“É por isso que os livros não vão desaparecer. É impossível. É o único momento em que entramos verdadeiramente na mente de um estranho, e fazendo isso encontramos o que há de comum na nossa humanidade. Então, o livro não pertence só ao escritor, pertence ao leitor também, e juntos fazemos o que ele é.”
Paul Auster
Tradução livre: Ladyce West
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“And that’s why books are never going to die. It’s impossible. It’s the only time we really go into the mind of a stranger, and we find our common humanity doing this. So the book doesn’t only belong to the writer, it belongs to the reader as well, and then together you make it what it is.”
Recentemente me perguntaram como vejo a influência dos mais de trinta anos, passados fora do Brasil. Influenciaram minha escrita? Estávamos num podcast e eu não havia me preparado para essa pergunta. Não soube responder de pronto, principalmente porque eu nunca havia considerado a questão.
A poesia me acompanha desde criança. Para mim, ler poesia é um prazer, mas não leio livros inteiros. Leio um poema aqui, outro acolá. Sou leitora promíscua e constante. Tenho poetas preferidos. Nos Estados Unidos, depois que me casei com um professor universitário de literatura americana, fui me familiarizando com a poesia do país, e em paralelo com os poetas ingleses, para além dos grandes nomes. Tive sorte de também conhecer dezenas de poetas vivos, contemporâneos., com quem convivi em encontros de escritores. Nos EUA, morei fora do eixo cultural centralizado em Nova York — mas sempre na costa leste, que por sua própria história mantém mais elos culturais com a Grã-Bretanha do que o resto do país. E a vida cultural no RTP [Research Triangle Park] foi rica, graças às várias e respeitáveis universidades ali concentradas [N.C. State, North Carolina, Duke, Wake Forest, Shaw, Saint Augustine, William Peace, Campbell e outras].
A carta de amor, 1911
George Lawrence Bulleid (Inglaterra,1858-1933)
aquarela sobre papel
Nunca pensei que meu primeiro livro fosse de poemas. O que me atrai nessa escrita? Ser sucinta, expressar pensamentos, estados d’alma, ponderações. Aquilo que me intriga e fascina. Isso é poesia para mim. Seu valor está na brevidade, chamando o leitor ou o ouvinte para reflexão. E tem que ter cadência, ritmo. Rimas ocasionalmente bem-vindas, mas não necessárias.
Desde que retornei ao Brasil, ampliei meu contato com os nossos poetas, com a poesia contemporânea. Desconhecia muitos. O que herdei do meu contato com a poesia anglo-americana, talvez seja a preferência pela ordem direta, pela simplicidade da imagem. Guardo, sim, sinais das dezenas de anos de imersão total no inglês. Anos sem uma palavra em português: lendo e escrevendo nessa língua. Publicando nos jornais. Sinto falta às vezes da precisão da língua inglesa. Mantenho a escrita intimista, típica de muitos dos meus poetas favoritos. No inglês são, de fato, os líricos, tanto antigos quanto os da segunda metade do século XX, que mais me tocam: Frost, St. Vincent Milay, Sexton, Lowell, T. Hughes, W.C. Williams, Wallace Stevens, Dunbar. No Brasil, ah, são muitos, conhecidos e não tão conhecidos: Drummond, Bandeira, Quintana, Murilo Mendes, Meireles.
Somos o resultado das nossas preferências; esponjas absorvendo sempre aquilo que nos fascina, agrada, intriga. Como não ter um influência estrangeira nessas circunstâncias? Mas é de perspectiva. A língua em uso é bem brasileira, culta, mas brasileira.
Para quem não conhece, acima meu primeiro livro À meia voz. em breve Casa Vazia estará nas livrarias, ainda sem data. Mas À meia voz, o livro com que me lancei com poesias variadas, está na Amazon tanto em papel quanto em ebook. Será um prazer conversar com você sobre a obra.
Uma velha livraria, ilustração de Guido Borelli (Itália, 1952).
