Menina com livro,1891
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850- 1899)
pastel e grafite sobre papel, 60 x 90 cm.
Menina com livro,1891
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850- 1899)
pastel e grafite sobre papel, 60 x 90 cm.
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Alberto da Veiga Guignard (Brasil, 1896-1962)
óleo sobre madeira, 41 x33 cm
Coleção Geneviève e Jean Boghici
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Aurélio d’Alincourt (Brasil, 1919-1990)
óleo sobre placa, 22 x 17 cm
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Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1922)
óleo sobre cartão, 41 x 32 cm
Coleção Particular
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Menina do vestido vermelho, 1893
Eduardo Sá (Brasil, 1866-1940)
óleo sobre tela, 46 x 38 cm
Coleção Particular
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Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)
óleo sobre madeira, 35 x 24 cm
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José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850 –1899 )
Desenho, carvão sobre papel
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Alice Bruggemann (Brasil, 1917-2001)
óleo sobre tela, 53 x 44 cm
Museu da UFRG
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Túlio Mugnaini (Brasil, 1895-1975)
óleo sobre tela, 64 x 47 cm
PESP – Pinacoteca do Estado de São Paulo
O violeiro, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850- 1899)
óleo sobre tela — 141 x 172 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Já era tempo de José Ferraz deAlmeida Júnior ser honrado com uma exposição de seu trabalho na sua cidade natal. Um dos grandes expoentes da arte brasileira do final do século XIX, finalmente vai ser conhecido e se possível reconhecido por seus conterrâneos. O pintor que como muitos de sua época, estudou fora do Brasil, teve a coragem de voltar ao país e procurar, encontrar e desenvolver um vocabulário imagístico próprio, totalmente brasileiro. Suas obras captam uma realidade regional que foi pouco explorada por seus companheiros de profissão na época e que além do valor artístico que demonstram, esses quadros têm o valor de documentos de época, documentos de valores.
Com o tema “Homem e Natureza”, 20 das principais obras do pintor que integram o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo completam a exposição. “Caipira Picando Fumo“, de 1893, um dos destaques do acervo. A mostra faz parte das comemorações dos 160 anos do nascimento do pintor, além de comemorar os 400 anos da fundação de Itu.
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Paisagem do Sítio Rio das Pedras, 1899
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela — 57 x 35 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo
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A curadoria de Ana Paula Nascimento ressalta nessa exposição os quadros que representam a temática de Almeida Júnior, mostrando a preocupação do pintor de valorizar o caipira e sua cultura: “Caipiras Negaceando” (1888), “Cozinha Caipira” (1895) e “O Violeiro” (1899)[ foto acima], demonstram esse cuidado do pintor. Almeida Júnior foi um pintor que viveu exclusivamente de sua arte, assim sendo, grande parte do acervo do pintor é dedicada aos retratos de pessoas ilustres, que fazia por encomenda. [Por exemplo, neste blog, Retrato de D. Joana Cunha] Mas Almeida Júnior também se dedicou ao retrato da natureza à sua volta, pintando com cuidado locais favoritos de seus passeios pelos arredores de Itu: “Cascata do Votorantim” (1843) e “Paisagem do Sítio Rio das Pedras” (1899) [foto acima] são dois exemplos de seu paisagismo nessa exposição.
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SERVIÇO:
Exposição:
Regimento Deodoro — Antigo Colégio São Luiz
Data: 9 de maio de 2010 a 20 de junho de 2010
Praça Duque de Caxias, 284, Centro
Telefones: (11) 4022-2967 ou (11) 4022-1184
Entrada Franca.
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Primeira página do Caderno Prosa e Verso, O GLOBO, 6/12/2008
No sábado passado, dia 6 de dezembro, o jornal matutino carioca, O GLOBO, apresentou um artigo sobre os romances populares no século XIX no Brasil. O artigo de Miguel Conde comenta sobre os livros que re-editam histórias populares da época; romances publicados aos capítulos nos jornais do reino, da mesma maneira em que muitas outras obras de peso no século XIX foram publicadas em outras partes do mundo. Era comum.
O artigo revela ainda alguns hábitos interessantes da leitura no Brasil imperial e colonial e o jornal em espaços diferentes faz uma complementação com uma lista dos livros mais vendidos no Brasil Colônia e também com uma resenha do que havia nos catálogos de três livreiros no século XIX.
