Imagem de leitura — Aubrey Beardsley

19 02 2012

Pierrô na biblioteca, 1896

Desenho para a série “Pierrot’s Library” [ A biblioteca de Pierrô]
Aubrey Beardsley (Inglaterra, 1872-1898)





O carnaval carioca, texto de Gilberto Amado

19 02 2012

Baile de Carnaval, c. 1930

Bigio Gerardenghi (Itália, 1876 -Brasil, 1957)

óleo sobre tela, 54 x 75 cm

Carnaval

Gilberto Amado

…………

É que os jornais e o povo estavam preocupados com uma questão grave; não a falta de água, que esta há de por fim jorrar da discussão dos competentes; não do famigerado caso do Conselho, não de outros casos mais ou menos contundentes, mas de uma questão em que se empenha o carioca com todas as forças de sua alma — o carnaval.

De fato, o carioca não podia pensar em outra coisa, ter entusiasmos ou entregar-se mesmo ao curso normal de suas impressões no momento angustioso em que lhe ameaçam extinguir a tradição  mais profunda da cidade, a mais original e querida de todas.

O carioca é um ser resignado que vive aos 36º de temperatura, que suporta a poeira da Light, que perde dez horas, pacientemente em qualquer repartição pública onde tem caído um requerimento, que vai ali ao correio da Avenida Central por uma carta e gasta três horas a esperar que Deus o ajude com um selo, que não há jeito de receber um telegrama com menos de doze horas de atraso; que de improviso pode ser bombardeado pelo João Cândido ou por outros, que é servido por criados, cocheiros, choferes que vêm diretamente da Galiza, que agüenta todas as carestias do regime protecionista, que vai ao Lírico neste verão, que não tem água suficiente enquanto as montanhas túmidas a ofertam, que vive contente com todos os governos, que não é anarquista, que respeita a sistematização das classes, que não tem “reivindicações” a fazer; o carioca é, enfim, o ser mais paciente, mais tolerante, mais resignado do mundo.

Carnaval, 2003

Juarez Machado (Brasil, 1941)

pastel sobre papel, 70 x 100 cm

Tudo ele sofre com a serenidade bíblica que Deus lhe deu; mas o carioca tem um ponto fraco, um Nogli me Tangere muito sensível. É o carnaval.  São estes três dias vadios, em que ele pode despicar-se das angústias do ano inteiro; em que pode embebedar-se sem que o aviltem de ébrio; e que pode desprumar-se da sua elegância postiça sem que Figueiredo Pimentel o reprimenda; em que pode saltar, gritar, gesticular, sem que o achem desgracioso e ridículo; em que pode amar a descoberta e dissimular no eufemismo nas bisnagas apalpadelas gostosas sem conseqüências policiais ou outras, e ainda é nesses dias que ele pode dizer, posto de que leve, com a valentia efêmera dos fracos, algumas verdades que todos sentem durante o ano, mas que ninguém tem a coragem de dizer.  Só no intervalo vadio desses dias ele pode manifestar a sua alma folgazã, e todo o seu fogo  meridional, que se concentra durante o ano, parece só nessas horas fugazes expandir-se.

O carnaval entre nós deixa de ser assim a festa pagã que o cristianismo não estragou de todo – em que resta alguma vivacidade e algumas alegrias dionisíacas – para ser mais do que tudo isto: uma tradição venerável, uma festividade adorada, um hábito da sociedade que yem a significação de um desafogo na existência árida do brasileiro, que vive sem comodidade, sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma.

Eu, de mim, sou insuspeito, porque não morro de amores por Colombina, tanto que uso fugir discretamente da cidade para a ver de longe ou para a não ver.

Mas a multidão pensa de outro modo, e ela tem mais direitos do que qualquer um de nós, pois que ela é que sofre mais e é ela que durante os meses do ano, penando, ansiando, fazendo sacrifícios, vai acumulando economias para o carnaval, para o fazer brilhante, como uma noiva que reúne com esforço todo cabedal para a festa do casamento. Pode até dizer-se que o carnaval é a festa nupcial da população do Rio, o período em que ela se casa com a Alegria, de que anda sempre divorciada com a sua fisionomia sorumbática, com a sua gravidade, oh! a hedionda mazorrice de povo cansado, que não tem capacidade nervosa para o prazer.

Porta-bandeira, s/d

Menase Vaidegorn ( 1927)

óleo sobre tela

E foram esses boatos de que iam proibir o carnaval – que a tanto importava o catolizá-lo – que deu preocupação e tão graves nuvens carregou no sobrolho do carioca.

