Soneto de Bernardino Lopes: “A filha, pálida e loura” 1881

6 12 2013

ARTHUR TIMOTHEO DA COSTA - Bordadeira, óleo sobre tela, 64X53cmBordadeira, s/d

Arthur Timótheo da Costa (Brasil, 1882-1923)

óleo sobre tela, 64 x 53 cm

XVI

A filha, pálida e loura

Faz seu serão de costura:

Às vezes pensa… ou procura

Dentro do cesto a tesoura.

Vive numa dobradura

A singular criatura!

Ralha-lhe o pai com doçura,

Ao regressar da lavoura.

Dá na varanda oito e meia…

Levanta-se logo a moça,

Pondo os morins no baú;

Traz os preparos da ceia;

E nas tigelas de louça,

Tomam café com biju.

Em: Cromos, 1881





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

30 09 2013

typhoon copyIlustração de Aynaku.

Lugar ventoso, lugar sem repouso.





Herança Paterna — poema de Vicente de Paula Reis, pelo Dia dos Pais

3 08 2011




Herança paterna

                                      Vicente de Paula Reis

De meu pai, como herança que bendigo,

Recebi, neste vale de amargura,

Um tesouro do qual não me desligo

E o guardo avaramente, com ternura.

Escudando-me nele é que consigo,

Tornando a minha vida menos dura,

Impávido, vencer qualquer perigo,

Sobrepondo-me à própria desventura.

Essa herança, meu pai, que me legaste,

Tem suavizado muito a minha vida,

Dos espinhos do mundo mal ferida!

E essa prenda moral, que me deixaste,

É toda essa riqueza de ser pobre!

É toda essa grandeza de ser nobre!

Vicente de Paula Reis ( Rio de Janeiro 1895-?) Professor de português do Colégio Pedro II e jornalista com colunas em diversos periódicos do Rio de Janeiro.

Obra:

Esparsos, poesia, s/d





A mãe, poesia para crianças de Luísa Ducla Soares

5 05 2010

 

Mãe e filho, s/d

Arsen Kurbanov  (Makhachkala, Daghestan, Rússia, 1969)

óleo sobre tela

50cm x 42 cm

  —

 

A Mãe

                                                                             Luísa Ducla Soares

A mãe 

é uma árvore 

e eu uma flor. 

A mãe 

tem olhos altos como estrelas. 

Os seus cabelos brilham 

como o sol. 

A mãe 

faz coisas mágicas: 

transforma farinha e ovos 

em bolos, 

linhas em camisolas, 

trabalho em dinheiro. 

A mãe 

tem mais força que o vento: 

carrega sacos e sacos 

do supermercado 

e ainda me carrega a mim. 

A mãe 

quando canta 

tem um pássaro na garganta. 

A mãe 

conhece o bem e o mal. 

Diz que é bem partir pinhões 

e partir copos é mal. 

Eu acho tudo igual. 

A mãe 

sabe para onde vão 

todos os autocarros, 

descobre as histórias que contam 

as letras dos livros. 

A mãe 

tem na barriga um ninho. 

É lá que guarda 

o meu irmãozinho. 

A mãe 

podia ser só minha. 

Mas tenho de a emprestar 

a tanta gente… 

A mãe 

à noite descasca batatas. 

Eu desenho caras nelas 

e a cara mais linda 

é da minha mãe.

Em: Poemas da Mentira e da Verdade, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; 2005

 

 

Luísa Ducla Soares (Lisboa, 1939) escritora, tradutora, consultora literária e jornalista.  Mais recentemente sua produção  é dedicada ao público infanto-juvenil.  Formada em Filologia Germânica.

Obras:

Contrato (Poesia), 1970

A História da Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1972 ; 1977

Maria Papoila, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

O Dr. Lauro e o Dinossauro, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1988

Urso e a Formiga, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Soldado João, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 2002