Páginas 1 e 2 tratam quase que exclusivamente de hábitos de leitura, assim como de títulos populares no Brasil imperial. E no entanto, o jornal O GLOBO, preferiu ilustrar suas páginas não com artistas brasileiros mostrando pessoas lendo, mas ao invés, mostrou mais uma vez a mentalidade de colonia cultural ao escolher trabalhos do francês Jean-Auguste Renoir e da americana Mary Cassat, ambos com imagens de mulheres lendo livros.

Página 2 do Caderno Prosa e Verso do Jornal O GLOBO
A pergunta que não cala: por quê? Por que um artigo sobre hábitos de leitura no Brasil não é ilustrado com mulheres brasileiras lendo? Isto leva o leitor ao total desconhecimento de sua própria cultura e ao reconhecimento exclusivamente de outras imagens, iconografias que não têm nada a ver com a realidade brasileira, com o talento dos artistas brasileiros.
Este tipo de ignorância dos valores culturais brasileiros precisa acabar. Com este fim, enviei ontem, o seguinte email que aqui transcrevo para Mànya Millen, que imagino ser uma senhora, que está encarregada da editoria do caderno Prosa e Verso.
Aqui está a transcrição:

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, s/d, óleo sobre tela, 50 x 61 cm, MASP -- Museu de Arte de São Paulo
É este tipo de descuido com o que é nosso que precisa acabar. E só vai acabar quando pessoas como nós, que conhecemos mais, que sabemos mais, batermos com o pé para dizer: BASTA! Não quero mais esta visão neo-colonial do Brasil, como se o centro do mundo estivesse fora daqui. O meu centro cultural está aqui. Principalmente quando o assunto é literatura no Brasil, no século XIX. Então, por quê? Qual é a razão deste despropósito?
Moça com livro, 1879
José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil, 1850-1899)
óleo sobre tela
Museu de Arte de São Paulo
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Coleciono imagens de pessoas lendo. A maioria foi feita por pintores europeus até o final do século XIX e depois deste período os artistas americanos passam à frente dos europeus na representação de homens, mulheres e crianças lendo. Acredito que isto se deva ao número muito maior de artistas americanos, i.e., a classe dos artistas plásticos nos EUA ocupa uma maior percentagem da população do que o grupo de europeus em relação à população européia. Provavelmente uma conseqüência na educação mais democrática, mais universal no país da América do Norte. Mas, este não é o assunto nesta postagem.
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Saudade, 1899, [Moça lendo carta]
José Ferraz de Almeida Jr ( Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela, 197 x 101 cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo [PESP]
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Meu tópico é questionar: por que um tema comum na Europa e nos países da América do Norte é praticamente inexistente nas artes plásticas brasileiras? Uma opinião sem qualquer estudo específico seria de que no Brasil as pessoas não leriam tanto. E também de que havia muito menos artistas em relação à população brasileira do que no resto do mundo. Ou seja a proporção não permitiria a abundância de imagens, a necessidade de variações de temas.
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O tópico da mulher lendo, esta eterna musa inspiradora dos europeus e americanos, então, ainda restringe mais a imaginária brasileira. No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX. A fascinação dos artistas estrangeiros pela mulher lendo poderia ter sido causada por diversos motivos:
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Família reunida em casa do interior, s/d
José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela
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1) A modelo, mesmo sofrendo de um preconceito comum — de que esta mulher teria uma posição social duvidosa — associada à uma mulher fácil, de princípios morais flexíveis — nos países mencionados anteriormente, mesmo sendo pobre esta mulher era alfabetizada o suficiente para poder posar convincentemente como leitora.
2) É verdade que o tema permite também que pessoas que não são modelos profissionais, tais como irmãs, mães e esposas de pintores, pudessem facilmente se submeter a este papel de modelo, porque ler em geral é feito numa posição parada e confortável. Ou seja mulher não profissional pode posar lendo.
3) A fascinação quase erótica vista pelos artistas estrangeiros na pintura da mulher que se abandona ao ato privado da leitura parece ser mais provocativa lá fora do que no Brasil. A sensualidade da mulher-leitora passa desapercebida no Brasil. Talvez porque a maioria das mulheres brasileiras, mesmo das famílias mais abastadas, que se encontravam fora das grandes cidades, era analfabeta. E analfabeta permaneceu até muitos anos dentro do século XX.
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Moça lendo em Itu, sd
José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela
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No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX. A maior exceção à regra é do pintor paulista José Ferraz de Almeida Júnior ( 1850-1859) de quem conheço pelo menos quatro pinturas a óleo com o tema.
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Recentemente tive a oportunidade de ler o livro: O Retrato do Rei de Ana Miranda e me senti emocionada o suficiente para copiar algumas passagens que reproduzo aqui, descrevendo o tipo de consideração dada a quem queria ler.
