Aprendendo com os mestres: o caso de Van Gogh

26 06 2015

 

artista 08_05_1960Achille Beltrame.1Homenagem: Achille Beltrame copiando e desenhando, 1960

Walter Molino (Itália, 1915-1997)

Capa da revista Domenica del Corriere, 8/03/1960

 

 

O conselho universal aos que querem se tornar escritores é conhecido: leia. Leia sempre. Leia bons escritores. Leia maus escritores. Perceba a diferença entre eles.  Imite.  Tente escrever no estilo de algum escritor de que você gosta; tente o estilo de quem você não gosta.  Aprenda as diferenças.  É claro que o conteúdo é importante.  Esse não se aprende.  Mas a técnica pode ser aprendida. É um caminho solitário e tortuoso.  Solitário principalmente.

Meu avô se dedicou à escrita além da advocacia.  Contribuiu por algum tempo com colunas semanais para jornais brasileiros, e vendo que eu, criança, havia mostrado uma certa habilidade para a palavra escrita, recomendou que eu copiasse um, dois, ou três parágrafos, um conto ou uma crônica de que eu gostasse; que eu simplesmente copiasse o texto, para aprender melhor como o escritor chegou ao resultado que havia me encantado.

 

van gogh, les premiers pas, 1890Os primeiros passos, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 92 x 72 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Por isso mesmo, através dos anos, acabei com uma quantidade grande de trechos de livros copiados numa série de cadernos simples com anotações bibliográficas em geral incompletas. Esse hábito me persegue até hoje. Este blog se assemelha um tanto a esses meus cadernos.  Mas ainda me surpreendo quando escolho um trecho, que me encantou, porque descubro o uso de uma palavra que passou despercebida na leitura inicial ou uma colocação de vírgulas, dois pontos, ou divisão de parágrafos que eu não teria notado se não tivesse tido o cuidado de copiar o texto.  Esse hábito me tornou uma leitora cuidadosa.

 

millet les premier pas 1853Os primeiros passos, 1858

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 32 x 43 cm

Lauren Rogers Museum of Art, Laurel, Mississippi

 

O  mesmo conselho foi dado aos pintores. Tradicionalmente, desde a idade média, quando eram treinados nas Guildas de São  Lucas, pintores que demonstravam habilidades, copiavam seus mestres. Começando aos onze ou doze anos, dedicavam-se primeiro à fabricação de tintas, aprendendo a ralar as pedras coloridas usadas pelos mestres.  Esse longo aprendizado – de muitos anos — ensinava todos os truques do ofício até o jovem ter o direito de pintar os ramos de flores em uma tela do pintor responsável pela sua educação, ou a paisagem de fundo.  Era uma escola rígida, o ofício era levado a sério. E só era permitido que alguém se chamasse pintor depois de passar por tal sistema.  Dentro desse esquema, copiar o mestre era comum e um mérito.

 

Louis_Beroud_-_peintre_copiant_un_Murillo_Au_Musee_Du_LouvreCopiando Murillo no Louvre, 1912

Louis Beroud (França, 1852-1930)

óleo sobre tela,  130 x 161 cm

Coleção Particular

 

A cópia de obras de arte sempre foi uma maneira dos pintores entenderem  como um mestre do passado, de outro século, resolvera um problema, como combinara uma cor, ou como posicionara os elementos na tela.

 

mulher com ancinho, van gogh, 1889Muher com ancinho, 1889

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

Conhecidos exemplos desses estudos podem ser encontrados na obra dos maiores pintores da arte ocidental de Delacroix, que copiou Rubens, a  Manet que estudou a obra de Velazquez ou Picasso copiando Manet.  O círculo é infinito e demonstra como o sistema é uma das melhores maneiras de se aprender o ofício da pintura.

