“Ao contemplar uma pintura de grandes proporções, sentimo-nos empolgados por estar na presença de tudo ao mesmo tempo e queremos entrar no quadro. Quando estamos no meio de um volumoso romance, sentimos o estonteante prazer de estar num mundo que não conseguimos ver em sua inteireza. Para ver tudo temos de constantemente transformar os momentos separados em quadros mentais. É esse processo de transformação que torna a leitura de um romance uma tarefa mais pessoal, mais colaborativa que a contemplação de um quadro.”
― Orhan Pamuk, The Naive and the Sentimental Novelist
“Você quer ser amada como as heroínas dos livros da sua mãe. Quando na realidade o amor é tão simples… Veja-o como uma flor que nasce e que morre em seguida porque tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe coisa mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou. Fica um amor com jeito desses passarinhos empalhados que havia nos escritórios dos nossos avós.”
Há muito tempo um livro não me encanta tanto quanto Orbital de Samantha Harvey, tradução de Adriano Sacandolara [Editora DBA, 2025]. A obra, vencedora do Booker Prize em 2024, é uma cuidadosa ponderação sobre a vida, a Terra, nosso lugar no Universo. Ainda que acompanhemos seis astronautas que orbitam a terra, não há diálogos, não há trama. Em seu lugar, somos convidados a compartilhar com a autora a visão, o encantamento e o privilégio de, com ela, viajarmos em volta do nosso planeta e nesse trânsito refletir sobre a grandeza do espaço, a pequenez do planeta azul, a fragilidade de nossa existência.
Não se trata de prosa poética. Mas o livro é repleto de poesia e do encantamento que poesia provoca. Com grande sensibilidade atravessamos as dezesseis órbitas que fazem um dia no espaço e que, por sua vez, designam os dezesseis capítulos do livro. A cada um deles voltamos ao nascer do dia numa parte do planeta, diferente da anterior, ou ao acender das luzes quando a noite chega em algum continente. Essa forma circular, de voltar e voltar a um ponto semelhante ao do início é usada desde a antiguidade para a meditação. O círculo sempre esteve ligado à ponderação e introspecção. Os conhecidos labirintos meditativos, desenhados no chão, como o da Catedral de Chartres na França, assim eram para levar o pensamento do andarilho de volta através de uma espiral circular a um ponto semelhante ao anterior. É isso que acontece com o leitor em Orbital. Junto à equipe de astronautas voltamos sempre mais ou menos ao mesmo ponto, mas um pouco diferente. As ruminações são inescapáveis.
“Os continentes passam como as campinas e vilarejos na janela de um trem. Dias e noites, estações e estrelas, democracias e ditaduras. É só à noite, quando você vai dormir, que você se alivia dessa esteira perpétua. E mesmo ao dormir você sente a Terra girar, assim como sente uma pessoa deitada ao seu lado. Você a sente ali. Sente todos os dias que penetram sua noite de sete horas. Sente todas as estrelas efervescentes e os humores dos oceanos e o tropeço da luz contra a pele, e se a Terra parasse por um segundo na sua órbita, você acordaria de sobressalto, ciente de que há algo errado.“
Difícil imaginar as incontáveis horas de pesquisa que Samantha Harvey deve ter dedicado a visões da Terra da perspectiva de quem a vê do espaço, nem muito longe, nem muito perto. Suas descrições, suas observações precisas e poéticas são imperdíveis e trazem a sensação de verdadeira experiência. E nos deixam extasiados. Outras tantas horas devem ter sido dedicadas ao estudo da rotina dos astronautas antes e durante os voos, assim como os tipos de pesquisas que são executadas em voo.
Samantha Harvey
Esse livro é uma homenagem à Terra mas é também uma austera e enigmática reflexão sobre nosso papel nesse planeta, nesse Universo. Ponderação sobre nossa inimaginável necessidade de ir além, de conquistar. A prosa é belíssima e delicada. Para os apreciadores da pintura há uma longa reflexão sobre Velazquez e menções sobre Turner. Mas sobretudo essa ruminação poética sobre o ser humano e seu lugar no universo é profunda, toca a alma e faz pensar.
Com Anton, Roman, Nell, Chie, Shaun e Pietro, os astronautas de diversas nações aprendemos, como Harvey nos diz que:
“A humanidade não é esta ou aquela nação, é tudo junto, sempre juntos, venha o que vier.”
“Escrever é sempre uma arte repleta de reencontros. A carta mais simples requer um escolha entre milhares de palavras, das quais a maior parte são estranhas àquilo que se quer dizer.”
Alain
Émile-Auguste Chartier
[Écrire est toujours un art plein de rencontres. La lettre la plus simple suppose un choix entre des milliers de mots, dont la plupart sont étrangers à ce que vous voulez dire.]
