Cabeça de menina, c. 1618
Diego Velázquez (Espanha, 1599-1660)
Carvão e giz sobre papel, 15 x 12 cm
Biblioteca Nacional, Madri
Cabeça de menina, c. 1618
Diego Velázquez (Espanha, 1599-1660)
Carvão e giz sobre papel, 15 x 12 cm
Biblioteca Nacional, Madri
Moça lendo, 1947
Francesc Domingo Segura (Espanha-Brasil, 1893-1974)
óleo sobre tela, 73 x 60 cm
“A característica essencial do que chamamos de loucura é a solidão, mas uma solidão monumental. Uma solidão tão grande que não cabe na palavra solidão e que não podemos nem imaginar se não estivemos lá. É sentir que você se desconectou do mundo, que não vão conseguir te entender, que você não tem #palavras para se expressar. É como falar uma língua que ninguém mais conhece. É ser um astronauta flutuando à deriva na vastidão negra e vazia do espaço sideral. É desse tamanho de solidão que estou falando. E parece que na dor verdadeira, na dor-avalanche, acontece algo parecido. Embora a sensação de desconexão não seja tão extrema, você tampouco consegue dividir nem explicar seu sofrimento.”
Em: A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Montero, tradução de Mariana Sanchez, Todavia: 2019
Mulher lendo, c.1927
Julio Gonzalez (Espanha, 1876-1942)
óleo sobre tela, 65 x 50 cm
Museu Nacional Reina Sofia, Madri

Estojo com placas de marfim encaixadas, e fechamento em cobre banhado a ouro.
Original do Sul Espanha
Século XIII
Comprimento: 7,7 cm Largura: 16,2 cm Altura: 11,7 cm
Victoria & Albert Museum, Londres
Estojos e caixas de marfim continuaram a ser fabricadas até depois final do domínio do califado de Umayyad. Diferentes técnicas eram usadas na construção e ornamentação desses objetos. Este exemplo é feito por grossas folhas de marfim, e não de um bloco sólido. Acabamento em cobre com banho de ouro é elaborado e constitui sua única decoração.


Caricatura de Cruikshank
Uma das delicias de preparar aulas é que cada preparação, da mesma aula, mas em momentos diferentes nos leva a novos caminhos. Hoje fui lembrada dessa parlenda de origem espanhola, que nos meus dias de escotismo cantávamos bastante com os lobinhos. Aqui vai para os que não conhecem ou para aqueles que conhecem e se esqueceram.
Quando Fernando, O Sétimo,
Usava paletó
Quando Fernando, O Sétimo,
Usava paletó, paletó,
Usava paletó
Á!
Quandá Farnanda, A Sátama,
Asava Palatá
Quandá Farnanda, A Sátama,
Asava palatá, palatá,
Asava palatá
É!
Quendé Fernende, É Séteme,
Eseve Peleté
Quendé Fernendé, É Séteme,
Eseve Peleté, peleté,
Eseve Peleté…
I!
Quindi Firnindi, Í Sítimi,
Isivi Piliti
Quindi Firnindi, I Sítimi,
Isivi Piliti, piliti,
Isivi Piliti…
Ó!
Quondo Fornondo, Ó Sótomo,
Osovo Polotó.
Quondo Fornondo, Ó Sótomo,
Osovo Polotó, polotó,
Osovo Polotó…
Ú!
Qundu Furnundu, Ú Sútumu,
Usuvu Pulutu
Qundu Furnundu, Ú Sútumu,
Usuvu Pulutu, pulutu,
Usuvu Pulutu…
Aqui fica o link para um vídeo espanhol dessa parlenda delciosa, que faz todo mundo rir.
Raro adorno para a cabeça (grinalda)
Dinastia Tang, séculos VII-IX Era Comum,
ouro, 31 cm
China
Este é um exemplo da confluência de duas culturas em um único objeto, produzido na China, entre os séculos VII e IX. Além disso, esta coroa mostra alto grau de artesanato.
O cavalo galopante, que faz parte do design em cada ponta deste adorno de cabeça, mostra a influência de uma cultura nômade, de uma tribo, das estepes da Asia Central. As patas deste bravo animal praticamente não tocam o chão. Parecem cavalos elevados a um status mítico, com chifres e ancas em chamas. Por outro lado, os desenhos de flores remetem à dinastia Tang, das linhas entrelaçadas que as sustentam.
É aí que encontramos o casamento de duas culturas em um único objeto.
Mongóis em conflito, século XIV
Rashid-ad-Din’s Gami’ at-tawarih. Tabriz (?)
