“Ana Sebastiana”, texto de José Eduardo Agualusa

3 11 2016

 

 

 

Lacombe.Ilustração de Lacombe.

 

 

“Ana Sebastiana, viúva profissional. Enterrou três maridos em dez anos, herdando um pecúlio que lhe permitia levar em Lourenço Marques, naqueles vertiginosos anos 60, uma vida muito confortável.  Voltou a casar, já depois de Faustino Manso ter partido para Quelimane, com um oficial da marinha portuguesa. O marido assassinou-a a tiro. Preso, levado a tribunal, alegou legítima defesa.  O juiz deu-lhe razão.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.196.

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O golfe, texto de William Boyd

18 10 2016

Bia Betancourt [Beatriz Falanghe Betancourt] (Brasil, 1963) Golfista, ast, 70 x 180 cmGolfista

Bia Betancourt  (Brasil, 1963)

acrílica sobre tela, 70 x 180 cm

 

 

“Uma das coisas da África de que mais sinto saudade é meu golfe com Dr. Kwaku no campo mirrado de Ikiri. Sinto falta do golfe e da cerveja na ladeira do clube, assistindo ao por do sol.Por que será que gosto de golfe? Não é um esporte estrênuo o que é uma vantagem. O grande benefício é que, ainda que o sujeito não seja um exímio jogador, é ainda possível que realize jogadas no mesmo nível daquelas dos grandes jogadores mundiais. Lembro que um dia eu tinha levado um fragmentário sete à paridade quatro no oitavo buraco em Ikiri e me posicionei para o curto nono, uma paridade três, com um seis-ferro. Morrendo de calor, suado e irritado, balancei, golpeei, a bola planou, quicou uma vez no marrom e caiu no buraco. Um buraco em um. Foi a tacada perfeita — não dava para ninguém fazer melhor, nem mesmo o campeão mundial. Não consigo pensar em nenhum outro esporte que dê ao amador a chance da perfeição. Aquela jogada me deixou feliz por um ano, todas as vezes que eu me lembrava dela….”

 

Em: As aventuras de um coração humano, William Boyd, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, tradução de Antônio E. de Moura Filho, p. 421-22.

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Instrumento musical desconhecido, texto de Dai Sijie

11 10 2016

 

 

antique-village-original-chinese-landscape-by-1804creationVelha aldeia, 1804

Aquarela

 

 

“O chefe da aldeia, homem de seus cinquenta anos, sentado no chão bem no meio do cômodo, perto do carvão que ardia num buraco escavado na terra, revistava meu violino. Na bagagem dos dois “rapazes da cidade” — pois assim eu e Luo fomos considerados — aquele era o único objeto do qual emanava um sabor estranho, um cheiro de civilização capaz de provocar suspeita nos aldeões.

Um camponês aproximou um candeeiro para facilitar a identificação do objeto. O chefe suspendeu verticalmente o violino e sondou o orifício negro da caixa, como um aduaneiro minucioso à procura de drogas. Observei que em seu olho esquerdo havia três gotas de sangue, uma grande e duas pequenas, todas do mesmo rubi.

Levantando o violino à altura dos olhos, sacudiu-o, como se esperasse que alguma coisa caísse do fundo negro da caixa sonora. Tive a impressão de que as cordas iam se quebrar com o impacto e as cravelhas partir-se em pedaços.

Quase toda a aldeia estava presente, debaixo daquela casa sobre pilotis, perdida no alto da montanha. Homens, mulheres e crianças fervilhavam lá dentro, agarrando-se às janelas, acotovelando-se diante da porta. Já que não havia nada no instrumento, o chefe enfiou o nariz no buraco para sentir-lhe o cheiro. Os grossos e longos pelos sujos que saíam de suas narinas puseram-se a vibrar.

Ainda não encontrara nenhum indício.

Escorregou os dedos calosos sobre uma ou outra corda… Aquele som desconhecido infundiu tal respeito que a multidão logo se petrificou.

— É um brinquedo — disse o chefe solenemente.

Esse veredicto deixou-nos, a mim e a Luo, sem fala. Trocamos um olhar furtivo, mas inquieto. Queríamos saber como tudo aquilo iria acabar.

Um camponês o “brinquedo” das mãos do chefe, socou as costas da caixa, em seguida entregou-o a outro homem. Durante alguns minutos meu violino passou de mão em mão. Ninguém mais se interessou por nós, rapazes da cidade, frágeis, magros, cansados e ridículos. Tínhamos caminhado o dia todo na montanha, e nossas roupas, rostos e cabelos estavam cobertos de lama. Parecíamos dois soldadinhos reacionários de filme de propaganda, capturados por um bando de camponeses comunistas, depois de uma batalha perdida.

