Aguapés, de Jhumpa Lahiri, sem prumo

31 07 2014

paul olson. providence riProvidence, RI

Paul Olson (EUA, contemporâneo)

 

 

Aguapés é um romance de leitura fácil, mais ou menos engajante, com uma história de pouco interesse e completamente sem prumo.  É chocho. Quem escreveu a sinopse que aparece no site da editora Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, não leu o livro que eu li. É a história de um homem e sua família, indiano, radicado em Providence, no estado de Rhode Island (EUA), engenheiro ambiental . Sua vida é tão comum quanto a de qualquer um: sem grandes eventos, sem grandes emoções, exceto pela sua retidão de caráter.

É sim, uma história de dois irmãos próximos, de temperamentos diferentes. Dois irmãos muito diferentes: Udayan é um revolucionário maoísta, ativo em Calcutá, nos anos 60. Subhash seu irmão mais velho nada tem a ver com política, sai da Índia para os EUA. Mas, apesar de vidas diversas, não há um embate, onde temperamentos opostos se confrontem. Subhash, por sair da Índia, parece, no início, se revoltar contra as tradições ancestrais. Enquanto Udayan, ainda morando na casa dos pais, dá a impressão de ser aquele mais perto do ideal familiar. Um dia seus destinos se unem por imprevisto inevitável. A partir daí, Subhash, cuja vida acompanhamos até os 70 anos, se transforma no mantenedor da família, reformulando todos e quaisquer objetivos e gols em sua existência em favor da próxima geração. Seu sacrifício é imenso. Abnegação total. O dever sempre falando mais alto.

 

AGUAPES__1402072354P

 

Mas a figura central do romance não é nenhum dos irmãos. Eles são a moldura. A força motora é a enigmática esposa de Subhash cujo comportamento inimaginável permeia toda trama. Uma figura sem qualquer carisma que acaba ditando a vida de todos à sua volta.

O período de setenta anos cobertos nesse romance passa superficialmente pelos marcos da época, no ocidente. Uma ou outra menção ao presidente do EUA é o que situa a passagem de tempo. Há muita coisa que não é necessária nessa história e muita coisa que deveria aparecer e não está lá. Todos os personagens, talvez por serem tratados superficialmente, são incompreensíveis e não ganham a simpatia do leitor. Há foco demorado no que não é importante – como o “affair” de Subhash com uma americana – ou o final passado na Irlanda, que me pareceu “product placement” [anúncio] da agência de turismo do país.

 

lahiri portraitJhumpa Lahiri

 

Fraco. Não recomendo. Foi a escolha do meu grupo de leitura para este mês em homenagem a autora que participa da FLIP [Festa Literária Internacional de Paraty] agora em julho. Pena.





Cuidado, quebra! Tigela de vidro, século XX

29 05 2014

 

 

 

bowl

Tigela de vidro, 1986 [#B486]
Sonja Blomdahl (EUA 1952)
23 x 33 cm
Renwick Gallery, Smithsonian American Art Museum
Washington D.C.

 

NOTA: Recebi algumas perguntas que respondo aqui. Sim, é uma tigela de vidro, soprado à mão. Totalmente feito à mão.  Não é um quadro de uma tigela.  A vidreira é muito conhecida por seu trabalho artesanal em vidro.





Meus caros portugueses, o que se passa?

29 04 2014

 

 112_2830-alt-pratorioFoto da coluna Ancelmo Gois do jornal O GLOBO: Prato da Cia Vista Alegre.

 

Foi com muito pesar que vi hoje no jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, na coluna do jornalista Ancelmo Gois, a foto acima de um prato da prestigiada companhia portuguesa de porcelanas, Vista Alegre. Por seu desenho,  o prato reforça atitudes que testemunhei, quando morei em Portugal, e que preferi deixar de lado ou ignorar, por achar que eram só as mentes pequenas que as abrigavam.  Falo de atitudes que demonstram uma perene má vontade dos portugueses, principalmente dos mais abastados, com o Brasil e brasileiros.  Esses sentimentos afloraram quando reconheci que na chamada “homenagem ao Rio de Janeiro” o desenho do prato fotografado, no tradicional azul e branco, mostra vinhetas com revolveres como se essas armas fossem uma característica carioca.  Essas pequenas vinhetas preconceituosas me lembraram de outros pequenos incidentes, semelhantes, que testemunhei nos anos que morei em Coimbra. Fiquei, na época, pasma de sentir uma surda mas presente  intolerância lusitana com o Brasil, uma espécie de desagravo que não entendo e não me parece conveniente a nenhum dos dois países.

