1Q84 de Haruki Murakami, 1.280 páginas de sedução!

28 07 2014

 

 

1133271241496be8felGaleria labiríntica, 2008

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

 

 

1Q84 foi uma das mais envolventes leituras que fiz nos últimos tempos, uma experiência rica e extravagante, li 1280 páginas em 17 dias, e ainda me encontro sob seu feitiço. Boa literatura permite ser lida em diversos níveis e esta obra de Haruki Murakami não é exceção. É difícil rotular esse romance, é um thriller, mas é muito mais. Há fantasia e dimensões além da nossa realidade. Há mistérios por toda parte e os personagens têm que superar barreiras físicas e psicológicas para sobreviverem. Não é um romance distópico, como alguns caracterizaram, nem pertence ao mundo da ficção científica. Mas aborda a existência de realidades paralelas.  Os principais personagens têm que vir a termos com essa realidade paralela onde, se não tiverem cuidado poderão se perder por lá, para sempre. As aventuras e incessantes perseguições são envolventes e é fácil o leitor se identificar com os personagens sem se preocupar com as questões filosóficas levantadas pelo autor. A mais central pode ser delineada pela pergunta: quando uma ação “do mal” é ou pode ser justificada?

O mundo de Murakami, em qualquer dimensão, relativiza a questão da moralidade. Todos os retratados têm aspectos de retidão e ética, mas ficamos ambivalentes porque todos eles, sem exceção, agem de maneira questionável. O leitor se encontra em um dilema: identifica-se com todos eles, porque são retratados como pessoas que entendemos, que conhecemos intimamente, com falhas e qualidades, muitas delas semelhantes às nossas. Mas há um viés do mal em cada um deles, mesmo nos mais angélicos. As perguntas sobre ética se proliferam à medida que a história se desenvolve: planejar um assassinato é justificável desde que a vítima seja uma pessoa perversa? Há ocasiões em que participar, com pleno conhecimento, de uma fraude pode ser perdoado? Qual é exatamente o ponto em que a cobrança de uma dívida deixa de ser cobrança e passa a ser perigosa perseguição e assédio? Pode uma crença religiosa abonar a prática do incesto? Há outras perguntas relevantes, cada qual acompanhando um personagem diferente.

Essas perguntas adquirem urgência quando se busca soluções à medida que a trama se abre, como um leque oriental mostrando, em cada varinha uma vida, um drama pessoal. Em todas nos perguntamos, à maneira de Malcolm Gladwell, qual é o “Ponto de Virada”, como e em que circunstâncias isso ou aquilo pode ser aceito? Há no capítulo 15, vol. 1,  por exemplo, um excelente diálogo entre Aomame, a personagem feminina  principal e sua empregadora, onde Murakami claramente faz um alerta sobre o perigo da arrogância, quando imaginamos que certas de nossas ações podem ser justificadas, já que nossos sentimentos são puros.  É por isso que aceitamos pagamento, para nos enraizarmos na realidade. Fato é que ninguém em 1Q84 passou pela vida incólume, sem ter à flor da pele as cicatrizes dos maus-tratos infringidos por progenitores, por família, por suicídios, por abandono, por maridos, por orfandade, por fanatismo religioso e pobreza.  E, no entanto, nenhuma dessas perguntas é respondida. Fica para o leitor a procura da resposta e a ponderação sobre a diferença das éticas entre as realidades de 1Q84 e 1984.  Isso poderia ser expandido em um ensaio muito maior, envolvendo até mesmo a obra de George Orwell.  Murakami nos deixa refletir, menciona a Ética a Nicômaco de Aristóteles, no capítulo 11 do primeiro volume, em uma longa passagem de página e meia, mas não impõe uma resposta, exceto pelo vago aceno à espiritualidade nas páginas finais do romance. Murakami organiza o livro com referências éticas no primeiro e no terceiro volumes, salpicando observações sobre as diferença entre o bem e o mal através de toda a obra.

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1Q84 é um romance de poucos personagens, retratados a fundo. Nos dois primeiros volumes a história é alternadamente contada pelo cotidiano de Aomame e Tengo, que formam o casal romântico da trilogia. No terceiro volume mais um personagem, Ushikawa, um detetive, passa a ter nossa atenção, somos guiados a conhecê-los todos a fundo. É justamente através desses personagens que nos envolvemos em questões de ética. Tamaru, o chefe de segurança da Senhora, coreano e gay, fala por Murakami. É com ele que percebemos a visão do autor, principalmente no terceiro volume. Ele é sábio. Conhece a vida e conta histórias que a fazem relevante. Ele é o ponto de equilíbrio e quem soluciona os problemas. Personagem importante, que não ganha capítulos com seu nome, mas sua presença e poder de decisão são essenciais. Tem muitas características do herói. Eu certamente me apaixonei por ele, mas nem ele é um exemplo de ética. Todos, como nós, têm seus calcanhares de Aquiles.