— É um brinquedo idiota — disse uma mulher de voz rouca.

— Não — corrigiu o chefe –, é um brinquedo burguês, da cidade.

Gelei apesar do fogo aceso no meio da sala. Ouvi o chefe acrescentar:

— É preciso queimá-lo!

A ordem provocou de imediato forte reação no grupo. Todos falavam, gritavam, empurravam-se. Queriam agarrar o “brinquedo” só pelo prazer de atirá-lo ao fogo com as próprias mãos.

— Chefe, isso é um instrumento musical — disse Luo com desembaraço. — Meu amigo é um bom músico, sem brincadeira.

O chefe pegou de novo o violino e, mais uma vez, o revistou para em seguida devolvê-lo a mim:

— Lamento, chefe — disse constrangido. — Não toco muito bem.

De repente, percebi que Luo me fazia um sinal. Espantado, peguei o violino e comecei a afiná-lo.

— Vocês vão ouvir uma sonata de Mozart, chefe — anunciou Luo tão tranquilo quanto estivera antes.

Fiquei aturdido. Ele estava doido. Há anos todas as obras de Mozart, assim como a de qualquer outro autor ocidental, estavam proibidas em todo o país. Meus pés úmidos, dentro dos calçados encharcados, estavam gélidos. Mas uma vez o frio me invadiu.

— O que é uma sonata — perguntou o chefe, desconfiado.

— Não sei — respondi gaguejando.

— Um troço ocidental.

— Uma canção?

— Mais ou menos — respondi.

Imediatamente a vigilância de bom comunista reacendeu-se no olhar do chefe, e sua voz se fez hostil.

— Como é que se chama essa canção?

— Parece uma canção mas é uma sonata.

— Estou perguntando o nome dela! — gritou, olhando-me diretamente nos olhos.

E, de novo, as três gotas de sangue no olho esquerdo me deram medo.

Mozart … — hesitei.

Mozart o quê?

Mozart pensa no presidente Mao — completou Luo em meu lugar.

Que audácia!  Mas deu resultado. Como se tivesse ouvido algo miraculoso, o rosto ameaçador do chefe, abrandou-se.

Os olhos se comprimiram num sorriso de gozo.

— Mozart ainda pensa no presidente Mao — repetiu.

— Sim, ainda, confirmou Luo.

Quando tensionei as crinas do arco, a sala explodiu em calorosos aplausos que me amedrontaram. Meus dedos entorpecidos começaram a percorrer as cordas, e as frases de Mozart retornaram como amigos fieis. Os rostos dos camponeses até então fechados, foram-se pouco a pouco enternecendo sob a límpida alegria de Mozart, tal como um chão ressecado se umedece com a chuva. Depois sob a luz vacilante do lampião, foram perdendo o contorno.

Toquei durante algum tempo, enquanto Luo acendia um cigarro e fumava como um homem.

Assim, foi nosso primeiro dia de reeducação. Luo tinha dezoito anos e eu, dezessete.”

Em: Balzac e a costureirinha chinesa, Dai Sijie, Rio de Janeiro, Objetiva: 2000, páginas 5-8. Tradução de Vera Lucia dos Reis.

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Agruras de uma “ghost writer”, texto de Claudia Piñeiro

8 10 2016

 

 

mulher-escrevendo-valerie-hardy-eua-contemp-ost-30-x-25-cmMulher escrevendo

Valerie Hardy (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 30 x 25 cm

 

 

 

“Nurit Iscar trabalha esta tarde no livro que está escrevendo por encomenda: Desamarra os nós. Detesta essa coisa. É a encomenda da ex-mulher de um empresário do transporte que durante e depois do seu divórcio viveu alternativas que considera ‘únicas’ e encontrou ‘soluções da alma’ que quer partilhar com os demais. Não sabe o livro que vai escrever quando eu contar a minha vida, disse no dia da entrevista com Nurit, seu suspeitar quantas vezes sua escritora fantasma — e tantos outros escritores — já tinha escutado essa mesma frase ou similares de outras bocas. “Se eu te contar minha vida, você pode escrevê-la e ganhar o Prêmio Clarín”, “Quando eu conto a meus amigos, todos me perguntam por que não escrevo um romance”, Vou lhe contar algo, você anota e já tem seu próximo livro, mais que seu próximo livro: três tomos, no mínimo!” Por que tanta gente acha que sua vida é única e eu acho que a minha é igual à de qualquer um? perguntou-se então e se pergunta de vez em quando Nurit Iscar.”

