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Que grande travesso é o mar!
Molha de novo o lençol
que a praia para secar,
expôs aos raios do sol!
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(Walter Waeny)
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Que grande travesso é o mar!
Molha de novo o lençol
que a praia para secar,
expôs aos raios do sol!
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(Walter Waeny)
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Pedro Bandeira
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Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.
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Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
— Minha nossa, que grandão!
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Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)
Gravura, 80 x 65cm
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(canção de um devoto)
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……….Fagundes Varela
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Bem sei, criança estouvada
Que por artes do demônio,
Furtaste, a noite passada,
O filho de Santo Antônio!
E sem medo, sem piedade,
Cheia de um ímpio alvoroço,
O mimo do pobre frade
Correste a esconder no poço!
—
Arrepende-te. Chiquinha,
Vida minha,
Minha linda tentação!
A divindade perdoa,
Terna e boa,
Os erros do coração.
—
Ah! que fizeste, insensata?
Demo gentil, que fizeste?
Por causa de um’alma ingrata
Tu’alma pura perdeste!
—
Tira depressa a criança
Do frio asilo onde está,
Tem nos santos esperança,
Que teu amor voltará.
—
Ainda é tempo, Chiquinha,
Rola minha,
Minha rosada ilusão!
A divindade perdoa,
Terna e boa,
Os erros do coração.
—
Acende uma vela benta
Junto ao santo que ofendeste,
Lançando a mão violenta
Contra o pirralho celeste.
Leva-lhe linda toalha
Cheia de finos bordados,
Talvez a oferta lhe valha
O olvido dos teus pecados.
—
Não te demores, Chiquinha,
Trigueirinha,
Que tens por cetro a paixão!
A divindade perdoa,
Terna e boa,
Os erros do coração.
—
E quando alcançado houveres
A remissão, minha vida,
Mais formosa entre as mulheres,
Vem, mimosa arrependida,
Vem que o santo receoso
De novo furto, quiçá,
Velará por teu repouso,
Nosso amor protegerá…
—
Não percas tempo Chiquinha!
Glória minha!
Minha dourada visão!…
A divindade perdoa,
Terna e boa,
Os erros do coração.
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Luís Nicolau Fagundes Varella, (RJ 1841 – RJ 1871) ou Fagundes Varela, poeta brasileiro e um dos patronos na Academia Brasileira de Letras.
Obras:
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Sílvio Ribeiro de Castro
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amor vem e não se espera
saudade não manda aviso
a morte não marca encontro
de relógios não preciso
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Em: Branco silêncio, solidão azul, na coletânea: Poesia Simplesmente, Rio de Janeiro, 1999.
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Sílvio Ribeiro de Castro ( RJ, século XX) Advogado e poeta. Integra o grupo Poesia Simplesmente.
Obras:
Memórias, confissões e outras mentiras, 2002
Quando o amor acaba, 2005
50 poemas escolhidos pelo autor, 2010
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Theobaldo Miranda Santos
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A filha da Cobra Grande casou-se e disse ao marido:
— Meu esposo, tenho muita vontado de ver a noite.
Minha mulher, só existe o dia, respondeu-lhe o marido.
— A noite existe sim! Meu pai guarda-a no fundo das águas. Mande seus criados buscá-la, suplicou a moça.
Os criados partiram ligeiros em busca da noite. E transmitiram ao pai o pedido da filha. A Cobra Grande então entregou-lhe um coco de tucumã, avisando-os:
— Muito cuidado com este coco! Se ele for aberto, tudo escurecerá e todas as coisas se perderão.
Durante a viagem, os criados ouviram, dentro do coco, um barulhinho assim: xê-xê-xê, tem-tem-tem… Curiosos, os criados abriram o coco e tudo escureceu.
A moça disse então ao marido: — Meu esposo, os criados soltaram a noite. Agora tudo ficará escuro e todas as coisas se perderão.
O marido, espantado, perguntou-lhe: Que faremos! Precisamos salvar o dia!
A filha da Cobra Grande, então, arrancou um fio de seus cabelos e disse: Com este fio, vou separar o dia da noite. Feche os olhos, meu esposo… Agora pode abri-los e reparar. A madrugada já vem chegando. os pássaros cantam anunciando o sol.
Mas quando os criados voltaram, a filha da Cobra Grande os transformou em macacos, por sua infidelidade. Assim nasceu a noite. Assim surgiram os macacos.
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Em: Leitura infantis: 2º livro, para as escolas primárias, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1962
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Roberto Pontes
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Onde é que ficaram as praças
E os meus doces passarinhos
Da infância inesquecida?
Na aragem dos caminhos?
— As flores murcharam cedo
E os passarinhos com medo
Ai! ai! uui! ui!
Foram viver sozinhos.
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Deixaram algum recado
Nos canteiros ressequidos?
Na trança tenra dos ninhos
O trinar pros meus ouvidos?
— O tziu levou seus filhos
A murta fechou seus cílios
Ai! ai! ui! ui!
Tão breve adormecidos.
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Meus canteiros carregados
Minhas jandaias de sonho
O passado onde eu regava
E ainda hoje amanho.
Jardins como um vasto véu
E asas pardas pelo céu
Ai! ai! ui! ui!
Vocês me põem tristonho.
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Em: Poesia simplesmente, coletânea de diversos poetas, Edição independente, 1999.
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Francisco Roberto Silveira de Pontes Medeiros, nasceu em Fortaleza, Ceará (04/02/1944). Cursou Direito (1964) e mestrado em Literatura Brasileira (1991) na UFC.