O prato, como explicado no jornal, foi feito para comemorar o Rio de Janeiro, cidade fundada por portugueses que, quase 500 anos depois, retém características muito chegadas às das cidades de além-mar.  O Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, é um dos locais no mundo que melhor demonstra a colonização portuguesa. Nossas similaridades são inesgotáveis desde localização de igrejinhas nos topos das montanhas, ao calçamento de pedrinhas portuguesas que desafiam a lógica e a praticidade.  Da língua que falamos e com a qual nos comunicamos, ao bacalhau que comemos no Natal e na Páscoa. O Rio de Janeiro é, pode-se dizer, um tributo vivo à cultura portuguesa. Aqui estão as raízes de tudo que os portugueses semearam. Do bom e do que não presta.

 

112_2830-pratoportugues

Ao contrário da proximidade emocional, política e social que existe entre a Inglaterra e os Estados Unidos, e aqui posso falar com familiaridade sobre os dois países, Portugal parece evitar cumplicidade semelhante com o Brasil, uma cumplicidade que em geral existe entre membros da mesma família e amigos, aquela que acredita no respeito mútuo.   O sentimento que existe entre britânicos e norte-americanos rende inimaginável que, digamos, a Royal Crown Derby, importante fábrica de porcelana inglesa, produza semelhante desenho em seus pratos comemorativos sobre Nova York, mesmo que legislação a sobre o uso de armas de fogo nos Estados Unidos seja completamente diferente daquela encontrada em solo inglês. É um descompasso, é revoltante que essa propaganda contra o Rio de Janeiro, contra o Brasil, esteja veiculada a uma das mais importantes marcas de porcelanas portuguesas (eu ia dizer do mundo, mas a minha revolta pede que eu diminua o tamanho da Vista Alegre, afinal a mentalidade da companhia parece pequena).

Convido brasileiros e portugueses esclarecidos que mostrem o seu desgosto com esse golpe baixo contra a imagem do Rio de Janeiro.  Completamente desnecessário. E seria bom que os portugueses que demonstram preconceitos contra brasileiros, que se olhem no espelho, porque muito do ruim que acontece por cá teve origem, tem raízes e encontra alma gêmea em Portugal.  Uma boa ideia seria não comprar a porcelana Vista Alegre. Afinal, há outras porcelanas no mundo tão boas quanto ou até melhores.





Imagem de leitura — Irving Ramsey Wiles

19 03 2014

Irving Ramsay Wiles, IDLE MOMENTSMomentos de ócio, 1901

Irving Ramsey Wiles (EUA, 1861-1948)

óleo sobre tela, 38 x 44 cm

Coleção Particular





Dominância anglófona…

3 02 2014

Anthony A. González, Reading a Poem_de Daily Painters of Texas de ANTHONY A. GONZÁLEZLendo um poema

Anthony A. González (EUA)

óleo sobre tela

www.obra-de-gonzalez.com

Bisbilhotando na internet hoje, cheguei a essa estatística que coloco abaixo porque me pareceu estarrecedora, os dados são de 2007 ou seja quase sete anos atrás, mas acredito que não tenha havido qualquer mudança significativa. Refere-se a livros publicados em tradução.

2% dos livros publicados no Reino Unido e nos Estados Unidos são traduções.

13% na Alemanha

27% na França

28% na Espanha

40% na Turquia

70% na Eslovênia

Não tenho os dados sobre o Brasil. Não achei. Talvez não tenha sabido procurar. Talvez caia sob o véu do silêncio que aflige a nossa cena editorial.

Essas estatísticas foram mencionadas no artigo Writers attack ‘overrated’ Anglo-American literature at Jaipur Festival, do jornal inglês The Guardian, sobre a acusação de escritores não anglófonos da dominância mundial da literatura produzida nos países de língua inglesa.  Não vou entrar no assunto, nessa postagem, mas me pergunto se no século XIX também havia muita reclamação sobre a dominância do francês nas letras mundiais, que dadas as devidas proporções me parece ter sido igualmente abrangente.  Fica aqui a consideração.





