13 de junho: Santo Antônio

13 06 2025

Santo Antônio, 1983

Sebastião Januário (Brasil, 1939)

óleo sobre tela – 60 alt x 50 cm

 





Trova dos namorados

12 06 2025
Ilustração anos 50

 

 

Em teus braços aninhada,

tenho, ao alcance da mão,

toda uma noite estrelada,

todo o sol no coração.

 

(Colombina)

 





Imagem de leitura: Fabio Cipolla

12 06 2025

Uma leitura divertida

Fabio Cipolla (Itália, 1852-1935?)

óleo sobre tela, 28 x 54 cm

Coleção Particular





Resenha: “A contagem dos sonhos”, Chimamanda Ngozi Adichie

11 06 2025
ilustração por IA.

 

 

Este é o quarto livro de Chimamanda Ngozi Adichie que leio.  Como outros leitores que gostam de sua escrita esperei dez anos para essa nova produção.  Finalmente A contagem dos sonhos veio, trabalho pós pandemia, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia Romeu.  É óbvio que não há falta de assunto para a autora, nunca houve, por tudo que já li dela, Chimamanda continua loquaz na sua escrita. 

A sensação que tive é que após alguns anos sem publicar, a autora tinha muito, muito mesmo, a dizer sobre mulheres e seus sonhos.  O livro é extenso.  Sinto que poderia ser dividido em dois excelentes romances com diferentes diretrizes.  Isso porque ele relata desejos, sonhos e o cotidiano de quatro mulheres que lutam para se realizar economicamente, profissionalmente, além de preencherem seus destinos de esposas, amantes, mães e filhas.  Não é um conjunto fácil de tarefas a concretizar.  Essa luta, a persistência na busca, a procura do preenchimento do sonho é a coluna dorsal da obra. Ela trata das expectativas frustradas, dos obstáculos do dia a dia, e mostra a quase impossível ideia de casar sonho com realidade.  

 

 

Não falta vontade, perseverança, educação ou dinheiro a três dessas mulheres: Chiamaka, Zicora e Omelogor, as três nigerianas.  O caso de Kadiatou já é diferente desde de seu nascimento.  Outra obra deveria ser escrita para ela. Originária da Guiné ela se faz adulta dentro  dos ditames  da educação muçulmana.  Traz consigo os limites de seu papel social que diferem daqueles das outras três personagens, quando emigra, acaba sofrendo consequências traumáticas pelas quais não é responsável. 

As quatro mulheres são apresentadas em sequência, e têm suas vidas levemente entrelaçadas. Chiamaka abre a narrativa. Ela é escritora-jornalista especializada em escrever colunas para revistas de viagem, vem de família rica, emigra para os EUA, não tem problemas financeiros e é apoiada pelos pais, mas não consegue encontrar um parceiro de vida adequado.  Zikora, a segunda que conhecemos, é amiga de Chiamaka e pode até ter sido apresentada ao leitor anteriormente, já que sua história apareceu como um conto independente, em 2020, Zikora, pela Amazon Original Stories.  Lá, é personagem principal.  Aqui, a mesma história: advogada de sucesso em Washington DC, que se vê igualmente lograda na escolha de um companheiro de vida. Quando engravida é deixada de lado pelo homem que ama. Foi durante o parto e nos dias subsequentes que conseguiu perceber as dificuldades que sua mãe teve, e consegue reconciliar seu desejo com o que sua mãe imagina para ela e o neto. Omelogor, é prima de Chiamaka, mas as duas não poderiam ser mais diferentes. Ela também se muda para os Estados Unidos para estudar. Tem muito sucesso no campo das finanças.  Mostra também seu lado de defensora das mulheres quando dá conselhos para homens, incentivando-os a agir de maneira mais ‘civilizada’ em seu blog.  Entra em controvérsias, mas é autêntica.  Das três nigerianas, ela é a personagem mais  tridimensional, suas faltas, pecados, erros de julgamento a fazem uma pessoa completa.  Talvez seja a mais interessante das nigerianas.

 

Chimamanda Ngozi Adichie

Finalmente, na sequência, temos a história de Kadiatou, comovente, triste, de grande poder dramático.  Sua relação com as outras mulheres retratadas é que ela foi empregada de Chiamaka, e vai para os EUA, asilada, procurando uma vida melhor para sua filha.  Essa história, completamente diferente das outras, até mesmo no tom, lembra um caso real que chegou às manchetes dos jornais por volta de 2011, quando de uma camareira de hotel foi abusada por um homem de negócios de alto nível, em Nova York. Para mim, essa história deveria ser um livro à parte.  Principalmente porque na seção final quando voltamos a saber de Chiamaka — cujo relato fecha o livro — percebemos ainda com maior precisão a diferença de tom usado nas três primeiras narrativas, e a dela.  E também os problemas que afetam Kadiatou serem de muito maior grandeza do que os enfrentados pelas outras.