Dados biográficos: Antônio Miranda
Desenho de astrônomo turco, anônimo,
Do livro Tarcuma-I Cifr, de Maomé Kamalladin.
Univerisdades Rektolugu-Istambul
Turquia
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João de Deus Souto Filho
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O Cometa não é estrela
Nem planeta,
O Cometa é viajante
Estelar,
Grande rei andarilho,
De bela coroa
E cauda a brilhar…
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Em: Jornal de Poesia
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João de Deus Souto Filho, Geólogo e educador. Nasceu em 1957 na cidade de Carolina, MA. É formado em Geologia pela Universidade Federal da Bahia, pós-graduado em Geo-Engenharia de Reservatórios de Petróleo pela UNICAMP (1994), Formado em Letras (Licenciatura) pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1999). Desenvolve trabalho sobre a importância da formação de uma consciência de preservação dos recursos hídricos.
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Obras infantis:
O quintal do Seu Nicolau, 1992
O aprendiz de jardineiro, teatro, 1992
O passeio da Cinderela, teatro, 1992
Brincadeira de palavras, inédito
Na ponta da pena, inédito.
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Se Deus atendesse, um dia,
minha prece ingênua e doce,
quem fosse mãe não morria,
por mais velhinha que fosse.
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(Archimino Lapagesse)
A águia e a coruja, ilustração de J. J. Grandville.—-
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Monteiro Lobato
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Coruja e águia , depois de muita briga resolveram fazer as pazes.
— Basta de guerra — disse a coruja. — O mundo é grande, e tolice maior que o mundo é andarmos a comer os filhotes uma da outra.
— Perfeitamente — respondeu a águia. — Também eu não quero outra coisa.
— Nesse caso combinemos isso: de ora em diante não comerás nunca os meus filhotes.
— Muito bem. Mas como posso distinguir os teus filhotes?
— Coisa fácil. Sempre que encontrares uns borrachos lindos, bem feitinhos de corpo, alegres, cheios de uma graça especial, que não existe em filhote de nenhuma outra ave, já sabes, são os meus.
— Está feito! — concluiu a águia.
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Dias depois, andando à caça, a águia encontrou um ninho com três monstrengos dentro, que piavam de bico muito aberto.
— Horríveis bichos! — disse ela. — Vê-se logo que não são os filhos da coruja.
E comeu-os.
Mas eram os filhos da coruja. Ao regressar à toca a triste mãe chorou amargamente o desastre e foi justar contas com a rainha das aves.
— Quê? — disse esta admirda. — Eram teus filhos aqueles monstrenguinhos? Pois, olha não se pareciam nada com o retrato que deles me fizeste…
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Para retrato de filho ninguém acredite em pintor pai. Lá diz o ditado: quem o feio ama, bonito lhe parece.
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Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense, s/d, 20ª edição.
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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das dezenas de varições feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC. Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC. Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada. Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.
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José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948). Escritor, contista, dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.
Obras:
A Barca de Gleyre, 1944
A Caçada da Onça, 1924
A ceia dos acusados, 1936
A Chave do Tamanho, 1942
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955
A Epopéia Americana, 1940
A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924
Alice no País do Espelho, 1933
América, 1932
Aritmética da Emília, 1935
As caçadas de Pedrinho, 1933
Aventuras de Hans Staden, 1927
Caçada da Onça, 1925
Cidades Mortas, 1919
Contos Leves, 1935
Contos Pesados, 1940
Conversa entre Amigos, 1986
D. Quixote das crianças, 1936
Emília no País da Gramática, 1934
Escândalo do Petróleo, 1936
Fábulas, 1922
Fábulas de Narizinho, 1923
Ferro, 1931
Filosofia da vida, 1937
Formação da mentalidade, 1940
Geografia de Dona Benta, 1935
História da civilização, 1946
História da filosofia, 1935
História da literatura mundial, 1941
História das Invenções, 1935
História do Mundo para crianças, 1933
Histórias de Tia Nastácia, 1937
How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926
Idéias de Jeca Tatu, 1919
Jeca-Tatuzinho, 1925
Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921
Memórias de Emília, 1936
Mister Slang e o Brasil, 1927
Mundo da Lua, 1923
Na Antevéspera, 1933
Narizinho Arrebitado, 1923
Negrinha, 1920
Novas Reinações de Narizinho, 1933
O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926
O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930
O livro da jangal, 1941
O Macaco que Se Fez Homem, 1923
O Marquês de Rabicó, 1922
O Minotauro, 1939
O pequeno César, 1935
O Picapau Amarelo, 1939
O pó de pirlimpimpim, 1931
O Poço do Visconde, 1937
O presidente negro, 1926
O Saci, 1918
Onda Verde, 1923
Os Doze Trabalhos de Hércules, 1944
Os grandes pensadores, 1939
Os Negros, 1924
Prefácios e Entrevistas, 1946
Problema Vital, 1918
Reforma da Natureza, 1941
Reinações de Narizinho, 1931
Serões de Dona Benta, 1937
Urupês, 1918
Viagem ao Céu, 1932
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Jean Ignace Isidore Gérard (França, 1803 — 1847), conhecido pelo pseudonimo J. J. Grandville, foi um grande ilustrador e caricaturista francês.
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Se estiverdes namorando,
aos beijinhos, no portão,
já sabes, o amor é cego,
porém, os vizinhos, não…
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(Dieno Castanho)