A mulher de vermelho e branco de Contardo Calligaris e a ambiguidade

11 11 2011

O que você vê nesta imagem?

Depois da leitura do excelente romance A mulher de vermelho e branco, de Contardo Calligaris, [ Cia das Letras: 2011] eu gostaria de poder rever meu primeiro professor em teoria da percepção, Antônio Gomes Penna (1917-2010), para dizer, “valeu mestre”, o senhor me preparou para a boa interpretação de texto e das artes visuais.  A  realidade é plural.  É a soma do que vemos e do que não vemos.  Mas, através desses anos, como historiadora da arte, o conhecimento da gestalt raramente se fez óbvio, pelo menos ostensivamente.  A razão é simples: a ênfase tem sido na historiadora e não no teórico das artes visuais.  A  história da cultura ocidental através das artes plásticas e da literatura prevaleceu sobre as teorias da percepção, se isso pode de fato acontecer, porque a  história também está sujeita a interpretações diversas,  não sendo fixa nem sedimentada.  Como tudo mais,  é a soma do que  vemos e do que não vemos.  O romance de Contardo Calligaris é uma fascinante e deliciosa aventura, contagiante e sedutora, no mundo das nossas percepções daquilo que nos rodeia, daquilo que nos afeta e até mesmo da interpretação dos nossos sonhos.

Mas não se enganem, A mulher de vermelho e branco é antes de tudo uma ótima história, contada de maneira simples, direta, sem muitos rodeios literários.  É um quase-thriller.  Digo um quase-thriller porque as aventuras que se desenrolam ao longo do caminho são mais de ordem intelectual.  Até mesmo o perigo é mais potencial do que factual, se bem que tão importante quanto.  Mas há um fio condutor de suspense até a última página, quando temos que reconsiderar tudo o que poderíamos ter imaginado e somá-lo ao que já considerávamos como certo.

A trama se passa em seis meses de 2003 com duas atualizações em 2010 e 2011 e retrata a vida do psicanalista Carlo Antonini, dentro e fora de seu consultório: vida profissional e particular.  São os dois aspectos de sua vida que se entrelaçam: ora o psicanalista, ora o homem comum nos ajudam a construir o enredo.  Seguindo seus passos e suas divagações, considerando os amigos, as conversas e, em particular, uma paciente entramos com ele na difícil arte de interpretar a realidade que se apresenta aos seus olhos.  A mulher de vermelho e branco não deixa de ser um envolvente ensaio prático sobre a ambiguidade, um documento lúdico que demonstra como as condições do observador modificam a importância do que é percebido.  

Nessa narrativa tudo tem muitas faces.  Tudo é a soma de todos os seus componentes tanto os percebidos quanto os que estão distantes do nosso conhecimento: as pessoas têm diferentes nacionalidades, vão e vêm de diferentes países, falam pelo menos duas diferentes línguas com familiaridade.  São famílias com mais de uma identidade, vindas de diversos lugares do mundo.  Duas mulheres, que a princípio parecem diametralmente opostas, ambas com singular dualidade entre seus nomes de batismo e os nomes pelos quais vêm a ser conhecidas, apresentam comportamentos que, por base em um evento, parecem se modificar no inesperado oposto do que haviam sido até então.  Ambas podem ou não ser suspeitas de atos de violência, mas ambas também podem demonstrar fragilidade e doçura. Até mesmo o psicanalista Carlo Antonini que narra o romance, que trafega com familiaridade entre São Paulo, Nova York e Paris, que muda de língua como se muda de roupa, considera a ambivalência do dentro e do fora de seu consultório, de seus motivos e até do que a vida poderia ter sido.  E ainda é confrontado com a ambivalente leitura que faz daqueles que o rodeiam, dos amigos e conhecidos. Não é que a realidade esteja sempre em questionamento na narrativa, é ela que se apresenta camaleonesca, múltipla, facetada e precisa ser ajustada à medida que os personagens dão vazão à fluidez de suas vidas.