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Menina com livro, s/d
Bertha Worms ( Brasil 1868-1937)
desenho
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Esta passagem ilustra bem o nível retrógrado da sociedade portuguesa, que não condizia mesmo com o resto da Europa neste sentido, principalmente porque a Mariana do romance é de uma classe social que na Europa já estaria lendo pelo menos o seu missal. E explica a nossa herança cultural.
Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara.“ Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.
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Beatriz lendo, 1965
Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973)
óleo sobre tela
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Na história Mariana é mal vista através do padre local, justamente por parecer saber ler. Ele suspeita que comunhão com o diabo por carregar um livro para a missa, todos os dias. A dupla ironia é que ela realmente não sabe ler, mas não admite esta fraqueza para ninguém e continua sua solitária missão de “leitora” através de sua vida. Aqui está uma passagem dos pensamentos de Frei Francisco no livro sobre a estranha dona Mariana. Estamos no Rio de Janeiro em 1707.
Nunca usava decotes como os das mulheres das Minas, vestia quase sempre saia e casaco pretos. Ás vezes aparecia com pintura e cabeleira, como os sodomas do palácio do governador. Costuma ser distraída e gostava de apreciar o horizonte. Falava com estranhos. Entrava nas igrejas, rezava ajoelhada. Andava com o nariz para o alto e olhava as pessoas nos olhos. Despertava vontade de fornicar, pois tinha carnes; mais dava medo. Às vezes a fidalga ficava olhando um livro de capa preta, que Lourenço não sabia dizer o que era, mas talvez fosse um missal.
Em: O retrato do rei, ANA MIRANDA, Cia das Letras:1991, São Paulo. páginas 87-88
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Mulher com livro, 1983
Adalberto Lutkemeyer ( Brasil, RS, contemporâneo)
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É claro, reconheço que estamos tratando de ficção. Mas Ana Miranda já provou que sua pesquisa histórica é exemplar.
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Duas ou três semanas depois de ler este livro, encontrei uma história semelhante no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Manhã Transfigurada, em que o noivo de uma jovem no interior do Rio Grande do Sul, desconfia de sua “pureza” por sabê-la leitora de um livro de poemas…
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Seriam só estas as razões para tão poucas imagens de pessoas lendo na pintura brasileira?

José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899), Caipira picando fumo, 1893, ost, Pinacoteca do Estado de São Paulo
Foi com imenso prazer que passei os dois últimos dias às voltas com o romance Nhô Guimarães, de Aleilton Fonseca, publicado em 2006, pela Editora Bertrand Brasil. O romance leva o subtítulo Romance: homenagem a Guimarães Rosa. Confesso que este foi o meu primeiro contato com o escritor. Uma amiga recomendou calorosamente o livro. E fiquei feliz de tê-lo feito porque quem saiu lucrando fui eu!
A primeira vista eu não teria por minha espontânea vontade selecionado este livro para ler. Simplesmente porque não acredito em homenagens do gênero. Em geral as obras feitas com esta intenção não passam de imitações de estilo que parecem bastante pedestres para até mesmo o leitor menos sofisticado. E quando feitas para homenagear um escritor cujo estilo foi único, responsável por uma marca indelével na literatura brasileira do século passado, o perigo, a tentação da pura imitação parecem ainda mais sedutores. Mas confesso que Aleilton Fonseca me surpreendeu. Seu romance Nhô Guimarães consegue se situar sozinho e ganhar um lugar de destaque na produção literária da virada do século, sem qualquer traço de imitação.
Acredito que deva ter sido difícil para o autor decidir se valeria à pena ou não colocar o subtítulo. Se não o colocasse, muitos teriam simplesmente ignorado o livro com a rápida leitura do estilo dizendo: Mas quem que ele pensa que é? Um Guimarães Rosa? Por outro lado, colocando o subtítulo há sempre a tentação, para quem lê o livro, de dizer: o autor recriou o grande autor Guimarães Rosa, como se de repente, por alguma clonagem pudéssemos esperar um texto de Guimarães Rosa. Esse romance não merece nenhuma das duas ponderações.
Aleilton Fonseca tem um estilo próprio. Possui uma maneira de narrar elegante e sedutora. Sua linguagem tem muito do espírito de Guimarães Rosa, mas não o imita. O que ambas têm em comum é a grande naturalidade, a sensação de que as palavras vem da alma brasileira. Só assim podemos explicar porque palavras não encontradas no nosso dia a dia parecem ter sempre existido, são imediatamente compreendidas como se refletissem um mundo que nós temos em comum; quase que uma meta-linguagem radicada no nosso inconsciente coletivo.
