Reflexões de astronauta, texto de Samantha Harvey

6 08 2025

 

 

“Eles navegam em sua distância intermediária de órbita terrestre baixa, sua visão a meio mastro. Pensam: talvez seja difícil ser humano, e talvez seja esse o problema. Talvez seja difícil fazer a transição entre pensar que seu planeta está seguro no centro de tudo e saber que ele é, na verdade, um planeta de tamanho e massa mais ou menos normais, girando ao redor de uma estrela mediana num sistema solar em que tudo é mediano numa galáxia de tantos outros, incontáveis, e a coisa toda vai explodir ou colapsar.”

 

Em: Orbital, Samantha Harvey, Editora DBA: 2025





Palavras para lembrar: Napoleão Bonaparte

5 08 2025

Sem título

Emmanuel Garant (Canadá, 1953)

óleo sobre tela

 

 

“Mostre-me uma família de leitores, e eu lhe mostrarei as pessoas que movem o mundo.”

 

Napoleão Bonaparte

 

 





Minutos de sabedoria: Rainer Maria Rilke

4 08 2025

Uma leitura interessante

Fritz Wagner (Alemanha,1896-1939)

óleo sobre tela, 31 x 26 cm 

 
“No fundo, e justamente nas coisas mais profundas e mais importantes, estamos absolutamente sozinhos.”

 

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta. 

 

 

 

Rainer Maria Rilke (1875-1926)





O brasileiro: Eça de Queirós, duas definições

29 07 2025

Recebe o afeto que se encerra, Ordem e Progresso

J. Carlos (Brasil, 1884-1950)

aquarela e nanquim sobre papel, 40 x 33 cm

 

 

“Porque, enfim, o que é o Brasileiro? É simplesmente a expansão do Português.”

 

Eça de Queirós

 

“O Brasileiro é o Português – dilatado pelo calor.”

 

Eça de Queirós

 

Ambas as definições do ‘brasileiro’ vêm da publicação, Uma campanha alegre, um apanhado de crônicas publicadas em dois tomos nos anos de 1890-1891.





Sobre a solidão, Rosa Montero, (trecho)

19 07 2025

Moça lendo, 1947

Francesc Domingo Segura (Espanha-Brasil, 1893-1974) 

óleo sobre tela, 73 x 60 cm 

 

 

“A característica essencial do que chamamos de loucura é a solidão, mas uma solidão monumental. Uma solidão tão grande que não cabe na palavra solidão e que não podemos nem imaginar se não estivemos lá. É sentir que você se desconectou do mundo, que não vão conseguir te entender, que você não tem #palavras para se expressar. É como falar uma língua que ninguém mais conhece. É ser um astronauta flutuando à deriva na vastidão negra e vazia do espaço sideral. É desse tamanho de solidão que estou falando. E parece que na dor verdadeira, na dor-avalanche, acontece algo parecido. Embora a sensação de desconexão não seja tão extrema, você tampouco consegue dividir nem explicar seu sofrimento.”

 

Em: A ridícula ideia de nunca mais te ver, Rosa Montero, tradução de Mariana Sanchez, Todavia: 2019





Resenha: Línguas, Domenico Starnone

17 07 2025

Moça lendo à janela, 1928

Albert André (França, 1869-1954)

óleo sobre tela, 73 x 61 cm

 

 

 

Línguas, de Domenico Starnone, com tradução de  Maurício Santana Dias, foi o terceiro livro do autor que li. Posso dizer que gostei de sua escrita desde que o encontrei em Assombrações (2018) e Laços (2017). Gosto imensamente de sua voz narrativa: calma, nostálgica, reflexiva.  Sua escrita é de nuances. Ele não precisa abrir o jogo, contar tudo, tintim por tintim. Ele nos deixa espaço para imaginar e sonhar; ar para respirar e tempo para absorver o lugar, os sons, as memórias do autor que se imiscuem com as nossas.

Línguas é um pouco diferente dos outros que li.  Menos fluido. Tem breque. É uma obra em dois tempos. Primeiro vemos o delicioso despertar do primeiro amor de um menino de oito ou nove anos, em Nápoles.  Ele se apaixona por uma menina do edifício em frente ao dele. Ela é bem mais arrojada que ele, flerta com a morte, dançando no peitoril da varanda.  Ela é diferente. Diferente de tudo que ele conhece. Ela não é como ele, do sul da Itália. Vem do norte e por isso, para surpresa do apaixonado garoto, ela fala com outro sotaque, usa vocabulário diverso, demonstra maneira de se expressar inesperada.  A paixão dele, só aumenta.  É o fascínio do outro, do desconhecido.  Mas, para atrapalhar, no horizonte, há Lello, um amigo, que também se apaixona pela milanesa.  Com o triângulo amoroso formado, a briga pela atenção da menina se desenvolve.  Irão às vias de fato?  Deixo isso para descoberta do leitor…  Depois… temos a segunda parte dessa história. Os dois, que em criança haviam sido apaixonados por Emanuela, se encontram, são jovens adultos.  Continuam a não se gostar e nesse encontro, e só então, Lello, o rapaz que sabe tudo de tudo, revela o verdadeiro destino da jovem bailarina de Milão.

