O reformador do mundo, fábula de Monteiro Lobato

10 03 2017

 

 

DSC01027Zé da Roça tira uma soneca na sombra de uma árvore. © Estúdios Maurício de Sousa

 

 

O reformador do mundo

 

Monteiro Lobato

 

Américo Pisca-Pisca tinha o hábito de por defeito em todas as coisas.  O mundo para ele estava errado e a Natureza só fazia asneiras.

—  Asneiras, Américo?

—  Pois então?!…  Aqui mesmo, neste pomar, você tem a prova disso.  Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira.  Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.  Não tenho razão?

Assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.

— Mas o melhor – concluiu, é não pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores, não acha?

E Pisca-pisca, pisca piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.

Dormiu.  Dormiu e sonhou.  Sonhou com o mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.  Uma beleza!

De repente, no melhor da festa, plaf!  Uma jabuticaba cai do galho e lhe acerta em cheio o nariz.

Américo desperta de um pulo; pisca, pisca; medita sobre o caso e reconhece, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim.

E segue para casa refletindo:

—  Que espiga! … Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta do lugar da jabuticaba?  Hum!  Deixemo-nos de reformas.  Fique tudo como está, que está tudo muito bem.

E Pisca-pisca continuou a piscar pela vida em fora, mas já sem a cisma de corrigir a Natureza.

 

 

Em: Fábulas, Monteiro Lobato, São Paulo, Brasiliense:1966, 20ª edição, pp.19-20.

 





A intrigante primeira frase…

6 03 2017

 

 

VICENTE ROMERO (Espanha, 1956) Leitura - Pastel - 60 x 81.Leitura

Vicente Romero (Espanha, 1956)

Pastel,  69 x 80 cm

 

 

“Meu irmão é adotado, mas não posso nem quero dizer que meu irmão é adotado.”

 

 

Julián Fuks em A resistência, São Paulo, Companhia das Letras:2015, página 9, primeiro capítulo, primeira página.

 

 

 





Natureza maravilhosa: borboleta transparente

4 03 2017

 

 

transparent-glasswinged-butterflyFoto: Greg Foster, fotografia feita no Smithsonian Museum, Viveiro de borboletas, Washington DC.

 

 

 

A Borboleta Transparente leva o nome científico de Greta Oto.   Natural da América Central:  México, Panamá. Ela também pode ser encontrada na Venezuela, na Colômbia e em algumas partes do Brasil. É  uma borboleta com asas transparentes exceto pelas bordas das asas  que são marrom avermelhado e fazem o efeito de pequenas janelas.  Não é comum, mas a espécie ainda não está em perigo. A razão de ser transparente é simples, ela não tem  escamas coloridas como as outras borboletas. Essa transparência serve de camuflagem.  O corpo é sempre escuro.  As asas abertas podem chegar a 6 cm de largura e  elas são bastante resistentes, podendo voar até 20 km por dia.

Salvar





Teia de aranha, poesia de Olegário Mariano

3 03 2017

 

 

gao-qipei-finger-painting-of-a-spider-on-a-web-china-1684Teia de aranha,  1684

Gao Qipei (China, 1660-1734)

Pintura a dedo, sobre o papel

 

 

 

Teia de aranha

 

Olegário Mariano

 

Dizem que traz felicidade a teia

De aranha. Surge um dia, malha a malha.

E a aranha infatigável que trabalha,

Mata os insetos quanto mais se alteia.

 

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia

Ao vento que os filetes de oiro espalha.

E ao sol iluminado, que a amortalha,

A trama iluminada se incendeia.

 

Voa a primeira borboleta ebriada.

Vem louca, primavera de ansiedade,

Mas de repente, a asa despedaçada,

 

Rola… É o fim… A tortura da grilheta…

Maldita seja essa felicidade

Que vem da morte de uma borboleta!

 

 

Em: Toda uma vida de poesia — poesias completas, Olegário Mariano, Rio de Janeiro, José Olympio: 1957, volume 1 (1911-1931), p. 117.

 

 





Esmerado: broche de Milton, 600-700 E.C.

23 02 2017

 

 

113c6d0d78760ae60291a142428ca26e

Broche de Milton , c. anos 600 a 700

Artista desconhecido

Região de Kent, Inglaterra

Prata, bronze, ouro, granadas e conchas

Victoria & Albert Museum, Londres

 

Esse é um dos mais sofisticados trabalhos de joalheria descobertos desse período, com uma intrigante escolha de materiais e desenho primoroso, decorado por granadas em cloison, nós em filigrana, sobre ouro e conchas. Foi encontrado em 1832, num cemitério em Milton, a oeste de Dorchester-on-Thames.





A chamada do escritor, José Eduardo Agualusa

22 02 2017

 

 

 

gevork-kotiantz-russia-1906-1996-estudante-1969-ost-100-x-100-cm

Estudante, 1969

Gevork Kotiantz (Rússia, 1906-1996)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

 

 

“Imagino que, pesquisando, seja possível encontrar, para cada romancista, o episódio fundador da sua escrita: o distante relâmpago, a pequena humilhação, um primeiro amor impossível, a mãe controladora, um crime íntimo, a morte do pai.

Todos nós gostaríamos de saber de que selva fabulosa saíram os tigres de Jorge Luís Borges; de que ruínas barrocas ou jardins perfumados emergiram as baratas de Júlio Cortázar ou as belas ninfetas e mariposas (serão a mesma coisa?) de Vladimir Nabokov. Não creio que o segredo da criação se esgote nesse conhecimento, e nem me parece que tal fosse desejável. Talvez tenha até o efeito contrário, levando-nos a reler os livros que mais amamos e que mais nos marcaram, e a encontrar nessa releitura novos e mais profundos mistérios.”

 

 

Em: “Um relâmpago que atravessa vidas”, José Eduardo Agualusa, O Globo, 20/02/2017, 2º caderno, página 2.

 

 

 





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

15 02 2017

 

 

 

burle-marx-robertomoringa-e-legumes-sobre-mesaoleo-s-tela-ass-e-dat-1938-61-x-74-cm

Moringa e legumes sobre a mesa, 1938

Roberto Burle Marx (Brasil, 1909-1994)

óleo sobre tela, 61 x 74 cm





Domingo, um passeio no campo!

12 02 2017

 

 

 

mauro-ferreira-paisagem-matinal-oleo-sobre-tela-50-x-70

Paisagem matinal

Mauro Ferreira (Brasil, 1958)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

 





Flores para um sábado perfeito!

11 02 2017

 

 

sorensen-vaso-de-flores-com-janela-ao-fundo-ost-70-x-90

Vaso de flores com janela ao fundo

Carlos H. Sorensen (Brasil, 1928-2008)

óleo sobre tela, 70 x 90 cm





Canção, poesia de Mauro Mota

9 02 2017

 

 

candido-portinari_flautista-1934-oleo-sobre-madeira46-x-375cm-col-part

Flautista, 1934

Cândido Portinari (Brasil,  1903-1962)

óleo sobre madeira, 46 x 37 cm

Coleção Particular

 

 

 

Canção

 

Mauro Mota

 

 

Para onde fui? Ou essa

música de onde veio?

Uma flauta divide

a noite pelo meio.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, p. 93.