Do silêncio, texto de José Eduardo Agualusa

12 07 2016

 

329px-Lucien_Lévy-Dhurmer_-_Le_Silence_-_Google_Art_ProjectO silêncio, 1895

Lucien Lévy-Dhurmer (França, 1865-1953)

Pastel, 59 x 29 cm

Musée d’Orsay

 

 

 

“O Silêncio.

Não, os silêncios.

Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração dos surdos.

1 – O silêncio que precede as emboscadas;

2 – O silêncio no instante do pênalti;

3 – O silêncio de uma marcha fúnebre;

4 – O silêncio de girassóis;

5 – O silêncio de Deus depois dos massacres;

6 – O silêncio de uma baleia agonizando na praia;

7 – O silêncio das manhãs de domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;

8 – O silêncio da picareta que matou Trotsky;

9 – O silêncio da noiva antes do sim.

Etc.

Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que tresandam a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.82-3.





Os retratos de Fatita de Matos, texto de José Eduardo Agualusa

9 07 2016

 

Pintura de Di Cavalcanti menina lendo, ost, 1970Menina lendo, 1970

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

óleo sobre teça

 

 

Fatita de Matos, a amante infeliz

 

Na ampla sala de visitas de Fatita de Matos, Mana Fatita, como é mais conhecida, na Restinga do Lobito há cinco retratos a  óleo, com um metro por 1,5 metro. Em todos eles Fatita de Matos está sentada no mesmo cadeirão de verga, quase em idêntica posição, com um livro no regaço. A primeira tela foi pintada em 1946. Fatita tem vinte anos, ainda é virgem, e está a ler Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. Na segunda tem trinta anos, quatro filhos ilegítimos, e está a ler Amor de perdição. Na terceira tem quarenta anos, veste de preto pela morte do filho mais novo, e está a ler Amor de perdição.  Na quarta tela tem cinquenta anos, sete netos, e continua a ler Amor de perdição. Finalmente na quinta tela, tem sessenta anos, 12 netos, três bisnetos, e está a ler Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Todas as telas são de sua autoria.

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.71

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Luanda, texto de José Eduardo Agualusa

5 07 2016

 

 

ArleteMarquesDosuordomeurostoDo suor do meu rosto

Arlete Marques (Angola, contemporânea)

 

 

“Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente: Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, São Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Vinte anos mais tarde chegaram à nova urbe as 12 primeiras mulheres brancas, que logo arranjaram noivos e casaram e tiveram filhos. Em 1641 a cidade foi ocupada pelos holandeses, os quais saíram a toque de caixa, apenas sete anos depois. A 15 de agosto de 1648 uma tropa carnavalesca de brancos, negros e índios, trazida até África nos galeões do imensamente próspero latifundiário e escravocrata carioca, não obstante natural de Cádiz, em Espanha, Salvador Correia de Sá e Benevides, desembarcou em Luanda. Iludidos por uma série de manobras audaciosas de Correia de Sá, mais de mil soldados holandeses renderam-se, abandonando duas fortalezas praticamente intactas  a um exército exausto de menos de seiscentos homens.

Começou dessa forma uma esplêndida confusão de raças, línguas, sotaques, apitos, buzinas e atabaques, que, com o passar dos séculos, mais não fez do que aprimorar-se. O caos engendrando um caos maior.

Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado do regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.”

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.43-44

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Resenha: “Cavalos Roubados” de Per Petterson

2 07 2016

 

 

carol-kossak, cavalos, ost, 90x120Cavalos

Carol Kossak (Polônia/Brasil, 1895-1968)

óleo sobre tela, 90 x 120 cm

 

 

Raramente gosto de romances de formação.  Cansei deles.  Há enorme inflação do estilo e poucas obras seduzem um leitor mais experiente. Portanto, já é grande cumprimento não só eu ter gostado dessa obra como ter-lhe dado a pontuação máxima. A forte voz narrativa de Per Petterson é em grande parte responsável pelo encantamento.  Senti-la mesmo através da tradução de Kristin Lie Garrubo, que me pareceu impecável ainda que eu não conheça nada, absolutamente nada de norueguês, mostra a força de suas imagens.

