Palavras para lembrar — Daniel Pennac

12 01 2013

Ernesto Scheffel, Hamburgo Velho [fornodepao], 1956, ost, 290x138,5cm, Hamburgo Velho

Forno de pão  [Hamburgo Velho], 1956

Ernesto Scheffel (Brasil, 1927)

óleo sobre tela, 297 x 138 cm

“A virtude paradoxal da leitura é que ela nos abstrai do mundo para encontrar nele algum sentido.”

Daniel Pennac





A sensualidade tátil de W. Radwan

11 01 2013

Expansão II - WRadwan 2012, Óleo sobre madeira 100 x100cm

Expansão II, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão, 100 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Dando continuidade às postagens com artistas brasileiros, hoje quero mostrar  o trabalho de Wadgy Radwan, que exerce sua arte numa esfera única, entre a pintura e a escultura.  Sua última exposição na Galeria Maurício Pontual no Rio de Janeiro, que vi no final do ano passado,  explora contrastes.

Magma III, 110 cm x 110 cm - óleo sobre madeira e carvãoDeflexoes - WRadwan - Magma III - 2011Magma III, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Suas obras são imponentes, mas não exageradamente.  Têm presença visual marcante.  Além disso, mexem com os sentidos. Minhas preferidas pertencem à série Magma.  À mim, pediram que fossem tocadas, que suas superfícies fossem apreciadas com a ponta dos meus dedos, para sentir as inúmeras facetas dos carvões.  Claro que não fiz isso.  Mas o apelo ao tato é exarcebado pelo contraste com a outra parte das esculturas-pinturas: a parte lisa.

wradwan(Brasil, 1953), Magma II, 2011, osmec, 110x110

Magma II, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira e carvão vegetal, 110 x 110cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Radwan trabalha com contrastes.  A série Magma mostra dois planos com pesos semelhantes: o ‘natural’ e o ‘industrial’ — essas denominações são minhas.  Além da superfície encrespada de carvão, existe o plano que funciona como ‘sombra’, em geral deslocada.  Enquanto as superfícies cobertas por carvão vegetal pintado são orgânicas, grossas e ásperas,  suas ‘sombras’ são suaves, polidas, e em cores contrastantes.   A ‘sombra’ — o reverso, o anti-natural, o industrial — contrasta em cor e acabamento com o que se apresenta como o natural, orgânico, intrigante.  Enquanto um plano é rico em tonalidades, o outro tem uma única cor,  lisa.

w. Radwan(brasil, 1953) magna I

Magma I, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre madeira, 110 x 110 cm

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As obras pertencentes ao grupo Expansão continuam a explorar contrastes, mas de outra maneira.  Nelas, a maior parte da superfície é dedicada ao plano com textura, nesse caso, o carvão vegetal.  E a obra se abre, deixa espaço para mostar, revelar numa abertura, num entrever, o ponto de contraste. Esse pode ser trazido pela cor, ou pela introdução de outros elementos em relevo, manufaturados, com formas industrializadas dispersos sobre uma área  lisa, como acontece com  Expansão II  aqui abaixo.

Expansão iii, 2012

Expansão III, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

óleo sobre carvão vegetal, PVC e madeira, 100 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

O trabalho exposto no fim de 2012 é o desenvolvimento de ideias  que já vinham sendo exploradas: contrastes entre formas naturais e  industriais, o jogo entre esses planos e a abordagem às questões ambientais.  Já anterior a esta exposição  o trabalho Esperança, delineava o caminho a ser traçado.

Obras WRadwan-- Esperança, (60 x 100 cm - Acrílica, carvão e madeira)

Esperança, 2012

W. Radwan (Brasil, 1953)

Acrílica, carvão vegetal e madeira, 60 x 100 cm

[Selecionada para o 9º Salão de Artes Plásticas da Academia Brasileira do Meio Ambiente]

http://wradwan.blogspot.com.br/

Aqui dois planos de dimensões próximas, um deles deslocado, oferecem contraste semelhante aos dos trabalhos vistos na Galeria Maurício Pontual.  Não consigo olhar para Esperança sem ter a sensação de uma metáfora análoga a do monolito negro do filme 2001 Odisséia no Espaço.  Há o elemento natural e o feito pela mão do homem, da mesma forma em que o monolito do filme é contrastado com a vida dos macacos no planeta.  O uso da geometria, da expansão de superfícies precisamente calculada, o espelhar de formas entre as obras, a abstração da cor — todos os trabalhos recentes se limitam a uma palheta de três cores: branco, negro e vermelho — tudo isso apela para a introspecção, a reflexão, chegando até mesmo a uma espiritualização provocada pela forma. Apelos familiares feitos por obras de artistas que têm um relacionamento estético com Radwan, mesmo que de gerações anteriores: Rothko e Louise Nevelson, são alguns dos que vêm à mente.

W. Radwan (Brasil, 1953)Encontros e desencontros,acrílica sPVC emadeira, 80 x 100 cm

Encontros e desencontros, 2011

W. Radwan (Brasil, 1953)

acrílica sobre PVC emadeira, 80 x 100 cm

http://wradwan.blogspot.com.br/

Em 2011, W. Radwan mostrou seus trabalhos na galeria TNT.  Lá também o formato, o abstracionismo trazem para discussão os icônes da industrialização.  É nessa fase imediatamente anterior que vejo maior familiaridade entre Radwan e o artista plástico Sérgio Camargo.  Mas acredito que o jogo de sombras e o uso abundante de produtos orgânicos na obra de Radwan tragam, pelo  menos nessa fase, maior riqueza, maior significação para quem as observa.  E ainda que seja herdeiro de Krajberg no uso das formas naturais, Radwan toma um caminho próprio, desligando-se a cada nova obra dessas influências, para realizar uma viagem própria,  singular e de extrema beleza.  É um grande prazer observar a sua obra.

