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Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)
Serigrafia
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Gustavo Rosa nasceu em São Paulo em 1946. É pintor, desenhista e gravador. Reside e trabalha em São Paulo.
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Gustavo Rosa (Brasil, 1946 – 2013)
Serigrafia
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Gustavo Rosa nasceu em São Paulo em 1946. É pintor, desenhista e gravador. Reside e trabalha em São Paulo.
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Wander Melo (Brasil, contemporâneo)
Acrílica sobre tela, 120 x 80 cm
http://wmeloarts.blogspot.com.br
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Em bando sutil, as garças,
pontilhando o lamaçal,
são quais pérolas esparsas,
adornando o pantanal.
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(Dorothy Jansson Moretti)
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Menina lendo no seu quarto, antes de 1936
Emil Karl Rau ( Alemanha, 1858-1937)
óleo sobre tela, 76 x 55 cm
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Jules Renard
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Bruno Bronislaw Lechowski (1887-1941)
aquarela sobre papel
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Almocei hoje com um amigo vindo de uma Europa cheia de neve e frio, onde o tempo insiste em prolongar um dos piores invernos de que se teve notícias por aquelas bandas. Sua alegria de voltar aos trópicos foi contagiante e me lembrei também do tempo em que morando fora do Brasil, chegava aqui de visita à família e me encantava até mesmo com o Galeão, porque reconhecia o colorido das folhas verdes da Ilha do Governador e o cheiro do material de limpeza do aeroporto. Isso só acontece quando se tem muita saudade mesmo! Voltei para casa e fui correndo dar uma olhadinha em um texto de Rudyard Kipling sobre o Brasil, um escritor amante dos trópicos, da Índia e de outros lugares também abençoados. Re-encontrei esse livro na semana passada quando passei em revista meus livros. Sabe aquela crença: vamos nos desfazer de algumas coisas para dar espaço para outras melhores? Pois ando nessa vibração, talvez seja a necessidade de contribuir para que o status quo desembeste, mude, saia da mesmice. Não consegui achar o texto de que me lembrava, mas achei esta introdução ao Rio de Janeiro que considero charmosa. Espero que vocês gostem.
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“Nos países sensatos, não há pressa, nem mesmo para a Saúde ou a Polícia do Porto. Por isso, embora houvéssemos entrado no porto do Rio no começo da tarde, já estava começando a escurecer quando nos aproximamos do cais e toda a cidade e as costas ao lado dela escolheram esse momento para acender constelações e vias-lácteas de desenfreada eletricidade.
Subiram então a bordo homens dispostos, como os homens do mundo inteiro, a mostrar a um estrangeiro a cidade que amavam. Dentro de dois minutos, as linhas escuras dos cais repletos tinham desaparecido e o carro corria por uma avenida cheia de luzes e fortemente quadriculada por filas duplas de folhagem das árvores e marginada e clubes, lojas e cafés iluminados e repletos. Esse mundo de luz cedei lugar de súbito, entre os topos de edifícios gigantescos, a espaços ainda mais vastos de avenidas de pista única, entre árvores, tendo a baía de um lado e franjadas de luzes elétricas que corriam para a frente aparentemente para sempre e se renovavam em colares de pérolas atiradas em volta de cantos indivisíveis. E sempre, acima de tudo, viam-se e sentiam-se os contornos das montanhas cobertas de matas. Todo o mundo estava conosco em carros todos cheios de gente sem chapéu, todos em velocidade máxima, mas não mais rápidos do que certos diabólicos ônibus cujos barulhos funcionais eu iria confundir depois com o trovejar de um aeroplano diante da minha janela no oitavo andar. À nossa direita, um morro cujas luzes profusas subiam e se interrompiam, indicando a meio curvas de caminho. Conheciam-se bastante os velhos romances para saber que aquilo devia ser Santa Teresa, o bairro onde os funcionários virtuosos e os amantes exilados pelo destino costumavam viver para refazer as suas fortunas. É hoje, como sempre foi, um lugar de aprazíveis residências. Está diante exatamente da entrada da barra – dois lisos dentes de crocodilo de rocha nua que muitos olhos devem ter visto a fechar o caminho para a pátria no tempo em que os homens morriam entre o meio-dia e o crepúsculo. Há visões de casas brancas e cor de rosa com plumas de palmeiras sobressaindo ou, ainda com maior intimidade, frisos de bananeiras tranqüilas por trás de muros de marfim. Ficamos, porém, à beira da água, com a multidão que estava tomando fresco.