Cavalos Roubados tem magia própria.  Às vezes percebida no relacionamento do autor com a natureza. Não se trata de descrições hiperbólicas sobre a beleza do céu, a grandeza das árvores ou a mão de Deus que nos afaga nas árvores ou pássaros.  Não.  Tampouco me refiro ao sentimento de veneração e temor evocados pelo movimento romântico do início do século XIX.  Esse é um livro de quem passou muito tempo junto às árvores, aos cheiros e perfumes, que os ama e os respeita,  sem exagero, ainda que profundamente. A narrativa contida traz consigo a força dos sentimentos guardados e profundos.  São observações singelas que comovem.

“…Em vez disso, levamos os cavalos ao longo de outra trilha que logo virava para o leste, estreitando-se gradualmente em pouco mais de uma sinuosa vereda entre as bétulas antigas e altas, cujas enormes copas sussurravam se você inclinasse a cabeça para trás e olhasse por entre a folhagem, e fiz isso até ficar com torcicolo e lágrimas nos olhos, e cruzamos um riacho fundo onde a água parecia gelada. E estava gelada quando respingou entre as patas do cavalo e atingiu minhas pernas, encharcando as calças de imediato, e algumas gotas até atingiram meu rosto quando seguimos a trote, e os cavalos gostavam daquilo, das variações do terreno a caminho de Furufjell. Nas encostas íngremes, a floresta de abetos era densa e intocada por lenhadores, e seguimos a vereda até o cume da colina e paramos por um momento no ponto mais alto, onde viramos os cavalos para olhar para trás, e entre os campos recém-ceifados o rio desenhava  seus meandros em prata fosca sob a copa das árvores, e os bancos de nuvens pairavam sob a colina do outro lado do vale.“ [221]

 

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O livro, narrado em dois tempos é situado durante a década de 1940 na Noruega e no final do século XX, com o personagem central, aos sessenta e sete anos, imprevisivelmente levado a relembrar acontecimentos passados na infância.

Uma característica do texto que me intriga e fascina é a omissão do óbvio. Per Petterson não nos ajuda; ele não nos dá descrições de sentimentos. Apesar dos sentimentos fortes, entre eles mais de uma forma de traição, estes não são denominados.  São as ações que nos contam o que acontece e o que aconteceu.  E assim de maneira oblíqua, nas entrelinhas. Talvez seja exatamente por isso que seu texto tem tanto poder sobre o leitor, que vai descobrindo assim como o jovem Trond, os caminhos tortuosos do mundo dos adultos.

 

per-petterson2Per Petterson

 

A traição é um dos temas mais comuns na literatura.  No entanto aqui ela é tratada de diversas maneiras e sem drama.  Há a traição entre amigos, companheiros de trabalho, fraternal, conjugal, paternal, política, além daquela de si mesmo, todas essas formas tratadas unicamente pelo relato de eventos, de maneira contida, ponderada, realista. Com maestria.

Não há como não recomendar esse livro. Pena que tenha sido lançado no Brasil em 2010 e, portanto, não tão fácil de encontrar nas livrarias. Valerá o esforço de adquiri-lo.

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Descobrindo o outro: por fotos ou livros, texto de Antoine Laurain

6 06 2016

 

 

Edouard John Mentha Late 19th-early 20th centuryMaid Reading in a LibraryArrumadeira lendo na biblioteca

Edouard John Mentha (Suíça, 1858-1915)

óleo sobre tela

 

 

 

“…Uma parede inteira era coberta por uma grande estante, em que várias prateleiras eram dedicadas a livros de arte — alguns recentes, outros muito antigos, que Laure deveria ter obtido ao longo dos anos.  Arquitetura, pintura — douração, claro — , mas  também catálogos de leilões. Uma prateleira terminava em vários livros de Sophie Calle, entre os quais uma de suas obras-primas poéticas: Suite vénitienne. Em 1980, Sophie havia decidido, numa pura iniciativa artística, seguir homens — ao acaso, na rua, e sem que eles soubessem. À maneira de um detetive particular, desses longos passeios trazia fotos em preto e branco de homens, de costas, em diferentes lugares. Desconhecidos que ela havia seguido durante tardes inteiras. Certo dia em que ela havia notado uma nova presa, esta lhe escapou e desapareceu na multidão. À noite, o homem lhe foi apresentado durante um jantar mundano. Ele lhe disse que dentro em pouco partiria para Veneza. Secretamente Sophie Calle decidiu recomeçar — segui-lo incógnita até as ruelas e os canais de Veneza. Dessa expedição, trouxe um diário de bordo de setenta e nove páginas e cento e cinco fotos em preto e branco, posfaciados por Jean Baudrillard. A investigação havia terminado quando o homem a reconhecera e lhe dirigira a palavra. O melhor, não totalmente, já que ela conseguiu voltar à Gare de Paris alguns minutos antes dele e fazer uma última foto. No entanto, a tensão da busca e a  magia tinham se evaporado no momento do encontro. O retorno à realidade havia anunciado o fim da história.