©Ladyce West, Rio de Janeiro:2013





O trigo, texto de Coelho Neto

11 12 2012

Armando Romanelli,Trigal, 1989, OST40 x 50

Trigal, 1989

Armando Romanelli (Brasil, 1945)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

O trigo

Coelho Neto

Por todo o vasto Éden espalhou-se, maravilhado e risonho, o olhar do primeiro homem.

Viu as florestas frondosas, em cujas franças rendilhadas esgarçava-se o nevoeiro da manhã; viu as campinas alegres pelas quais numerosos rebanhos se apraziam; viu os montes de encostas de veludo; viu os rios claros, largos, retorcidos em meandros, discorrendo por entre as margens de ervaçais floridos e acenoso arvoredo; viu as fontes borbulhando em bosques aceitosos.

Animais de várias espécies cruzavam-se pelos caminhos – leões de juba altiva, elefantes monstruosos, antílopes e corsas, leopardos e gazelas e aves de plumagem branca ou de penas variegadas junto a ribeiras tranqüilas, vogando em ínsula de flores, pousadas em ramos ou atravessando os ares, alegrando com o seu concerto o silêncio grandioso.

Os frutos ofertavam-se nos galhos, as flores desfaziam-se das pétalas recamando a alfombra e esparzindo o aroma dos ares.

O home, ainda incerto, ia e vinha, ora parando à beira das águas que o refletiam, ora chegando à ourela dos bosques, saindo às várzeas, mudo, em êxtase contemplativo.

Deus, que de longe o assistia com o seu olhar, achava-o perfeito, airoso e forte, digno de ser o senhor do mundo e de todas as criaturas.

O sol ardia estivo e, de toda terra exuberante, exalava-se um hausto cálido, uma respiração abrasada que amolecia e adormentava.

As folhagens encolhiam-se, murchando; as flores pendiam lânguidas nos caules; os animais refugiavam-se nos bosques ou penetravam as furnas tenebrosas; as próprias águas desciam lentas, com preguiça, sob a irradiação cáustica da luz que refulgia tremulamente no azul diáfano.

Deus errou em passos lentos pelas silenciosas veredas e toda pedra que seus pés tocavam fazia-se luminosa, com rebrilhos faiscantes e cores admiráveis.  Era aqui um seixo que se ensangüentava em rubi, ali um calhão esverdeando-se em esmeralda, outro tomava um colorido flavo ou roxo e, mirificamente, iam-se todos transformando e adquirindo cor, desde o tom lácteo da opala até o esplendor cerúleo da ametista, desde o límpido fulgir do diamante ao lampejo solar dos prazios amarelos. As areias faziam-se de ouro, rutilando, como haviam ficado mo leito do córrego em que o Senhor, depois de haver plasmado o homem com o barro sanguíneo, lavou e refrescou as mãos benéficas.

Foi-se o Criador encaminhando a um campo que ondulava e sussurrava às aragens e que era um trigal.

Nele entrando, sem que as pombas e as calhandras se assustassem, a frescura convidou-o ao repouso.

Deitou-se e os trigos fecharam-se suavemente formando um ninho aromal e sombrio onde o sono foi agradável.

Já as roxas nuvens anunciavam o crepúsculo quando, ao suave prelúdio dos rouxinóis, abriram-se os olhos divinos. Deus, que gozara a delícia do sono, ergueu-se. Então, mansamente, uma voz meiga elevou-se no campo louro.

— Senhor, que vos não pareça de vaidoso a minha requesta, não é por orgulho que vos falo, senão porque me sinto por demais miserando na grandeza de vossa criação. Fizestes a árvore sobranceira dando-lhe o tronco, dando-lhe os ramos, vestindo-as de folhas, cobrindo-a  de flores e ainda a carregais de frutos; as suas frondes altas topetam com as nuvens. Aos que não destes grandeza e força, ornaste com a raça mimosa da flor; só eu, pobre de mim! Fui esquecido por vós. Quando vos vi chegar para mim tive vexame de receber-vos, tão pobre sou! Trigo mísero.

Era o trigo que assim falava.

Parou o Senhor a escutá-lo e, compadecido das suas palavras, estendeu a mão abençoando-o:

Agasalhaste o meu sono com a pobreza, trigo tenro e frágil, deste-me generoso abrigo e resguardaste-me do sol. Não fique memória na terra de uma ingratidão d’Aquele que mais a detesta e, para que o exemplo sirva e aproveite, abençôo-te e amerceio-te com a força e com a Graça.

Fraco, darás o alimento essencial; mísero, encerrarás em ti o mistério divino. Será o pão e serás a hóstia e assim, com a tua franqueza, suplantarás a árvore mais vigorosa e com a tua humildade serás maior que o sol.

No teu seio desabrocharão as papoulas e, dentro em pouco, a flor virá anunciar-te a espiga e a espiga dará a farinha branca, que será força nos homens e sacrário da minha essência. Assim Deus, engrandecendo-os, responde à esmola dos pequeninos.

Disse, e, contente, mais com o que fizera ao trigo do que com a criação de todo o universo maravilhoso, ao clarear da lua, quando os rouxinóis cantavam, remontou ao céu entre os anjos que foram, em coros, pelos ares claros, apregoando a sua onipotência e a sua misericórdia.

Em: Coelho Neto e a ecologia no Brasil, 1898-1928, org. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002





O Rio de Janeiro encantado de Lucia de Lima

21 11 2012

Enseada de Botafogo, s/d

Lucia de Lima ( Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 50 x 60 cm

www.luciadelima.com

Uma das coisas de que mais gosto no trabalho de Lucia de Lima é a felicidade!  Ela consegue, na minha opinião, retratar o estado de espírito carioca: livre, leve e solto.

Rio Panorâmico

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 20 x 50 cm

www.luciadelima.com

Vamos e venhamos é delicioso observar todas as coisas que acontecem simultaneamente em cada tela.  São os detalhes de parapentes, pessoas de bicicletas, barquinhos na enseada de Botafogo, helicópteros e assim por diante.