 

Em: Betibu, Claudia Piñeiro, Campinas, Verus: 2014, p. 36





“Na redação”, texto de Claudia Piñeiro

6 10 2016

 

 

journalist-commission-largeJornalista, 2008

Andrew Peutherer (Escócia, contemporâneo)

técnica mista sobre placa

www.underthekitchensink.com

 

 

“Guarda de vez os formulários na gaveta e fica olhando, por cima da divisória que separa sua mesa da seguinte, o garoto que colocaram para substituí-lo nas notícias que sempre foram suas: crimes e assaltos violentos. Bom garoto, embora muito novinho, pensa.  Muito suave.  Geração Google: sem rua, todo teclado e tela, todo internet. Nem caneta usa. O garoto se esforça, é preciso reconhecer isso, chega primeiro, vai embora por último …”

 

Em: Betibu, Claudia Piñeiro, Campinas, Verus: 2014, p. 28





Da memória, Arnon Grunberg

4 10 2016

 

 

fulvio-de-marinis-italia-1971-jpg-com-vinhoCom vinho

Fulvio de Marinis (Itália, 1971)

óleo sobre tela

 

 

“Você é escravo de suas lembranças. Simples assim… Algumas pessoas se lembram de coisas que nunca aconteceram. Até isso ocorre. São escravas da ficção. Mensageiras de seu próprio mito.”

 

 

Em: Tirza, Arnon Grunberg , tradução de Mariangela Guimarães, Rio de Janeiro, Estação Londres: 2015, p. 174

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“Bailundo”, texto de José Eduardo Agualusa

8 09 2016

 

 

Cristie HenryA longa jornada da noite, ilustração de Christie Henry.

 

 

Fala de Alfonsina, a que ama o mar

 

 

Nasci no Bailundo, você não conhece, o Bailundo é um segredo no mapa da nação. O céu: clara imensidade! O azul de um azul que não existe em mais lugar nenhum. O azul do céu no Bailundo — costumava dizer-nos o padre Cotovia — é o mesmo do princípio do mundo. Às vezes sonho com o céu do Bailundo, brilhante e molhado, e então me transformo em pássaro e voo. Acordo e canto como um pássaro. Fico igual a Pintada. Nessas alturas consigo falar com ela em passarês do mato. Tem muito verde lá, paus de toda a espécie, os nomes eu nem sei, mas sempre sons bem doces porque o umbundo é a língua que os anjos usam para namorar — também era o padre Cotovia quem falava isso, deve ser verdade. Luanda, mal comparada com o Bailundo, é tipo um peixe seco junto a um peixe vivo. No Bailundo a vida é muito cheia de brilhos, veste roupa de carnaval, espelhinhos, miçangas ao pescoço, chocalhos no calcanhar, e sempre seja noite ou dia, sempre a dançar. Mas eu não tive sorte. A mamã pisou uma mina, não dessas de explodir e mutilar, arranca pé, arranca perna, não, paizinho, não dessas, uma mina de feitiço, ouviu falar?, nunca?!, são uma arte nossa, armas tradicionais, a mamã pisou a mina quando estava grávida, e a mina me atingiu foi a mim no silêncio macio da barriga dela. Não sou feiticeira, espero que você entenda, sou enfeitiçada, mas isso só soubemos depois, quando eu não cresci. Você duvida? Lá em Portugal não tem feitiço? Em todo o lado tem. …”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.273.

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Resenha: “Uma história de solidão”, de John Boyne

7 09 2016

 

 

georges-croegrtDistrações

Georges Croegaert (França, 1848-1923)

óleo sobre painel de madeira, 27 x 22 cm

 

 

Há dias, soube que crianças expostas a barbáries têm problemas de memória, coisa que acontece como consequência de violência doméstica, pobreza, fome, guerra.  Crianças refugiadas frequentemente apresentam esse trauma.  Sei também que a memória, mesmo que a pessoa não tenha sido exposta  aos horrores descritos acima, consegue ser  seletiva.  Muitas vezes a memória esconde o que não se quer saber.  Isso, às vezes, é o que acontece com pessoas  que consideramos ingênuas.  Seus mecanismos de sobrevivência não as deixam ver por trás da cortina de fumaça que o cérebro desenvolveu para viver em paz. Foi por esse ângulo que interpretei a incrível ingenuidade de Odran Yates, padre irlandês, protagonista de Uma história de solidão.

