As surpreendentes aventuras de um centenário sueco

11 07 2013

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Idoso com chapéu de palha, 2012

Brad Schwede (Austrália, 1980)

Óleo

www.bradoilpainting.com

Tinha que vir da Suécia a idéia de contar a história do século XX através das aventuras de um homem que faz bombas.   Conversando com  um amigo, num encontro semanal, fui lembrada  da importância que a dinamite tem para a Suécia. O assunto veio à baila quando contava a ele a incrível aventura de ler O ancião que saiu pela janela e desapareceu, de Jonas Jonasson, escritor sueco,  ex-jornalista, cujo primeiro romance já encantou mais de 4,5 milhões de leitores de acordo com a capa do livro.  Foi aí que, de repente, ganhei uma nova  visão do livro que eu acabara de ler.  Por não ter me lembrado que Alfred B. Nobel, hoje famoso por ser  criador do Prêmio Nobel, havia feito fortuna com a invenção da dinamite, perdi a conexão óbvia do ponto de vista da história do mundo através de olhos suecos.  E por que isso seria importante para gostar ainda mais do livro?  Não é importante.  O livro é delicioso mesmo que se ignore esse fato.  Mas lembrar disso enriquece o prazer, contextualiza a narrativa que tem como subtexto  a evolução do século XX através dos olhos de quem construía bombas.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu é escrito no tom  impassível de quem conta histórias hilariantes com a seriedade dos acontecimentos reais.   Esse tom nos induz a um sorriso largo e à expectativa a uma provável gargalhada, pois logo após as primeiras páginas percebemos que em seguida virá uma série interminável de aventuras cujo protagonista será um velhinho centenário.  Isso é feito  em dois tempos: as aventuras de Karl Karlsson no mês de maio de 2005, quando ele foge de um asilo onde uma festa para comemorar o seu centenário está prestes a começar e viaja com uma mala de cheia de dinheiro que não lhe pertence.  E em capítulos entremeados, conhecemos  a história de Karl Karlsson, especialista na fabricação de bombas, desde sua infância até o presente.  Ambas são uma corrente sem fim de aventuras, altamente improváveis, que deliciam o leitor.

ancião

Karl Karlsson é aquele homem que parece cair de pára-quedas nas situações mais inesperadas e sair delas com uma boa dose de atrevimento e fleuma.  Acreditando que a vida é o que ela é,  Karlsson encara o imprevisível  tomando decisões simples e sagazes aplicadas de maneira impassível.  Imperturbável, Karlsson acaba sendo de grande valia para os mais importantes líderes do século XX: Truman, Churchill, Mao, Lenine, Stalin entre outros.   Ele se infiltra e contribui de maneira surpreendente até mesmo para o “Manhattan Project” durante o fabrico da primeira bomba atômica.   Mas Karlsson só participa desses numerosos eventos, que mudam o rumo da história no século XX, pelo lado do avesso, pelas coxias, nos corredores palacianos; tudo porque está sempre metido em tanta confusão que precisa sistematicamente sair de uma situação difícil que o levará ao exílio ou à prisão.  Eventualmente Karlsson se torna um poliglota que se sai bem das mais inverossímeis situações em qualquer canto do mundo.  Vivendo perpetuamente em perigo, e saindo-se inalterado graças à própria ingenuidade  Karlsson é um protótipo do anti-herói.  O equilíbrio entre sua habilidade de prover governos com soluções  que requerem sigilo, perigo e espionagem e a necessidade de fugir de um problema pessoal de grande desconforto – como a prisão – este jogo entre opostos,  faz parte da brilhante narrativa que nos leva às gargalhadas.

AVT_Jonas-Jonasson_316.pjpegJonas Jonasson

Nessas circunstâncias há dezenas de ilegalidades cometidas, prevaricação, roubo e inverdades dia sim outro também, como deve acontecer em livros de aventuras.  Quanto mais aventura maiores as mentiras, maiores as encrencas.  O humor surge justamente do contraste entre o que o anti-herói faz e a moralidade do leitor das peripécias. Se você quer se divertir nesse inverno, sente-se em lugar confortável, debaixo de manta quentinha e divirta-se com esse senhor intrépido que aos cem anos de idade, ainda gosta de uma aventura e  nada mais tem a perder.  Vale a pena é puro divertimento.





Palavras para lembrar — Emil M. Cioran

6 07 2013

Jean Metzinger (1883-1956)la robe verteO vestido verde, 1912-1914

Jean Metzinger (França, 1883-1956)

óleo sobre tela

Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris

“Escreva livros só se você for dizer neles aquilo que não tem coragem de confiar a ninguém.”