Ararinhas azuis

Lucia de Lima (Brasil, conteporânea)

acrílica sobre tela, 35 x 27 cm

www.luciadelima.com

Além da paisagem carioca, Lucia de Lima mostra também grande sensibilidade para assuntos ecológicos.  Telas que representam a abundante natureza carioca, com flores que tomam conta da superfície, são em geral o ponto de partida para a representação de pássaros e  de espécies que correm perigo de extinção, como no caso das ararinhas azuis da tela acima.

Jardim Botânico

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

Lucia de Lima pode ser encontrada passeando pelo Jardim Botânico muitas vezes ao mês.  Ela admite que o local lhe serve de inspiração para todo o verde, toda a mata e para os pássaros que retrata em seus quadros: diferentes flores, palmeiras, arbustos, árvores encontram um refúgio nessas telas coloridas.

O menino e o Cristo

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 70 x 30 cm

www.luciadelima.com

Outra característica da pintora são os formatos das telas.  Muitas delas fogem aos padrões mais conhecidos, como são as telas acima: O menino e o Cristo assim como Rio Panorâmico também já mostrada nessa postagem.  É mais uma das maneiras em que revela jovialidade e o prazer que tem ao se dedicar à pintura.

Devaneios IV

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

Tenho acompanhado o trabalho dela pelos últimos anos e noto algumas tendências, como é natural que aconteça com qualquer pessoa que usa a sua criatividade todos os dias, como é o caso.  Lucia tem desenvolvido esta série a que deu o nome de Devaneios, em que o contorno das montanhas da cidade, ou a aparência de ruas e locais conhecidos e reconhecíveis, deram lugar ao que ela mesma chama de sonhos, devaneios, ou seja, paisagens oníricas, que combinam muitos aspectos que aparecem em outras séries.  Nesse exemplo acima, vemos flores, barcos, pássaros, uma fila interminável de automóveis subindo o morro, e de pessoas — crianças? — em fila indiana.  A vegetação é abundante e rica como nas matas cariocas.  Quanto mais olhamos,  mais decobrimos.

Corcovado e Lagoa

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 33 x 41 cm

www.luciadelima.com

Até o bondinho do Corcovado subindo de Laranjeiras para o Cristo vemos nessa tela.  Foi há muitos anos atrás, que notei pela primeira vez, vendo uma das telas de Lucia, que a Lagoa Rodrigo de Freitas tem hoje o formato de um coração.  Nesta tela vemos alguns elementos muito comuns da paisagem neste local: helicópteros — há um heliporto perto, pessoas treinando remo — há alguns conhecidos clubes de remo com sede na Lagoa, a Praia de Ipanema no cantinho da direita e assim por diante. Podemos passar muito tempo descobrindo detalhes.

Pássaros em extinção

Lucia de Lima (Brasil, contemporânea)

acrílica sobre tela, 40 x 50 cm

www.luciadelima.com

A preocupação com a preservação da Natureza e da Mata Atlântica está sempre presente no trabalho da pintora.  Entre uma profusa vegetação vemos alguns dos pássaros cuja existência está em perigo.  Lucia mora no sopé da mata do Corcovado e está em constante contato com a natureza. Que ela a ama e presta atenção no verde que a circunda é óbvio.  Resta a nós fazer o mesmo.  Para maiores informações sobre essas e outras obras visitem o portal da artista. Aproveito para agradecer à Lucia pelas imagens que cedeu para esta postagem.

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Para comemorar os 5.000.000 [cinco milhões]  de visitas a este blog, marca a que devemos chegar nos  próximos 5 dias, começo hoje, com Lucia de Lima, uma série de postagens só com trabalhos de artistas brasileiros.  Não vou prometer uma determinada frequência, porque ser blogueira não é a minha profissão principal e não posso garantir que terei sempre muito tempo para organizar essas postagens.  Mas imaginei algo em torno de uma ou duas vezes por mês.  Por que não usar esse blog para divulgar alguns de nossos artistas?  Obrigada a todos que nos acompanham.





O jardim e o ritmo da vida: do que sinto falta da vida na América

15 11 2012

Dia de verão, 1904

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 130 cm X 89cm

Museu Nacional de Belas Artes,Rio de Janeiro

Depois de quase dez anos de volta ao Brasil, ainda me perguntam, do que eu mais sinto falta da minha vida lá fora.  Concluí, recentemente, que minha nostalgia está relacionada à natureza.  Sinto falta das estações do ano, dos rituais que cada uma delas traz para a vida de uma pessoa comum. Sinto falta daquela conexão com os ciclos da natureza.

Meu primeiro contato com o hemisfério norte foi num inverno.  Dia 15 de dezembro desembarquei para o que na época acreditava ser por 3 anos.  Permanecer lá por muito mais tempo, como aconteceu, não estava programado.  Fui morar numa cidade muito arborizada, mas só descobri isso na primavera, pois em dezembro as ruas tinham enfileiradas nas calçadas só troncos, mais ou menos retorcidos, sem uma única folha.  Um aspecto desolador.  Não havia neve.  Só frio.  Deixando para trás o calor de verão no Rio de Janeiro, o frio pareceu muito intenso.  Com os anos a sensação de frio diminuiu: eu já estava aclimatizada.

O conhecimento intelectual de que as folhas crescem com a aproximação da primavera, não retira o intenso prazer de vermos, ao final de fevereiro e no mês de março (na minha região), os pequeninos brotos, primeiro como verrugas, depois dedinhos delicados, saindo dos troncos, outrora aparentando estarem mortos.