O Ratinho Marinheiro (Poesia para a infância), 1973 ; 2001

O Gato e o Rato, prosa (Infanto-juvenil), 1973 ; 1977

Oito Histórias Infantis, prosa (Infanto-juvenil), 1975

O Meio Galo e Outras Histórias, prosa (Infanto-juvenil), 1976 ; 2001

AEIOU, História das Cinco Vogais, (prosa) (Infanto-juvenil), 1980 ; 1999

O Rapaz Magro, a Rapariga Gorda, prosa (Infanto-juvenil), 1980 ; 1984

Histórias de Bichos, prosa (Infanto-juvenil), 1981

O Menino e a Nuvem, prosa (Infanto-juvenil), 1981

Três Histórias do Futuro, prosa (Infanto-juvenil), 1982

O Dragão, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 2002

O Rapaz do Nariz Comprido, prosa (Infanto-juvenil), 1982 ; 1984

O Sultão Solimão e o Criado Maldonado (Poesia para a infância), 1982

Poemas da Mentira… e da Verdade (Poesia para a infância), 1983 ; 1999

O Homem das Barbas, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Senhor Forte, prosa (Infanto-juvenil), 1984

A Princesa da Chuva, prosa (Infanto-juvenil), 1984

O Homem alto, a Mulher baixinha, prosa (Infanto-juvenil), 1984

De Que São Feitos os Sonhos: A Antologia Diferente, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 1994

O Senhor Pouca Sorte, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Boa, prosa (Infanto-juvenil), 1985

A Menina Branca, o Rapaz Preto, prosa (Infanto-juvenil), 1985

6 Histórias de Encantar, prosa (Infanto-juvenil), 1985 ; 2003

A Vassoura Mágica, prosa (Infanto-juvenil), 1986 ; 2001

O Fantasma, prosa (Infanto-juvenil), 1987

A Menina Verde, prosa (Infanto-juvenil), 1987

Versos de Animais (Antologia de Literatura Tradicional), 1988

Destrava Línguas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

Crime no Expresso do Tempo, prosa (Infanto-juvenil), 1988 ; 1999

Lenga-Lengas (Antologia de Literatura Tradicional), 1988 ; 1997

O Disco Voador, prosa (Infanto-juvenil), 1989 ; 1990

Adivinha, Adivinha: 150 adivinhas populares (Antologia de Literatura Tradicional), 1991 ; 2001

É Preciso Crescer, ( infanto- juvenil (1992

A Nau Catrineta, prosa (Infanto-juvenil), 1992

À Roda dos Livros: Literatura Infantil e Juvenil (Divulgação), 1993

Diário de Sofia & Cia aos Quinze Anos(Infanto-juvenil), 1994 ; 2001

Os Ovos Misteriosos, prosa (Infanto-juvenil), 1994 ; 2002

O Rapaz e o Robô, prosa (Infanto-juvenil), 1995 ; 2002

S. O. S.: Animais em Perigo!…, prosa (Infanto-juvenil), 1996

O Casamento da Gata, poesia (Infanto-juvenil), 1997 ; 2001

Vamos descobrir as bibliotecas (Divulgação), 1998

Vou Ali e Já Volto, prosa (Infanto-juvenil), 1999

Arca de Noé, poesia (Infanto-juvenil), 1999

A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca (Poesia para a infância), 1999 ; 2000

ABC, poesia (Infanto-juvenil), 1999 ; 2001

25 (Poesia para a infância), 1999

Seis Contos de Eça de Queirós (Contos), 2000 ; 2002

Com Eça de Queirós nos Olivais no ano 2000 (Divulgação), 2000

Com Eça de Queirós à roda do Chiado (Divulgação), 2000

Mãe, Querida Mãe! Como é a Tua?, prosa (Infanto-juvenil), 2000 ; 2003

Lisboa de José Rodrigues Miguéis (Divulgação), 2001

Roteiro de José Rodrigues Miguéis: do Castelo ao Camões (Divulgação), 2001

A flauta, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Uns óculos para a Rita, prosa (Infanto-juvenil), 2001

Todos no Sofá, poesia (Infanto-juvenil), 2001

1, 2, 3, poesia (Infanto-juvenil), 2001 ; 2003

Alhos e Bugalhos (Divulgação), 2001

Meu bichinho, meu amor, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Cores, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Gente Gira, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Tudo ao Contrário!, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Viagens de Gulliver, adaptação livre (Teatro para a infância), 2002

O Rapaz que vivia na Televisão, prosa (Infanto-juvenil), 2002

Contrários, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Quem está aí?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Cavalo no Tempo, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Pai, Querido Pai! Como é o Teu?, prosa (Infanto-juvenil), 2003