O funeral americano: guia para o filme “Álbum de família”

1 02 2014

Charles Sprague Pearce - A Village Funeral in BrittanyUm funeral em aldeia da Bretanha, 1891

Charles Sprague Pearce (EUA, 1851-1914)

óleo sobre tela

Danforth Art Museum, Massachusetts

Quando o pintor americano Charles Sprague Pearce dedicou a tela acima a um funeral em um aldeia francesa no final do século XIX, ele se manteve fiel à pintura de gênero, mostrando, a quem observasse sua tela, a maneira diferente dos franceses na despedida de um ser querido. Rituais de nascimento, morte, casamento, diferem muito de cultura para cultura. E se analisados podem refletir valores culturais que não são vistos pelo turista ou até mesmo o residente estrangeiro inserido naquela cultura, se este não estiver ligado por laços familiares ao local onde vive.

Fui ver recentemente o filme americano Álbum de família [August: Osage County]. Gostei muito, mas essa não é uma postagem sobre o filme. É uma postagem sobre os rituais da morte nos Estados Unidos, porque muitas das pessoas com quem conversei depois do filme mostraram surpresa e acharam o filme anacrônico, quanto aos hábitos do luto, maneiras culturais tão diferentes aqui no Brasil.

Primeiro é preciso levar em conta duas coisas que esquecemos com facilidade. Os Estados Unidos não são Nova York, Miami e Los Angeles.  Esse é um país de pequenas e médias cidades.  A população não tem a nossa ambição de morar em grandes centros.  A maioria dos americanos está muito feliz em morar longe das grandes metrópoles.  E não deseja a mudança.  Grandes cidades no país são tão estrangeiras para a maioria dos americanos quanto elas parecem a nós brasileiros que visitamos o país. Se colocarmos em números poderemos apreciar melhor.  O país tem hoje cerca de 315.000.000 – trezentos e quinze milhões de habitantes. Somando-se a população das três cidades que mencionei acima, as mais visitadas por nós, brasileiros, teremos: Nova York, em 2013, 8.333.000; Miami em 2010, 400,000; Los Angeles, em 2013, 3.862.000 – Total: 12. 595.000 – vamos então adicionar mais 25% para contabilizar subúrbios e outras áreas que contam como área urbana: 15. 744.000 (arredondando). Isso não chega a 5 % da população americana. 5% na minha matemática ainda é minoria.  Então qualquer experiência fora do ordinário nos hábitos culturais nesses locais não deve ser acolhida como a “verdade” americana.  Com essa barreira fora do caminho, voltemos ao processo funerário nos EUA.

28_1

Funeral na aldeia, 1872

Frank Holl (Inglaterra, 1845-1888)

óleo sobre tela

Leeds City Art Gallery, Inglaterra

As ondas de imigrantes europeus aportando nos Estados Unidos durante o século XIX e início do século XX trouxeram homens e mulheres com uma grande preocupação — ter aquilo que lhes era negado ou difícil de obter em seus países de origem: um pedaço de terra onde pudessem plantar, colher e criar uma família, sem fome e sem pobreza.O país foi colonizado com esse sonho e por isso mesmo desde o início do assentamento, famílias foram se espalhando pelo país, pelas planícies e planaltos centrais, até chegarem à costa oeste no final do século XIX. As famílias extensas, ou seja, irmãos, tios, primos, todos os que para lá emigraram poderiam até no início permanecer no mesmo povoamento, mas à medida que oportunidades se abriam em outros lugares, pequenos núcleos familiares se mudavam cada vez para lugares mais distantes em busca do seu sustento digno. Como a entrega de cartas e pacotes já funcionava bem desde o século XVII, as famílias se mantinham em contato por cartas. Um país protestante leva vantagem quanto a alfabetização de sua população, já que a própria igreja incentiva o aprendizado, por achar imprescindível a leitura da Bíblia. Assim todos se comunicavam e sabiam dos nascimentos, dos casamentos, das mortes. Quando as estradas melhoraram, fortaleceram-se também os laços familiares. E os parentes começaram a se visitar pelo menos uma vez por ano.

Quando as povoações no meio do país, distante de tudo e todos viraram pequenos centros urbanos, já no início do século XX, cresceu também a ideia da reunião familiar para o enterro de um ente querido.  Fomentada pela indústria funerária que popularizou a arte de embalsamar como uma das maneiras de se manter o defunto em boa preservação por alguns dias, a prática tornou-se padrão em solo americano.  O ato de embalsamar, ainda que dispendioso, foi aceito pela maioria americana por fornecer a solução para um problema: como reunir a família para um enterro se seus membros moram em partes distantes de um país de tamanho colossal?   Ganharam todos: a indústria funerária por poder vender um serviço caro; e as famílias por poderem se reunir no momento de dor e fragilidade emocional. Mas isso acarreta outros problemas: como acomodar tantos parentes?  Como alimentar tanta gente? Como membros da família que não se falam se comportarão naquela ocasião de estresse emocional para todos?