Jovem senhora no parque, 1880

Edouard Manet ( França, 1832-1883)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Existe a expressão Febre da Primavera [Spring Fever] que rotula um comportamento alegre, sapeca, cheio de energia, sensual e sexual, difícil de entender por quem só morou nos trópicos, onde as estações do ano quase não se manifestam com intensidade.  A expressão rotula um momento de comunhão com a natureza, quando nossos instintos animais se manifestam, quando nos contagiamos com a alegria da primavera, com a promessa de um futuro promissor.  Aqui não percebemos esse ímpeto da reprodução, essa força que embriaga, maior que nós mesmos.  Porque nos trópicos  isso acontece o ano inteiro, acaba desapercebido. Lá, tanto os mais velhos quanto crianças, que em tese estão fora dos parâmetros hormonais afetados pela “febre”, sentem o empurrão da natureza acoplado ao prazer de viver.  É uma febre que brota de dentro da alma, uma bem-aventurança com apelo sensual, um prazer físico intenso despertando o corpo.  Variações de latitude promovem a Febre da Primavera  em diferentes semanas.  Onde morei o início de abril trazia a vontade irreprimível de aventura.  Mas antes disso, os sinais de que o mundo mudava já apareciam. Com que alegria víamos as primeiras forsythias!  É uma planta com aparência desregrada,  um arbusto de flores amarelas, que desabrocha quase de um dia para o outro, como se um ramalhete de raios de sol fosse plantado no jardim, mesmo quando ainda está coberto de neve.  A forsythia é a primeira flor a aquecer olhos e corações.  Depois dela, tulipas, narcisos e com as azaléas a primavera vinga! Sinto falta dessa sinfonia de cores e de cantos dos pássaros!

A história de amor, 1903

Emanuel Phillips Fox ( Austrália, 1865-1915)

óleo sobre tela, 102 x 153 cm

Ballarat Fine Art Gallery

A primavera traz também as primeiras colheitas de frutos: morango, framboesa, mertilo, amora. E nos estados onde morei nos Estados Unidos, saíamos de balde em punho, chapéu de palha e muito protetor solar, para os campos de sítios e fazendas que vendem essas frutas ao quilo se você colher.  Eram sempre manhãs de sol em que sujávamos as mãos de terra, colhíamos as frutas nos pés e chegávamos à casa carregados, exaustos, vermelhos de calor, suados e muito felizes. Íamos então para a cozinha, lavar e comer as frutas frescas, o quanto bastasse, e com as sobras, o final de semana era dedicado a fazer tortas, bolos, geleias, alguma coisa para congelar e outras preservadas para os dias em que esses frutos já tivessem desaparecido.

Este também era o período do ano em que plantávamos pimentões, tomates e flores no jardim.  Éramos visitados por bando de pássaros negros, possivelmente starlings, todo início de primavera, pássaros que tomam conta do jardim ou de uma árvore, mas não ficam por muito tempo.  Se ainda não soubéssemos, a aparição desses pássaros mostrava que era hora de plantar    Mudas das plantas que não sobrevivem durante o inverno e que precisam ser plantadas todos os anos são vendidas em todo canto, do supermercado às lojas de conveniência.  Todo mundo entra na dança do plantio, mesmo na cidade grande, num ritual cansativo e alérgico.  Sim, porque foi só lá que descobri ser muito alérgica ao pólen.  Mas, antialérgicos ingeridos, íamos todos plantar algumas centenas de mudas de Maria-sem vergonha no jardim, (eu as plantava em abundância para me lembrar daqui) e também mudas de tomates e pimentões na área do quintal onde havia sol.  A primavera era o período da alegria, da renovação, da esperança.

Tarde sossegada

Ellen Lerner O’Donnell (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 90 cm

http://www.ellenodonnell.com

Outros pequenos rituais que marcam a estação também têm magia.  Em março,  às portas da primavera, há o dia de São Patrício, celebrado inicialmente pelos imigrantes irlandeses católicos.  Em sua homenagem todos tentam vestir verde ou algo verde no dia 17.  Chope, bebidas diversas, bolos são servidos  coloridos de verde e decorados com o trevo de 4 folhas, símbolo do santo.  Mais tarde, já no meio da primavera celebra-se a Páscoa.  Lá, essa comemoração é marcante, sendo em geral, a primeira festa ao ar livre do ano.  Todos vão às suas respectivas igrejas, vestidos para a primavera.  Mulheres têm roupas em tons claros de rosa, azul, amarelinho, branco, beige e invariavelmente, até nos dias de hoje, um chapéu de palha.  Mesmo na primeira década do século XXI, esse chapéu de palha com abas largas e fitas coloridas era item essencial para o dia da Páscoa.

Engana-se quem acredita que o verão nos Estados Unidos não é quente.  É muitas vezes mais insuportável do que o carioca.  As temperaturas são altas e a umidade é elevadíssima.  À medida que o verão se aproxima, passa-se a aproveitar o ar livre no cair da tarde.  Não são poucas as festas, as reuniões entre amigos que começam no quintal e acabam no ar condicionado na cozinha dentro de casa por causa do calor.  Mas o verão trazia, como aqui, o chamado pela estadia fora da cidade, nas montanhas, nos rios e na praia.  É a hora das férias, que são poucas  – a grande maioria dos americanos tem só duas semanas de férias ao ano.  Mas os rituais americanos de verão estão ritmados por 3 grandes feriados nacionais: o dia do Mortos nas Guerras  [Memorial Day]– última segunda-feira de maio, dia da Independência, 4 de julho e o dia do Trabalho, primeira segunda-feira de setembro.

Sem título, 2003

Arie Zuidersma (Holanda, 1925)

acrílica sobre papel, 69 x 89 cm

É na primavera, em março,  antes da Páscoa, que se acompanha as finais de basquete colegial, chamado de Loucura de Março, [March Madness]  que nas cidades e nos estados da costa leste onde morei é tão importante quanto o basquete profissional.  É o adeus aos esportes de competição em recinto fechado.  Daí por diante começam os esportes ao ar livre.  Basebol é o primeiro da fila, mas nunca consegui entender sua lógica.  Durante os meses de março e abril faz-se a grande limpeza de casa, adequadamente chamada de Limpeza da Primavera [Spring Cleaning].  Lava-se a jato o exterior das casas, limpa-se e reparam-se as calhas.  Assim que as  escolas entram em férias, no início de maio, é a hora de se jogar fora o inverno com todas as suas poeiras e teias de aranha.  Depois de meses e meses  fechados por conta do clima, os americanos abrem suas casas para limpar, limpar tudo: telhado, janelas, varandas, decks, piscinas, ventiladores, canalização do ar condicionado. Limpa-se por dentro e por fora.  Faz-se uma faxina nos armários dos quartos, da cozinha, dos banheiros e garagem.  Pilhas e pilhas de objetos e roupas são colocados primeiro à venda nas conhecidas vendas de jardim, ou de garagem, onde os preços não passam de uns trocados, uma bagatela de poucos dólares, ou centavos, quer para objetos usados ou novos.  O que não se vende doa-se.  A data mais concorrida para o evento é justamente o fim de semana longo do Memorial Day, [Dia dos Mortos nas Guerras], que ritualmente fecha a primavera.

