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Nick Botting (Inglaterra, 1963)
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“O verbo ler deriva de um verbo em latim que significa colher: o homem que lê é como um colhedor de frutas. Ler é, portanto, ir ao encontro de nutrição.”
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Geneviève Cacerès (1923-1982)
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Nick Botting (Inglaterra, 1963)
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Geneviève Cacerès (1923-1982)
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Ilustração sem autoria, do livro “At Work and Play”, Merton-McCall Readers: 1937.–
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Teodoro de Moraes
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“– Que é preciso para aprender? perguntou um filho ao pai.
– Para aprender, para saber e para vencer, respondeu o pai, é preciso buscar os três talismãs: a alavanca, a chave e o facho.
– E onde encontrá-los? interroga o filho.
– Dentro de ti mesmo, explica o pai. Os três talismãs estão em teu poder e serás poderoso, se quiseres fazer uso deles.
– Não compreendo, diz o filho, cada vez mais intrigado. Que alavanca é essa?
– A tua vontade. É preciso querer, é preciso remover obstáculos para aprender.
– E a chave?
– O teu trabalho. É preciso esforço para dar volta à chave e abrir o palácio do saber.
– E o facho?
– A tua atenção. É preciso luz, muita luz, para iluminar o palácio. Só assim poderás ver com clareza e descobrir a verdade, que vence a ignorância.”
[Exemplo de conversação no texto]
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Em: Flor do Lácio,[antologia] Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário)p. 158.
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Theodoro Jeronymo Rodrigues de Moraes (Brasil, 1877-1956)Professor paulista. Formado pela Escola Normal Secundária de São Paulo, em 1906.
Obras:
A leitura analítica, 1909
Como ensinar leitura e linguagem nos diversos anos do curso preliminar, 1911
Meu livro: primeiras leituras de acordo com o método analítico, 1909
Meu livro: segundas leituras de acordo com o método analítico, 1910
Cartilha do operário: para o ensino da leitura…, 1918 e 1924
Sei ler: leituras intermediárias, 1928
Sei ler: primeiro livro, 1928
Sei ler: segundo livro , 1930
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Ilustração, Frank M. Branley.–
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Cláudio Dantas (Brasil, 1959)
óleo sobre tela, 70 x 100 cm
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No fim de semana passado li o artigo Is music the key to success? de Joanne Lipman no The New York Times, onde a autora relata um fato curioso: muitas das pessoas de sucesso nos EUA tiveram anos e anos de dedicação à música. E mesmo que não tenham levado adiante a profissão de músico — os exemplos são muitos: Condolezza Rice, Allan Greenspan, Bruce Kovner entre outros – essas pessoas se referem à educação musical como importante em suas vidas profissionais.
Levando em consideração as diferentes interpretações de sucesso, gostaria de me adicionar à lista das pessoas que sentem que a educação musical foi importante no desenvolvimento profissional. Tenho consciência, já há muito tempo, que por menores que sejam as minhas conquistas pessoais, todas foram, até certo ponto, conseqüência de dois treinos que recebi muito cedo: o estudo de uma língua estrangeira, no meu caso o francês, que comecei a estudar aos 9-10 anos; e os anos de aprendizado do piano, começados mais ou menos aos 11 anos, o que já era considerado ‘tarde’ quisesse eu ter me dedicado a uma carreira musical como pianista.
O primeiro ensinamento que esses cursos extra-curriculares me deram foi: disciplina, disciplina, disciplina. Segundo: repetir, repetir, repetir até fazer certo. Depois, “errar é aprender”. E voltar a fazer a mesma coisa, inúmeras vezes, e uma vez mais ainda quando a língua ou os dedos já estão cansados, quando a exaustão parece querer nos dominar, até fazer certo. Isso foi válido para o francês e certamente para o piano.
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Ingres Speltri (Brasil, 1940)
óleo sobre madeira, 50 x 70 cm
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O francês se tornou a minha segunda língua e só não se impôs mais fortemente, porque fui fazer todo o meu treino profissional como historiadora da arte nos Estados Unidos. Mas o piano foi mais do que um hobby, muito mais do que uma complementação na educação, ele foi meu amigo do peito na adolescência, lugar onde derramei as lágrimas de frustração e de alegria como jovem rebelde. Ambos os treinos vieram a ser essenciais na minha vida adulta. Fui fazer a faculdade de letras em francês que abandonei para seguir história da arte, onde eventualmente acabei envolvida com diversos períodos da arte belga, cultura parcialmente francófona.