Felizmente, esses boatos são mentirosos.  Nem o Presidente da República quis negar a subvenção anual do estado, que é uma norma e um dever até porque corresponde a um hábito da população que vive empobrecendo para enriquecer o estado, nem o Sr. Chefe de Polícia pretende, como tão levianamente se propalou, converter Pierrô à igreja e o constranger a trocar as suas vestes frívolas pelo balandrau respeitável e obrigá-lo ao uso de óculos pretos, barbas negras, e a andar pela rua lento, conselheiral, com o passo de um senador antigo.

O Sr. Chefe de Polícia, como bom católico, não gosta de malandrices, mas também não deseja mal a esse pobre Pierrô, coitadito, que é quase um anjo do Céu, um ingênuo com a sua face branca e a sua jovialidade infantil…

Felizmente, os desmentidos são claros, positivos.  Desfizeram-se os boatos.  O carnaval continuará pagão; aparecerão os préstitos fulgurantes e o carioca, rejubilado desde ontem e de hoje à noite no regozijo da certeza de que o deixarão em paz, aí estará pela rua a zabumbar, a zaragalhar, a pintar o diabo.

E tu, Pierrô, desanuvia a fronte, trincoleja os seus guizos, sarabandeia, que dessa vez ainda serás rei.


Em: A chave de Salomão e outros escritos, Gilberto Amado, Rio de Janeiro, José Olympio:1971, [Coleção Sagarana] – texto originalmente publicado em 1910 chamado de A aviação e o carnaval.  Esta é asegunda parte do ensaio mencionado.





Imagem de leitura — Thomas Couture

18 02 2012

Pierrô, o político, 1857

Thomas Couture (França, 1815-1879 )

óleo sobre tela

Thomas Couture nasceu em Senlis , Oise , França . Aos 11 anos, a família de Thomas Couture se mudou para Paris. Lá  ele estudou na Escola de Artes e Ofícios e depois na Escola de Belas Artes .  Em 1840, começou a apresentar pinturas históricas e de gênero no Salão de Paris, ganhando várias medalhas por suas obras. Couture abriu um ateliê independente  competindo com a Escola de Belas Artes, onde teve grande sucesso obtendo a atenção de alunos de qualidade. Foi professor de Édouard Manet , Henri Fantin-Latour , La Farge John , Pierre Puvis de Chavannes , Karel Javůrek e JN Sylvestre . Morreu em 1879.





O carnaval carioca, texto de Gastão Cruls

18 02 2012

Carruagens perfiladas na Batalha de Confete do Carnaval de 1907,  organizada pelo jornal Gazeta de Notícias, na  Avenida Beira-Mar, Rio de Janeiro.  Foto sem indicação de autor, Revista Kósmos, fevereiro de 1907.

Carnaval

Gastão Cruls

Embora o entrudo seja da mais remota tradição portuguesa, o carnaval com mascarada de rosto encoberto ou fantasias grotescas ou vistosas, só o tivemos aqui em meados do século passado. [século XIX] O entrudo teria sido trazido dos Açores e outras ilhas, onde essa brincadeira era de hábito, e certamente fora presenciada pelos navegantes que demandavam às Índias.  Apesar de tudo, ainda que tolerado, não era abertamente permitido, e uma vez ou outra lá apareciam alvarás e avisos, condenando-o. Não obstante, praticou-se sempre, a baldes d’água e esguichos, com limões de cera e bisnagas de estanho, e até os nossos imperadores dele gostavam muito.  D. Pedro II, na meninice, jogou-o bastante na Quinta, entre as irmãs e pessoas amigas.

Contra o carnaval, porém, com máscaras e disfarces, muito mais rigorosas eram as autoridades. Ordenações frequentes culminavam castigos severos e multas pesadas aos infratores das suas disposições. Em 1685, o governador Duarte Teixeira Chaves publicava um bando contra os que fossem encontrados emascarados e pela qual se ameaçavam os brancos de degredo na nova colônia do Sacramento e os pretos e mulatos de surra pública de chicote.

Carnaval na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco no centro da cidade do Rio de Janeiro, 1907.  Sem autoria, em: Kósmos, revista artística, científica e literária, Ano IV, número 2, Fevereiro de 1907, Rio de Janeiro.

