Ilustração, David Zolan.
A Primavera explodiu
em folhas e cores novas!
Quem fez tudo ninguém viu
mas as flores são as provas…
Ilustração, David Zolan.
A Primavera explodiu
em folhas e cores novas!
Quem fez tudo ninguém viu
mas as flores são as provas…
Ilustração, Carolyn Haywood, 1933.
A Primavera vigora
com seus poderes de cores,
abrindo as sessões da aurora
numa assembléia de flores.
(Augusto Astério de Campos)
A mão de Deus, sabiamente,
pôs, com grandeza incontida,
na pequenina semente,
todo o mistério da vida.
(Chagas Fonseca)
Ilustração, Maurício de Sousa.
Quanta lição de bondade
muita árvore contém;
dando sombra a toda gente,
não nega fruto a ninguém.
(Geraldo Costa Alves)
Ilustração, Maurício de Sousa.
Não julgues uma família
por um de seus membros, não!
— Vê como são diferentes
os cinco dedos da mão!…
(Michel Antônio)
Ilustração: Ziraldo
A Pátria, meus coleguinhas,
É o recanto onde nascemos;
É a família, o Lar, a Escola…
É a Terra onde vivemos!
(Walter Nieble de Freitas)
O teu segredo famoso
eu bem o sei, direitinho…
chegou depressa, ditoso,
nas asas de um passarinho.
(Luiz Pereira de Faro)
“D. Pedro, como príncipe, recebia muito pouco dinheiro. A sua pensão era ridícula: um conto de réis! E não havia força de D. João sair daquilo. O rei era um sovina tremendo. D. Pedro, temperamento de irrefletido, inteiramente oposto ao do pai, gastava às mãos cheias, estouradamente, esbanjadamente. Por isso mesmo, enquanto príncipe, D. Pedro viveu em aperturas desesperadas. Mais duma vez, nos seus apuros, o herdeiro do trono recorreu a empréstimos envergonhantes. O Pilotinho, bodegueiro da Rua dos Borbonos, forneceu-lhe certa ocasição, doze contos de réis. Manuel José Sarmento, pessoa pacata, antigo oficial da secretaria, socorreu-o muitíssimas vezes com quantias fortes. Ora, diante da usura do pai, para sair daquela situação humilhante de empréstimos e mais empréstimos, o príncipe tomou uma resolução heróica: resolveu ganhar dinheiro! Resolveu ganhar dinheiro a todo o transe, de qualquer jeito, desse no que desse. E que é que engendrou aquela cabeça de vento? Apenas isto: fazer uma sociedade mercantil com o Plácido. [ Plácido Imaginar e executar foi um pronto. Apalavraram logo o contrato. E ambos, unindo os seus destinos, meteram-se a negociar. Um príncipe, o herdeiro do trono, a negociar de parceria com o seu barbeiro! Imaginai um pouco… E negociar em quê: Na única coisa de que D. Pedro realmente entendia: compra e venda de animais.,,
A sociedade principiou a funcionar sem demora. D. Pedro, em companhia do Plácido, ia quase toda manhã ver as tropas que chegavam. Escolhia, num relance, os animais mais belos. Um golpe de vista espantoso! Apartava-os, pagava-os, mandava-os para as cavalariças do Paço. Diziam os tropeiros que “o moço tinha faro: enxergava logo a flor da manada…”
Depois, na cidade, a engrenagem do negócio era das mais simples. Uns dias de trato, os animais engordavam, o pelo reluzia. O Plácido saía então em busca dos compradores. Uma facilidade. Bastava dizer a um daqueles fidalgotes endinheirados:
— O príncipe resolveu vender um belo animal. Belíssimo animal! É um dos mais soberbos das cavalariças do Paço. Por que Vossa Mercê não aproveita a ocasião?
O homem não titubeava. Corria ao Paço, via o cavalo, achava-o perfeito, comprava por qualquer preço. E saía honradíssimo, cheio de orgulho, a esparramar pela corte que adquirira um “cavalo das cavalarias reais…”
A sociedade, evidentemente, começou a prosperar. Os dois parceiros puseram-se a ganhar dinheiro à vontade. Dinheiro a rodo. D. Pedro andava contentíssimo! O negócio era dos melhores, dos mais certos.