Emil M. Cioran

 





Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público

2 06 2013

DSC000021º sábado de junho, 2013

Praça Santos Dumont, Gávea

Rio de Janeiro

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Volto a postar fotos de pessoas lendo, essa popularíssima faceta do blog da Peregrina.  Passei quase um ano sem fotografar pessoas lendo.  Cansei.  Mas sei também da fascinação que essas fotos, sob o nome de: Brasil que lê: fotografia tirada em lugar público, têm exercido sobre os nossos visitantes.  Assim vou tentar manter as fotos para servir de inspiração a leitores e a fotógrafos.





Mães que ensinam a ler – homenagem ao Dia das Mães

12 05 2013

Georgina de Albuquerque (1885-1962). Momento de leitura, oscartão, 24 x 16cm 2Momento de leitura

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre cartão, 24 x 12 cm

Bernard Jean Corneille Pothast ( Bélgica 1882-1966), O livro de figuras, ost, 64x77O livro de figuras

Bernard Jean Corneille Pothast (Bélgica 1882-1966)

óleo sobre tela, 64 x 77 cm

Jacoba (contemporânea) Espanha Madre y Hija LeyendoMãe e filha lendo

Jacoba (Espanha, contemporânea)

óleo sobre tela

János Tornyai, Lesson on the FarmWoman with Silk Corset, 1896Lição na fazenda, 1896

János Tornyai (Hungria, 1869-1946)

óleo sobre tela

Charles West Cope - George-Herbert-and-His-Mother-xx-Charles-West-CopeGeorge Herbert e sua mãe

Charles West Cope (Inglaterra, 1810-1890)

óleo sobre tela

Joy McGinnis (EUA) reading-lesson, oleoLição de leitura

Joy McGinnis (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 50 x 60 cm

http://www.joymcginnis.com

Auguste Toulmouche ( 1829 - 1890) LA LEÇON 1854A lição, 1854

Auguste Toulmouche (França, 1829-1890)

óleo sobre tela, tondo

Museu de Belas Artes de Nantes, França

giovanni della rocca (Itállia, 1788-1858)Lição

Giovanni della Rocca (Itália, 1788-1858)

óleo sobre tela

chulovich-marina-v, contos de fadasContos de Fadas

Marina V. Chulovich (Rússia, 1956)

Casa dos misterios, mysteriesfresco1bMenino lendo, [DETALHE], c. século I

Casa dos Mistérios, Pompéia, destruida pelo Vesúvio no ano 79 a.D.

Afresco

Pompéia, Itália

Diane Leonard, Special MomentsMomentos especiais

Diane Leonard (EUA)

gravura, 50 x 50 cm

www.dianeleonard.com

Emile Munier (1840-1895) The reading_lessonHá muito tempo, 1888

Emile Munier (França, 1840-1899)

óleo sobre tela, 175 x 125 cm

eugene de blockAprendendo a ler, 1870

Eugène François de Block (Bálgica, 1812-1893)

óleo sobre madeira,  52 x 40 cm

pierre auguste renoirA lição

Pierre Auguste Renoir (França, 1841-1919)

Sanguínea sobre papel

Richard Crafton Green, (Inglaterra, 1869-1890) The reading lesson,1890,  45 x 32cm,A lição de leitura, 1890

Richard Crafton Green (Inglaterra, 1869-1890)

óleo sobre tela, 45 x32 cm

Signe GrushovenkoSem título

Signe & Genna Grushovenko (EUA, contemporâneos)

www.grushovenko.com





Palvras para lembrar — Abraham Lincoln

7 05 2013

Janereading_RossettiJane Morris lendo, s/d

Dante Gabriel Rossetti (Inglaterra, 1828-1882)

desenho

“As coisas que quero conhecer estão nos livros, meu melhor amigo é aquele que me dá um livro que eu ainda não tenha lido”.

Abraham Lincoln





O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

9 de fevereiro [1941]

Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





A lista de leitura recomendada para minha mãe

6 05 2013

O charme da juventude, c. 1935. papelão, pastel, 58 x47,  E. BobovnikofF (França, )

O charme da juventude, c. 1935

E. Bobovnikoff (França, 1898-1945)

pastel sobre papelão, 58 x 47 cm

Tive a felicidade de ser neta de um homem de visão, que exigiu que suas três filhas, nascidas no final da segunda década do século XX, fizessem curso superior.  Meu avô, um advogado nascido em Mato Grosso, mas formado no Rio de Janeiro, adotou a posição bastante liberal e visonária na época, não deixando que nenhuma de suas três filhas pensassem em casar antes do curso superior completo.  As meninas que tinham menos de 4 anos de diferença entre si, formaram-se todas em Letras. Duas em Neo-latinas, a outra em Anglo-germânicas, assim eram divididos os estudos em meados do século XX, quando se graduaram.  Formaram-se todas pelo Instituto Lafayette, aqui no Rio de Janeiro.