Muitas críticas a essa obra falam de repetição e do final fraco. Não achei repetitivo. Cada vez que voltávamos a um assunto ele era expandido e novas camadas de conhecimento adquiridas. A cada repetição mais se firmaram os pontos importantes.  O final não poderia ser diferente. De fato, ainda no primeiro volume, Murakami, no capítulo 14, ao descrever como o mundo da ficção se tornara relevante para Tengo adolescente, estabelece que ela, a ficção, não acha soluções para a vida real, no máximo ela pode apontar para o caminho a ser tomado. Assim como aceitamos os elementos fantásticos da trama, sem questioná-los devemos aceitar também o seu abandono. De fato, é o estilo de Murakami que mais contribui para essa aceitação do que não é comum na nossa realidade. Ele estabelece o misterioso, o fantástico com uma precisão tão eloquente que não nos deixa espaço para dúvida. Tanto que nos momentos mais aterrorizantes sentimos com os personagens o terror que eles sentem. Confesso que em alguns momentos tive reações físicas à narrativa: pés e mãos gelados, aumento do batimento cardíaco. Se isso não é um sinal de uma prosa convincente e admirável, não sei o que é.

Murakami, HarukiHaruki Murakami

Só consigo me lembrar de duas ocasiões em que tive semelhante dedicação a uma leitura. Foram livros bem escritos e de aventuras. Aos quatorze anos passei pela primeira vez uma noite em claro para não parar de ler As minas do rei Salomão, de H. Rider Haggard, publicado em 1885, em brilhante tradução de Eça de Queiroz. Uns dez anos depois o mesmo aconteceu com The Once and Future King, de T.H. White, originalmente publicado em 1958. Li na edição de bolso, avidamente, mais de 600 páginas que não couberam em uma única sentada, precisando de uma noite e mais um dia. Com 1Q84 fiquei acordada algumas noites até as quatro da manhã, ignorando o trabalho que me esperava nas manhãs seguintes… Falta de juízo. Isso não é costumeiro… Por que? Por que esse livro? Esse autor? Porque é uma obra espantosa, brilhante e inesperada.





Os livros favoritos de Ariano Suassuna

27 07 2014

 

Livros usados, David Carson Taylor, acrilicaLivros Usados

David Carson Taylor (EUA, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 35 x 28 cm

 

 

A jornalista Simone Magno, colocou no seu blog a  lista as obras favoritas de Ariano Suassuana.  A informação é parte de uma entrevista que se encontra no portal da CBN.  Não deixe de ouvir o escritor na gravação da rádio.  Mas para matar a curiosidade, aqui estão:

 

AUTORES BRASILEIROS

As obras de Monteiro Lobato para crianças

Tesouro da Juventude — enciclopédia

Através do Brasil de Olavo Bilac e Manoel Bonfim

Os sertões, Euclides da Cunha

O triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto

O cortiço, Aluísio Azevedo

A carne, Júlio Ribeiro

 

Garotos_estudando_01Crianças estudando, ilustração do Tesouro da Juventude.

 

AUTORES ESTRANGEIROS

Scaramouche, Rafael Sabatini

Memórias de um médico, Alexandre Dumas

O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas

Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski

O idiota, de Fiódor Dostoiévski

Os irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski

Os demônios, de Fiódor Dostoiévski

Almas mortas, Nicolai Gogol

Ana Karenina, Liev Tolstoi

Guerra e Paz, Liev Tolstoi

O vermelho e o negro, Stendhal

 

Então, quais desses livros você já leu?  Que tal colocar os outros na lista de leitura para os próximos dois anos?

 





Trova da rua

26 07 2014
???????????????????????????????Ilustração Maurício de Sousa.

 

Pela calçada ela passa…

e a rua, nos passos dela,

tocada de luz e graça,

transforma-se em passarela.

 

(Jacy Pacheco)





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos

23 07 2014

 

 

Dirce Bona (Brasil, SC) natureza-morta, 2005, ostNatureza morta, 2005

Dirce Bona (Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela





Trova da saudade

23 07 2014

 

 

 

varanda,FruitGardenAndHome1924-06Capa da revista Fruit, Garden & Home, junho de 1924 [EUA].

 

Mandei a ilusão embora.

A saudade quis entrar.

Há tanto espaço lá fora

mas ela insiste em ficar.

 

(Zeni de Barros Lana)

Salvar





Viagem ao céu de Monteiro Lobato foi seu primeiro amor literário?

22 07 2014

 

 

 

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O painel Ler, levar a ler, defender o direito de ler literatura, da Feira de Livros de Santa Teresa [FLIST] de 2014, aqui no Rio de Janeiro, foi uma fonte de pequenos testemunhos sobre o início da leitura para várias pessoas que hoje atuam no  Movimento por um Brasil Literário. Luciana Sandroni, autora de livros infantis, definiu o exato  momento em que começou a se apaixonar pela leitura, através do livro de Monteiro Lobato, Viagem ao Céu.