A noite estava, razoavelmente, isto é, tropicalmente quente. Chapéus, sobretudos, pressa, hora e outras insignificâncias tinham ficado do outro lado do Equador. A única preocupação que restava era de que aquela cidade de sonho, de folhagem verde intensamente iluminada, de imponente estatuária e montanhas altaneiras desaparecesse de repente se a gente tivesse a coragem de olhar para o lado. Mas continuou, com uma enorme curva de caminho sucedendo a outra, ainda contornando o mar, ainda iluminada pelas luzes insolentes e onipotentes mas – deve-se pagar algum tributo aos deuses – impregnada do perfume dos carros que voavam. (Deve-se notar que o brasileiro, como motorista, pode paralisar qualquer chofer de taxi da Place de La Concorde. Os sulistas ciumentos dizem que um argentino pisando leva-lhe vantagem. Para mim, ele é mais que suficiente.)
Por fim, a torrente do tráfego se desviou da baía, entrou por um túnel ressoante onde todos buzinavam ao mesmo tempo e foi sair numa extensão de praia em que as ondas livres do Atlântico Sul se alinhavam sob as estrelas e se quebravam nas areias de cor de marfim ao pé dos refletores elétricos. Todos os que não estavam sobre rodas passeavam em miríades em calçadas de mosaico junto ao mar. Diante da praia, viam-se casas isoladas cujos proprietários deviam ter perdido a cabeça em todos os detalhes, arrebiques, caprichos, atributos e curiosidades daquilo o que se chama de “arquitetura” e que seus cérebros ou suas posses podiam abranger. E desde que as construções não se pareciam com qualquer outra coisa na terra, ajustavam-se exatamente ao inexplicável cenário que sob os altos céus os contemplavam.
— O nome desta praia é Copacabana – disseram meus companheiros. – Não faz muito tempo que começou a ser construída. Não. Isso não é a cidade. É apenas um dos seus distritos. A cidade fica a muitos quilômetros de distância. Ainda há muitas outras praias pela frente, mas…”
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Em: Cenas Brasileiras: um documento inédito — a presença de Kipling no Brasil, Rudyard Kipling, tradução de Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record: [1977?], pp. 37-38
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Adrian Moreau (França, 1846 – 1906)
aquarela e guache sobre papel, 37 x 27 cm
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Adrien Moreau nasceu em Troyes,na França em 1843. Foi aluno de Isadore Pils. Inicialmente dedicou-se à pintura histórica, a cenas de gêneros de outras eras. Teve bastante sucesso durante sua carreira, suas obras sendo colecionadas por muitos. Trabalhou também como ilustrador: Candide de Voltaire, em 1893, The Secreto of Saint Louis, de E. Moreau em 1899 são exemplos de seu trabalho como ilustrador. Morreu em 1906.
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Retrato do jovem Oskar Fraenkel, 1898
Ignace Spiridon (Itália, 1860-1900)
óleo sobre tela
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Alphonse de Lamartine
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Murano, Lino Tagliapietra.–
Murano, Archimede Seguso.–
Murano, Ludovico de Santillana.–
Murano, Venini.–
Murano, sem assinatura.–
Murano, sem assinatura.–
Murano, Lino Tagliapietra.–
Murano, Ludovico Diaz de Santillana, para Venini.–
Murano, sem assinatura.–
Murano, sem assinatura.–
Murano: padrão mille fiori.–
Murano, sem assinatura.
Murano, sem assinatura, 1960.–
Murano, Ferro Lorenzo.–
Murano, sem assinatura.–
Murano, padrão fiori.–
Murano, dois ovos de Venini.–
Murano, sem assinatura.–
Murano, Archimede Seguso.–
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Moça lendo, III
Clay Olmstead ( EUA, contemporâneo)
sem indicação de mídia, 61 x 71 cm
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Dançarinas, c. 1890
Fabio Fabbi (Itália, 1861-1946)
Óleo sobre tela
Clarke Auction House
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Humberto de Campos
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Quando os árabes se reuniram pela primeira vez para, fixando-se na terra, interromper a sua tradição de povo nômade, resolveram eleger, também, entre os varões mais prudentes que vagavam com eles pelos desertos, um que lhes servisse de chefe. A escolha recaiu no xeique Hassan, notável, na mocidade, pela sua sabedoria. Era um ancião de grande estatura e de barbas grisalhas que lhe cobriam o peito inteiro, e tão ágil ainda, e tão robusto, que não chamava, jamais, os moços de sua tribo quando se precisava, na sua tenda, da pele de um leão.
Hassan possuía duas filhas, que o auxiliavam conforme a necessidade e a ocasião. A uma, dera o nome de Mentira. A outra, o de Verdade. Irmãs, embora as duas não tinham entre si, a menor semelhança. A Mentira erra mais velha, mais bonita. Na sua vida errante, enfeitava-se a cada hora, não usando, jamais, em um dia, o manto, de pele de leopardo ou de cordeiro que havia posto na véspera. A verdade não era feia, mas era triste, e de fisionomia severa. E apresentava, ainda, a desvantagem de não variar de vestuário. Por isso mesmo, não gostavam de andar uma em companhia da outra. Quando a Verdade chegava, a Mentira retirava-se, rapidamente. Mas, como era mais sedutora que a irmã, esta não conseguia, jamais, tomar-lhe o lugar na estima dos homens.