 

 

 

Além da fascinante arte narrativa de Starnone, aprecio as diversas referências à literatura clássica em suas obras.  Da mera alusão à mitologia greco-romana, aos contos medievais, vamos nos informando, circundando assuntos cujas menções ecoam e enriquecem o texto.  Em Línguas, a própria abertura, o primeiro parágrafo ele já se refere ao trágico mito grego de Orfeu e Eurídice.  A leitura atenta, já vislumbra, nas primeiras frases que abrem o texto, por causa dessa referência,  um desfecho trágico, uma morte, quem sabe?  

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos. Tinha acabado de aprender nas aulas de italiano da escola a fábula de Orfeu e Eurídice debaixo da terra, onde ela havia ido parar por causa de uma picada de cobra. Eu planejava fazer o mesmo com uma menina que infelizmente não era minha namorada, mas que poderia vir a ser caso eu conseguisse tirá-la das profundezas da terra, enfeitiçando baratas, gambás, ratos e musaranhos.” [7]

 

Domenico Starnone

Línguas apresenta reflexões sobre dois temas constantemente ligados na literatura e no nosso emocional: amor e morte. Desde da Grécia antiga, e até antes disso, a relação entre essas duas profundas experiências fascinou poetas, escritores e filósofos. Por isso, não é surpresa que Starnone os considere, mesmo ao falar do primeiro amor — aquela paixão emocional que nasce na infância dos personagens, vista pelos olhos de quando eram crianças. Mas o texto é mais rico ainda, como complemento há contrastes entre juventude e velhice, línguas faladas tão próximas umas das outras e ainda assim estranhas.  A riqueza do  texto encanta e seduz.

Esse é um livro que aflora a sensibilidade do leitor.  Não é repleto de fortes emoções ou de diálogos arrebatadores. Starnone é mais fino, dedica-se a tênues paralelos. As observações desse menino de nove anos são curiosas, engraçadas, trazem um leve humor para o texto, mas nem por isso deixam de ser perspicazes, deixam de elaborar complexos argumentos. Boa leitura.  Dessas que adicionam. Recomendo sem restrições. 

 





Contornando a gota, trecho de Carlos Drummond de Andrade

8 07 2025

Um comodista sofrendo de gota: a dor é representada por um diabinho queimando o pé da vítima.  Caricatura de G. Cruikshank, 1818.  Litografia colorida. 

 

 

“Não tenho visto meu amigo João Brandão nas livrarias nem nos teatros nem nos comícios nem nas maratonas. Que se passa com ele? Fui visitá-lo e encontrei-o de perna esticada, curtindo modesta variedade de gota — a gota dos pobres, disse-me ele. 

— E como é a gota dos pobres?

— É a gota dos que não comeram nem beberam em excesso, não chafurdaram nos prazeres da mesa, e no entanto…

Não me pareceu deprimido, mas conformado. Tinha ao alcance da mão dois livros, e contou-me:

— O Álvaro esteve aqui com esses santos remédios. Recomendou que eu trocasse a colchicina por La goute et l’humour e Les goutteux célèbres. Tenho lido um pouco de cada um, e já posso mover com o dedão do pé direito, nesse lance simpático de separá-lo do dedo vizinho. Restabelecer a mobilidade dos dedos do pé, mesmo que não seja para andar, constitui um prazer de que a gente não se dá conta quando a máquina está em perfeito funcionamento, você sabia?

Eu não tinha reparado nisso, nos pequenos prazeres de pequenas partes do corpo desempenhando sem alarde suas funções rotineiras. E João continuou:

— A gente só lê coisas a respeito de uma doença quando ela nos pega pelo pé literalmente ou não.   Aí começa a ler coisas desalentadoras que acabam tornando a doença mais pesada. O Álvarus teve a gentileza de me convidar a rir da minha gotinha, ou pelo menos a sorrir.

E folheando os volumes:

— Todo mundo diz que gota é doença de nobre, por ser de nobre e até de reis, como Carlos V, e Lupis XVI, mas eu posso orgulhar-me da companhia de nobrezas de outro tipo, a meu ver mais estimulantes e honrosas. Veja aqui: Chateaubriand e Lamartine eram gotosos. Montaigne também. E Leibnitz. E Cellini. E Rubens. A confraria é tão numerosa e brilhante que dá vontade de perguntar. E Dante também não era? Não está faltando Shakespeare nessa lista? Vai ver que se esqueceram de Homero… Me sinto muito reconfortado, palavra.