Viveiros, 1890

William Merritt Chase(EUA, 1849 – 1916)

Óleo sobre madeira

Coleção particular

O verão começa com a abertura das piscinas particulares e públicas que se enchem de crianças em férias, no feriado dos Mortos das Guerras. Até então a temperatura é fria demais para os esportes aquáticos ao ar livre. E os fins de semana começam a ser musicados pelo cantar incessante das máquinas de cortar grama. O ar cheira a grama cortada.  Nessa época colhem-se os primeiros tomates que têm o gosto delicioso do jardim.  Tudo que pode ser feito ao ar livre ganha novos adeptos: feiras dos pequenos produtores, exposições de arte e de artesanato nos parques da cidade. A maioria das cidades tem programas de música e teatro ao ar livre, à noite, porque o horário de verão permite que se tenha luz do dia até as 21-22 horas, convites para festas realizadas nos jardins de casa, encontros nos decks, regados a vinho californiano,  abundam, ocupando as tardes dos fins de semana ao crepúsculo.  O gosto do verão é melancia.  Mas também cereja e cachorro-quente. Junho ainda é um mês agradável, mas mosquitos e outros insetos começam a dominar o ambiente. Essa manifestação de pragas voadoras em enorme quantidade foi uma das grandes surpresas que tive nos primeiros anos.  Como as flores aparecendo todas juntas, de uma vez, cobrindo árvores e arbustos, os insetos também “brotam” juntos, aos montes.  Não é à toa que leis da saúde pública requerem que toda casa tenha tela nas janelas. Sem tela, casas não podem ser vendidas, nem alugadas.  A estação dos furacões entra em curso, mas em geral eles só chegam à costa a partir de agosto.  Chove bastante no verão. Chove muito. Depois, o ar fica pesado e não leve como no Rio de Janeiro, porque a umidade não desaparece.   O verde nas árvores já deixou para trás o frescor verde claro, cor de alface da primavera, as folhas adquirem tons escuros e as árvores têm a copa cheia para a sombra profunda. E o canto das cigarras acalenta o crepúsculo dos longos dias de julho e agosto. Lá e cá, o verão é a estação de que menos gosto.

Horas de lazer, s/d

Lynn Renée Sanguedolce (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  115 x100 cm

www.lynnrenee.com

O feriado de 4 de julho  marca o meio da estação mesmo que este aconteça na 3ª semana do verão oficial.  Isso porque assim como aqui, o verão é ritmado pelo calendário escolar. E no início de julho os alunos já estiveram de férias pelas últimas seis semanas.  Em julho começa a época das hortênsias no jardins e nos estados do Mid-Atlantic – costa leste central dos EUA.  Essas flores foram para mim, uma surpresa. Eu sempre as associara à estrada Teresópolis-Petrópolis, mil vezes percorrida nos verões da minha infância e juventude, caminho emoldurado por quilômetros de abundantes flores de hortênsias.  Que ironia, só vim a ter arranjos hortênsias em vasos com água, quando as cultivei num jardim em outro país, e fica lindo, como aprendi com Martha Stewart.  Elas, assim como a comemoração do dia da independência, simbolizam o meio do verão.  Por isso mesmo as festividades do 4 de julho são simultaneamente alegres e nostálgicas.  O dia da independência é comemorado ao ar livre, onde quer que você esteja.   Não há 4 de julho sem piquenique, sem fogos de artifício, sem família e amigos reunidos, sem festa para comemorar, por mais abafado e quente que o dia se mostre. Daí por diante, sobram praticamente só mais seis semanas de verão.  A última quinzena de agosto já é marcada pela correria da preparação para o ano letivo que começa próximo ao feriado nacional: o Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro.

Folguedo de verão,  s/d

Lucius Rossi (Itália, 1846-1913)

óleo sobre tela , 60 x 52 cm

Christie’s Auction House, 1999

Se o jardim recebeu sol suficiente, o final do verão é repleto de alegrias culinárias. Em geral colhe-se muito mais do que se consome.  Começa então a tradição de final de verão: as conservas.  Mesmo hoje, quando se encontra de tudo nos supermercados locais, até nas menores cidades, a tradição da conserva em vidro, consume donas de casa, mesmo as que trabalham fora, advogadas, economistas, empresárias.  São centenas de receitas familiares que atravessaram gerações para a conserva de legumes e frutas, originalmente mantidas para os dias de inverno. Pepinos, que quase todo mundo planta, são transformados em picles, assim como cenouras, couve-flor, até mesmo a couve de Bruxelas. As partes brancas das melancias também são transformadas em um dos mais deliciosos picles que conheço.  Melancias são frutas comuns do verão americano.  O final de verão é a época de pêssegos e por isso inicia-se a estação dos deliciosos “cobblers”. O de pêssego é o meu favorito mas à medida que as frutas que dão em árvores começam a ser colhidas em abundância, essa sobremesa, feita de frutas e migalhas, açúcar e canela, aparece de todos os jeitos e formas.  E os escritórios se enchem de cobblers trazidos pelos empregados.  Aliás essa é uma característica americana que quase não vejo aqui: à noite as pessoas cozinham bolos, tortas, receitas especiais e levam receita inteira, extra, para dividir com os colegas de trabalho no dia seguinte. Isso aconteceu em todos, absolutamente todos os lugares onde trabalhei.  E, não há distinção social de quem traz as guloseimas, pode ser a pessoa de menor qualificação ou o dono/diretor/executivo da área.   Bolos de frutas  e cobblers estão entre os mais levados por quase todos nessa época do ano, porque os jardins produzem mais do que se pode consumir.