Diez A fol. 70, p. 58.
Aquarela sobre papel, 21x 26 cm
Staatsbibliothek Berlin, Orientabteilung
Há alguns anos Rosa Montero se tornou uma de minhas escritoras favoritas. O coração do tártaro, publicado pela Nova Fronteira em 2013, é o quinto romance da autora que leio. A louca da casa, A história do rei transparente, Te tratarei como uma rainha, Instruções para salvar o mundo, além de dois livros de não ficção: Muitas coisas que perguntei e algumas que disse e Histórias de mulheres precederam esta leitura. E ela consegue surpreender. Sempre. Li o livro há dois meses. Mas minha opinião precisava se cristalizar. Inicialmente pensei ser a mais simples história de R. Montero, mas mudei de opinião.
Rosa Montero não é uma estilista da língua. Não encontramos em seus livros figuras de linguagem, nem escolha de imagens poéticas. Há, em seu lugar, uma voz narrativa forte, baseada no idioma do dia a dia, enunciada de maneira franca, com economia. A exposição é direta e o ritmo importante. O que deslumbra seus leitores é o que ela nos faz imaginar, o que ela nos revela para considerarmos. Trama. Histórias dentro de histórias, em geral autorreflexivas. Aí vemos a riqueza do que nos foi apresentado, o cabedal de recursos imaginários que nos confronta, a exuberante criatividade. É difícil dizer, nessas circunstâncias de qual livro mais gosto. São todos tão diferentes! Mas sem dúvida, A louca da casa e A história do Rei Transparente estavam ombro a ombro entre os melhores do grupo e agora, O coração do tártaro coloco junto a eles, formando esse corpo literário de três cabeças, este Cérbero guardando a porta para o mundo imaginário, para o submundo de que suas obras são feitas, universo onírico de pesadelos que acabam com esperança, atravessando nossas almas, toda vez que nos enterramos na ficção da autora.
O coração do tártaro retrata o dia de uma mulher de 36 anos, Sofia Zarzamala, que trabalha com manuscritos medievais e que ao receber de manhã cedo um telefonema ameaçador de alguém que a procurava, ao ouvir a voz do outro lado entra em alerta total e em poucos minutos muda o rumo de sua vida. Foge. Ela sabia que este dia viria e precisa agir. Toda trama se passa nas vinte e quatro horas seguintes. Zarza, foge do irmão gêmeo, Nicolas um gangster, que tem bons motivos para persegui-la. A fuga a leva a lugares do passado e assim vamos conhecendo os motivos dessa perseguição. Vinda de família completamente disfuncional, Zarza e Nicolas têm ainda dois irmãos, Martina, que de todos é a que parece ter a vida mais normal e Miguel, um menino autista, mas um gênio no cubo de Rubick, que Zarza e Nicolas colocaram num sanatório. Zarza e Nicolas cometem todo tipo de ofensas em troca da heroína em haviam se viciado e com isso prejudicam até mesmo o irmão caçula. A mãe desses quatro irmãos morreu de causa desconhecida, talvez suicídio, talvez assassinada pelo marido; e o pai, figura gigantesca na imaginação e na presença malévola que tem neste lar, é um homem descontrolado que abusa dos filhos, destruindo suas vidas de maneira tão arrasadora que é comparado por Zarza, a Gengis Khan, o imperador mongol que destruía tudo que encontrava.
É este passado de sofrimento, de abuso do pai, que desapareceu subitamente, que também a persegue. Ao fugir do irmão, ela se lembra dele e reavalia ações do passado distante com a família e do passado recente da Rainha Branca, a heroína que a manteve cativa. Lembra-se Urbano o modesto carpinteiro que a retirou da prostituição e de como o tratou de maneira que precisava se redimir. Enfim, Zarza passa a limpo o passado, talvez pela última vez.

Neste meio tempo somos apresentados a um conto medieval atribuído a Chrétien de Troyes, conhecido poeta e trovador francês do século XII. Há cinco grandes poemas de sua autoria: Érec e Énide, Cligès, Lancelote: o Cavaleiro da Carreta, Ivain: o Cavaleiro do Leão, Perceval ou le Conte du Graal [inacabado], todos cobrindo de 1170 a 1190. E há um grande número de obras atribuídas a ele. E é aí nesta fissura do nosso conhecimento que Rosa Montero trabalha um conto, escrito por ela, mas com todas as características do que era escrito no século XII, que espelha a trama de O coração do tártaro. Primeiro Montero nos diz que a obra é de Chrétien de Troyes, atribuída por dois dos maiores medievalistas contemporâneos. Mas essa história é de Rosa Montero. Como ela vai misturar realidade e fantasia e ainda mencionar conhecidos intelectuais? Ela provoca. Faz com que acreditemos neste possível conto, avalizado por Le Goff e Harris (conhecidos historiadores do período medieval) só para no final, colocar dúvida de novo na autoria. É uma maneira astuta de evitar qualquer problema jurídico e ao mesmo tempo dar valor à sua criação.