Antes que ele fizesse o elogio da gota, disse-lhe que não precisava exagerar….”

-.-.-.

Para o final da crônica, Gota, com humor, veja abaixo.

 

Em: Moça deitada na grama, Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Record, 1987, pp: 131-132

 

 





Palavras para lembrar: Emily Dickinson

4 07 2025

Jovem de blusa azul

Jeannette Perreault (Canadá, 1958)

óleo sobre tela,  90 x 70 cm

 

 

“Não há fragata melhor que um livro para nos levar a terras distantes”

 

Emily Dickinson





Domingo…, trecho de Lêdo Ivo

29 06 2025

Pescaria deliciosa, 1984

Azor Feres (Brasil, 1911-2005)

óleo sovre tela, 50 x 70 cm

 

 

“Domingo é dia de pescaria – mas, evidentemente, só para quem sabe pescar. E nem sempre o pescador, armado de anzol, e tendo ao lado uma latinha com iscas, pode desempenhar seu ofício em isolamento semelhante ao daquele colega que, sentado a uma mesa, se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.

O curioso aproxima-se do pescador acomodado sobre as pedras, procura inteirar-se do seu sucesso, faz-lhe perguntas sobre o mar que, cativo de uma enseada, é apenas prateado pedaço de si mesmo, como uma pétala é flor. O homem que se desfatigara no silêncio e na espera sente-se, por sua vez, como um peixe que no fundo das águas, resiste à investida de um anzol dotado de imperdoável engodo. Desejaria não ser agarrado, naquele momento, por voz nenhuma, não beber esse elixir de curiosidade, tédio e convivência que as criaturas servem umas às outras, quando conversam. Diz que o mar está parco, e mostra-lhe o que angariou: uma cocoroca, alguma finas piabinhas cor-de-chumbo, dois gordos peixes-porcos que agonizam estatelados dentro do vasilhame.

E, gratuitamente, ou porque se sentisse na obrigação de dar um esclarecimento suplementar, ou porque não desejasse que o interlocutor o comesse por estreante ou desafortunado, ajuntou:

— Domingo passado, o mar estava melhor.”

 

Em: Lêdo Ivo, seleção do autor, prefácio de Gilberto Mendonça Teles, São Paulo, Global: 2004, (Coleção Melhores Crônicas- direção de Edla van Steen, “Viagem em torno de uma cocoroca“, p. 133

 

NOTA: Lêdo Ivo (1924-2012) foi não só um grande poeta, mas um excelente cronista, e também romancista.  Precisa ser mais lembrado.  Uma das coisas que me encanta sobremaneira na sua prosa é a inteligente criação de palavras que eu imediatamente adiciono ao meu dicionário digital. Além disso aprecio a expansão dos significados que ele consegue dar a palavras já existentes,  Nesses três parágrafos que introduzem a crônica “Viagem em torno de uma cocoroca“, vejamos as palavra inventadas: improfundável, desfatigara; a expansão do verbo comer [que o interlocutor o comesse por estreante], parco [Diz que o mar está parco], fora as maravilhosas figuras de linguagem [se dedica a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.]; [um anzol dotado de imperdoável engodo] engodo no lugar de isca.  Seus textos são assim, riquíssimos de viradas de significados, inesperadamente poéticos.  Vale lê-lo. 





A caminho do casamento, Carlos Drummond de Andrade, trecho.

28 06 2025

Casamento na roça

Fulvio Pennacchi (Itália-Brasil, 1905-1992)

 

 

 

“A moça ficou noiva do primo — foi há tanto tempo. Casamento, depois de festa de igreja, era a maior festa, na cidade casmurra, de ferro e tédio. O noivo seguia para a casa da noiva, à frente de um cortejo. Cavalheiros e damas aos pares, de braço dado, em fila, subindo e descendo, descendo e subindo ruas ladeirentas. Meninos na retaguarda, é claro, naquele tempo criança não tinha vez. Solenidade de procissão, sem padre e cantoria. Janelas ficavam mais abertas para espiar. Só uma casa se mantinha rigorosamente alheia, como vazia. É que morava lá a antiga namorada do noivo – o gênio dos dois não combinava, tinham chegado a compromisso, logo desfeito. Murmurava-se que à passagem do cortejo em frente àquela casa, o noivo seria agravado. Não houve nada: silêncio, portas e janelas cerradas, apenas. E o cortejo seguia brilhante, levando o noivo filho de “coronel” fazendeiro, gente de muita circunstância, rumo à casa do doutor juiz, gente de igual altura. A casa era “o sobrado”, assim a chamavam por sua imponência de massa e requinte: escadaria de pedra em dois lanços, amplo frontispício abrindo em sacadas, sob a cimalha a estatueta de louça-da-china – espetáculo.”

 

Em: Caminhos de João Brandão, Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, José Olympio: 1976, 2ª edição, “Entre a orquídea e o presépio” p. 98