No pomar, 1891

Edmund Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

Óleo sobre tela, 154 x 166cm

Terra Foundation for American Art,

Daniel J. Terra Collection, Chicago, Illinois

O ritmo da vida está totalmente submetido às estações do ano.  E acho que é disso que sinto falta. Em meados de setembro, os dias já têm o ar um pouco mais frio. Começa a estação do futebol americano.  Começa a estação dos piqueniques antes do jogo. Mas, pelo menos uma vez por dia, há um ventinho que quebra a monotonia do calor abafado.  É o outono se anunciando, de longe minha estação favorita, a mais colorida do ano.  Árvores trocam de cor e suas copas vão do amarelo claro ao escarlate antes das folhas caírem.  Os jardins explodem numa grande palheta colorida com margaridões e crisântemos, plantados ou comprados.  Esses “mums” – crisântemo [chirsantemum] — aparecem nos jardins e dentro das casas.  As últimas begônias resistem e as samambaias de jardim já voltam ao seu período dormente, desaparecendo da paisagem. Assim como a primavera, o outono é de muito trabalho:  tirar as folhas secas do chão e colocá-las em montes massivos no meio fio para a cidade vir pegar as pilhas e pilhas de folhas para o composto da cidade.  Só folhas.  Esses caminhões aceitam só folhas, eles são equipados com um aspirador gigante.  E uma população enorme de 1.000.000 de jardins obedece, civilmente, aos pedidos do governo e só folhas são colocadas no meio fio: nem galhos de árvores  podadas, nem um pouquinho de lixo… Chama-se responsabilidade civil.  Sim, tenho saudades disso, dessa organização, em que ninguém se acha no direito de ter mais direitos do que outros.  Durante este período também se planta bulbos no jardim: narcisos, tulipas e outros bulbos.  No outono o solo ainda está macio  para se plantar essas flores  que precisam passar algum tempo no solo congelado do inverno para poderem florescer na primavera.  Esta é um atividade que requer não só força física como bom planejamento e a habilidade de se imaginar o conjunto da obra daí a seis meses.  Garanto: é sempre uma suspresa ver as flores na primavera seguinte.

Folhas de outono, 1856

John Everett Millais (Inglaterra, 1829-1896)

óleo sobre tela, 95 cm x  75 cm

City Art Galleries, Manchester

O outono traz outra delícia: as feiras rurais.  Cada estado tem uma feira rural.  São eventos gigantescos, porque são estaduais.   Produtores de todo o estado participam nessa semana de festas da colheita.  Há parques de diversões temporários, competições de bois, de coelhos, da melhor geleia.  Há pequenos rodeios. É uma festa só, única, de dez dias.  As escolas mandam seus alunos para que todos sintam o gosto e o prazer da vida rural.  Há shows de música country, moderados, nada de alto falantes com decibéis de ensurdecer os vizinhos.  Muita música e muita dança. Barraquinhas de comidas típicas do interior assim como acontece nas nossas festas juninas – que no Brasil também são a celebração do outono, das colheitas. Montanha russa, trem fantasma, roda gigante, algodão doce, maçã caramelizada no espeto, são alguns dos prazeres gentis desses dias encantados cujo frio de 10 a 14º C durante o dia contrasta com as noites de zero grau. Mas os céus do outono têm um azul de dar inveja: profundo, límpido e sempre sem nuvens.   Sim, o outono é mágico.  Fechando outubro há a festa das crianças, e realmente só as crianças participam de Halloween.  Sim todo mundo compra bala para dar às crianças fantasiadas que batem à porta.  Em geral não se celebra Halloween depois dos 12 ou 13 anos.  Quando um adolescente desses aparece na nossa porta, nem sempre é bem recebido.  Entende-se que, assim como Papai Noel, há coisas que só se faz ou se acredita em uma tenra idade.

Grande ocasião, s/d

Clare Atwood (Inglaterra, 1866-1962)

óleo sobre tela

Nas cidades também é o outono que traz os grandes espetáculos, as peças de teatro, os concertos, os musicais. É “a estação”, como se diz, quando começamos a nos acostumar a viver mais dentro de quatro paredes do que ao ar livre.  Festas e reuniões abundam. De repente os amigos convidam para jantares, coquetéis,  que se concentram nas cozinhas e nas salas ao redor.  Assim será através do inverno, quando finalmente a lareira é acesa ritual que dependendo do frio vai até fevereiro.  Vez por outra no céu vemos  patos voando em grupos  para o sul.  Não só vemos.  Podemos muitas vezes ouvi-los, vai depender  do silêncio à nossa volta. Desse período de resfriamento do ar, do solo e de frio verdadeiro tenho saudades.  O frio é facilmente combatido.  Todo lugar é aquecido.  Todos os meios de transporte também.  Tenho saudades da brisa fria de encontro à pele, enquanto se anda até o teatro, ao show, à casa de um amigo. Muitas saudades porque é o período mais feliz e alegre do ano.

O primeiro Thanksgiving, 1912-1915

Jean Leon Gerome Ferris (EUA, 1863-1930)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Thanksgiving, um feriado que estamos querendo importar, numa das nossas maiores sandices imitativas. É um feriado tipicamente americano com sua própria história, toda americana, e simbolismo único.  Ninguém tenta reinventar essa comemoração.  Ela é centrada em uma refeição, composta sempre dos seguintes itens obrigatórios: peru, presunto, batatas doce, vagens, milho, torta de abóbora, geleia de Cranberry, melado.  Você pode adicionar alguns elementos a essa refeição, mas não pode subtrair, ou sua família pensará que não teve Thanksgiving. É uma refeição no meio da tarde da última quinta-feira de novembro.  Depois desse farto almoço ajantarado todos se colocam a postos para ver um grande jogo de futebol americano!  Esta é  a única data em que toda a família se reúne num único teto, o que eles chamam de família extensa, ou seja, mais do que pai, mãe e filhos.  E a tradição é ter sempre uma pessoa de fora, de preferência um estrangeiro, porque esta festa surgiu para relembrar como os índios convidaram peregrinos estrangeiros, que se tornariam mais tarde americanos, para uma refeição em comum.  Ocorre sempre nessa data e dá início às comemorações natalinas.