 

mullher com ancinho, millet1854Camponesa com ancinho, 1857

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 39 x 34 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Venho a esse texto porque tenho recebido muitos emails de pessoas que sabem do meu envolvimento com as artes plásticas, emails que anunciam a fraude, em geral de um pintor famoso, nesse caso van Gogh mostrado acima, em que um texto maldoso e ignorante do estudo da técnica, sugere a falta de criatividade, a falta de caráter mesmo, de um artista.  Com títulos sensacionalistas tal como — Fraude ou falsificação? ;  Artista … plagiador — esses emails têm enchido a minha caixa postal.

 

800px-Noon,_rest_from_work_-_Van_GoghA sesta, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 73 x 91 cm

Musée d’Orsay, Paris

 

No caso de van Gogh, a cópia era absolutamente necessária já que se tratava de um artista com muito pouco estudo, não mais do que um ano na Academia Real de Belas Artes em Bruxelas, por volta de 1880 e algum tempo, quase dois anos com seu primo o pintor Anton Mauve.  Foi de fato necessário para seu próprio aprendizado a cópia de outros artistas.  Ela não se limitou às obras de Millet.

 

Slide5.jpg a sesta 1866, milletA sesta, 1866

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 29 x 41 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

Essa obra de Millet, A Sesta, inspirou pelo menos mais um pintor.  John Singer Sargent, americano, impressionista que passou toda sua vida na Europa, dedicando-se às paisagens americanas só na última década de vida.

john singer sargentA sesta, c. 1875

[d’après Millet]

John Singer Sargent (EUA,

grafite sobre papel, 14 x 21 cm

Metropolitan Museum, Nova York

 

Vincent van Gogh admirava Millet. Seus temas de peões no campo, gente de vida simples, pareciam inundados da espiritualidade dos homens comuns que teve grande ressonância no pintor holandês, que havia desejado estudar teologia.

 

Jean-Francois Millet Night 1867 Fine Arts Museum, BostonA vigília, 1867

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

pastel e crayon sobre papel, 29 x 41 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

evening-the-watch-after-millet-1889(1)Vigília noturna, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 74 x 93 cm

The van Gogh Museum, Amsterdam

 

Mas van Gogh nunca chegou a se sentir satisfeito com as telas que produziu tendo como modelo as obras de Millet.  Sabe-se por exemplo que as oito telas inspiradas no Semeador de Millet, nunca lhe agradaram, ainda que para nós hoje elas pareçam muito boas. Ele desistiu do tema, frustrado, porque achava que em nenhuma das versões conseguira chegar próximo da mestria de seu predecessor.

 

sower-after-millet-1889(1).jpg!BlogO semeador, 1890

[d’après Millet]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 80 x 66 cm

Coleção Particular

 

SC269804O semeador, 1850

Jean-François Millet (França, 1814-1875)

óleo sobre tela, 101 x 82 cm

Museum of Fine Arts, Boston

 

Mas van Gogh não limitou seu aprendizado a Millet.  Copiou, entre outros, o trabalho de Gustave Doré, como vemos abaixo:

 

f_0669O exercício na prisão, 1890

[d’après Gustave Doré]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm

Museu Pushkin, Moscou

 

Newgate Prison Exercise Yard Gustave DorePátio de exercícios da prisão Newgate, 1872

Gustave Doré (França, 1832-1883)

Gravura, ilustração para ‘London: a Pilgrimage‘ [Londres: uma peregrinação] de Blanchard Jerrold e Gustave Doré, 1872.

Museu de Londres

 

A cópia de telas e gravuras dos mestres do passado é uma técnica difundida há muitos séculos, que teve grande ímpeto no coração da Idade Média, quando monges se dedicavam à ilustração de textos religiosos e filosóficos, e às cópias desses textos com as quais difundiam o conhecimento para outros ramos das ordens religiosas a que pertenciam. É uma técnica usada até hoje.   Pobre é a escola ou o professor de pintura que não incentiva esse método a seus alunos, mesmo que no futuro eles venham a ser artistas dedicados ao abstracionismo, ao conceitualismo ou a qualquer outro estilo que pareça não ter nada a ver com o passado.  O conhecimento do lugar em que a sua arte se enquadra na história das artes, é uma sólida base para a produção de qualquer artista, qualquer pintor, mesmo nos dias hoje.