Os árabes foram, sempre, um povo de poetas. A cadência da marcha do camelo, ou do passo manso do cavalo do beduíno, deu-lhes o ritmo para o canto. Onde havia uma caravana, havia poetas. Onde se levantava uma tenda, erguia-se a modulação de uma voz. E os poetas tomaram-se de paixão pela Mentira. Debalde a outra se aproximava deles. Nenhum se apercebia da sua formosura grave, porque a Mentira sempre lhes parecia mais bonita que a Verdade.
Tornando chefe do povo árabe, o primeiro cuidado do xeique Hassan constituiu em consolidar a estabilidade das tribos errantes, fundando a primeira cidade. Para maior segurança da ordem, e prestígio da sua palavra, proclamou-se rei. E nomeou os seus ministros. E escolheu os seus generais. E, com o desenvolvimento crescente da nação, fundou uma corte de onde tirava os emires, os vizires, os cadiz, os que deviam distribuir a justiça ou governar as províncias, que se estenderam pelo deserto e pelas margens do mar. E quem, no palácio do rei Hassan mandava em tudo, e dirigia tudo, era a Mentira. Como a Verdade era austera e fria, seu pai, como todos os governantes que vieram depois, não gostava de ouvi-la. A Mentira, não. A Mentira era alegre e vivaz, e, dessa maneira, todos gostavam dela. A política do reino dos árabes, como a de todos os governos do mundo que surgiram mais tarde, passou a ser obra sua, trama ideada pelo seu cérebro e tecida pelas suas mãos.
Entre os governadores mais ricos das províncias vizinhas do mar, um havia, chamado Ahmad, o qual possuía uma filha, Amina, moça de grande e estranha formosura. Informado da sua beleza e da sua fortuna, Mahmud, chefe dos guardas do rei Hassan, mandou-lhe, por uma escrava, o seu juramento de amor. Ao mesmo tempo, enviava-lhe o mesmo juramento o príncipe Mansur, senhor do s oásis de Al-Kanfa. O príncipe era, no palácio real, amigo da Verdade. Mahmud, amigo da Mentira. E foi Mahmud quem venceu no coração da princesa Amina, porque em negócios de amor a Mentira é mais experiente que a verdade.
Por esse tempo, o reino dos árabes, dirigido pela sabedoria de Hassan, que sempre recorria à habilidade da filha mais velha, estendia-se já, por toda a península, compreendendo montanhas e vales, praias e desertos. Redigidas pelas Mentira os tratados de aliança ou de paz acabavam sempre, por anexar aos seus domínios os domínios dos seus vizinhos. E foi então, quando o grande monarca pensou na maneira de pensar aos sucessores a notícia de seus próprios feitos, e a história de formação do seu povo. A velhice extrema anunciava-lhe de modo preciso, que a morte não vinha longe. E o rei Hassan chamou dois vizires que sabiam escrever a língua árabe, e disse-lhes:
— Quero que narreis em papiro, para conhecimento dos homens do futuro, como nasceu a nação árabe, e como surgiu no deserto, a primeira cidade. Estou sem forças para vos narrar todos os fatos. Minhas duas filhas, se acham, porém, ao corrente de tudo, e vos contarão todos os sucessos que constituem a história do meu reino.
— Por qual das duas nos devemos guiar, senhor? – indagaram os dois primeiros historiadores. – Pela Mentira ou pela Verdade?
— Escolhei, vós mesmos, – respondeu o rei Hassan.
E morreu.
Habituada a ver-se preterida pela irmã, a Verdade resolveu conquistar o lugar, como informante dos historiadores. Para isso, vestiu o mais soberbo e vistoso manto que havia no palácio, pintou os olhos como os da Mentira, e foi para o salão em que devia ser procurada pelos vizires. Por sua vez, a Mentira, certa de que homens tão severos procurariam, de preferência, para informações tão graves, aquela das irmãs que lhes parecesse mais discreta e modesta, escolheu os trajes mais recatados, que a irmã abandonara, e foi colocar-se ao seu lado. Os vizires chegaram, entre reverências, trocaram algumas palavras em voz baixa. E encaminhavam-se para aquela das duas irmãs que se achava mais discretamente vestida, pedindo-lhe que lhes ditasse a história do povo árabe. Essa era a Mentira.
Data desse tempo, o costume que têm os historiadores, de, ao escrever a história dos povos, se servirem da Mentira como se fosse a Verdade.
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Em: À sombra das tamareiras (contos orientais), Humberto de Campos, São Paulo, W. M. Jackson Inc. : 1941, publicação original de 1934.
Humberto de Campos (Brasil, 1886-1934) poeta, jornalista, escritor e político. Membro da Academia Brasileira de Letras.
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Homem sentado no tronco de árvore, 1895
Károly Ferenczy (Hungria, 1862-1917)
óleo sobre papelão, 62 x 77 cm
Galeria Nacional da Hungria, Budapeste.
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Lin Yutang