Rosa Montero
Mas este livro se coloca entre os mais interessantes de Rosa Montero também pelo variado uso do espelhar de histórias, de personagens e situações, até mesmo transcendendo o tempo. Este espelhar, chamado em geral de Doppelgänger, do alemão, ou seja, o outro igual ao que se apresenta, está muito bem distribuído e elaborado na trama, enriquecendo o contexto, fixando no leitor as experiências vividas na leitura. Nem sempre o duplo é tão óbvio quanto no maravilhoso Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou trabalhado de maneira mais disfarçada como em O duplo, de Dostoiévski, por exemplo. Exemplos não faltam na literatura e no folclore europeu. Mas eu ainda não tinha me encontrado com “o duplo” em tantos níveis: Zarza e Nicolas, Nicolas e o pai, o presente e o conto medieval entre outros.
Além dessas observações é preciso notar que Rosa Montero parece estar sempre trafegando nas zonas sombrias das emoções. Seus personagens existem no submundo. Não só o submundo social, mas o submundo arquétipo como definiu Carl Jung, aquele vestíbulo da mente, dos segredos que carregamos, a porta de entrada para o inconsciente. Este submundo é sombrio. É melancólico e repleto de desespero. Aqui, em O coração do tártaro, como aconteceu em Te tratarei como uma rainha e Instruções para salvar o mundo também seus personagens enevoados não pertencem ao universo solar. Há penumbra e solidão. O familiar desespero que encontramos em obras anteriores de Rosa Montero também permeia esta trama. No entanto, como sempre, saímos da leitura com uma nesga de esperança, com um tanto de fé, nutrindo a fantasia de melhores tempos. Talvez seja por isso que suas obras sejam tão bem aceitas. Assim como esta, elas “quase” acabam bem. É incerto, como a vida. Recomendo a leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.

Cálice da Infanta Urraca de Zamora (1033-1101), século XI
Ourives desconhecido
Bronze
Tesouro de San Isidro, León, Espanha
Mantido no Museu da Congregação de San Isidro em León, na Espanha, o cálice da Infanta Urraca de Zamora, filha mais velha de Fernando I de Leão ede sua esposa, rainha Sancha I de Leão. Urraca viveu entre os anos 1033 e 1101, tendo vida longa para este período, 68 anos. Herdou, como determinado ainda em vida, os territórios de Zamora.
O cálice é composto por duas taças muito antigas de origem greco-romana anterior ao cristianismo. Uma serve de base, outra de recipiente. Feitas em pedra ônix, elas apresentam algumas lascas anteriores à construção do cálice. Desconhece-se a origem destes dois copos assim como não se sabe porque Doña Urraca decidiu entregar aos ourives da corte algo que materialmente não tinha grande valor. Especula-se sobre uma possível consagração destas duas peças ao culto litúrgico, feito talvez por algum personagem venerável da primitiva Igreja Cristã, mas não existem documentos ou testemunhos escritos a este respeito. Mas os ourives de Leão fizeram um excepcional trabalho artístico. E converteram o que na época era um objeto pagão, em uma taça digna de admiração.
As peças de ônix são cobertas em ouro: copo, haste e base, expondo parte do copo e quase toda a base. O interior da taça também é forrado em ouro. Os ourives fizeram com grande maestria e delicadeza as filigranas que formam desenhos, arcos, espirais e pequenos caracóis. Pérolas, esmeraldas, ametistas e safiras foram embutidos nos buracos. Incorporada também há uma máscara de vidro imitando uma camafeu, adicionado após o trabalho da composição do cálice. Na base e antes do nó, vê-se a inscrição: EM NOMINE DOMINI VRRACA FREDINANDI.
No século XI o reino de Leão teve um de seus momentos de maior esplendor. Fernão I, o Grande, tornou-se um dos reis mais importantes da cristandade na Europa, levando a cabo a reconquista, de Coimbra a Valência. Quando faleceu, Fernão I, entregou a seus filhos terras: a Alfonso, León; Sancho herdou Castela; Galícia a Garcia; Toro foi para as mãos de Elvira e Urraca foi feita Senhora de Zamora.


