Shakespeare e Cervantes: efemérides combinadas

12 04 2016

 

 

8109413_origIlustração mostrando a diferença de dias entre os calendário juliano e gregoriano, no ano e mês de sua adoção.

 

O mundo comemora este ano os 400 anos de morte de duas das maiores figuras das letras na cultura ocidental. Cervantes e Shakespeare são autores que revolucionaram as convenções estabelecidas para criações literárias. Suas influências são sentidas até hoje.

Cervantes e Shakespeare morreram no mesmo ano e, curiosamente, estabeleceu-se que ambos morreram também no mesmo dia. Mas isso não passa de uma convenção, de uma combinação do mundo literário. Não há dúvida de que ambos morreram no dia 23 de abril de 1616. Mas o dia 23 de abril de 1616 era em época diferente entre a Espanha e a Inglaterra.  Como?

Simples: enquanto a Espanha já havia adotado o calendário gregoriano em 1616, a Inglaterra ainda usava o calendário juliano, que mostra o dia 23 de abril com 11 dias de atraso.

A Inglaterra só adotou o calendário gregoriano em 1752.





Curiosidade sobre Shakespeare

11 04 2016

 

 

01actorsAtores da Comédie Française, 1712

Jean-Antoine Watteau (França,1684-1721)

óleo sobre madeira, 20 x 25 cm

Hermitage, São Petersburgo, Rússia

 

 

Shakespeare era um homem bastante confortável financeiramente quando morreu.  Não era muito rico.  Mas tinha fortuna maior do que a de se todos os seus colegas de trabalho da companhia de atores a que pertencia, conhecida como King’s Men.  Mas sua situação financeira não chegou a se igualar às fortunas adquiridas pelos donos do teatro e seus gerentes.  O grande rival de Shakespeare, Ben Jonson, esse sim ficou muito rico.  Diferente de Shakespeare, Jonson se recusou a ser um acionista na companhia teatral, preferindo o patrocínio da aristocracia e as grandes comissões pelos ricos eventos de entretenimento, algo que Shakespeare nunca fez.

 

 

Informações no artigo: How rich was Shakespeare? de Robert Bearman, na Revista Prospect de março de 2016.





O mercador de Swaffham, texto de Hilary Mantel

8 02 2016

 

london-tower-bridge-1895-grangerTorres da Ponte de Londres, 1895

Litografia

 

 

“Eles estão indo à igreja. O avô vai mostrar-lhe os anjos no teto e o Mercador de Swaffham esculpido na lateral de um banco e o cachorro do mercador, com suas orelhas redondas e uma longa coleira.

O Mercador de Swaffham: John Chapman era o seu nome. Uma noite ele sonhou que, se fosse para Londres e ficasse na Ponte de Londres, conheceria um homem que lhe diria como enriquecer.

No dia seguinte a esse sonho, Chapman pegou suas coisas e seguiu para Londres com seu cachorro. E ficou andando de um lado para o outro na Ponte de Londres, até que um lojista lhe perguntou o que estava fazendo ali.

— Eu estou aqui por causa de um sonho — respondeu o mercador.

— Sonho? —  admirou-se o lojista — Se eu acreditasse em sonhos estaria em algum lugar do interior chamado Saffham, no jardim de um caipira chamado Chapman, cavando embaixo do seu estúpido pé de pera — completou ele, com um olhar de desprezo, e voltou para dentro da loja.

John Chapman e seu cachorro retornaram a Swaffham  e cavaram embaixo da pereira. Lá, encontraram um pote de ouro. Em volta do pote estava escrito: “Embaixo deste pote existe outro duas vezes maior.” O mercador começou a cavar novamente e encontrou outro pote; e então sua fortuna estava feita.

John Chapman doou castiçais à igreja, reconstruiu a nave do lado norte quando esta caiu e contribuiu com 120 libras para a construção do campanário. Sua mulher Cateryne e seu cachorro estão esculpidos nas laterais dos bancos, a mulher com um rosário e o cachorro com a coleira. John Chapman tornou-se sacristão, a passou a usar uma toga de arminho.”

 

Em: Mudança de Clima, de Hilary Mantel, tradução de Maria dos Anjos Santos Rouch, Rio de Janerio, Record: 1997, pp.70-71

 

pedlar2O mercador de Swaffham é uma conhecida história folclórica inglesa.