Contardo Calligaris

Mais do que um romance, uma aventura ou um thriller,  A mulher de vermelho e branco é um exemplo do trabalho da psicologia cognitiva.  Ele demonstra que a realidade é ambígua, que cada pessoa, fato ou evento pode mudar de acordo com a interpretação que deles fazemos. E, no final, quase somos surpreendidos,  não necessariamente pela trama.  Mas quando consideramos o efeito da ambiguidade em tudo que nos cerca.  Como conseguimos navegar ao longo de nossas vidas sem maiores embates, sem grandes desentendimentos, quando não podemos compreender tudo o que nos cerca?  Parece fantástico, miraculoso até:  se cada um de nós percebe o mundo de maneira tão diferente,  tudo deveria contribuir para um caos ainda maior do que o que enfrentamos, para o oposto da ordem.    Vale a leitura.  Recomendo.





Quadrinha do Dia da República

11 11 2011

Bandeira provisória do Brasil de 1889.

O ideal republicano,

Por todo o Brasil sonhado,

Foi a Quinze de Novembro

Afinal realizado.

(Walter Nieble de Freitas)





Palavras para lembrar — Goethe

10 11 2011

Afrodite, 1910-14

Jeanne Mammen ( Alemanha, 1890-1976)

Desenho [Catálogo Raisoné] WVZ: SB IX/7.

“Um livro é um espelho: quando é um macaco que se olha nele, não pode encará-lo de volta nenhum apóstolo”.

Goethe





Imagem de leitura — Jerry Salinas

10 11 2011

No café, 2008

Jerry Salinas ( EUA, 1967)

50 x 40 cm

Jerry Salinas

Jerry Salinas nasceu em Chicago nos Estados Unidos em 1967.   Começou a estudar pintura no Instituto de Arte de Chicago, passando para a Academia America de Arte onde se graduou em Ilustração e Pintura.   Dedica-se a uma grande variedade de temas assim como a uma grande variedade de técnicas que vão da pintura à arte digital.  Hoje, mora e trabalha em Fênix, Arizona





Quadrinha do primeiro livro

10 11 2011

 

 

Não sou mais analfabeto!

Felizmente já sei ler!

Este meu primeiro livro

Vai-me dar muito prazer!

(Walter Nieble de Freitas)





Quadrinha para a bandeira do Brasil

9 11 2011

Bandeira do Brasil, mosaico.

Pavilhão das quatro cores,

Verde, branca, ouro e anil,

Tu espelhas a grandeza

Do nosso imenso Brasil.

(Walter Nieble de Freitas)





Imagem de leitura — Pablo Picasso

8 11 2011

Homem lendo jornal, 1914

Pablo Picasso ( Espanha, 1881-1973)

desenho, guache e grafite sobre papel, 16 x 13 cm

Museu Nacional Picasso, Paris

Pablo Picasso nasceu em Málaga na Espanha em 1881.  Foi um dos grandes mestres da arte do século XX.  Sua vontade de experimentar de testar seus limites o fizeram um dos mais interessantes artistas visuais de todos os tempos.   Foi um dos “pais” do Cubismo,  pintor, gravador, desenhista, ceramista, escultor,  Faleceu em Mougins, na França em 1973.





Moedas do Império Romano, aos milhares, encontradas na França

8 11 2011

Moedas de 1700 anos atrás, encontradas num milharal

A administração de assuntos culturais da França divulgou uma foto de três ânforas antigas contendo milhares de moedas de bronze, de mais de 1700 anos de idade.  A descoberta de milhares de moedas romanas no campo de L’Isle-Jourdain, perto de Toulouse, no sudoeste da França foi considerada por arqueólogos “ um achado importante, na medida em que não é frequente falar de objetos do tipo desse período“, disse Michel Vaginay ,o responsável regional por descobertas arqueológicas.