— Um negocião da China, como dizia alvoroçadamente o príncipe ao barbeiro; um negociação da China! E dizer que até hoje ninguém ainda teve essa idéia!
Mas, um dia, por fatalidade, aquela história foi parar aos ouvidos do rei. D. João VI branqueou. Nunca, na sua vida, o pobre monarca enfureceu tanto! Aquela leviandade do príncipe revirou-lhe os nervos. Sacudiu-o. Mandou chamar imediatamente o filho.
D. Pedro, ao entrar, deparou com o pai de pé, revolucionado, o cenho torvamente cerrado. O rei tinha na mão sua grossa bengala de castão de ouro. E numa fúria, espumejando:
— Então seu grandíssimo canalha, vosmecê a negociar em animais? E a negociar em parceria com o Plácido, o barbeiro? Pois, vosmecê, o herdeiro do trono, não tem vergonha nessa cara? O que eu deveria fazer, seu cachorro, era quebrar-lhe a cara com essa bengala? Quebrar-lhe a cara, ouviu?
E erguia a bengala no ar, e bramia, e descompunha, e gaguejava de cólera. D. Pedro não negou. Confessou tudo com firmeza. D. João mandou buscar o Plácido. E ali mesmo:
— Você, de hoje em diante, está proibido de se meter em qualquer negócio com o príncipe. A sociedade está liquidada. Lucro, se houve, que fique com você. Não admito que meu filho toque num real dessa patifaria.
E desfez a sociedade.
Está claro que havia muitíssimo lucro no negócio. E o Plácido, o felizardo, ficou-se com aquele dinheirão todo. Principiou desde aí, com esse capital, a prosperar na vida. Ficou riquíssimo. Terminou numa das mais grandiosas fortunas do Primeiro Império.”
Em: As maluquices do imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, 1947: Clube do livro., páginas 64-66.
NOTA DA PEREGRINA: O amigo de D. Pedro era Plácido Pereira de Abreu, que mais tarde se casou com a filha do Marquês de Inhambupe.
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Paulo Setúbal de Oliveira, ( Tatuí, SP 1893 — SP, SP, 1937) advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Formou-se em Direito em 1914. Trabalhou como colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi eleito deputado estadual (1928 / 1930), renunciou ao mandato por problemas de saúde. Em 06 de dezembro de 1934 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras
Obras:
Alma cabocla, poesia (1920);
A marquesa de Santos, romance-histórico 1925
O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926
Um sarau no pátio de São Cristóvão, teatro, 1926
As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927
A bandeira de Fernão Dias, contos-históricos, 1928
Nos bastidores da história, contos, 1928
O ouro de Cuiabá, história, 1933
Os irmãos Leme, romance, 1933
El-dorado, história, 1934
O romance da prata, história, 1935
O sonho das esmeraldas, romance, 1935
A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936
Confíteor, memórias, 1937
Ensaios históricos (obra póstuma)
Foi o Príncipe D. Pedro
Altivo, forte e leal,
Quem tornou independente
A nossa Terra Natal!
(Walter Nieble de Freitas)
***
Romance ingênuo de duas linhas paralelas
José Fanha
Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente de infinito a infinito
Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim…!
Diz a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!”
Não se dando por achada
Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.
—
José Fanha
José Fanha (Portugal, 1951) Formado em arquitetura é hoje professor do ensino médio e trabalha também para a televisão e o cinema. Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro e, também pintor nos tempos livres.
Obras:
Eu sou português aqui
Breve tratado das coisas da arte e do amor
A porta
Elogio dos peixes, das pedras e dos simples
Alex Ponto Com – Uma aventura virtual
Diário Inventado de Um Menino Já Crescido
Os Novos Mistérios de Sintra de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira
O Dia em Que o Mar Desapareceu
Poemas da Natureza + CD-Áudio
Abril 30 Anos Trinta
De Palavra em Punho
Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade de José Jorge Letria, José Fanha
Tempo Azul
Poemas Com Animais
Cantigas e Cânticos
Baal
Cem Poemas Portugueses Sobre a Infância de José Jorge Letria, José Fanha
Cem Poemas Portugueses Sobre Portugal e o Mar de José Jorge Letria, José Fanha
O Código D’Avintes de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira
—
*** NOTA: Acredite, na ilustração inicial deste poema só há quadrados perfeitos e linhas paralelas.