Este é quase um livro de contos. Aleilton Fonseca trabalha numa das tradições mais antigas da narrativa, que é a aparência de transcrição de uma narrativa oral interligando diversos causos. Não difere do que encontramos nas Mil e Uma Noites, no Decameron e em muitas outras obras clássicas.
Há dois personagens centrais: Nhô Guimarães e Manu que trocam histórias, causos do sertão, das gentes do interior, de suas maneiras, modos, vinganças e paixões. Tudo com muita aceitação da natureza humana. Estes são interlocutores convictos de que cada ser humano tem seu destino e sua maneira de ser. Não há julgamentos necessariamente, simplesmente uma constatação da inevitabilidade das voltas que o mundo dá. Manu é uma excelente contadora de histórias, sozinha, ela nos conta como o narrador precisa render com o assunto: quem proseia precisa imaginar, palavrear, distrair o parceiro. Isto é o certo, as novidades boas e compridas. A verdade é só um começo. O melhor mesmo da história é o capricho da prosa [p.40].
Aleiton Fonseca certamente regeu com mestria a prosa cantada do sertão. Com ele é um grande prazer nos enveredarmos nos caminhos do interior; nos detalhes das vidas contadas e cantadas e nos embrenharmos nas tramas ora trágicas, ora cômicas, mas acima de tudo humanas, que revelam a riqueza das experiências sertanejas. Nota dez para este livro! Vá, compre-o. Você não vai se arrepender.
José Ferraz de Almeida Jr. (Brasil, 1850-1899) Moça com livro, 1879, óleo sobre tela, Museu de Arte de São Paulo
Hoje li pela segunda vez o relatório Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-livro, uma pesquisa feita sobre os hábitos de leitura no Brasil, incluindo o perfil do leitor brasileiro. Não fiquei surpresa ao saber que no Brasil, assim como no resto do mundo, as mulheres lêem mais que os homens. Aqui, a nossa percentagem é de 55% de leitoras mulheres para 45% de leitores homens.
Na verdade esta diferença entre leitores e leitoras é tão conhecida que o escritor inglês Ian McEwan se sobressaiu numa entrevista publicada no jornal The Guardian, de Londres, em 2000, quando sabendo-se conhecedor destes números e sendo avisado que as mulheres lêem mais ficção do que os homens, declarou: A conclusão inevitável é que no dia que as mulheres deixarem de ler, o romance terá desaparecido.
Este tipo de pesquisa, estes tipos de números são sempre fonte para muita especulação. Muitos estudos ainda virão a ser feitos, muitas teses de doutoramento e pesquisas similares para justificar esta diferença. Há as explicações biológicas, comparando os cérebros entre os dois sexos e há também aqueles que acreditam que isto se deve às meninas em geral serem alfabetizadas e apresentadas à leitura numa idade mais tenra do que os meninos.
Mas não deixa de me trazer um sorriso irônico nos lábios ao constatar que esta diferença também existe no Brasil. Porque até bem pouco tempo as mulheres não eram nem consideradas para a alfabetização. Lembrei-me disso quando ontem à noite, passando uma vista d’olhos no romance de Ana Miranda intitulado O retrato do rei, uma passagem prendeu minha atenção. Uma passagem que ilustra as raízes culturais que levaram em parte ao atraso na alfabetização das mulheres brasileiras, e a uma perda cultural imensa para a nós. Ana Miranda assim descreve nossa heroína, vivendo em 1707, no Rio de Janeiro.
Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?” “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara. “Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.
O retrato do rei, Ana Miranda, Companhia das Letras: 1991, São Paulo, páginas 23-24
ACIMA: Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973), Beatriz lendo, 1965, óleo sobre tela.
Mariana não era uma qualquer. Mariana era prima do governador da capitania do Rio de Janeiro. Em outras palavras, ela não era analfabeta por não ter dinheiro, meios de se educar. Era analfabeta porque era mulher.
Antes que se conclua que isto acontecia só no século XVIII, o que não é verdade, pode mos saltar no tempo e ler um livro também de ficção, do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, retratando um caso parecido. Em seu romance Concerto campestre, situado no século XIX, a filha de um fazendeiro, rico o suficiente para contratar um músico com o intuito de formar uma orquestra, é mantida analfabeta por razões semelhantes às expressadas no livro de Ana Miranda.
Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, LP&M:1997, Porto Alegre.
O que seria dos nossos escritores, dos nossos editores e das nossas livrarias, dos nossos filhos, se não tivéssemos mudado de valores? Haveria uma literatura brasileira?