Laure possuía a edição original — dificílima de encontrar e também caríssima. Em outra prateleira exibiam-se os romances. Laurent encontrou ali muitos Modianos, tanto de bolso quanto brochura,  só para verificar tirou vários, e constatou que nenhum tinha dedicatória.  Havia também livros policiais, ingleses, suecos, irlandeses. Romances de Amélie Nothomb, vários Stendhal, dois Houellebecq, três Echenoz, dois Chardonne, quatro Marcel Aymé, Apollinaire inteiro, Nadja, de Breton, em edição antiga. O príncipe, de Maquiavel, em livro de bolso, e ainda uns Le Clézio, uns dez Simenon, três Murakami, mangás Jiro Taniguchi. A ordem era totalmente aleatória, Poésies de Jean Cocteau era vizinho de Saga, de Tonino Benacquista, que, por sua vez se encontrava junto de O banheiro, de Jean-Phillipe Toussaint, cuja capa ladeava um grosso volume em couro marron lavrado a ouro. Laurent tirou este último da prateleira.”

 

 

Em: A caderneta vermelha, Antoine Laurain, tradução de Joana Angélica D’Avila Melo, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, p. 85-6.





No futuro… texto de William Boyd

31 05 2016

 

 

john a copley (EUA) seedling_jpgPlantando, 2007

John A. Copley (EUA,contemporâneo)

acrílica sobre tela, 20 x 25 cm

www.johnacopley.com

 

 

“Fui até o jardim e fumei um cigarro. Na semana passada, plantei uma árvore no último canteiro do jardim, em homenagem ao nosso bebê. A muda tem a minha altura e, pelo que vejo, pode atingir doze metros de altura. Então, daqui a trinta anos, se ainda estivermos vivos, vou poder voltar aqui e vê-la no esplendor de sua maturidade. Entretanto, a ideia me deprime: daqui a trinta anos estarei na casa dos sessenta e vejo que esses projetos, feitos de forma irrefletida, começam a se extinguir. Vamos supor um período de quarenta anos então. Seria demais. Cinquenta? Eu provavelmente não estarei mais aqui. Sessenta? Morto e enterrado, certamente. Graças a Deus não plantei um carvalho. Seria esse um bom exemplo de limite temporal? O momento em que você percebe — meio racionalmente, meio inconscientemente — que o mundo, num futuro não muito distante, não terá mais você: que as árvores que você plantou continuarão a crescer, mas você não estará aqui para testemunhar isso.”

 

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 217-18.





Resenha: “A caderneta vermelha” de Antoine Laurain

24 05 2016

 

 

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)-StGermain, o+acr. sobre telaSt. Germain

Christine Reilly (Austrália, contemporânea)

óleo e acrílica sobre tela,  40 x 60 cm

www.christinereillyartist.com

 

 

Está precisando de um momento de descanso?  Precisa acreditar que a vida é boa, que no fim tudo vai dar certo, não importa os percalços do caminho? Quer passar um fim de semana tranquilo, sorridente e inconsequente?  Esse livro é para você.  Ele lhe trará sorrisos, encantamento e refúgio.  Trará luz num dia chuvoso.  Aquecerá seu coração como um chocolate quente tomado em casa de pijama e meias, com seu gatinho enrolado no colo. Porque este é um delicioso conto de fadas, uma história que acaba bem.  Não me surpreenderia se aparecesse em versão cinematográfica.  Aliás, só me surpreenderei se não se tornar um filme.  Eu colocaria Pio Marmaï como ator principal fazendo Laurent, livreiro, dono da Le Cahier Rouge e Laetitia Casta seria Laure, nossa heroína, possuidora de uma profissão singular – douradora.

 

 

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Trata-se da história de uma mulher que ao ser assaltada perde tudo: sua bolsa, carteira com documentos e dinheiro, o celular. É madrugada e o assalto acontece na porta de seu edifício.  Sua bolsa com todo o conteúdo menos o celular e a carteira são encontrados pelo livreiro Laurent Letellier, que próximo dos quarenta anos, divorciado, com uma filha adolescente, acha-se fascinado pelo conteúdo da bolsa lilás.  Resolve descobrir a quem ela pertencia. Mas é uma tarefa difícil que lhe dará bastante trabalho. O resto ficará para o leitor apreciar. Há reviravoltas e incompreensões.  Mas tudo acaba bem.