Patinando no gelo, 1885

Hanry Sandham (Canadá, 1842-1910)

Gravura baseada no óleo do pintor

Coleção Particular

Quando dezembro chega o jardim está nu. Todos os milhões de folhas do jardim já caíram e as árvores voltaram a ter aquele aspecto desolador, esqueletos escuros e sem vida.  A natureza entrou em recesso. Arbustos floridos que dão tanta alegria na primavera e verão também perdem suas folhas: forsythias, hortênsias,  azaleias se transformam em meros galhos sem cor.  Para  dar alento nos concentramos nas poucas “ilhas” verdes: cedrinhos, pinheiros, e na minha casa na Carolina do Norte muitas aucubas – arbustos de folhas verde e amarelo, que dão frutinhos vermelhos comidos pelos poucos pássaros que enfrentam o inverno [Louro-do-Japão ou Louro-manchado (Aucuba japonica) é seu nome]. Mas o Natal dá a justificativa de se alegrar o exterior da casa.  Não só as guirlandas, círculo de verde nas portas, feitas justamente de galhos dessas plantas que não perdem as folhas, como guirlandas que decoram o exterior das casas, e as árvores que perderam suas folhas são decoradas com centenas de luzinhas brancas que iluminam um jardim que sem elas ficaria triste.  E assim passa o mês de dezembro. O Natal, celebrado no dia 25 de dezembro, é uma festa íntima, só para o núcleo familiar: pai, mãe, filhos e em geral se permanece mais ou menos dentro de casa até a chegada do ano novo.  Nos estados onde morei, no Mid-Atlantic, em geral não se tem um Natal com neve.  Mas é frio, faz frio. Os dias mais frios do ano acontecem em janeiro e fevereiro, quando o próprio solo já não retém mais calor.

Noite de inverno, 2006

Brian Larsen (EUA, 1975)

glicée gravura

Mas o inverno traz outros pequenos rituais. É hora de se aprender a patinar no lago gelado, — ele gela mesmo que não haja neve no chão.  Se há neve, então é uma festa.  Atrapalha, é verdade, mas também é muito gostoso ter a vida atropelada por um monte de neve, pelo silêncio que ela traz mesmo às ruas mais movimentadas.  Não há quem não tenha sorrisos quando vê os primeiros flocos de neve.  A neve é sempre seguida de um dia de sol brilhante e céu azul.  Mas frio, mesmo com sol, o frio é cortante.  O inverno é também a época  quando prestamos mais atenção às atividades domésticas de família, atividades de dentro de casa: jogos, leitura, visitas.  As árvores estão sem folhas, a grama morreu, a natureza se  despiu  mas o mundo continua: as escolas têm aula, as pessoas trabalham, os dias são curtos. Não chove.  Chuva é coisa de primavera e verão.  E só nos resta esperar pelas delicadas camélias nos arbustos, em fevereiro, colorindo levemente o final do inverno.

A natureza determina o ritmo de vida, os rituais do dia a dia.  Para esta carioca, acostumada a verões de seis meses e a não-verões de outros seis, a descoberta das estações do ano foi deslumbrante.  Viciante.  Cada mês tem seus segredos, suas necessidades. Em cada mês sente-se o passar do tempo e tenta-se aproveitar ao máximo as quatro semanas que levarão a outros dias, mais ou menos quentes, mais ou menos chuvosos, mas sempre encantadores.  Sim, é disso que sinto falta, do movimento da natureza, perceptível, sentido na pele e no meio ambiente. Não sinto falta de mais nada.  Gosto de estar ciente da passagem do tempo.  Alerta para as mudanças que acontecem a cada semana.  Eu me sinto mais viva!

——

Nota: Morei nos seguintes estados: Maryland, Washington DC, Virgínia e Carolina do Norte.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012





Minha Aldeia, poema de Antonio Gedeão

18 10 2012

Vista parcial de Ouro Preto, s/d

Mário Agostinelli (Peru 1915 – Brasil, 2000).

óleo sobre tela colada em madeira, 47 x 56 cm

Minha aldeia

Antonio Gedeão

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desempara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que imergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

Em: Poesias completas (1956-1967), coleção Poetas de hoje, Lisboa, Portugália:s/d

Rômulo Vasco da Gama de Carvalho , rambém conhecido pelos pseudônimos : Antonio Gedeão ou por Rômulo de Carvalho. (Portugal,  1906-1997)  Poeta, professor e historiador da ciência portuguesa.  Teve um papel importante na divulgação de temas científicos, colaborando em revistas da especialidade e organizando obras no campo da história das ciências e das instituições.  Revelou-se como poeta apenas em 1956, com a obra Movimento Perpétuo.

Obras poéticas:

Movimento perpétuo, 1956

Teatro do Mundo, 1958

Máquina de Fogo, 1961

Poema para Galileu 1964

Linhas de Força, 1967

Poemas Póstumos, 1983

Novos Poemas Póstumos, 1990





A cidade, poesia de Luís Pimentel

8 09 2012

Dia de chuva em São Paulo, 2009

Carmelo Gentil Filho (Brasil, 1955)

óleo sobre tela, 80 x 110 cm

www.cgentil.com.br

A cidade

Luís Pimentel

Uma cidade não é medida

por becos e logradouros,

nem lembra contas e cálculos

que a gente parte e reparte.

A cidade é o que fica:

solidão, engenho e arte.

Uma cidade é um rosário,

voltando sempre ao começo.