Meu pai me apresentou às delícias de explorar um sebo. Lembrei-me disso, hoje, quando organizando novas prateleiras colocadas neste fim de semana, me encontrei com um livro muito antigo que ele comprou para mim, quando comecei a estudar francês aos dez anos de idade. Num final de tarde, vindo do trabalho, papai me entregou um pacotinho, não muito grande, bem embrulhado em papel pardo, com barbante de algodão de dois fios, verde e branco que se enroscavam um no outro. Muito bem feito, com as rebarbas de papel dobradas em ângulos nas laterais e depois viradas para reforçar as aberturas, o pacote, embalado sem luxo, tinha um pequeno laço no centro, revelando o cuidado do vendedor com a compra. Era um livro. Um livro muito diferente de todos que eu conhecera até então. Antigo. A capa dura, com dorso em tecido vermelho, tinha ao centro a gravura de uma mulher sentada, tal qual deusa da antiguidade, talvez Minerva, ladeada por duas crianças: um menino e uma menina. Em típica estética do início do século XX, a capa também descreve, de uma só vez, em palavras, todo o conteúdo do livro: Curso seguido pela Escola de Paris, inscrito nas listas dos departamentos (estados na França), adotado em todos os países de língua francesa. 800 exercícios 380 ditados e redações, 240 gravuras, publicado pela Librairie Larousse, Paris [1911]. Há outra frase descritiva, mas o tempo já apagou muitos dos caracteres. Era a Grammairede Claude Augé, volume relativo ao curso mediano. Em seu interior havia, pontuando os exercícios de leitura, gramática e demais pontos de ensino, deliciosas gravuras, quadradinhas, não passando de dois centímetros e meio cada, que ilustravam a lição e me deram muitas vezes asas para imaginação. Fui uma criança e adolescente sonhadora e, sentada à mesa da sala de jantar, fazia os meus exercícios, vagarosamente, sempre com auxílio de um de meus pais. Mas era comum eles, de repente, pararem as explicações, chamando minha atenção para o texto, para o presente, para o que fazíamos, porque aquelas gravurinhas nos cantos, nas bordas das páginas me levavam a outros mundos. Provavelmente, frustrados com meu progresso em casa, aos doze anos entrei para a Aliança Francesa, e por anos seguidos estudei lá, até mesmo depois de casada, quando morei em São Paulo. Porque comecei muito cedo no aprendizado do francês acredito que a familiaridade com a língua tenha me ajudado bastante, de maneira totalmente inesperada, em ocasiões que ficam para serem contadas de outra vez.
Na minha família, naquela época, a língua francesa era a língua estrangeira a se conhecer. Não é que não dessem valor ao inglês. Fui aluna, por poucos anos, da Cultura Inglesa, porque meus pais achavam importante eu ter um mínimo de conhecimento de inglês. Mas eu já era adolescente cheia de rebeldia, largando o inglês assim que pude. A ironia do destino foi que justamente na Cultura Inglesa, do Jardim Botânico, vim a conversar pela primeira vez com o adolescente, que eu já conhecia de vista, porque voltávamos da escola no mesmo transporte público, que mais tarde, poucos anos depois, se tornou meu marido. Nessa época eu ainda não sabia que o destino iria me trazer a obrigação do inglês. O francês continuou como a língua estrangeira mais importante. Quem poderia imaginar que casada, eu iria morar nos Estados Unidos e voltar de lá mais de três décadas depois? Esses certamente não eram os planos quando comecei a aprender francês com minha mãe, em casa. Meu avô materno havia passado algum longo tempo, na Suíça, a trabalho, voltando algumas vezes mais tarde na década de 1950. Sua primeira e longa estadia foi após a Segunda Guerra Mundial. Vovô era um intelectual, advogado, professor e mais tarde, na década de cinquenta tornou-se escritor com uma coluna sindicalizada nos jornais, que aparecia em diversas publicações por todo Brasil. Ele era fluente em francês. Seu diário, de que sou a guardiã, tem observações interessantes sobre diversas épocas de sua vida. Alguma coisa que ele preferia deixar velada, escrevia em francês. Francês era sua língua de escape, ainda que eu não saiba exatamente quando a aprendeu. Por causa de sua estadia na Suíça, tínhamos lá em casa muitos livros com belas fotos daquele país, e eu, uma coleção de bonecas dos diversos cantões suíços.
Esse não foi o único livro de sebo que papai me trouxe de presente. Muitos outros fizeram parte da minha vida de estudante e certamente da minha vida de leitora. A Grammairede Augé, foi o início de um relacionamento feliz com livros antigos. Um de meus primos, que era afilhado de papai, uma vez me disse que papai sempre lhe dava presentes de aniversário para crianças um pouquinho mais velhas. Ele gostava, mas tinha que se esforçar para apreciá-los. O mesmo acontecia comigo. Tenho certeza de que meu francês aos dez anos não deveria ser do nível para essa gramática, segundo volume de uma série de quatro, do ensino para nativos da França. Mas nem papai, nem mamãe se preocuparam com isso. Aulas particulares de mamãe começaram quase imediatamente após o livro de Claude Augé chegar lá em casa. Foram aulas pequenas, sem grandes exigências, mas hoje, abrindo aqui e ali, vendo minhas anotações, em pedacinhos de papel marcando lugares específicos no livro, me surpreendi com o material que cobrimos.
Procurei por essa gramática na Estante Virtual, site de venda de livros de segunda mão. A gramática ainda existe à venda e há também outros livros novos e antigos esperando por compradores. Depois de uma hora vagando virtualmente pelos sebos do país, comprei alguns livros que irão alegrar minhas leituras este ano. Mesmo assim, ainda prefiro entrar nas poucas lojas de livros usados que conheço aqui na cidade, respirar o ar dos livros antigos, um misto de tabaco, mofo, papel velho e poeira que certamente não são bons para alergias, mas a gente dá um jeito. E gosto de desfrutar do silêncio. Adoro o silêncio que livros trazem a qualquer lugar. Gosto também de sair, depois de ter manuseado uma centena de volumes, com uma sacola com dois, três, cinco livros que eu não sabia, ao entrar, que precisava ler; que só de abri-los se tornam indispensáveis para mim. Hoje, eles vêm para casa em sacos plásticos, quando não em sacola do supermercado reutilizada. Perdemos o encanto de um pacote bem feito, de papel pardo, provavelmente puxado de um rolo grosso preso no tampo do balcão. Papel milimetricamente dobrado e redobrado; pacote finalizado com barbante de algodão, cujo fio desce de um rolo colocado no teto. Aqueles eram livros garbosamente vestidos e respeitados pela importância que poderiam ter em nossas vidas.