Como é comum nos EUA, a solução veio com a comunidade.  Vizinhos se aprumam e recebem em suas casas qualquer excedente dos parentes da família em luto.  Preparam os pratos da culinária americana diária e os levam à casa do falecido.  Muitas vezes se a família tem laços com a igreja ou o templo local, algumas dessas tarefas são exercidas pela comunidade religiosa. Não é para uma festa, como já ouvi muitos interpretarem, a reunião familiar com comes e bebes.  É uma ocasião séria com comidas que aliviam a família e seus membros de terem que se preocupar com as tarefas do dia a dia, entre elas,  a alimentação de todos: crianças, adultos, idosos, que se deslocaram para participar do enterro. Tive algumas experiências pessoais e posso afirmar que o sistema funciona.

800px-Erik_Werenskiold_(1855-1938)2O funeral do camponês, 1885

Erik Werenskiold (Noruega, 1855-1938)

óleo sobre tela.

Meu pai morreu em minha casa nos Estados Unidos, dois dias depois do Natal, enquanto me visitava: ataque cardíaco. Minha mãe não falava inglês. A série de tarefas burocráticas para trazer o corpo para o Brasil e enterrá-lo no Rio de Janeiro era grande  – muitas resolvidas  pela casa funerária.  Mas levou tempo.  Minha mãe insistia em ir a uma missa.  Eu não morava numa cidade conhecida por ter uma população católica significativa.  Contra a vontade de mamãe, que não podia fazer nada, esperamos dois dias para podermos ir a uma missa em espanhol.  Frustração ainda maior para minha mãe. A igreja não parecia uma igreja católica, não tinha santos.  Tensão entre mãe e filha bem alta.  Ela não aceitava a realidade e eu não podia fazer as coisas diferentes. Nesse meio tempo, seguindo os hábitos americanos de praxe, meus sogros que já eram bem idosos e moravam a duas horas de viagem, vindos do leste chegaram para nos confortar.  Meu cunhado e sua esposa, vindos de outra cidade a duas horas de viagem a oeste, também vieram. Ninguém falava português a não ser eu e minha mãe. A tradução simultânea de condolências e de perguntas e respostas está entre as muitas situações de estresse desse momento. Eu não era religiosa, nem meu marido. O apoio dos membros da igreja, tradicional nessas horas, não existia. Mas… eu tinha duas grandes amigas americanas, que saíram de suas cidades, uma a cinco horas de viagem, a outra a três horas e passaram os quatro dias seguintes ao falecimento de meu pai, comigo.  Dormiram em sacos de dormir no chão da minha sala e cozinharam, limparam a casa, fizeram café da manhã, almoço, jantar… Sem M.E. e Nancy, amigas de longa data, colegas de pós graduação, mestrado, de viagens e de bagunça, sem elas, minha situação teria sido muito, mas muito mais extenuante.  Quando eu, meu marido e minha mãe embarcamos para o Rio de Janeiro, 4 dias depois, eu só estava inteira por conta delas. Esta solidariedade americana sempre me impressionou.