Não é o filho querido,

que quando cresce evapora.

A cidade  é o que se conta

no calcanhar da memória.

Em: O calcanhar da memória, Luís Pimentel, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2004





Vidas simples, Corrêa Júnior

26 08 2012

Carro de boi, s/d

João Bosco Campos (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Blog do José Rosário

Vidas simples

Corrêa Júnior

Eis-me aqui, na bucólica doçura

desta risonha e encantadora vila,

onde gozo, há dois meses, a ventura

de uma vida suavíssima e tranquila.

Palpitante de cores e de festas,

a mata em flor abre-se em mil botões…

Que alvoroço de ninhos, nas florestas!

Que infinito de paz, nos corações!

Aqui tudo à alegria nos exorta;

há pureza nas almas e no clima;

o ar sadio da terra nos conforta,

a bondade dos homens nos anima.

Vendo, assim, tão perto a natureza

cheia de encantos e de exemplos sábios,

a gente há de ter sempre, com certeza,

mais ternura nos olhos e nos lábios.

Longe da agitação e do barulho,

ante a moldura desta vida calma,

o homem se despe da maldade e orgulho,

e veste de esperanças a sua alma.

E, quando, um dia, ele regressa à vida

agitada das grandes capitais,

a alma que nele volta agradecida,

dessas paragens não esquece mais!

Em: Criança Brasileira, terceiro livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos,  [edição especial para o Rio Grande do Sul],  Rio de Janeiro, Agir: 1950.





Os sertões, texto de Eduardo Prado

18 08 2012

Efeitos na paisagem, 2000

Yara Tupinambá (Brasil, 1932)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Coleção Particular

Os sertões

Eduardo Prado

Nos sertões de Minas Gerais e da Bahia, na região em que se juntam os territórios destas duas antigas províncias, nos meses da seca, que ali vai de abril a novembro, a paisagem é uma verdadeira surpresa para o europeu acostumado à ideia convencional da natureza entre os trópicos.

A sombria e verde alfombra das florestas misteriosas, enredadas de liames enlaçantes, esmaltada das cores das orquídeas fantásticas, as inclinadas palmeiras por onde trepam macacos, o fundo ora escuro, ora violentamente iluminado de clareiras, onde luzentes parecem boiar, no seu voo pesado e lento, as grande borboletas azuis…toda esta paisagem tropical, que os viajantes pintam e que a cenografia vulgariza, tudo isso é desconhecido naqueles centros do planalto brasileiro que ficam à direita do rio São Francisco. Os trópicos nem sempre são tropicais.

O viajante corta pela estrada dura e pedregosa, que em longuíssimas curvas, ou em retas infinitas, atravessa os tabuleiros intermináveis, em que a vegetação escura, meio seca, espinhosa se enreda numa compacta massa, ou rareada, que alcança os joelhos e os peitos das mulas. Os pequenos espinheiros, as mimosas e as acácias rasteiras, que parecem, às vezes, pinheiros de Liliput, à beira da estrada, são enovelados de penugens brancas, que lembram a neve e a geada. É o algodão, arrancado, em fiapos, às cargas pesadas de algodão em rama, que por ali transportam, em tropas, as mulas tangidas, em lotes, pelos tropeiros e precedidas da mula madrinha, que ajaezada de vermelho e tintinabulante de guizos e sinetas à cabeçada, avança lentamente, marcando o compasso à marcha da caravana.

Por centenas de léguas pode o viajante, no sertão, seguir o caminho das tropas que traficam entre Bahia e Minas; como os grãos de milho do conto do pequeno polegar, os novelinhos de algodão, presos às plantas do cempo e dos cerrados, podem indicar o rumo do caminhante.

Em: Criança Brasileira, admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos,  Rio de Janeiro, Editora Agir: 1949.

Eduardo Paulo da Silva Prado (São Paulo, 27 de fevereiro de 1860 — São Paulo, 30 de agosto de 1901) foi um advogado, jornalista e escritor brasileiro, colaborador do Correio Paulistano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras e um dos mais importantes analistas da vida política do Brasil.

Obras:

Viagens, 1886-1902

Os fastos da ditadura militar no Brasil, 1890

Anulação das liberdades públicas, 1892

A ilusão americana, 1893

III centenário de Anchieta, 1900

Coletâneas, 1904-1906





Os vaqueiros, texto de Ariosto Espinheira

14 08 2012

Boiadeiro, s/d

Zélio Andrezzo (Brasil, 1948)

Óleo sobre tela

O vaqueiro

Ariosto Espinheira

Nos campos de criação de nossa terra vivem homens simples e bons, que cuidam de nossos rebanhos. São os campeiros e os vaqueiros, que moram em cabanas de madeira ou de barro, cobertas de palmas de coqueiros, ou de sapé.

De perneiras, calças largas, guarda-peito, gibão (espécie de casaco curto) e chapéu de couro curtido; cinto de couro donde pende a faca comprida; uma longa vara com ponta de ferro; montados em cavalos pequenos e fortes; pernas descansadas nas pontas dos pés, presos aos estribos de ferro batido; guampa (chifre trabalhado a canivete, preso por uma tira de couro, que serve de copo) e laço, pendurados na sela, os campeiros e os vaqueiros passam os dias, e às vezes as noites, vigiando os animais que pastam.

Se algum animal foge ou se a boiada debanda, os vaqueiros correm velozes, sem ver os perigos, vencendo todos os obstáculos, até cercar e reunir todos os animais.

Viajam, às vezes, dias e dias, conduzindo o gado para os matadouros, onde é morto para fornecer carne e outros produtos às cidades.

Nas horas de descanso, os vaqueiros tocam a viola e a flauta, cantando e fazendo desafios. São homens destemidos, que vivem sem o conforto das cidades, debaixo de sol escaldante, com poucos recursos, trabalhando pela nossa terra.

Em: Criança Brasileira, admissão e 5ª série, Theobaldo Miranda Santos,  Rio de Janeiro, Editora Agir: 1949.