Recentemente muitos dos livros franceses traduzidos aqui no Brasil, não sei se por escolha dos editores ou se por preferência nacional do país europeu, têm sido leves, poéticos, românticos no escopo mais largo da palavra.  Refúgios para o caos do dia a dia, cheios de certa ternura, repletos de personagens sensíveis, inteligentes, amorosos, carinhosos, com  respeito pelo outro além de grande interação entre gerações nem sempre vista na vida ou literatura de outros países.  Incluo nesta lista os livros de Anna Gavalda, Muriel Barbery, Benoîte Groult, Katherine Pancol, Denis Tillinac, Jean-Paul Didierlaurent, e agora Antoine Laurain. É claro que aqui há o viés da leitora, assim como a consciente eliminação de outros autores de sucesso da ficção francesa como Laurent Gaudé, Michel Houellebecq, Marc Levy e outros. Mas esse lado suave da vida me parece mais frequente nas obras francesas contemporâneas. Em termos de cinema, esses livros se classificariam em comédias românticas.

 

 

antoinelaurain_bymbtoffoli_p10907661Antoine Laurain.  Foto de Marissa Bell Toffoli (2013)

 

A caderneta vermelha é uma dessas obras.  Bem escrita, com capítulos pequenos, um número reduzido de personagens, traz à tona um romance previsível desde os primeiros capítulos ainda que sua resolução seja mais complexa e criativa do que se poderia esperar.  Não chega a ser chick-lit, mas é romântico, doce; reconfortante, uma ilha de bem-estar num mundo insensato.





Reflexões de um professor/escritor em sabático, texto de Antoine Laurain

22 05 2016

 

Adam Emory Albright ( EUA,1862 - 1957)Garotos na escola

Adam Emory Albright (EUA, 1862-1957)

 

 

 

“… Após vinte e um anos de magistério, um desgaste havia começado a se fazer sentir. Um desgaste nervoso. Estimulado por seu editor e pelo parentes, Pichier havia tirado “um ano sabático” a fim de se dedicar unicamente à escrita. Mas, desde que ficara empacado naquele texto, sozinho, todos os dias em casa, deplorava essa decisão que o privara de seus alunos. Não importava que estes fossem turbulentos,espertalhões, ardilosos, de uma falta de cultura às vezes abissal: devia reconhecer que seus dias com eles eram infinitamente mais animados do que os transcorridos agora diante do computador. Com frequência, a concepção dos alunos sobre literatura era desanimadora. Para eles, a marquesa de Merteuil era uma espécie de cougar e Valmont, um gatão excessivamente cool. Durante um mês, tinham avançado no texto à maneira das séries de TV — Pichier havia decupado trechos: temporada 1, temporada 2… Do título, As ligações perigosas, tinham gostado bastante. Soava moderno, um pouco sexy e subversivo, tudo o que era preciso para despertar a curiosidade. À sua maneira, eles haviam de fato acompanhado o pensamento do autor do século XVIII. Madame Bovary, para os garotos não era mais do que uma história superchata, com uma perua que pirou de vez. Já as garotas compreendiam bem melhor os tormentos de Ema.  Quanto ao universo da mina Germinal, este para a turma inteira tinha algo de pura ficção científica. Um amor de Swann, com seu final: “E pensar que desperdicei anos de minha vida, que desejei morrer, que tive meu maior amor por uma mulher que não me agradava, que não era meu tipo!”, despertava mais interesse. Alguns garotos chegavam a encontrar uma ponte entre o pensamento de Proust e sua experiência pessoal de uma decepção sentimental: “O protagonista acabou se amarrando numa gata mas não era feita para ele. No fim, cai na real e com isso pensa bastante sobre ele mesmo e sobre sua vida”, resumira brilhantemente Hugo — nota 7 –, boa compreensão do texto, mas análise pouco desenvolvida, e cuide de sua ortografia. Hugo. Alguns alunos, garotas na maioria, tinham lido Arcabouço feito de nuvens. A pequena Djamila até lhe pedira uma dedicatória, fazendo perguntas muito pertinentes sobre a construção do livro, o que o emocionara e ao mesmo tempo o deixara otimista.”