Esta é uma história sobre a construção da nossa própria história, da nossa imagem.  O que escolhemos esquecer ou lembrar ao construirmos a nossa biografia?  Odran Yates foi levado ao sacerdócio por sua mãe.  Até o passado recente não fugia ao normal que famílias católicas dedicassem um de seus filhos — sem considerar as propensões individuais — à Igreja.  Mas Odran Yates não vê um problema nisso.  Depois de testemunhar um ato de violência em sua própria família, acaba por se convencer de que a vida sacerdotal lhe caía bem. Tornou-se padre da igreja católica, na Irlanda, cheio de esperança e ambição.  Gostava de ser professor no Terenure College, e de cuidar com esmero da biblioteca do local. A vida era confortável, mas melhor ainda, ele se sentia útil. A narrativa cobre desde sua chegada ao seminário na década de 1970 ao ano de 2013.  Tudo começa a mudar quando Odran Yates se depara com a força brutal do colapso da igreja católica irlandesa, quando casos de abuso sexual são revelados.

 

 

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Quando é mandado para uma paróquia onde o amigo e colega seminarista, Tom Cardle, havia sido padre e começa a perceber que o mundo idealizado que ele criara para si,  não existia.  Quanto ele havia ignorado propositadamente para manter seu próprio conforto emocional?  Confrontado com o passado, reconhece eventualmente sua participação nos crimes de seu amigo, porque não tomou a atitude correta, por ter sido permissivo com seu silêncio e vontade de não ver problemas onde eles existiam.  Quarenta anos depois de sua entrada no seminário, Odran Yates, um padre honrado,  vê seu amigo e companheiro seminarista ser julgado,  seus colegas mandados à prisão e a vida de muitos de seus paroquianos destruída pelas revelações de abuso sexual pelo clero.

 

 

John Boyne pic mark condren august 2008John Boyne

 

Este foi meu primeiro livro de John Boyne.  Fiquei feliz de encontrar nele um escritor sério, cuja voz narrativa segura o leitor através do texto.  Sua escrita é cuidada.  Usa a sutileza de maneira incisiva para tratar de assuntos difíceis e desagradáveis.  Ocasionalmente seu texto é repetitivo, principalmente aquele que lança a isca para acontecimentos futuros.  Mas no todo, esta é uma excelente leitura.

 

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Os pombos, texto de José Eduardo Agualusa

28 07 2016

 

 

Marina Shkarupa Painting, PigeonsPombos

Marina Shkarupa (Ucrânia, contemporânea)

acrílica e óleo sobre tela, 60 x 60 cm

http://www.saatchiart.com

 

 

 

“Noor conta que em 1975, pouco antes do início das demolições, conseguiu comprar uma vivenda em Athlone. Levou consigo, para além, evidentemente, da mulher e dos filhos, os pombos-correios, vencedores de vários prêmios, construindo o segundo pombal com a madeira salva do primeiro. Ao fim de três meses decidiu soltar as aves. Nenhuma regressou. Ansioso, após uma noite em  branco, Noor foi de carro ao que havia sido o Distrito Six. Distinguiu, em meio ao imenso descampado em ruínas, um claro rumor de asas. Meia centena de pombos esperavam-no, atônitos, no exatao lugar do primeiro pombal. Ainda hoje um espanto semelhante paira sobre a cicatriz, no chão vazio, onde deveriam erguer-se as casas.”

 

 

Em: As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa, Rio de Janeiro, Língua Geral: 2012, p.139.





Resenha: “A maleta da Sra. Sinclair” de Louise Walters

16 07 2016

 

 

avião amareloIlustração de Hergé.

 

 

A maleta da Sra. Sinclair é uma história contada em dois tempos: nos dias de hoje, com foco em Roberta Pietrykowski, mulher que trabalha por onze anos na livraria e sebo Old & New, e Dorothy Sinclair, sua avó, que, morando nas proximidades de Lincolnshire, Inglaterra, viveu um romance fora do casamento com o piloto de guerra polonês Jan Pietrykowski.  Enquanto descobrimos as razões que levaram Dorothy a se apaixonar pelo piloto de guerra, descortinamos seu passado infeliz desde a infância, casamento e abandono pelo marido; também vamos aos poucos descobrindo a vida sem alegrias de Roberta que carrega uma  paixão encruada por Philip, proprietário da livraria,  sem qualquer possibilidade de reciprocidade. Roberta se  submetendo, por falta de melhores perspectivas, a um “affair” com homem casado, e simultaneamente trabalha para entender o segredo da vida de sua avó, cujas mentiras sobre a família, Roberta acabara de descobrir.