Tesouro de Carambolo, séculos VII a V aEC. Museu Arqueológico de Sevilha.
Um mistério resolvido. Em 1958 um tesouro foi descoberto por arqueólogos no Morro El Carambolo, a 2 km oeste de Sevilha, Espanha. Foram 21 peças de ouro de 24 quilates, trabalhadas: um colar com pingentes, duas pulseiras, dois peitorais de couro de boi e 16 placas que podem ter feito um colar ou um diadema. As joias foram enterradas dentro de um vaso de cerâmica, deliberadamente enterrado no século VI aEC.
Desde de sua descoberta, o Tesouro de Carambolo, como ficou conhecido, foi fonte de especulação para estudiosos. As peças datavam de aproximadamente 500 anos antes da Era Comum, ou seja, tinham 2700 anos de idade. Por causa de sua idade e da proficiência na manufatura, essas joias, pareciam ser prova de uma civilização conhecida unicamente por livros, uma cidade mítica, portuária, na foz do rio Guadalquivir, na Andaluzia, costa sul da península ibérica, cujo nome em grego seria Tartessos, que para os gregos, seria o ponto de nascimento da cultura europeia.
Tesouro de Carambolo, séculos VII a V aEC. Museu Arqueológico de Sevilha.
Muitas fontes da antiguidade se referem a esse local, inclusive Heródoto que o descreve, assim como descreve os Pilares de Hércules (Estreito de Gibraltar) e até menciona um rei em Tartessos, chamado Arganthonios, cujo reinado compreendia os oitenta anos entre 625 –545 aEC. Os tartessianos teriam fundado a cidade de Tartessos 1000 anos antes e seu auge estaria nos trezentos anos entre os séculos IX e VI aEC.
De acordo com historiadores gregos a cultura Tartessiana se caracterizava pelo adiantado uso de metal. O historiador Éforo de Cime (400 – 330 aEC) cita “um mercado muito próspero chamado Tartessos, com muito estanho transportado por rio, bem como ouro e cobre de terras celtas“. O comércio de estanho era lucrativo na Idade do Bronze, pois é um componente essencial para a manufatura de bronze e não é um metal comum. O povo de Tartessos tornou-se importante parceiro comercial dos fenícios e sabemos que esses estavam presentes na península ibérica desde o século VIII aEC. Diversos povoados ao longo do vale do Guadalquivir estão documentados. Juntos formavam um todo, cuja capital talvez fosse Turpa, no lugar que hoje está o Porto de Santa Maria. Com os fenícios houve aumento na exportação das minas de cobre e prata e Tartessos se tornou um dos portos mais importantes na exportação de bronze e prata para o Mediterrâneo. Imperadores eram os chefes do sistema político desta civilização. Eles também se utilizavam da escrita. Suas leis eram registradas em placas de bronze. Mas no século VI aEC., Tartesso desaparece possivelmente destruída por Cartago
Tesouro de Carambolo, séculos VII a V aEC. Museu Arqueológico de Sevilha.
Nos anos 50 do século passado, muitos pensaram que o Tesouro de Carambolo representasse peças vindas do Leste do Mediterrâneo, ou dos fenícios ou pelos fenícios.
O mistério da origem do Tesouro Carambolo foi resolvido graças aos novos métodos de análises químicas e isotópicas que permitiu examinar minúsculos fragmentos de ouro que se separaram de uma das joias. Esta análise revelou que o material veio das mesmas minas associadas a túmulos subterrâneos monumentais em Valencina de la Concepción, que datam do terceiro milênio aEC., também próximos a Sevilha. As joias encontradas no Tesouro Carambolo marcam o fim de uma tradição contínua de processamento de ouro que começou cerca de 2.000 anos antes com Valencina de la Concepción.
©Jose Lucas, Alamy O tesouro inclui placas de ouro em forma de retângulos e peles de boi, e pesa mais de cinco quilos.
O tesouro inclui placas de ouro em forma de retângulos e peles de boi e pesa mais de cinco quilos. Embora o ouro fosse adquirido localmente, as joias foram fabricadas usando técnicas fenícias. Um templo fenício foi identificado na área onde a horda do Tesouro Carambolo foi encontrada, e o tesouro em si é provavelmente o produto de uma cultura mista de fenícios e tartessianos ou seja uma cultura que amalgamou povos nativos do Mediterrâneo Ocidental e marítimos do Oriente Próximo.
Tesouro de Carambolo, séculos VII a V aEC. Museu Arqueológico de Sevilha.
Exemplo da escrita Tartessiana.