Mariinha Santos (Brasil, ativa nas décadas de 1970-80)
aquarela, 48 x 68 cm
O Major convidara os estancieiros mais próximos, e assim a capela encheu-se de cadeiras, e foi preciso que as crianças ficassem pelo chão, junto com os cachorros. O Maestro ostentava a casaca nova, e, ao entrar pelo corredor central, com as músicas debaixo do braço, caminhando para sua orquestra como para oficiar uma missa, todos se compenetraram: jamais haviam visto algo semelhante. Os notáveis que, de fato, ainda abominavam o Maestro, agora intrigavam-se com aquela dignidade. – “Ele deu vida a esta capela” – disse o Major ao Vigário, que concordou com um movimento de cabeça e pôs o indicador frente aos lábios: o Maestro, já de costas para os convidados, esperava que cessassem as tossidelas e os murmúrios; depois, ergueu as mãos num gesto elegante e decidido, e os instrumentistas perfilaram-se nas pontas das cadeiras. Ficou assim, imóvel, por um momento; depois, muito lentamente, acariciando o ar, baixou os braços – e as rabecas deram início a um andante cantabile mal audível, lascivo, complicado por appogiaturas que se enredavam nas notas. Na plateia, ninguém se animava a um só movimento. A melodia cresceu, ganhou inesperada rapidez, e logo um festivo allegro retumbava pela capela, num estrépito de tambores e cornetas. O Maestro luzia de suor, transfigurando-se pelo fogo de seus movimentos, que varriam o espaço acima das cabeças; seu colarinho saía para fora da gola, e surgiram os punhos da camisa. E a música foi-se desdobrando em ondas, ganhando matizes delicados, para logo ressurgir com mais força, avançando ao limite do suportável. Em poucos minutos atingiu um paroxismo sonoro que fazia vibrarem os vidros das janelas. Quando os ouvintes já se entreolhavam em desespero, tudo acabou num triunfante e ensurdecedor acorde de toda a orquestra. No silêncio imediato, seguiu-se o grito do Major: – “A la fresca!”. A audição continuou, agora com obras ligeiras, onde se percebia sua anterior destinação à banda. Aí sim, os ouvintes sentiram-se mais à vontade, e os homens autorizavam-se a marcar os compassos, batendo com os pés na laje do piso. O Maestro pretendeu agradar os brios gaúchos e atacou o hino da República Rio-Grandense, o que fez com que os convidados, ao comando do Major, se levantassem para ouvir a música do Mendanha.
Em: Concerto Campestre, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM: 1997, Porto Alegre
Pensativa foi minha reação à leitura de A voz de tempo, de Lenah Oswaldo Cruz. Por coincidência, horas depois, quando ainda estava sob o impacto da leitura, recebi de uma amiga, a conhecida frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Esse seria um resumo parcial das contorções emocionais dos quatro personagens envolvidos nessa biografia familiar: Luiz, Dora, Victor e Lenah. Com ajuda da autora, navegamos pelos mares tempestuosos das paixões, dos amores e desejos de seus pais, e testemunhamos as consequências, o legado deixado aos filhos pelo comportamento destemperado dos progenitores.
Luiz era um homem de família muito pobre que encontrou na igreja um meio de se educar e trazer alívio às vicissitudes da pobreza em que ele e seus pais viviam. Inteligente, brilhante mesmo, com conhecimento acima de todos à sua volta, que a bela educação no seminário beneditino lhe proporcionou, Luiz não se tornou padre sem dúvidas sobre essa escolha. No entanto, não viu outro caminho aberto que pudesse preencher suas necessidades. Fervoroso, dedicado, segue pelo magistério até encontrar a belíssima aluna, que chega atrasada para sua primeira aula. Dora era de uma beleza estonteante. Mas mais que isso, era inteligente, interessada, devoradora de livros, capaz de sustentar um argumento intelectual melhor do que muitos homens de seu tempo. De espírito intrépido, desafiador, fazia o que queria sem as entravas sociais que a maioria respeitava. Vinha de uma família abastada, da alta sociedade. Duas pessoas fisicamente atraentes, que se encontram no respeito e na admiração pelo intelecto do outro. O incêndio amoroso é quase instantâneo. Mas ele é padre. Para ambos essa é uma paixão impossível, o que torna o relacionamento ainda mais intenso.