Apesar do roteiro melodramático, não há proximidade emocional suficiente do leitor com qualquer personagem para que a leitura chegue a germinar sentimentos mais fortes.  Nenhuma das duas mulheres, Roberta ou Dorothy, é retratada com vigor e dimensão; profundidade de caráter passa ao largo. Nenhuma tem perspectiva de melhorar a vida que leva.  São quase vítimas e não são heroínas.  Cada qual tem uma única preocupação ou desejo: Roberta persegue a história da família e deambula pelo cotidiano sem horizonte ou esperança.  Dorothy, submissa, aceita as consequências de uma escolha errada no casamento e a única coisa que deseja, a ponto de obsessão, é ser mãe. Falta a ambas maior complexidade. E um foco que supere as vidas amorosas frustradas.

 

 

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O foco na vida de mulheres durante a Segunda Guerra Mundial é muito bem-vindo.  Este é um assunto ainda por explorar na literatura.  Foi um período de grandes mudanças no papel da mulher. De repente com homens na linha do fronte aos milhares, espaço se abriu para um papel mais dinâmico, profissional e essencial das mulheres na sobrevivência dos países envolvidos.  Mulheres tornaram-se bombeiros, eletricistas, enfermeiras, mecânicas.  Foram em massa ao trabalho nas fábricas do mundo todo. Dorothy, no entanto, não se junta a essa grupo de mulheres da guerra.  Ao contrário, ela se encolhe incapaz de ultrapassar os limites impostos pelos bisbilhoteiros do vilarejo  que a cerca.  Tal avó, tal neta.  Nos anos 2000, Roberta também se auto destrói num romance sem futuro com um homem vinte e dois anos mais velho, cujo ponto culminante é um ato de ciúmes da esposa traída, à maneira do século XIX. Ou seja, ambas as personagens parecem ter comportamentos incongruentes com a época em que vivem.

Louise Walters é dona de um estilo narrativo claro, leve que não se perde em figuras de linguagem ou outros preciosismos. Conseguiu que eu levasse a leitura até o fim, um feito que muitos livros não atingem. E a trama interessante  sugere ao leitor ponderações sobre as diferenças de comportamento entre os que viviam nos anos 30 do século passado e setenta anos mais tarde, na primeira década deste século.  O que faltou ao romance foi um bom editor. Um editor à moda antiga, que questionasse a autora sobre a necessidade de alguns personagens ou até mesmo de algumas reviravoltas na trama.  Menos é mais, com frequência; porque nos dá a chance de aprofundar a caracterização de época, de ambiente ou de personagem, enquanto uma linguagem um pouco mais variada traria, sem negligenciar  a clareza, um vigor penetrante ao texto.

 

 

louise waltersLouise Walters

 

Desde O nome da rosa, de Umberto Eco em 1980,  A sombra do vento  de Carlos Luiz Zafón (2001),  da série de Harry Potter, anos 2000; e de filmes como Mensagem para você (1998), Um lugar chamado Notting Hill (1999), e dezenas de outras obras, que livrarias e bibliotecas têm sido ambiente ou até mesmo personagem de histórias populares escritas ou filmadas.  Digamos que é fruto do Zeitgeist (‘Espírito da época’). Gente que lê e que escreve em geral tem simpatia por bibliotecas ou livrarias.  Mas, justamente porque é uma assunto corrente, me pareceu um excesso da trama ter Roberta Pietrykowski trabalhando numa livraria.  Com poucas modificações, ela poderia trabalhar num açougue ou numa agência de banco.  A mim, me pareceram nulas as conexões dos livros citados por ela e variações na trama. Teria sido apenas um atrativo para o leitor que se delicia com referências a autores ou listas de obras interessantes?

Aqui estão alguns dos livros citados: Jane Eyre de Charlotte Bronte, Madame Bovary de Gustave Flaubert, A morte do coração de Elizabeth Bowen, Narciso Negro de Rumer Godden – O deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy, A Bouquet of Barbed Wire, Andrea Newman, Os homens são de marte e as mulheres de Vênus, de John Grey,  Circle of Friends de Maeve Binchy. E um livro de Agatha Christie que agora me foge o nome.

A maleta da Sra. Sinclair é um livro leve, de leitura fácil que satisfará quem procura por passatempo de fim de semana e que não espera de suas leituras mais do que o texto lhes dá. Entretenimento.

 

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