Hora da Leitura, 1858
Charles Baugniet (Bélgica, 1814 – 1886)
óleo sobre tela
Hora da Leitura, 1858
Charles Baugniet (Bélgica, 1814 – 1886)
óleo sobre tela
Rapaz lendo em poltrona junto à janela, 1914
Arthur A Drummond (EUA, 1891-1977)
óleo sobre tela, 28 x 20cm
Amor Towles
Café da manhã, 1927
Jane Rogers (EUA, 1896 –?)
óleo sobre cartão, 50 x 60 cm
Oresman Collection, NY
Livros e Pequeno Pássaro
Kestutis Kasparavicius (Lituânia, 1954)
Então…
Você marcou uma meta de leitura para 2020. Espero que tenha sido realista. Se nunca leu um livro por ano, por exemplo, não deve começar com a meta de cinquenta livros. Seja razoável. Não se prepare para desapontamento.
Estamos no final de janeiro. Como você está? Já desistiu de sua meta?
Espero que não.
O que você precisa fazer…
Reservar um momento para leitura. Tudo tem a ver com separar e proteger aquele momento da leitura. Vinte minutos por dia. É bom. É essencial que você reserve esse tempo de leitura. Rigorosamente. E comece hoje mesmo. Não deixe para amanhã.
Aos poucos, você sentirá a necessidade dessa leitura. Você nem vai pensar nos vinte minutos. Eles já estarão lá, logados na sua agenda.
Para ajudar sugiro que você faça a lista dos livros que quer ler. Faça-a em letras grandes. Coloque-a em lugar que você sempre vê. Por exemplo tire uma foto da lista e coloque-a como screen saver no seu computador. A cada livro lido, marque nesta lista LIDO…Bem grande. Sucesso gera sucesso. Quanto mais livros lidos, mais você se sentirá capaz de terminar com a leitura estipulada na lista. Sua autoestima aumentará. Anuncia aos amigos. Anuncie seu sucesso. Em menos tempo do que imagina, você conseguirá chegar à sua meta.
Mas vinte minutos por dia de manhã e de noite, é melhor ainda!
A leitura
Caetano de Gennaro (Itália/Brasil, 1890 – 1979)
óleo sobre cartão, 19 x 29 cm
Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e Silva
Ladyce West
Se você notar bem, se me olhar com cuidado, verá que ainda tenho um relógio de bolso que trouxe do País das Maravilhas, onde aprendi a tomar chá com a Rainha de Copas. Além daquela Alice, fiquei amiga de outra, na fazenda do Boqueirão, que me contou histórias de Teresópolis enquanto esperávamos por Mário voltar da Europa no Tronco do Ipê.
Alencar, na verdade, é responsável pela Aurélia que vive em mim, mulher desafiadora dos costumes da época que, em Senhora, me ensinou o que é vingança. De Capitu não tenho nada, mas aprendi com Bentinho, a desconfiar. Machado deu o nome ao meu cachorro, Quincas. Dancei minha primeira valsa ao lado de Carolina em Paquetá e me apaixonei pelo Moço Loiro como Honorina o fez.
Com Lobato aprendi a caçar sacis, visitei a lua, o país da gramática e saboreei os quitutes de Tia Nastácia. Só não tenho o pó de pirlimpimpim porque Emília não me deixou trazer.
Acompanhando uma Condessa, chorei calorosas lágrimas pelos Desastres de Sofia e Memórias de um burro; mais ou menos na mesma época em que descobri, nas Cartas do Meu Moinho, que até um reverendo francês pode morrer de gula e que há tempestades de gafanhotos destruidores, no mundo.
Viajei com Simbad, dei a Volta ao mundo em oitenta dias, fui vinte-mil léguas ao fundo do mar. Naufraguei e fiquei presa numa ilha com um cara chamado Sexta-feira, mas também descobri um tesouro, na Ilha de Montecristo, que permitiu vingar-me de um crime contra mim. Fui um dos mosqueteiros da Gasconha e, com um pequeno príncipe, aprendi “que sou responsável por aquilo que cativo.”
Fui, com mapa na mão, à procura de tesouros numa ilha guiada por Robert Louis Stevenson. E me aventurei pelas selvas africanas à cata das Minas do Rei Salomão com H. Rider Haggard.
Conheci Numero Um, o filho de Charlie Chan com quem resolvi crimes no Havaí. Já com Arsène Lupin, andei do outro lado da trilha, à maneira de Ivanhoé, roubando os ricos. Fui princípe e pobre com Mark Twain e com ele também viajei através do tempo quando fui um Connecticut Yankee na corte do rei Arthur.
Tudo isso antes de completar treze anos. Depois dos treze é outra história. Os livros ficaram mais complexos, assim como eu. Como poderia ter tanta experiência com tão pouca idade? Sabe, sou o que leio.