Esta semana, que não está sendo muito fácil para mim, emocionalmente, tenho passado em revista um saco plástico em que mamãe guardou isso ou aquilo. Papelada sem nenhum valor, exceto para ela: uma poesia de meu avô publicada; um jornalzinho de escola, onde meu pai, aos nove anos, publicou uma redação intitulada A Catástrofe, [ainda escrita com ph  — Catastrophe] quando frequentava o curso primário; três desenhos para tapeçarias que ela havia projetado — queria ter sido uma artista plástica, mas meu avô não recomendou.  Enfim, isso e aquilo, que se não fosse a filha a salvaguardar, já teria ido para o lixo há tempos, decisão que a maioria das famílias brasileiras já teria tomado.  Mas tenho um grande  amor ao papel, e passei em revista páginas e recortes de jornal.  Por mais que estas lembranças sejam boas, trazem sempre uma nostalgia enorme.  E tenho que dar umas pausas.  Minha  mãe morreu há cinco anos e ainda é difícil de vez em quando lidar com certas coisas…  Numa retomada, eis que me deparo com uma página de um caderno de notas de mamãe, com a lista de obras para leitura.  Uma lista de leitura!  Dos tempos de faculdade de mamãe! …  Presente do céu!  Vou deixar aqui seu registro, principalmente porque há uma curiosa nota ao final.  Minha mãe se formou em 1946. A todos que se interessam por história, por historiografia da educação aqui vai:

Lista de leitura, recomendada, pelo professor de literatuura geral e comparada Albert Guérard, da Universidade de Stanford.

Leitura dos livros mais decisivos no mundo.

1. a Bíblia

2. as obras de Rousseau

3. O Capital de Marx, com prefácio de Adam Smith

4. O Príncipe, de Machhiavelli

5. A Origem das Espécies, de Darwin

6. Novum organum, de Bacon

7. A República, e Diálogos, de Platão

8. Utopia, de Thomas More

9. Ensaios de Montaigne

10. Ensaio sobre o entendimento humano, Locke

11. Ideias sobre a História do Mundo de Hender com prefácio de Vico

12. The Principle of Population, Thomas Malthus

13. Lógica, de Hegel

14. Toda obra de Nietzsche

NOTA: Professor Guérard ainda em dúvida quanto a obra de Kant e de Freud.

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Notinha a lápis.  “Papai, nem todas essas obras estão em português.  Mas não faz mal“.

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O quanto minha mãe leu?  Não sei. O Príncipe, certamente. Platão também.  Os ensaios de Montaigne sei que leu, tenho suas notas a respeito.  Leu mais de uma vez. No original. É possível que tenha lido a obra de Rousseau, porque sempre leu muito em francês.  E depois de casar com um cientista, é provável que tenha pelo menos passado os olhos em Darwin e Malthus.  Achei muito interessante a dúvida do Professor de Stanford sobre as obras de Kant e de Freud.  Outros tempos, outras prioridades.





Imagem de leitura — John Dawson Watson

4 05 2013

JOHN DAWSON WATSON (1832-1892), a jovem preceptora, 1885, aquarela e guach, 19 x 24 cm col part

Jovem preceptora, 1885

John Dawson Watson (Inglaterra, 1832-1892)

aquarela e guache, 19 x 14 cm

Coleção Particular

John Dawson Watson nasceu em 1832. Estudou na Manchester School of Design e na Royal Academy. Estabeleceu-se  em Londres em 1860, onde  trabalhou como ilustrador e aquarelista seguindo os passos de seu cunhado e de Myles Birket Foster, um amigo também artista. Contribuiu para revistas tais  como Good Words e London Society.  Foi também o ator de uma esplêndida edição de O Peregrino para o editor George Routledge em 1861 além de contribuir com desenhos e ilustrações para a antologia English Sacred Poetry em 1862. Em 1877, uma retrospectiva de sua obra foi organizada em Manchester. Viveu em Conway em North Wales, e lá morreu em 1892.





Minuto de sabedoria — Jacques-Bénigne Bossuet

3 05 2013

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Sem título

Chad Weston Barksdale ( EUA, 1972)

“A felicidade humana é composta por tantas peças que algo está sempre em falta.”

ncd01384Jacques-Bénigne Bossuet (França, 1627-1704)





Palavras para lembrar — Carlo Dossi

1 05 2013

Pierre Oyens

Beleza italiana vendo livro no ateliê, 1886

Pieter Oyens (Holanda, 1842-1894)

óleo sobre tela, 101 x 77 cm

“Nunca escrevo meu nome nos livros que compro até depois de lê-los, porque só então posso chamá-los de meus.

Carlo Dossi