Essas moedas, desenterradas e guardadas no final da semana, foram forjadas entre os anos 290 e 310 D.C em Londres, Lyon (atual França), Cartago (atual Tunísia) ou Trier (atual Alemanha). Seriam então da à época em que a França e todos esses outros lugares faziam parte do Império Romano.  Foram encontrada em duas ânforas de 80cm de altura e um outro jarro de aproximadamente a metade desse tamanho.   

Ânforas repletas de moedas do século III d.C.

Os tesouros foram descobertos por dois amantes de arqueologia que já haviam descoberto outras peças romanas nesse mesmo local.  “Nós sabíamos que havia mais por aqui e então, no meio de uma caminhada nos deparamos com essas peças na superfície mesmo do solo”, disse um deles.  Primeiro achamos mais ou menos 250 peças arqueológicas num campo por aqui que havia acabado de ser arado.  Isso nos fez pensar que poderíamos encontrar algo mais por aqui”.  Os dois juraram permanecer no anonimato.

Quando descobriram o tesouro, os dois contataram as autoridades responsáveis que verificaram o achado.  Mas o dono da propriedade pediu que escavações só fossem feitas depois dessa colheita do milho.  A maior preocupação, no entanto, foi manter segredo.  Com a demora das escavações, nenhuma palavra sobre o achado deveria chegar aos jornais para que ladrões e outros caçadores de tesouros não tivessem a idéia de virem ao sítio arqueológico roubar e destruir o que havia sido encontrado.  

Levadas para Toulouse para classificação e estudos de laboratório, essas moedas devem ser examinadas por um período de aproximadamente três a quatro meses.  Depois disso devem poder ser vistas pela população de L’Isle-Jourdain.  Pelo menos é o que promete o prefeito da cidade.  “Esperamos poder expor algumas dessas peças por um longo período.  Mas no momento, o que sabemos ao certo é que os habitantes do cidade poderão ver este achado dentro de poucos meses”.

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Fontes:  Terra, La Depeche





O jumento e o gelo, uma fábula de Leonardo da Vinci

8 11 2011

O jumento e o gelo, ilustração de Adriana Saviossi Mazza.

Mais uma fábula de Leonardo da Vinci.  Quem vem seguindo este blog  já sabe que além de grande pintor, arquiteto e cientista, o gênio da Renascença italiana também ficou conhecido por sua arte de conversar, de contar histórias.  Também escreveu e anotou fábulas e contos populares, lendas e anedotas, organizando-as em volumes diversos.   Algumas dessas lendas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972.  Transcrevo aqui a fábula O jumento e o gelo do volume de Leonardo chamado: Fábulas, Atl. 67 v.b.)  Em: Fábulas e lendas, Leonardo da Vinci, São Paulo, Círculo do Livro: 1972, p.34.

A fábula de hoje, tem uma moral conhecida nossa, sabedoria popular, vinda da tradição latina através de Portugal: Quem avisa amigo é.

O jumento e o gelo

Era uma vez um jumento que estava muito cansado e sentiu-se sem forças para ir até o estábulo.

Isso aconteceu no inverno, e fazia muito frio.  Todas as ruas estavam cobertas de gelo.

— Vou ficar aqui, disse o jumento, deitando-se no chão.

Um pequeno pardal voou para junto dele e murmurou-lhe ao ouvido:

— Jumento, você não está na rua, mas sim sobre um lago congelado.  Seja prudente!

O jumento estava cansado.  Não tomou conhecimento do aviso.  Bocejou e adormeceu.

O calor de seu corpo começou aos poucos a derreter o gelo, que, finalmente, estalou e partiu-se.

Ao ver-se dentro d’água, o jumento acordou aterrorizado.  E enquanto nadava na água gelada, arrependeu-se por não ter ouvido o conselho do pardal amigo.

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Nesse blog temos também:

A Raposa e a pega, de Leonardo da Vinci.





Quadrinha do lugar do lixo

8 11 2011

Margarida põe o lixo no cesto, ilustração Walt Disney.

Há, nas ruas da cidade,

Recipientes apropriados,

Onde as cascas e os papéis

Devem ser depositados.

(Walter Nieble de Freitas)