A Carochinha e o João Ratão, poesia (Infanto-juvenil), 2003

Se os Bichos se vestissem como Gente, prosa (Infanto-juvenil), 2004

A festa de anos, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Contos para rir, prosa (Infanto-juvenil), 2004

Abecedário maluco, poesia (Infanto-juvenil), 2004

Histórias de dedos, prosa (Infanto-juvenil), 2005

A Cidade dos Cães e outras histórias, prosa ( Infanto- juvenil ), 2005

Há sempre uma estrela no Natal, contos ( Infanto-juvenil ) Civilização,2006

Doutor Lauro e o dinossauro, prosa (Infanto-Juvenil), 2.ª ed, Livros Horizonte, 2007

Mais lengalengas (recolhas ),Livros Horizonte,2007

Desejos de Natal (Infanto-juvenil ), Civilização,2007

A fada palavrinha e o gigante das bibliotecas





A borboleta azul, poema de Faustino Nascimento

21 01 2010

 

Ilustração, Maurício de Sousa.

 

A borboleta azul

Faustino Nascimento

De uma clareira à borda da floresta,

Que o sol transforma em rútila vinheta,

Toda de azul, como quem vai à festa,

Passa, bailando, a linda borboleta.

Uma ninfa, talvez, fugindo à sesta,

Em busca de algum Pan, deusa faceta,

Toda beleza e graça manifesta,

Voejando, entre uma rosa e uma violeta.

Não tenta conquistar as altitudes,

Transpor abismos e vencer taludes,

Pois nasceu borboleta e não condor…

É que ela busca apenas a quem ama,

E despreza a riqueza, a glória e a fama,

Pois tem tudo na terra, tendo o amor…

Em:  Antologia Poética, Faustino Nascimento, Rio de Janeiro, Freitas Bastos: 1960, p.103.

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Antônio Faustino Nascimento (Missão Velha, CE, 1901-)  advogado, magistrado, escritor, poeta, ensaísta, jornalista, tradutor.  Em Fortaleza, fundou a revista Argus.

Obras

Juvenília, poesia, 1927

As Cosmogonias, ensaio, 1929

Paisagens sonoras, poesia, 1937

Ritmos do novo continente, poesia, 1939, 1943

Elogio do amor e da ilusão, poesia, 1941

Cantos da paz e da guerra, poesia, 1943

O refúgio sublime, poesia, 1945

Exortação, soneto em cinco idiomas, 1949

O sonho do fauno, poesia, 1950

Cântico ao nordeste, poesia, 1954

Caminhos do Infinito, poesia, 1956

A  fonte de Afrodite, poesia, 1958

A Alvorada, cântico a Brasília, 1958

Antologia poética, 1960

A vida, o amor e a ilusão, poesia, 1962

A terra de Israel, ensaios, 1967

Oriente e ocidente, história, 1973





Subúrbio, texto de Lima Barreto do livro CLARA DOS ANJOS

29 12 2009

A lavadeira, 1920

Anita Malfatti ( Brasil 1889-1964)

óleo sobre tela, 37 x 50 cm

Coleção Particular

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Clara dos Anjos de Lima Barreto, escrito em 1922, no ano de morte do autor e só publicado postumamente em 1948, era uma leitura que me faltava.  Graças a amigos astutos, rápidos no empréstimo de obras sensacionais, passei, o período das festas, atracada com diversos livros que valeram a pena ler. Entre eles, esta primorosa obra de um pouco mais que cento e poucas páginas.  Há na narrativa muitas e muitas passagens que retratam bem o carioca e o Rio de Janeiro.  Lima Barreto é mordaz na avaliação do comportamento humano e incomparável nas descrições tanto de personalidades como da paisagem física e emocional da antiga capital do Brasil.  Há uma descrição, no capítulo VII , dos subúrbios cariocas que vale a leitura mesmo que fora do contexto da obra.  Hoje, 90 anos depois da publicação de Clara dos Anjos, os subúrbios cariocas já não lembram tanto a descrição que se segue.  Mas ainda encontramos esta mesma realidade mais adiante, nas comunidades carentes que seguem a beira da Via Dutra, ou até mesmo nos pontos mais altos dos morros cariocas.  O texto parcial se encontra abaixo.  As fotos que a acompanham foram retiradas do Flicker do contribuinte Antolog.

CAPÍTULO VII

 

O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central. 

Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando encontra colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as suas azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes.  Passamos por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotam ainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco, que, para ser alcançado, torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo; andamos mais e levantamos o olhar para um canto do horizonte e lá vemos, em cima de uma elevação, um ou mais barracões, para os quais não topamos logo da primeira vista com a ladeira de acesso. 

Há casas, casinhas,  casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para estas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato.

 

Estação de Trem de Marechal Hermes, RJ.  Foto: Antolog/Flicker

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Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes.  Nelas, há sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto.  Toda essa população pobríssima, vive sob a ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.

Afastando-nos do eixo da zona suburbana, logo o aspecto das ruas muda.  Não há mais gradis de ferros, nem casas com tendências aristocráticas: há o barracão, a choça e uma ou outra casa que tal.  Tudo isto muito espaçado e separado; entretanto, encontram-se por vezes, “correres” de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chamamos “avenida”.

As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro.  De manhã até a noite, ficam povoadas de toda espécie de pequenos animais domésticos: galinhas, patos, marrecos, cabritos, carneiros e porcos, sem esquecer os cães, que, com todos aqueles, fraternizam.

Quando chega a tardinha, de cada portão se ouve o “toque de reunir”: “Mimoso”!  É um bode que a dona chama.  “Sereia”!  É uma leitoa que uma criança faz entrar em casa; e assim por diante.

Carneiros, cabritos, marrecos, galinhas, perus – tudo entra pela porta principal, atravessa a casa toda e vai se recolher ao quintalejo aos fundos.

Se acontece faltar um dos seus “bichos”, a dona da casa faz um barulho de todos os diabos, descompõe os filhos e filhas, atribui o furto à vizinha tal.  Esta vem a saber, e eis um bate-boca formado, que às vezes desanda em pugilato entre os maridos.

 

 Estação de Madureira, Rio de Janeiro.  Foto: Flicker/Antolog

A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.  Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas.  Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro.  Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral essas brigas duram pouco.  Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhes cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.

 ***

 

 

 

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), jornalista e escritor.

Obras:

1905 – O Subterrâneo do Morro do Castelo

1909 – Recordações do Escrivão Isaías Caminha

1911 – O Homem que Sabia Javanês e outros contos

1915 – Triste Fim de Policarpo Quaresma

1919 – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

1920 – Cemitério dos Vivos

1920 – Histórias e Sonhos

1923 – Os Bruzundangas

1948 – Clara dos Anjos (póstumo)

1952 – Outras Histórias e Contos Argelinos

1953 – Coisas do Reino de Jambom





Soneto de Natal, José Albano

23 12 2009

 

Cartão Postal, Europa oriental, década de 1950.

SONETO

                                                                                 José Albano

Bom Jesus, amador das almas puras,

Bom Jesus, amador das almas mansas,

De ti vêm as serenas esperanças,

De ti vêm as angélicas doçuras.

Em toda parte vejo que procuras

O pecador ingrato e não descansas,

Para lhe dar as bem-aventuranças

Que os espíritos gozam nas alturas.

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A mim, pois, que de mágoa desatino

E, noite e dia, em lágrimas me banho,

Vem abrandar o meu cruel destino.

—-

E, terminado este degredo estranho,

Tem compaixão de mim, Pastor Divino,

Que não falte uma ovelha ao teu rebanho!

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José de Abreu Albano (Brasil, CE, 1882 — França, 1923).  Católico fervoroso, eruditíssimo, de temperamento explosivo e comportamento extraordinário.  Pouco publicou em vida, e sua obra, pequenina no tamanho, mas grandíssima no valor, permaneceria desconhecida do grande público, não fosse a edição de sua obra pelo poeta Manuel Bandeira em 1948.

Obras:

Rimas de José Albano: Redondilhas (1912),

Rimas de José Albano – Alegoria (1912)

Rimas de José Albano – Cançam a Camoens (1912)

Ode à Língua Portuguesa (1912)

Comédia Angelica de José Albano (1918),

Four sonets by José Albano, with Portuguese prose-translation (1918)

Antologia Poética de José Albano (1918)





Natal, poema de Auta de Sousa

21 12 2009

 

NATAL

                                                                      Auta de Sousa

É meia noite … O sino alvissareiro,

Lá da igrejinha branca pendurado,

Como num sonho místico e fagueiro,

Vem relembrar o tempo do passado.