O piano permaneceu como uma enorme ferramenta para a introspecção. Diferente dos que se dedicaram por um pouco mais de dez anos de aprendizado, nunca cheguei a ser uma grande intérprete. De todos os compositores para tocar prefiro Bach. De longe. Porque faz sentido. É lógico. Ele acerta os meus ponteiros internos.
Mas – e agora é que vem o ponto estranho do meu relacionamento com o piano – sempre me dediquei mais aos exercícios de escalas do que a qualquer outro tema. Poderia e posso passar umas quatro horas ao piano aumentando as dificuldades a cada volta, sem me aborrecer [certamente devo frustrar os que por acaso me ouvem]. Não sou uma pessoa dedicada à música como performer; sou uma pessoa dedicada ao encantamento provocado pela repetição de uma escala, com variações cada vez mais difíceis, quando meus dedos mecanicamente repetem os movimentos ao correr do teclado, repetidamente, incessantemente. Há cinco anos pratico ioga e a meditação. O resultado é semelhante. Não é igual. Acredito que o efeito dessa disciplina, da repetição do som e do exercício das mãos, seja como rezar o terço, o rosário, em voz alta, nas igrejas. Há aquela magia do som repetido infinitamente, a muitas vozes, um coro ritmado e mecânico, que eleva a alma, e a leva à outra realidade, que não é desse mundo, que não é de outro mundo, é entre – mundos. Preciso desse lugar para equilibrar o meu interior, minhas emoções, diariamente.
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Desconheço a autoria dessa ilustração. Se você conhece o autor, me diga. Obrigada.–
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Vinicius de Moraes
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Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?
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– Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!
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Em: A arca de Noé:poemas infantis, Vinícius de Moraes, Companhia das Letrinhas, São Paulo:1991
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José Paulo Moreira da Fonseca
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Mesmo quando imóvel, vemo-lo correr
Como se aquelas formas sonhassem
Com uma inaccessível distância.
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Em: Antologia Poética, José Paulo M. F., Rio de Janeiro, Leitura: 1968
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Alfredo Rodríguez (México, 1954)
óleo, 36 x 28 cm
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Érico Veríssimo
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Ilustração inspirada no trabalho de Marcus Gheeraerts, o velho (Bélgica, c. 1520- c. 1590)–
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Monteiro Lobato
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Simão, o macaco, e Bichano, o gato, moram juntos na mesma casa. E pintam o sete. Um furta coisas, remexe gavetas, esconde tesourinhas, atormenta o papagaio; outra arranha os tapetes, esfiapa as almofadas e bebe o leite das crianças.
Mas, apesar de amigos e sócios, o macaco sabe agir com tal maromba que é quem sai ganhando sempre.
Foi assim no caso das castanhas.
A cozinheira pusera a assar nas brasas umas castanhas e fora à horta colher temperos. Vendo a cozinha vazia, os dois malandros se aproximaram. Disse o macaco:
— Amigo Bichano, você que tem uma pata jeitosa, tire as castanhas do fogo.
O gato não se fez insistir e com muita arte começou a tirar as castanhas.
— Pronto, uma…
— Agora aquela lá… Isso. Agora aquela gorducha… Isso. E mais a da esquerda, que estalou…
O gato as tirava, mas quem as comia, gulosamente, piscando o olho, era o macaco…
De repente, eis que surge a cozinheira, furiosa, de vara na mão.
— Espere aí, diabada!…
Os dois gatunos sumiram-se aos pinotes.
— Boa peça, hem? — disse o macaco lá longe.
O gato suspirou:
— Para você, que comeu as castanhas. Para mim foi péssima, pois arrisquei o pelo e fiquei em jejum, sem saber que gosto tem uma castanha assada…
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Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Ed. Brasiliense:1966, 20ª edição, pp 97-98.
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José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948). Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.