Quando meu sogro faleceu seis anos depois, tive contato mais próximo com os hábitos americanos. Ele era muito conhecido onde morava. Não só era membro ativo da Igreja Presbiteriana, como havia sido Superintendente das Escolas do governo, primárias e secundárias, no condado.  Quando o conheci era um senhor de bastante idade, meu marido sendo o caçula da família.  Meu sogro vivia às voltas com livros e manuscritos em sua vasta biblioteca particular.  Com um mestrado em história, fazia jus à vocação publicando e escrevendo livros da história local. Por isso mesmo era muito conhecido e conectado. Quando faleceu, meu marido e eu éramos os membros da família fisicamente mais próximos e cobrimos as duas horas de viagem de carro num relâmpago,  para tomarmos as rédeas da situação.  Meus cunhados moravam mais longe e quando chegaram já havíamos resolvido a maioria do que seria necessário resolver – e diga-se de passagem, minha sogra muito colaborou para isso, apoiada nas inúmeras amizades do bairro em que morava e da igreja onde era ativa participante.  Meu sogro tinha 7 irmãos. Minha sogra era uma de 6 irmãos. Mesmo eliminando os irmãos que já haviam falecido são famílias grandes. O enterro foi marcado para o sábado seguinte. Não me lembro do dia da semana em que ele faleceu, mas foi no início da semana: possivelmente uma terça-feira.  E a família começou a chegar. Todos os irmãos com 70- 80 ou mais anos, suas esposas, seus filhos, seus netos. Vinham de outras cidades no mesmo estado, de cidades nos estados vizinhos e de estados mais distantes.  A casa de dois andares espaçosa não conseguia abrigar a todos.  Todos ficaram em hotéis.  E a comida começou a chegar. Pratos e pratos de sanduíches, de galinha assada, de salada de repolho, frutas, pães, bolinhos, [cupcakes (da tradição americana, não essas imitações elucubradas da culinária da moda)] frutas, frutas e frutas, leite, caixas de cereais para a refeição matinal.  Duas senhoras vizinhas vieram ajudar a organizar, uma diarista que não sei quem contratou limpou a casa, trocou os  lençóis das camas…  Todas as mulheres entravam e saíam da cozinha de minha sogra com desenvoltura, lavando um prato, servindo suco, oferecendo um café, um chá gelado, algo para saciar a sede. Tudo o que poderíamos imaginar para o conforto dos enlutados chegou como que por milagre às mesas da cozinha, da copa e da sala de jantar. Meu papel nessa ocasião foi a de organizadora da logística. Conheci muitos parentes de meu marido que não havia tido a oportunidade de conhecer antes. E é inevitável: com dois, três ou quatro dias de convivência começam as pequenas fofocas, as grandes reconciliações, os eventos que mudarão o cenário da família daí por diante.  Porque a própria morte de um dos patriarcas, nesse caso, já traz consigo, impregnada, as mudanças na família.  Quando  sexta-feira chegou, e havia a visita oficial ao falecido na casa funerária, marcada para ter início às 17 horas, estávamos todos lá.  Sim, de luto, de preto, os homens de terno e gravata escuros, camisas brancas, também os adolescentes vestidos assim; as mulheres com roupas sóbrias, tailleurs. Meias finas qualquer que seja o calor lá fora. Sem chapéu.  Chapéu só para eventos até o por do sol, à noitinha, nunca.  Conversa-se muito nessa ocasião, sobriamente, aos sussurros. Com respeito. Nenhuma gargalhada, ou piada. O corpo está presente. Ninguém fica muito tempo. Mas há um livro para assinaturas que a família levará para casa como lembrança daqueles que se preocuparam em ir. É triste, circunspecto e solene.

Leon Frederic-633758A ceia após o funeral, 1886

Léon Frederic (Bélgica, 1856-1940)