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Ó velho sino, ó bronze abençoado,

Na alegria e na mágoa companheiro!

Tu me recordas o sorrir primeiro

De menino Jesus imaculado.

 —–

E enquanto escuto a tua voz dolente,

Meu ser que geme dolorosamente

Da desventura, aos gélidos açoites …

 —-

 

Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!

Sino que lembras uma noite santa,

Noite bendita mais que as outras noites!

—-

 

 

Auta de Souza (Macaíba, 12 de setembro de 1876 — Natal, 7 de fevereiro de 1901) foi uma poetisa brasileira.  Considerada a a maior poetisa mística do Brasil.

Obras:

Horto, 1900





Firmo, o vaqueiro, conto de Natal de Coelho Neto, texto integral

21 12 2009

A vida no campo, vaquejada, 1960

Ernest Zeuner ( Alemanha, 1898 — Brasil, 1967)

Têmpera sobre papel,  25,5 cm  x 36,5 cm

Museu Ado Malagoli, Porto Alegre, RS

Firmo, o vaqueiro

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Coelho Neto

Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.

Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça.  O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos.  E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência.  Algumas eram inventadas por ele, diziam;  outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.

Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade.  O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas.  No seu tempo ninguém levava o melhor ao Firmo do Curral Novo.  Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a aguilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.

Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.

Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas.  Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.

Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?!  As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.

Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:

—  Isso, ahn!  isso, foi o diabo!

Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto.  “Hoje em dia qu’é que a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Serapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela.  Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente…  Eu também pisei duro, ora!”

Firmo vivia das recordações.  Passava os dias caminhando de um para o outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.

À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: “Estava vivendo…” dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho.  Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro.  Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.

De repente aprecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava…  uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres: um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara.  E a marcha aproximava-se morosa.

Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego.  De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:

—  Eh! eh! eh! cou!  ruma!  ruma!  Eh! cou…

E ficava longo tempo excitado, a olhar.  Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho.  Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado,  Firmo suspirava baixinho:

—  Ah!  Nossa Senhora!  meu tempo!

*  *  *

Camponês com cavalo, 1948

José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

Coleção Particular

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Foi pelo Natal que o vi pela última vez.  Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sitio.  Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças.  Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos  os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.

Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede.  Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semi-cerrados.

—  Eh! vaqueiro velho…  Então que é isso?!

—  Estou derrubado, patrãozinho.

—  Mas que diabo tem você?

— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.

—  Ora qual…

—  Eu é que sei como me sinto, patrãozinho.  Se até o pito me faz nojo…

—  Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude.   Quem está aí fora?  adivinha…

—  Ah! Patrãozinho, alguma alma boa…  Quem há-de ser?!

—  Raimundinho.

O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:

—  E onde está esse negro que não entra?

—   Boa noite à gente da casa!  Disse da porta o cafuzo.

— Entra, negro!

O cafuzo, um codoense da fama, atravessou o limiar da porta:

— Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?!

—  Sim porque eu não vi quando ela entrou… quando não!  Então, negro, que é que vamos fazendo?…

— Vim fazer minha festa.  Dizem que vão queimar fogaréus em Curral Novo

—  Como vai Noca?

—  Boa.

—  E Ana?  está na cidade, mais o pai?

—  Hen, hen, afirmou o cafuzo.

—  Negro, você não vai daqui hoje.  Ah!  Patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo.  Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca…

—  Está encordoada?

—  O danado!  Onde você viu viola sem corda?   e afinada, ajunta.

—  O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.

—  Passa p’ra luz, cafuzo.

—  Lá vou…

Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.

—  Anda com Deus.

— Lá vai;  pigarreou e desferiu:

“ No coração de quem ama

Nasce uma flor que envenena”

— Eh!  gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:

“Morena, essa flor que mata

Chama-se paixão, morena…”

— Pega, negro… não deixa o verso no chão!

De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.

Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a voz fraca:

— Canta, canta mais, cafuzo…  Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga.  Canta.

Era tarde quando desci o outeiro.  Raimundinho lá ficou cantando.

No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viageiro:

—  Raimundinho, como vai ele?…

De longe apontou a palhoça:

—  Sim.

O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes:  “ Às quatro da manhã…  Atirei um verso e disse, para bulir com ele:  Pega, velho!  Não respondeu.  Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão…  Fui ver, coitado!  Estava morto”.  E deu esporas para que não lhe visse as lágrimas.