Sua lembrança desse momento está deliciosamente contada no artigo do link acima e aconselho você a se deleitar com a narrativa dos momentos mágicos na ilha de Itacuruçá, aqui no estado do Rio de Janeiro, em noites de férias, em um local onde não havia luz elétrica.  O texto além de mostrar o fascínio da autora pela obra de Lobato, serve para demonstrar a importância da leitura feita por um adulto para as crianças.

 

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Parte do meu gosto pelo testemunho de Luciana Sandroni vem de um paralelo pessoal sobre a importância desse livro. Quando o li, eu, que já era uma leitora assídua, estava familiarizada com pelo menos dois livros de Monteiro Lobato: O Sítio do Pica-pau Amarelo, minha apresentação ao autor e Reinações de Narizinho, leitura seguinte.  Não me lembro da ordem em que me envolvi com o resto da coleção que, nem preciso dizer, devorei na primeira, na segunda e em todas as outras leituras dos livros que mais me encantaram. História do Mundo para Crianças foi o último da série que li.  E o de que menos gostei foi A Chave do Tamanho. Mas me lembro da leitura de Viagem ao Céu porque ao terminá-la  decidi que seria astrônoma quando crescesse.

Meu pai, um cientista, não poderia ter ficado mais feliz, e acreditando nessa minha intenção, deu incentivos para que eu me aprofundasse na matéria. Ser a filha mais velha causa essa atenção toda, principalmente quando ela parece querer seguir os passos do pai.  Ganhei um pequeno mapa das estrelas e, debruçados no janelão do apartamento onde morávamos,  papai me ajudava a identificar as estrelas.  Naquela época nosso bairro tinha mais casas do que edifícios altos e pouca iluminação de rua, o que facilitava na procura por estrelas cadentes que quando achadas eram acompanhadas do inevitável recitar de um desejo, bem à moda do programa de televisão de Walt Disney.  De astrônoma, uns anos depois, passei a querer ser engenheira naval.  E não me lembro o motivo que me levou a isso, acho que não veio de nenhum livro lido. Papai ainda estava feliz com essa escolha, que todos sabemos, não vingou.

E vocês?  Algum livro de Monteiro Lobato que tenha marcado a sua infância?





Celebração de S. Pedro em relato em 1855 de James C. Fletcher

21 07 2014

 

 

Calmon Barreto de Sá Carvalho (1909-1994) 2Tropeiros, 1970

Calmon Barreto de Sá Carvalho (Brasil, 1909-1994)

óleo sobre tela

Museu de Araxá, MG

 

 

“Nosso local de descanso seria a importante cidade de Campinas …,  a mais de cem milhas no interior. Quando nos aproximávamos dessa cidade, fui surpreendido pela beleza e fertilidade da região circundante. As grandes e antigas montanhas haviam sido deixadas muito para trás de nós, e em redor, até onde pude ver, estendiam-se extensas planícies, ou antes, prados ondulosos, com quase todos os acres ocupados. Havia muitas plantações de café superiormente cultivadas, entre cujo verde-escuro podia-se avistar aqui e ali as grandes residências caiadas de branco dos proprietários das terras. Foi na tarde de 28 de junho que chegamos aos arredores de Campinas. A radiosa beleza da noite tropical tornava-se ainda maior pela iluminação da cidade, pelas imensas fogueiras espalhadas pela planície, e brilhantes fogos de artifício lançados de todas as ruas e todas as plantações circundantes. Os clarões e o barulho eram tais, que sem qualquer esforço de imaginação, ter-se-ia acreditado estar perto de alguma cidade sitiada, durante um violento bombardeio. Era a “véspera de S. Pedro”; e todo homem que tinha um Pedro ligado a seu nome, sentia-se na obrigação de acender uma imensa fogueira diante de sua porta, e soltar uma porção de foguetes, além de descarregar inúmeras pistolas, mosquetes, e morteiros. Sob semelhante tormenta, entramos em Campinas.”

 

Texto de James C. Fletcher e de Daniel P. Kidder, de sua viagem ao Brasil em 1855, publicado no Brasil e em São Paulo, em 1941, com o título de O Brasil e os Brasileiros: esboço histórico e descritivo, pela Cia Editora Nacional com tradução de Elias Dolianiti, encontrado em:

 

O Planalto e os Cafezais: São Paulo, Ernani Silva Bruno, e Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, pp. 91-92





Trova do uniforme

20 07 2014

 

 

???????????????????????????????Irmão Metralha consulta um atlas à procura do tesouro do tio Patinhas, ilustração Walt Disney.

 

Que elegante está você!

Este pijama é perfeito!

Só não entendo porque

tantos números no peito!???

 

 

(José Ouverney)





Na boca do povo: escolha de provérbio popular

16 07 2014
costurando com gatinhoCartão postal.

 

“A agulha veste os outros e vive nua”.





Copa 2014, no coração de todos

8 07 2014

 

 

 

Christine Drummond (Brasil, )Brasil - 100x100 - 2014Em ritmo de copa, 2014

Christine Drummond (Brasil, contemporânea)

óleo sobre tela, 100 x 100 cm

www.chdrummond.com