©Ladyce West, Rio de Janeiro, Janeiro de 2020
O leitor
Merrie C. Ligon (EUA, contemporânea)
aquarela sobre papel
“Naqueles três anos como aluno do ensino médio nos subúrbios de Nova Jersey, Ferguson de dezesseis, dezessete e dezoito anos começou a escrever vinte e sete contos, terminou dezenove e passou não menos de uma hora por dia com o que chamava de seus cadernos de trabalho, que ia enchendo com diversos exercícios de escrita que inventava para si mesmo, a fim de manter a forma, afiar a pegada e tentar melhorar (como ele disse certa vez para Amy): descrições de objetos físicos, paisagens, céus no amanhecer, rostos humanos, animais, o efeito da luz na neve, o barulho da chuva no vidro, o cheiro de madeira queimada, a sensação de andar na neblina e ouvir o vento soprar entre os galhos das árvores; monólogos na voz de outras pessoas a fim de se transformar naquelas pessoas ou, pelo menos, tentar entendê-las melhor (o pai, a mãe, o padrasto, Amy, Noah, seus professores, seus colegas de colégio,o sr. e a sra Federman), mas também pessoas desconhecidas e mas distantes, como J. S. Bach, Franz Kafka, a garota do caixa do supermercado local, o cobrador da Companhia Ferroviária Erie Lackawanna, o mendigo barbado que lhe pediu um dólar na Grand Central Station; imitações de admirados, rigorosos, inimitáveis escritores do passado (pegue um paragrafo de Hawthorne, por exemplo, e componha algo baseado no seu modelo sintático, usando um verbo nos lugares onde ele usava um verbo, um substantivo nos lugares onde ele usava um substantivo, um adjetivo nos lugares onde ele usava um adjetivo — a fim de sentir o ritmo nos ossos, sentir como se forma a música); uma sequência curiosa de vinhetas geradas por trocadilhos, homonímias e deslocamento de uma letra: óleo/olho, luxo/luto, alma/lama; porto/morto e arroubos impetuosos de escrita automática, a fim de limpar o cérebro, toda vez que estiver se sentindo tolhido, como um jorro de escrita de quatro páginas inspirada pela palavra “nômade”, que começava assim: Não, eu não estou doido. Não estou nem zangado, mas me dê uma chance para desnortear você e num instante eu vou te deixar com os bolsos vazios. Também escreveu uma peça em um ato, que ele queimou de desgosto uma semana depois de terminar, e vinte e três poemas que estavam entre os mais nojentos que qualquer cidadão do Novo Mundo jamais viu e que ele rasgou depois de jurar para si mesmo que nunca mais ia escrever poemas. No geral, detestava o que escrevia. No geral, achava que era burro e sem talento e que jamais conseguiria escrever nada, mesmo assim insistia, se esforçava a se dedicar àquilo todos os dias, apesar dos resultados muitas vezes decepcionantes, entendia que não haveria esperança para ele, a menos que persistisse, que para ser o escritor que almejava levaria anos, mais anos do que seu próprio corpo levaria para terminar de crescer, e toda vez que escrevia algo que parecia ligeiramente menos ruim do que o texto que tinha escrito antes, Ferguson achava que estava progredindo, ainda que o texto seguinte se revelasse uma abominação, pois a verdade era que ele não tinha opção, estava destinado a fazer aquilo ou então morrer, porque, apesar de seus esforços e de seu descontentamento com as coisas mortas que muitas vezes saíam dele, fazer aquilo lhe dava a sensação de estar vivo, mais do que qualquer outra coisa que já tinha feito na vida, e quando as palavras começavam a cantar em seus ouvidos e ele se sentava diante da escrivaninha e empunhava a caneta ou colocava os dedos nas teclas da máquina de escrever, sentia-se nu, nu e exposto ao vasto mundo que passava em disparada na sua frente, e nada dava uma sensação melhor do que isso, nada podia se equiparar à sensação de desaparecer de si mesmo e entrar no vasto mundo cantarolando, por dentro, as palavras que cantarolava, no interior de sua cabeça.”
Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 431-432
Lendo à janela
Paul Gustav Fischer (Dinamarca, 1860-1934)
óleo sobre tela
Menina lendo
Raymond Dendeville (França, 1901- 1968)
óleo sobre tela
Hubert Aquin
Leitura de verão, 2011
Natalia Andreeva (Rússia/ EUA, contemporânea)
“Nenhum outro menino em seu círculo de conhecidos tinha lido o que ele tinha lido e, como tia Mildred escolhia os livros cuidadosamente para ele, assim como havia escolhido para a irmã, em seu período de confinamento, treze anos antes, Ferguson lia os livros que ela mandava com uma avidez que parecia fome física, pois sua tia compreendia quais livros iam dos seis para os oito anos de idade, dos oito para os dez, dos dez para os doze — e daí até o fim do ensino médio. Contos de fadas, para começar os Irmãos Grimm e os livros muito coloridos compilados pelo escocês Lang, depois os fantásticos e assombrosos romances de Lewis Carroll, George MacDonald e Edithh Nesbit, seguidos pelas versões de mitos gregos e romanos escritas por Bulfinch, uma adaptação infantil de Odisseia, A teia de Charlotte, uma adaptação de As mil e uma noites, remontadas com o título de As sete viagens de Simbad, o Marujo, e mais adiante, uma seleção de seiscentas páginas de As mil e uma noites originais, e no ano seguinte O médico e o monstro, contos de horror e mistério de Poe, O príncipe e o mendigo, Raptado, Um conto de Natal, Tom Sawyer e Um estudo em vermelho, e a reação de Ferguson foi tão forte ao livro de Conan Doyle que o presente que ele ganhou da tia Mildred em seu décimo primeiro aniversário foi uma edição imensamente gorda, abundantemente ilustrada, de Histórias Completas de Sherlock Holmes.”
Em: 4321, Paul Auster, tradução de Rubens Figueiredo, Cia das Letras: 2018, páginas 109-110
Hábitos de leitura
Michael Steirnagle (EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela, 75 x 100 cm
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