Em três dimensões: David Reekie

3 02 2016

 

 

2006AC8407Audiência Cativa, 2001

David Reekie (GB, 1947)

Vidro moldado, madeira e metal

Victoria & Albert Museum, Londres





Imagem de leitura — Alexander Mark Rossi

6 01 2016

 

 

Alexander Mark Rossi (GB1840-1916)The Love Letter (1894)A carta de amor, 1894

Alexander Mark Rossi (GB, 1840-1916)

aquarela e guache sobre papel, 69 x 105 cm





Imagem de leitura — Alexander Mark Rossi

13 12 2015

 

 

Alexander Mark RossiNa costa em Bognor Regis, 1887
Alexander Mark Rossi (GB, 1840-1916)
Óleo sobre tela





É Natal, os anjos anunciam…

1 12 2015

 

Edward_Burne-Jones_-_An_Angel_Playing_a_FlageoletAnjo, 1878, por Edward Burne-Jones (Inglaterra, 1833-1898), Liverpool.




Imagem de leitura — Sir Luke Fildes

25 10 2015

 

 

(c) Royal Academy of Arts; Supplied by The Public Catalogue FoundationUma estudante

Sir Luke Fildes (GB, 1842-1927)

óleo sobre tela

Royal Academy of Arts





Imagem de leitura — Marie Spartali Stillman

23 10 2015

 

 

Marie Spartali Stillman (1844 – 1927) Beatrice, 1895Beatrice [Portinari], 1895

Marie Spartali Stillman (Inglaterra, 1844-1927)

aquarela, guache e têmpera sobre papel, 57 x 43 cm

Delaware Art Museum





Resenha: “Na Praia”, de Ian McEwan

15 09 2015

 

(c) Roger Gilmore Ward; Supplied by The Public Catalogue FoundationPraia Chesil, no inverno, Dorset

Philip Leslie Moffat Ward (GB, 1888-1978)

óleo sobre placa, 46 x 61 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum

 

 

Quanta impaciência! Quanta falta de comunicação! Quanta dor! Na praia aborda o processo de encantamento de dois jovens de 22 anos, vivendo no início da década de 1960. O período é anterior ao assassinato de John F. Kennedy nos EUA (1963) e na Inglaterra, onde a história se desenvolve, Harold MacMillan é o primeiro ministro. São esses os parâmetros políticos que enquadram o período de alguma insatisfação sociopolítica que resulta no encontro das duas pessoas que provavelmente jamais se encontrariam em circunstâncias normais, não fosse uma demonstração política: Florence, a violinista e Edward, o historiador, sem rumo certo. A paixão toma conta dos dois. Eles indubitavelmente se amam. E se casam.

Ambos mantêm diversos aspectos de suas vidas sob véus de discrição. Edward tem um espírito volátil. Entra em brigas físicas com facilidade, o que lhe causa alívio e vergonha. Este é um homem que se mantém em permanente tensão. O namoro com Florence retrata a tensão sexual a que se submete, numa época em que o sexo pré-nupcial não é aceitável. Florence por outro lado é uma mulher com uma grande paixão, a música. E aos 22 anos ainda não conseguiu expressar paixão fora do ambiente musical. Na verdade tem uma grande aversão ao sexo. É possível que tenha havido um caso de abuso quando ela tinha doze para treze anos, mas isso não fica claro. No dia de seu casamento, no entanto, ainda não conseguiu dominar o asco que sente sobre todo o processo do amor físico. Por não conversarem. Por não conseguirem se abrir sobre esses problemas, a surpresa na noite de núpcias, quando Na praia inicia, tem consequências imprevisíveis.

 

na-praia

 

Quer uma pessoa tenha experiência ou não, o primeiro encontro sexual, repleto de emoções quando os parceiros já se amam, pode ser um momento de grande sensibilidade, e pode revelar mais do que cada um imagina. No caso de Florence e Edward, ambos virgens, essa sensibilidade é levada a um grau muito elevado, e ambos, sem saberem como se comportar nesse momento de rendição total, acabam por levar as conseqüências dessa noite a extremos que eles mesmos não poderiam ter antecipado. Há para o leitor do século XXI uma experiência de catarse, de alívio, ao reconhecer que muitos dos entraves a que esses dois personagens se submetem não existem mais, há barreiras sociais que hoje são impensáveis. Não fosse a mestria de narrativa de Ian McEwan, ao demonstrar as sensibilidades, as nuances da vida de cada um dos personagens, os fatos que precedem esse momento, no pequenino romance de 130 páginas, não seriam compreendidos pelo leitor moderno.

 

ian-mcewanIan McEwan

 

Este romance não trata só dos hábitos diferentes, costumes de outras eras. Retrata a impaciência da juventude, decisões e atitudes que presumem mais do que devem. O desencontro é inevitável, pois nenhum dos personagens é honesto. E consequências acabam também sendo passionais, com uma virada de ponta-cabeça. Tudo isso maravilhosamente narrado em detalhe, de maneira elegante e fria, por um mestre da insinuação, da meia-palavra. Vale uma tarde de leitura que certamente se tornará inesquecível para o leitor.