“A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam chilras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso.”
“Lembro-me de andar por galerias de arte, em meio a obras do século XIX: a obsessão que eles tinham por haréns. Dúzias de pinturas de haréns, mulheres gordas deitadas à toa em divãs, com turbantes na cabeça ou barretes de veludo, sendo abanadas com rabos de penas de pavão, um eunuco ao fundo montando guarda. Estudos de carne sedentária pintados por homens que nunca tinham estado lá. Aquelas pinturas deveriam ser eróticas e eu achava que eram, na época; mas vejo agora o que realmente retratavam. Eram pinturas que retratavam animação suspensa, retratavam espera, retratavam objetos que não estavam em uso. Eram pinturas que retratavam o tédio. Mas talvez o tédio seja erótico, quando mulheres o fazem, por homens.”
Ilustração de livro francês. Provavelmente da década de 1960. Desconheço a autoria.
A mocinha aí em cima, me lembrou meus anos de adolescente. Estudava numa escrivaninha como essa. Não tinha gavetas laterais. Havia uma gaveta grande e rasa para lápis, réguas, clipes, material de papelaria. Embaixo havia um armário de duas portas, com uma grande prateleira, onde eu guardava meus livros, minhas revistas, tudo que era só meu e não da família. A tampa fechada, era um alívio, dizia: “não precisa mais fazer dever de casa”. Essa jovem da ilustração parece estar escrevendo em seu diário. Manter um diário foi sempre uma tarefa que não consegui realizar. Comecei muitos. Mas sem sucesso. A vida sempre foi muito cheia de aventuras, brincadeiras. Era muito ocupada e tudo parecia tão menos interessante quando era posto no papel, tão mais reduzido de excitação que não valia a pena relatar o dia a dia. Mas a jovem adulta voltou aos cadernos. Não aos diários. Cadernos de citações, frases de livros, poemas.
No YouTube no início de cada ano aparecem dezenas de vídeos ensinando as vantagens de se manter um diário para o equilíbrio emocional, para boas decisões. Ou a importância para o pintor, artista plástico, de carregar consigo um caderno de sketches. Para leitores e escritores há as cadernetas de bolso para que se anote uma ideia, observação feita na rua, no jardim, na praia, algo que possa ser colocado como detalhe na sua escrita. Não tenho nenhum deles. Este ano, pela primeira vez, coloquei na bolsa um pequenino caderno para isso, mas vou precisar me lembrar de que tenho essa ferramenta. Como nunca usei, talvez precise me esforçar para lembrar de que tenho essa coisa na bolsa.
O que faço, é uma adaptação do que é conhecido como Commonplace Book. Não, não é o típico Commonplace Book, objeto vindo de um hábito criado na Renascença, na Itália, das pessoas guardarem citações, ditados, ideias do que fazer, ideias do que escrever, ideias próprias e uma variedade de anotações. O meu Commonplace Book é de coisas que vou lendo, que não são citações que encontrei em livros. Essas eu tenho em cadernos separados e já escrevi sobre eles aqui no blog, no dia 23 de outubro de 2022, sob o título: O acaso sempre ensina. Meu livro de anotações é de coisas que aparecem no meu caminho, ou alguma coisa que preciso verificar para um nota de rodapé ou para um detalhe que venha a ser interessante – não importante, mas interessante – para o futuro. Não há ordem. Não há assunto específico. São coisas que acho que ainda voltarei a consultar, apesar de não saber exatamente porque.
Todos eles são feitos exatamente como esse acima nas fotos, que é i caderno de 2022. Divido um pedaço da página, nos cantos, onde só coloco títulos ou ilustrações sobre o texto. Sou uma pessoa que pensa por imagens. Minha memória imagética é mais desenvolvida do que a memória de textos. Por exemplo, não sei uma única de minhas poesias de cor. Apesar de ter publicado um livro de poesias, ter diversas outras poesias publicadas em antologias e estar tratando de meu próximo livro de poemas. Mas preciso ler meus textos, porque não consigo me lembrar deles de cor. Contudo, consigo resgatar conhecimento ou onde encontrar algo que procuro, por causa das “figurinhas” que imprimo e colo no caderno. Cada louco com sua mania, essa é uma das minhas.
Lembrei-me de colocar essa postagem aqui, porque estou fazendo minhas primeiras anotações no Commonplace Bookdeste ano. Numero todas as páginas. Guardo algumas páginas no final para um índice, E assim muita informação secundária e interessante não só é guardada como faz parte de um processo a que tenho fácil acesso.
Não é o verdadeiro Commonplace Book. Os puristas não gostarão de ver esse nome aplicado a esses cadernos. Mas é para mim.
E vocês? Com ajudam sua memória? Como guardam informações que um dia poderão vir a utilizar?