O levantamento de Lázaro, 1890

[d’après Rembrandt]

Vincent van Gogh (Holanda, 1853-1890)

óleo sobre tela

Van Gogh Museum, Amsterdã

O levantamento de Lázaro,1632

Rembrandt van Rijn (Holanda 1606–1669)

Gravura em metal, 36 x 25 cm

Metropolitan Museum, NY

DETALHE





Imagem de leitura — Gustave Jean Jacquet

24 06 2015

 

a leitoraA leitora

Gustave Jean Jacquet (França, 1846-1909)

óleo sobre tela





Imagem de leitura — Julien Jacques LeClerc

12 06 2015

 

 

Julian Jacques Leclerk, une petite dame dans le trainUma senhorita no trem

Julien Jacques LeClerc (França, 1885-1972)

ilustração para La Vie Parisiènne, década de 1920





Imagem de leitura — Jehan Georges Vibert

11 06 2015

 

 

Vibert_Jehan-Georges_A_Fine_PointUm bom argumento

Jehan Georges Vibert (França, 1840-1902)





Imagem de leitura — Marguérite Gérard

2 06 2015

 

 

MARGUERITE GÉRARD- A YOUNG SKETCHER - OIL ON CANVASO jovem desenhista

Marguérite Gérard (França, 1761-1837)

óleo sobre tela, 62 x 51 cm

 





Imagem de leitura — Marcel Gromaire

21 04 2015

 

 

Marcel GromaireA leitora d’après Helène Madelin, 1958

[Helène Madelin é esposa de Gromaire]

Marcel Gromaire (França, 1892-1971)

óleo sobre tela, 65 x 54 cm

 





Grandes começos, XI de XII, escolha de Ana Maria Machado

16 03 2015

 

 

Jean Francois Raffaelli (1850-1924) Lecture au Foret de Fontainebleau Oil on canvas,dated 1872 lower 40.5 x 30.5 cmLeitura na Floresta de Fontainebleau, 1872


(França, 1850-1924)

óleo sobre tela, 40 x 30 cm

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Ai, me dá vontade até de morrer. Veja a boquinha dela como está pedindo um beijo — beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo.  Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.”

 

Dalton Trevisan, O vampiro de Curitiba

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.

 

 





Grandes começos, X de XII, escolha de Ana Maria Machado

15 03 2015

 

Occupations de journées maussades ... Frank O. SALISBURY (1874-1962), Tales of enchantment (1910)Ocupações para um dia de tédio, 1910

Frank O. Salisbury ( Grã-Bretanha, 1874-1962)

óleo sobre tela

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.”

 

Paul Auster, Trilogia de Nova York

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.





Grandes começos, IX de XII, escolha de Ana Maria Machado

14 03 2015

 

 

Maurice Albert Loutreuil (França, 1885-1925) homem lendo, ostHomem lendo, s.d.

Maurice Albert Loutreuil (França, 1885-1925)

óleo sobre tela

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Ela ficou, mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo.”

 

Lygia Fagundes Telles, A noite escura mais eu

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.





Grandes começos, VII de XII, escolha de Ana Maria Machado

12 03 2015

 

Edouard Vuillard, Lucy Hessel Reading (1913), oil on canvas, (Photo by The Jewish MuseumLucy Hessel lendo, 1913

Édouard Vuillard (França, 1868-1940)

óleo sobre tela

Museu da Cultura Judaica, Nova York

 

 

Grandes começos na literatura, escolha da escritora Ana Maria Machado:

 

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.”

 

Clarice Lispector, A hora da estrela

 

 

Em: Iscas de leitura, Ana Maria Machado, coluna publicada no jornal O Globo de sábado, 27 de dezembro de 2014, 1º caderno, página 16.