Madeira

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski

Berta Isla, Javier Marías  — RELIDO

Garota, mulher, outras, Bernardine Evaristo

A vida peculiar de um carteiro solitário, Denis Thériault — RELIDO

Casas Vazias, Brenda Navarro

A boa sorte, Rosa Montero

As vitoriosas, Laetitia Colombani

O peso do pássaro morto, Aline Bei

Vermelho amargo, Bartolomeu Campos de Queirós  RELIDO

Confissões, Kanae Minato

A arte da rivalidade, Sebastian Smee

Autobiografia, Agatha Christie  RELIDO

A cidade e as serras, Eça de Queiroz  RELIDO

Laços, Domenico Starnone

A elegância do ouriço, Muriel Barbery  RELIDO

Violeta, Isabel Allende

O apartamento de Paris, Lucy Foley

O hotel na Place Vendôme: Vida, morte e traição no Ritz de Paris, Tilar J. Mazzeo

Ficções, de Jorge Luís Borges

Uma relação Imprópria, Barbara Pym  RELIDO, desta vez em português

2030: Como as Maiores Tendências de Hoje Vão Colidir com o Futuro de Todas as Coisas e Remodelá-las, Mauro F. Guillén

Incidente em Antares, Érico Veríssimo

 

Ao todo foram trinta e três livros.  Entre eles oito relidos.  Quase um quarto deles. Seis escolhidos como os melhores do ano.

 

 

 

 

Em primeiríssimo lugar:

Uma mulher singular, de Vivian Gornick.  Uma autobiografia  de uma mulher moderna, intelectual, que mantém o ritmo sincopado da cidade de Nova York,  onde vive.  Não é linear.  Não é a história completa de uma vida. Tampouco é um livro para todo leitor.  Mas é fascinante, revela uma era, uma mente curiosa e desvenda um conhecimento literário muito maior do que o de grande parte dos leitores.  É um livro que eu gostaria de um dia poder escrever, mas acredito que só esta autora poderia fazê-lo.

Em segundo lugar:

Ficções de Jorge Luis Borges. Que desafio!  Que brincadeira com a mente dos leitores.  Extraordinário.  Este livro terei que reler ainda algumas vezes. Mas é tudo o que haviam anunciado e muito mais. Que passeio entre a realidade (ela existe?) e o sonho.  Definitivamente um livro que não pode deixar de ser lido. Labiríntico.

Em terceiro lugar:

Incidente em Antares, Érico Veríssimo.  Ah, que prazer!  Uma comédia, uma crítica social, um retrato em que ainda nos reconhecemos!  Um prazer esta leitura, um divertimento que me fez refletir, sobre a nossa cultura, o nosso momento, sem amargor.  Muito bom.         

 

      

 Os outros três, também excelentes leituras: Laços, de Domenico Starnone; Lições de Ian McEwan e Caderno proibido de Alba de Céspedes.  Recomendo todos três (dois italianos e um inglês, que ano diferente!) para quem queira ler obras reflexivas com qualidade literária de primeira!





Imagem de leitura: Félix Vallotton

30 11 2023

Mulher lendo em casa, 1910

Félix Vallotton (Suíça, 1865-1925)

óleo sobre tela,  100 x 81 cm

Museu Leon-Dierx, Reunião





Imagem de leitura: Paul Delaroche

27 11 2023

Retrato de Joseph-Carle-Paul-Horace Delaroche,1851

Paul Delaroche (França, 1797-1856)

óleo sobre tela, 63 x 41 cm

Coleção Particular





Imagem de leitura — Alessandro Pomi

31 10 2023

Cenáculo, 1931

Alessandro Pomi (Itália,1890-1976)

óleo sobre tela,

Coleção Banca Popolare FriulAdria.





Palavras para lembrar: Giorgio Agamben

28 10 2023

Menina

Albert Franck (Holanda, 1899-1973)

óleo sobre tela

 

 

“A escrita seria muito triste se não nos desviássemos nunca dos nossos planos.”

 

 

Giorgio Agamben





Imagem de leitura: Alexei Lantsev

25 10 2023

Matisse no Boulevard, 2006

Alexei Lantsev (Rússia, 1970)

técnica mista sobre papel, 61 x 85 cm





Curiosidade literária

4 09 2023

Muitas mulheres encontraram barreiras para publicar livros.  Por causa disto muitas delas adotaram pseudônimos masculinos, ou nomes não identificáveis como femininos quando impressos.  Aqui vai a lista de 10 mulheres que usaram pseudônimos em seus livros e ficaram famosas:

 

1 – Amantine Lucile Aurore Dupin, (França, 1804-1876), pseudônimo George Sand

2 – Mary Ann Evans (Inglaterra, 1819-1880), pseudônimo George Eliot

3  – Louisa May Alcott, (EUA, 1832- 1888) pseudônimo A.M. Barnard

4 –  Violet Paget (França, 1856-1935),  pseudônimo  Vernon Lee

5 – Karen Blixen  (Dinamarca, 1885-1962), pseudônimo Isak Dinesen

6 – June Tarpé Mills (EUA, 1912-1988), pseudônimo Tarpé Mills

7 – Alice Bradley Sheldon (EUA, 1915-1987), pseudônimo James Tiptree, Jr.

8 – Joanne Rowling (Inglaterra, 1965), pseudônimos: J.K.Rowling e Robert Galbraith

9 – Christina Lynch e Meg Howrey (EUA, contemporâneas), pseudônimo Magnus Flyte

10 – Robyn Thurman (EUA, contemporânea), pseudônimo Rob Thurman