Subi ao outeiro…  Pobre Firmo!  Lá estava no fundo da rede, cercado de gente.  Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos.  E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas!  Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a morte entrar na cabana de Firmo.

*  *  *  *  *

Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta.  Usou entre outros os  seguintes pseudônimos:  Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.  Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.

Obras:

Romance Bárbaro (1914)

O Mistério (1920)

Fogo fátuo, romance, (1929)

Álbum de Caliban, contos, (1897)

Contos da vida e da morte, contos, (1927)

Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)

A cidade maravilhosa, contos, (1928)

O polvo, romance (1924)

A descoberta da Índia, narrativa histórica, (1898)

O Fruto, contos, (1895)

O rei fantasma, romance, (1895)

O Rajá de Pendjab (1898)

Rapsódias, contos, (1891)

Sertão (1897)

A Bico de Penna

Água de Juventa, contos,

Romanceiro (1898)

Theatro, vol. I – Os Raios X (1897), O Relicário (1899), O Diabo no corpo(1899)

Theatro, vol. II – As Estações, Ao Luar, Ironia, A Mulher, Fim de Raça (1900)

Theatro, vol. IV – Quebranto (1908), comédia em 3 actos, e o sainete Nuvem

Theatro, vol. V – O dinheiro, Bonança (1909), e o Intruso

Fabulário

O Arara, (1905)

Jardim das Oliveiras, (1908)

Esfinge, romance, 1908

Inverno em Flor, romance, (1897)

Apólogos, contos para crianças

Miragem, romance, (1895)

Mysterios do Natal, contos para crianças

O Morto, Memórias de um Fuzilado, romance, (1898)

Rei Negro (1914)

Capital Federal, Impressões de um Sertanejo, romance, (1893)

A Conquista, romance, (1899)

Tormenta, romance, (1901)

Tréva

Banzo, contos, (1913)

Turbilhão (1904)

O meu dia

As Sete Dores de Nossa Senhora

Balladilhas, contos, (1894)

Pastoral

Vida Mundana, contos, (1919)

Patinho torto (1917)

Às quintas

Scenas e perfis

Feira livre

Immortalidade, lenda, romance, (1926)

O Paraíso (1898)

Bazar

Fogo Fátuo (1930)

fogo de vista (1923)

Theatro lyrico

os pombos

Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac

Teatro infantil, data ignorada, nova coletânea com o mesmo tema





Poesia de Natal de Vinícius de Moraes

18 12 2009

Presépio, autor desconhecido.

Natal

——

                                                       Vinicius de Moraes

—–

De repente o sol raiou

E o galo cocoricou:

—–

— Cristo nasceu!

—-

O boi, no campo perdido

Soltou um longo mugido:

— Aonde? Aonde?

—-

Com seu balido tremido

Ligeiro diz o cordeiro:

—-

— Em Belém! Em Belém!

—-

Eis senão quando, num zurro

Se ouve a risada do burro:

—-

— Foi sim que eu estava lá!

—–

E o papagaio que é gira

Pôs-se a falar: — É mentira!

—–

Os bichos de pena, em bando

Reclamaram protestando.

—–

O pombal todo arrulhava:

— Cruz credo! Cruz credo!

—-

Brava

A arara a gritar começa:

—–

— Mentira! Arara. Ora essa!

—-

— Cristo nasceu! canta o galo.

— Aonde? pergunta o boi.

—-

— Num estábulo! — o cavalo

Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

—-

— Em Belém! Mé! Em Belém!

—-

E os bichos todos pegaram

O papagaio caturra

E de raiva lhe aplicaram

Uma grandíssima surra.

—-

——

Marcus VINÍCIUS da Cruz DE Melo e MORAES (RJ 1913-RJ 1980), diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

Livros:

O caminho para a distância (1933)

Forma e exegese (1935)

Ariana, a mulher (1936)

Novos Poemas (1938 )

Cinco elegias (1943)

Poemas, sonetos e baladas (1946)

Pátria minha (1949)

Antologia Poética (1954)

Livro de Sonetos (1957)

Novos Poemas (II) (1959)

Para viver um grande amor (crônicas e poemas) (1962)

A arca de Noé; poemas infantis (1970)

Poesia Completa e Prosa (1998 )