Mas o desenvolvimento da metrópole e os hábitos europeus para aqui transplantados no Oitocentos, foram amainando, pouco a pouco, os dispositivos draconianos a esse respeito.   Assim, em 1846, por iniciativa da atriz Clara del Mastro, pode realizar-se, no Teatro S. Januário,  o primeiro baile à fantasia. Sucederam-se outros, como aqueles promovidos pela colônia francesa e por algumas sociedades privadas. Houve também um que inaugurou o Teatro Provisório, em 1852.  Incitando essas festas, alguns anos depois o Alcazar Lyric instituía um valioso prêmio para a modista que fizesse a fantasia mais bonita e original.  E nesse gênero de confecções muito se distinguiu a francesa a Mme Nioby, estabelecida à rua do Ouvidor.

Mais ou menos pelo mesmo tempo, apareceram os primeiros préstitos carnavalescos. Sociedades já existentes, mas que até ali se divertiam de portas pra dentro, resolveram, nos dias consagrados a Momo, trazer para a rua a sua alegria, organizando passeatas com guarda de honra e carros enfeitados. Iniciou-as a que se chamava Sumidades Carnavalescas, que, aliás, reunia a melhor gente. Em 1855, a convite de José de Alencar, Pinheiro Guimarães, Manuel Antônio de Almeida, e outros que dela participavam, D. Pedro II desceu especialmente de S. Cristóvão para assistir-lhe a passagem, das janelas do paço da cidade.  O triunfo alcançado pelas sumidades fomentou novas ambições e sucessivamente foram surgindo e também morrendo, a União Veneziana, os Zuavos, o Congresso das Damas e a Boêmia, precursores das nossas Democráticos, Fenianos e Tenentes do Diabo.

Ilustração, Revista Kosmos, 1907, sem indicação de autor.

Edouard Manet, o grande pintor francês, mas então um modesto rapazinho que em curso de marinhagem em 1849, a bordo do navio escola Hâvre e Guadaloupe, passou algumas semanas entre nós, em carta à mãe, transmite as suas impressões do carnaval no Rio.  Fala nas brasileiras que se postavam à porta ou à janela de suas casas para atirarem nos transeuntes “bombas de cera de todas cores, cheias d’água, e que aqui chamam limons”.  Ele mesmo tomou parte na brincadeira.  Vítima de vários ataques, viu-se na obrigação de revidá-los e, ao fim da tarde, também distribuía limões para um lado e outro. Participou ainda de um baile à fantasia, que lhe lembrou os da Ópera, de Paris.

O carnaval, festa tão de gosto do carioca e durante a qual tanto se expandia a alma coletiva da cidade – falo no passado porque, de uns anos para cá, por uma série de motivos, é patente o seu declínio, pelo menos como manifestação popular –, o carnaval dizemos nós, também sofre os caprichos da moda.  Das fantasia que fizeram época e que pululavam nas nossas ruas durante os três dias de folia, hoje ninguém mais fala.  É verdade que algumas foram condenadas pela polícia.  Outras, porém, morreram de morte natural.  Se temos os diabinhos, os burros-doutores, o Pai-João, o Velho, o Morcego, a Morte, o Princês, o Mandarim e o Rajá.  Os dominós, já não tinham razão de ser, depois que foi vedado o uso das máscaras.  Índios também rarearam, pelo menos aqueles de apito à boca e penas de espanador à cintura, que faziam letras na frente dos cordões. Em compensação a cidade encheu-se de apaches e gigoletes, pierrôs e colombinas, de malandros e de baianas, e muito homem se meteu em saias e muita mulher enfiou calça.

Foto: www.muraldenoticias.com.br

Desapareceram os cri-cris e as línguas-de-sogra substituídos pelo reco-reco e a cuíca. O jorro frouxo da bisnaga de cheiro recuou diante do jato fino do lança-perfume, — aquele lança-perfume que no dizer rebuscado de Alberto Faria, o das Aérides, é “etérea língua de Áspide Aromal, a por subtâneos arrepios no colo de sedutoras Cleópatras ou de castas Lindóias”.

O Zé-Pereira já não azucrina mais ou ouvidos de ninguém.  Abafaram-no as marchinhas e os sambas.  Segundo Vieira Fazenda, que ainda o conheceu, quem primeiro trouxe para a rua, em grande algazarra, o zabumba dos bombos e o rufo dos tambores, foi um sapateiro português, que tinha oficina na rua S. José e era um folião de marca.

O nome Zé-Pereira explicar-se-ia de dois modos: ou porque o bombo assim designassem em Portugal; ou porque houvessem alterado de Nogueira para Pereira um dos nomes do inventor.  O homem chamava-se José Nogueira de Azevedo.