Obras:
A Barca de Gleyre, 1944
A Caçada da Onça, 1924
A ceia dos acusados, 1936
A Chave do Tamanho, 1942
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955
A Epopéia Americana, 1940
A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924
Alice no País do Espelho, 1933
América, 1932
Aritmética da Emília, 1935
As caçadas de Pedrinho, 1933
Aventuras de Hans Staden, 1927
Caçada da Onça, 1925
Cidades Mortas, 1919
Contos Leves, 1935
Contos Pesados, 1940
Conversa entre Amigos, 1986
D. Quixote das crianças, 1936
Emília no País da Gramática, 1934
Escândalo do Petróleo, 1936
Fábulas, 1922
Fábulas de Narizinho, 1923
Ferro, 1931
Filosofia da vida, 1937
Formação da mentalidade, 1940
Geografia de Dona Benta, 1935
História da civilização, 1946
História da filosofia, 1935
História da literatura mundial, 1941
História das Invenções, 1935
História do Mundo para crianças, 1933
Histórias de Tia Nastácia, 1937
How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926
Idéias de Jeca Tatu, 1919
Jeca-Tatuzinho, 1925
Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921
Memórias de Emília, 1936
Mister Slang e o Brasil, 1927
Mundo da Lua, 1923
Na Antevéspera, 1933
Narizinho Arrebitado, 1923
Negrinha, 1920
Novas Reinações de Narizinho, 1933
O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926
O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930
O livro da jangal, 1941
O Macaco que Se Fez Homem, 1923
O Marquês de Rabicó, 1922
O Minotauro, 1939
O pequeno César, 1935
O Picapau Amarelo, 1939
O pó de pirlimpimpim, 1931
O Poço do Visconde, 1937
O presidente negro, 1926
O Saci, 1918
Onda Verde, 1923
Os Doze Trabalhos de Hércules, 1944
Os grandes pensadores, 1939
Os Negros, 1924
Prefácios e Entrevistas, 1946
Problema Vital, 1918
Reforma da Natureza, 1941
Reinações de Narizinho, 1931
Serões de Dona Benta, 1937
Urupês, 1918
Viagem ao Céu, 1932
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Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC. Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC. Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada. Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine.
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Nello Iovene (Itália, 1935)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
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Cyrill Edward Power (Inglaterra, 1871-1951)
gravura em linóleo
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Então, do Pará ao Rio Grande do Sul, o brasileiro lê em média 6 minutos por dia. É uma constatação devastadora. A pesquisa, feita pelo IBGE, como noticiou o jornal O Globo ontem, mostra que lemos 5 vezes menos por dia do que os americanos durante a semana e 6 vezes menos do que eles durante o fim de semana. Essa leitura inclui qualquer leitura. Não estamos falando simplesmente de romances, de entretenimento. Dedicamos muito pouco tempo à leitura de qualquer coisa: jornal, texto científico, romance, texto histórico, matemático, poesia, ciências naturais, físicas, qualquer coisa, provavelmente até livros de culinária.
Agora, como é que queremos ir para frente? Progredir? Tornar este país competitivo?
Vejo com frequência nas redes sociais um enorme ressentimento contra os nossos vizinhos do norte, os americanos porque “querem dominar o mundo” culturalmente. Mas, eles pelo menos se dedicam a aprender, a ler, a explandir os conhecimentos. Domínio cultural, através de filmes, de livros, de programas de televisão acontece mesmo. É subproduto de um país que se dedicou a uma educação generalizada para toda a população, de uma cultura que se dedicou ao estudo e à leitura. De um país que dá todo o apoio possível à criatividade quer ela seja científica ou não. Somos levados no cabresto por eles, sim, culturalmente. Mas para lutar contra esse domínio, não adianta sair às ruas, nem pedir dinheiro para o governo bancar projetos culturais. Porque os brasileiros nem sequer sabem da importância desses projetos. Não sabem porque não lêem. E niguém nasceu sabendo. E a única maneira de se complementar o que se conhece, o que se sabe é lendo.
Não é culpa da internet. Hoje para se usar a internet, para se construir uma base de conhecimento que possa levar ao manuseio da internet, da cultura virtual, não se pode ser unicamente um usuário, um visitante das páginas sociais e bater papo com os amigos. É um erro pensar que visitar os amigos nas redes sociais é dominar a internet, que é progresso. Para que possamos realmente fazer uma contribuição para o mundo virtual, é necessário saber como virar esse conhecimento técnico a nosso favor. E no entanto, sem ler, não chegaremos lá.
Não lemos. Portanto não expandimos os nossos cérebros, não aumentamos o nosso conhecimento pragmático ou emocional. Estamos nos tornando, em passos rápidos, uma cultura de zumbis, de não pensadores. Em compensação gostamos de vegetar em frente da televisão. 85% do tempo livre dos brasileiros é gasto em frente da televisão. Deixamos assim que outros pensem por nós.
Há horas que dá muito desânimo.
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Fonte: Brasileiro passa muito tempo longe dos livros, O GLOBO