Victor e Lenah são as crianças dessa loucura. Luiz eventualmente deixa a batina, mas a vida não é fácil e Dora, a bela e rebelde mulher que conquista quem ela quiser, acaba desinteressada. Eventualmente, há outro homem no caminho. Um americano, também casado, também inteligente, belo e rico. Mas, essa paixão tem um preço para Dora: ela terá que não trazer seus filhos para o convívio diário do novo casal, depois que ambos, conseguindo o divórcio, se estabelecerem em novo casamento. Mas que divórcio? No Brasil da época não há divórcio. Há o desquite. E há um preconceito enorme contra os desquitados (principalmente a mulher nessa situação indefinida de status civil) e também contra as crianças frutos do relacionamento do casal que se separa. Pais não querem seus filhos em companhia dessas crianças, nem nenhum contato com seus progenitores. Esse é apenas um dos grandes empecilhos encontrados por essas quatro almas protagonistas dessa biografia de família. E volto à frase de Luís Fernando Veríssimo: A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
As crianças não só são deixadas de lado por Dora que verá os filhos nos anos vindouros sem frequência regular; mas Luiz também os abandona, porque olhar para a menina, que é a imagem da mãe, dói muito. Esse pai, ex-padre, passa a vida sem olhar para sua filha, olho no olho. Suas interações são sempre sem que ele a olhe no rosto. Luiz também se casa, com uma viúva, que traz para o casamento uma filha do relacionamento anterior, que ele trata muito melhor que a própria filha. Victor e Lenah são colocadas em colégios internos no Rio de Janeiro: ele no Anglo-Americano, na praia de Botafogo, enquanto Lenah vai para o Bennett, no Flamengo.
Lenah Oswaldo Cruz
Não pretendo dar a história completa da família biografada. Mas não posso deixar mencionar alguns pontos que me fizeram pensativa. É impressionante que em duzentas páginas se consiga identificar tantos sentimentos nesse imbróglio familiar. Sair dessa leitura sem meditar sobre o que move nossas almas: amor, ódio, paixão, reconciliação, traição, abandono, perdão, preconceito, coragem e tantos outros sentimentos primordiais, não teria sido uma leitura completa, digna do texto publicado. Somos também forçados a considerar o progresso que tivemos nas normas sociais do país. Não teria sido tão rica narrativa sem as memórias escritas de Luiz, lembranças de familiares, e experiência vivida por Victor e Lenah.
Essa é uma leitura impactante, que não nos deixa tempo para respirar. Viciante. Recomendo a todos. O livro está em sua segunda edição. Agora na Amazon em papel e eletrônico. Essa foi a segunda vez que li A voz do tempo. A primeira, foi no lançamento de 2017. Meu grupo de leitura Ao Pé da Letra, contudo, escolheu essa nova edição para leitura de agosto, já que a recente publicação (2025) está recebendo bastante atenção. Para nossa alegria tivemos a oportunidade de um encontro com a autora, após a leitura. Foi delicioso. Recomendo. Além da biografia há um esquete bastante repleto de surpresas da vida no Rio de Janeiro nas décadas de 30 a 50.
“Eu não gostaria de viver como se fosse imortal. Não tenho medo da morte. Tenho medo do sofrimento. Da velhice, embora agora menos, ao ver a velhice serena e bela de meu pai. Tenho medo da fraqueza, da falta de amor. Mas não tenho medo da morte. Não tinha medo quando era jovem, mas então pensava que era apenas porque parecia distante de mim. Mas agora, aos sessenta anos, o medo não chegou. Amo a vida, mas a vida também é cansaço, sofrimento, dor. Penso na morte como um merecido descanso. Bach a chama de irmã do sono, na maravilhosa cantata BWV 56. Uma irmã gentil que logo virá fechar meus olhos e acariciar-me a cabeça. Jó morreu quando estava “saciado de dias”. Belíssima expressão. Eu também gostaria de chegar a me sentir “saciado de dias” e encerrar com um sorriso este breve círculo que é a vida. Posso desfrutá-la ainda, sem dúvida; ainda quero ver a lua refletida no mar; quero mais beijos da mulher que amo, quero a presença dela que dá sentido a tudo; ainda quero mais tardes dos domingos de inverno, deitado no sofá de casa enchendo páginas de símbolos e fórmulas, sonhando desvendar outro pequeno segredo dos milhares que ainda nos envolvem… Gosto da perspectiva de ainda poder beber deste cálice de ouro; a vida que fervilha, terna e hostil, clara e incompreensível, inesperada… mas já bebi muito desse cálice doce e amargo, e se neste exato momento o anjo viesse me dizer: “Carlo, chegou a hora”, não lhe pediria para me deixar terminar a frase. Sorriria para ele e o seguiria.”
Em: A ordem do tempo, Carlo Rovelli, tradução de Silvana Cobucci, Ed. Objetiva: 2018
“A verdade é que a covardia vem vestida de interesses banais, como um emprego, comida para o jantar, garantias de ir e vir, um cineminha sábado à tarde, enfim, melhor qualidade de vida.”
Luiz Felipe Pondé, Guia politicamente incorreto da filosofia
“O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”