Ângelo Agostini, O entrudo, rua do Ouvidor, 1884 [DETALHE]

Até os préstitos das sociedades carnavalescas também muito perderam do seu prestígio. Onde aquelas tardes triunfais de terça-feira gorda em que o sonido ainda apagado dos clarins ou um vago clarão de fogos de bengala ao longe anunciavam a entrada na rua do Ouvidor ou na rua Uruguaiana da fantasmagoria ofuscante que era a passagem dos Democráticos ou dos Tenentes? Sumiram-se, por completo, os carros de crítica.  Provavelmente porque governos perfeitos demais, já não dão motivo a censuras.  Até os carros alegóricos perderam aquele fascínio antigo, quando aos olhos do populacho eram como páramos encantados e jardins edênicos. Templos gregos e pagodes chineses. Divindades olímpicas e sereias do reino de Anfitrite.  Árvore vergando ao peso de mulheres quase nuas.  Rosas que se abriam para mostrar borboletas de peito farto e coxas roliças.  Ninfas bem afrescata que fugiam ao abraço de algum fauno. Bacantes de carnadura provocante equilibradas na borda de uma taça…  Para todas essas criaturas, tiradas quase sempre ao meretrício barato, esse dia do desfile era um dia de glória, o dia da consagração definitiva.  E havia razão para isto.  Ao Zé-povinho que se extasiava à beira das calçadas, dando-lhes palmas em troca dos beijos que elas distribuíam para um lado e outro, todas se afigurariam beldades alucinantes ou huris de um paraíso inaccessível.

Não suponha o leitor que, elogiando esses préstitos de antanho, lhes emprestemos qualquer qualidade artística ou mera manifestação de bom gosto. Longe disso.  Oxalá pudéssemos ter tido aqui alguns carnavais da Florença dos Médicis, quando o próprio Lourenço o Magnífico trabalhava o verso das canções populares e artistas como Andrea del Sarto e Cronaca se encarregavam de planejar os arcos triunfais e modelar a máscara dos foliões. A passeata das nossas Sociedades perdeu muito do seu esplendor fictício – mas ainda assim esplendor – porque outra é a cidade de ruas largas e claras, à noite sob a fulguração dos anúncios a gás neon, e outra é a mentalidade de sua população, agora de olhos permanentemente abertos para o grande mundo, através das visões cinematográficas.

Em: A aparência do Rio de Janeiro, Gastão Cruls, Rio de Janeiro, José Olympio: 1949 [Coleção Documentos Brasileiros], volume 2.pp. 405-410.





Imagem de leitura — Dan Beck

17 02 2012

Lendo, 2009

Dan Beck (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 50 x 40 cm

www.danbeckart.com





Fevereiro, a sedução do Carnaval (III)

17 02 2012

Moça num baile de máscaras, s/d

F. R. Harper  (EUA, 1876-1948)

[Frank Robert Harper]





Palavras para lembrar — Kenko Yoshida

17 02 2012

O leitor

Bill Root, conhecido como “Brootip” ( EUA)

“Sentar sob a luz de um abajur com um livro aberto à nossa frente, e ter uma conversa íntima com homens de outras gerações — este é um prazer sem comparação.”

Kenko Yoshida





Quadrinha do café da manhã

17 02 2012

Café da manhã, 1950

Edna Wolf Henner Mashgan (EUA 1907-2001)

óleo sobre tela

Além do café com leite,

Manteiga, ovos e pão,

Coma também uma fruta

Na primeira refeição.

(Walter Nieble de Freitas)





Imagem de leitura — Anthonie Pietsser Schotel

16 02 2012

Lendo na praia, s/d

Anthonie Pietsser Schotel (Holanda, 1890-1958)

óleo sobre tela colado sobre madeira, 37 x 31 cm

Coleção Particular

Anthonie Pietsser Schotel nasceu em Dordrech, Holanda en 1890.  Vindode uma família de pintores de marinhas, desde cedo mostrou habilidade para a pintura.  Foi aluno de Hermanus Gunneweg.  Em 1915, aos 25 anos de idade, abriu um ateliê.  Num período de dez anos dedicou-se exclusivamente às pinturas de cenas marítimas próximas de casa, viajando pouco  para lugares bastante próximos.  Por trinta anos — de 1929 a 1958 — residiu em Laren.  Sua especialidade eram marinhas, lagos e cenas de rios.  Ficou muito famoso desde cedo em sua carreira, conhecido inicialmente pelos diversos tons de cinzas que conseguia em suas telas.  Mais tarde, introduziu cores nas suas obras, principalmente naquelas feitas em pastel.  Morreu em setembro de 1958.

 





Fevereiro, a sedução do Carnaval (II)

16 02 2012

O baile do Opéra, 1886

Henri Gervex (França, 1852-1929)

óleo sobre tela