óleo sobre tela

O filme Álbum de família se concentra no período após o enterro, que no caso de meu sogro foi na manhã seguinte.  A esta altura todos os participantes já estão no local.  Em qualquer cidade de tamanho médio ou menor os cemitérios costumam estar localizados fora do perímetro urbano e uma caravana de carros uns atrás dos outros, com seus faróis acesos, sai da igreja onde o serviço religioso foi presenciado por toda a família e pelas pessoas que irão ao cemitério.  A tradição dos carros irem com seus faróis acesos para que ninguém interrompa a caravana, em geral encabeçada e finalizada por carros de polícia foi norma em todos os estados em que morei, mas não posso confirmar que seja costume no país inteiro. Tem muito a ver com o trânsito.  Mas onde morei chega a fazer parte das perguntas na prova escrita para a carteira de motorista.  Você não deve interromper uma dessas caravanas encabeçadas pelo carro fúnebre, liderado pela polícia, que segue em direção ao cemitério.  Depois da breve cerimônia do enterro, ainda com todos os presentes vestidos de negro, homens de paletó e gravata, mulheres em luto com ou sem chapéu, todos saem em direção à casa da família enlutada. E aí participam da última ceia que farão juntos.  Todos ainda com seus ternos escuros que não tiram nem para aliviar o calor.  No cinema com uma amiga carioca ouvi sua surpresa quando no filme Meryl Streep pede aos homens presentes que coloquem de volta seus paletós parar sentar à mesa e rezar antes da refeição.  Tal pedido teria sido apropriado à minha sogra, caso tivesse havido na família alguém com coragem de desafiar as regras do jogo. Mas como ninguém queria aborrecê-la, não houve a ocasião retratada no filme. Este talvez seja o momento de maior tensão no funeral americano. Todos já estão prontos para sair, para voltar às suas vidas normais, longe dali. Minha sogra, sabendo que provavelmente muito tempo passaria antes de voltar a ver a sobrinha que mora em outro estado, o irmão que está com a saúde fraca, e assim por diante, prolonga o almoço e começa a distribuir algumas lembranças do falecido.  “Fulano, você sempre gostou dessa cadeira de balanço, aproveite que está de carro e ponha-a na mala, E.,  gostaria que você a tivesse”;  “Sicrano, olha só,  a coleção de livros “Harvard Classics” leve para casa, seus filhos podem usá-la”… e assim segue.  É o lado prático que vem à tona.  A família não sabe quando se encontrará de novo assim com todos os membros, e é preciso aproveitar a presença de todos.  Até porque, é preciso que todos entendam o que foi dado a quem e quando.  Diversos dias já se passaram desde a morte. Já houve tempo para os laços familiares se reafirmarem, quem gosta de quem e de quem não se gosta.  É hora de selar as preferências.  Não sei se todas as famílias são assim, mas algo semelhante certamente ocorre. Há um acerto familiar.  E é justamente nestes dias pós-morte que a tensão do filme se desenrola.  Há muito tempo não vejo um filme tão realista sobre a vida americana.  Vale lembrar no entanto que esta é uma família com sérios problemas emocionais que não se repetem na maioria das famílias americanas.  Álbum de família mostra como, talvez pela própria tensão, este momento pode trazer uma grande catarse para aqueles a quem a morte tocou de perto.





O mundo animal de August Laux

13 12 2013

August Laux (1847-1921) The Goldfish BowlO aquário,

Auguste Laux (EUA, 1847-1921)

Óleo sobre tela, 27x 35 cm

cat-and-playful-kittensGata, filhotes e um cesto

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela, 46 x 56 cm

August Laux(eua, 1847-1921)Kittens with Ball and Butterflies, ost,45 x 55 cmFilhotes, bola e borboletas

August Laux (EUA 1847-1921)

óleo sobre tela, 45 x 55 cm

H0016-L06489716Realeza

August Laux (EUA 1847-1921)

óleo sobre tela

august laux, filhots brincalhoesFilhotes brincalhões

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela

A_LkittensGatinhos no cesto

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

auguste lauxGatinhos brincando

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela

11281592_2_xGatinhos travessos

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela

August Laux (EUA, 1847 - 1921) Gatinhos, c. 1900, ost,  25  x 35cm, signed,Gatinhos, c. 1900

August Laux (EUA, 1847-1921)

óleo sobre tela, 25 x 35 cm





Imagem de leitura — Jeffrey Batchelor

24 11 2011

 

Sem título

Jefffrey T. Batchelor (EUA, 1960)

óleo sobre tela

Jeffrey Batchelor nasceu na Carolina do Norte em 1960.  Estudou na Universidade daCarolina do Norte em Greensboro, e saiu em 1987 para prosseguir com sua carreira de cenógrafo para o teatro.   Depois de anos de experiência partiu para a pintura, onde Batchelor se encontra no limiar entre o ultra realismo e o surrealismo, usando tecnicas diversas do pincel ao airbrush.





Imagem de leitura — Gregory Calibey

12 11 2011

Poeta de domingo, 2003

Gregory Calibey (EUA, 1959)

óleo sobre tela, 48 x 60 cm

Bob Rauschenberg Gallery

Gregory Calibey nasceu no estado de Connecticut, nos EUA em 1959.  Mostrou sua aptidão para a pintura muito cedo, chegando a ganhar três prêmios nacionais de pintura antes mesmo acabar o ensino médio. Estudou arte na Universidade Wesleyan e na Universidade da Carolina do Norte.  Depois de formado tentou diversas disciplinas no campo das artes do design em arquitetura ao design de mobiliário. Experimentou o desenho gráfico de ilustração e trabalhou também com produções para a televisão, até chegar a conclusão de que a pintura e a escultura seriam as dedicações de sua vida.





Imagem de leitura: Helen Poniatowski

8 01 2010

Domingo de Manhã, s.d.

Helen Poniatowski (EUA, contemporânea)

Óleo sobre tela

Sem informações bigráficas.  www.debloisgallery.com