 

 

Em: A caderneta vermelha, Antoine Laurain, tradução de Joana Angelica D’Avila Melo, Rio de Janeiro, Alfaguara:2016, p. 68-9.





Resenha: “O ruído das coisas ao cair”, de Juan Gabriel Vásquez

15 05 2016

 

 

David PadwornySem título

David Padworny (EUA, contemporâneo)

 

 

 

É bem apropriado que agora na segunda década do século XXI quando a Colômbia já está equilibrada na guerra ao narcotráfico, que obras literárias, filmes e séries televisivas surjam dando a seus leitores uma melhor ideia do mundo de  Pablo Escobar e seus companheiros.  A grande surpresa é que O ruído das coisas ao cair, conta a história situada nos anos 70 do século passado, mas sem muita violência. O enredo é simples, Antonio Yammara, professor universitário faz conhecimento no salão de bilhar com Ricardo Laverde que acabou de sair da prisão.  Têm uma ou outra conversa, mas não chegam a ser próximos. Um dia, quando a amizade começava a se desenvolver, quando os dois andam na rua, Ricardo é assassinado, sem razão aparente. Antonio, ao seu lado, também é vítima de um tiro, é hospitalizado e leva muito tempo para se recuperar física e emocionalmente.  Nesse processo, de alguns anos, resolve descobrir as razões para Ricardo Laverde ter sido alvo dos assassinos.

O processo da descoberta é lento e tortuoso. E o leitor acompanha passo a passo e só consegue segui-lo graças à voz narrativa de Juan Gabriel Vásquez que se destaca como um bom contador de histórias, à maneira dos clássicos do século XIX, que pausada e detalhadamente volta duas gerações na narrativa.

 

 

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Na tradição das narrativas de causos voltamos aos avós de Ricardo Laverde, seus pais, sua esposa e filha, que, inacreditavelmente também se encontra numa procura semelhante à de Antonio, pois precisa descobrir detalhes da vida de seu pai.  Há grande mérito na habilidade de escrita de Vásquez, pois sem ela, a história poderia se perder na sequência de evento após evento.  A fascinação de Antonio Yammara pelo parceiro de bilhar não me pareceu forte o suficiente para justificar praticamente o livro inteiro de procura sobre mais detalhes; mesmo tendo ele sofrido um tiro que lhe abalou a saúde.  Faltava um comprometimento emocional maior do professor universitário em relação ao companheiro de jogo, para justificar a caça aos fatos, ainda que Antonio Yammara pareça mesmo uma pessoa distante, sem grande habilidade de conexão emocional, como mostra sua relação com Aura e Letícia, sua mulher e filha.

 

juan gabriel vásquezJuan Gabriel Vásquez

 

Eu gostaria de ter tido maior simpatia pelos personagens com quem passei essas horas de leitura.  Mas nenhum deles, nem do núcleo do professor quanto do núcleo de Ricardo Laverde foram capazes de aprisionar meus sentimentos.  A linguagem de Vásquez é bastante refinada e há momentos de grande  beleza, principalmente nas descrições da natureza colombiana. É um livro de leitura rápida e de temática muito interessante.  Ótimo enfoque.  Mas ele me deixou fria.

 

 





Tânger, a cidade vista por Tahar Ben Jelloun

7 05 2016

 

 

Henri_Matisse,_1911-12,_La_Fenêtre_à_Tanger_(Paysage_vu_d'une_fenêtre_Landscape_viewed_from_a_window,_Tangiers),_oil_on_canvas,_115_x_80_cm,_Pushkin_MuseumVista de Tânger pela janela, 1912

Henri Matisse (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 115 x 80 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

 

“Cidade enfeitiçadora, ela amarra qualquer um contra um eucalipto com velhas cordas que marinheiros distraídos esqueceram no cais do porto; ela segue como uma perseguição; fica-se obcecado por ela como em uma paixão para sempre inacabada; fala-se dela; acredita-se que sem ela toda vida é enfadonha; tem-se necessidade de se saber o que está acontecendo, persuadido de que nada de essencial acontece.

Tânger é como um encontro ambíguo, inquieto, clandestino, uma história que esconde outras histórias, uma revelação que não diz toda verdade, um ar de família que envenena a sua existência desde que você se afasta; e você sente, então, que tem necessidade dela sem jamais conseguir saber por quê.”

 

 

Em:O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Rio de Janeiro, Bertrand:2006, p.43