O que as une é a constante procura do amor e da felicidade. Todas acabam frustradas pelos homens que escolhem, pelas escolhas que fazem ou pelas pressões sociais.  Com esse perfil fica óbvio que Chimamanda Ngozi Adichie continua dando voz às frustrações das mulheres que lutam contra o machismo, o racismo e desigualdades sociais. Tudo dentro do tradicional perfil de suas obras, que conquistaram, a cada publicação, milhares de leitores devotos. Mas neste livro acredito que ela poderia ter sido mais sucinta.  O livro é longo. E se arrasta em algumas passagens.  Para mim, sua melhor obra até hoje, mais redonda, mais completa, é Meio Sol Amarelo, narrativa de grande impacto.  Se você nunca leu Chimamanda Ngozi Adichie, recomendo que comece com Hibisco Roxo, o mais leve e mais direto de seus romances. Mas recomendo A contagem dos sonhos com as restrições mencionadas acima.

De cinco estrelas, no máximo eu lhe daria entre três e quatro.  Mas não há meios pontos nesse jogo.  Fico com quatro, em admiração por todo trabalho dessa escritora. 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

11 06 2025

Pecado original, 2001

Júlio Passos (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 70 x 120 cm

 

Morango, 1998

Renato Meziat (Brasil, 1952)

óleo sobre tela, 100×100 cm





Eu, pintora: Louise Abbéma

10 06 2025

Autorretrato, c. 1900

Louise Abbéma (França, 1853-1927)

óleo sobre tela





Aurora Boreal, poema de Antonio Gedeão

10 06 2025
Ilustração, Thomas Crane

 

 

Aurora boreal

 

Antonio Gedeão

 

Tenho quarenta janelas

nas paredes do meu quarto.

Sem vidros nem bambinelas

posso ver através delas

o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,

por outra a luz do luar,

por outra a luz das estrelas

que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea

como um vapor de algodão,

por aquela a luz dos homens,

pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,

pela menor a certeza,

pela da frente a beleza

que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança

de quatro lados iguais,

quatro arestas, quatro vértices,

quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,

que as vigias são redondas,

e o sonho afaga e embala

à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,

por aquela entra a saudade,

e o desejo, e a humildade,

e o silêncio, e a surpresa,

e o amor dos homens, e o tédio,

e o medo, e a melancolia,

e essa fome sem remédio

a que se chama poesia,

e a inocência, e a bondade,

e a dor própria, e a dor alheia,

e a paixão que se incendeia,

e a viuvez, e a piedade,

e o grande pássaro branco,

e o grande pássaro negro

que se olham obliquamente,

arrepiados de medo,

todos os risos e choros,

todas as fomes e sedes,

tudo alonga a sua sombra

nas minhas quatro paredes.

 

Oh janelas do meu quarto,

quem vos pudesse rasgar!

Com tanta janela aberta

falta-me a luz e o ar.

 

 

 

António Gedeão, Obra Poética, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 2001





A morte de Roland, ou a Canção de Roland

10 06 2025

Batalha de Roncesvales, em 778: morte de Roland. c. 1455-1460

Jean Fouquet (França, ? – 1481)

Iluminura das Grandes Crônicas da França

Biblioteca Nacional da França, Paris

 

 

A Canção de Roland é um poema do século XI, talvez a mais antiga canção épica, que dá início à literatura francesa, mesmo tendo sido, na sua forma original, escrita em uma língua românica.  A obra inspirou muitas outras criações sobre a França e circulou por toda a Europa.  Ela narra a morte heroica de Roland, no campo de batalha de Roncesvales.  A batalha aconteceu no dia 15 de agosto de 778, e Roland, que era sobrinho de Carlos Magno, comandava o exército da retaguarda, formado pelos Doze Pares de França, um grupo lendário de cavaleiros associados a Carlos Magno.  Na tropa liderada por Roland os cavaleiros são: Roland, Olivier, Gérin, Gérier, Bérenger, Otto, Samson, Engelier, Ivon, Ivory, Anséïs e Girart de Roussillon.  Mas em outros poemas e lendas da época, esses cavaleiros poderiam ser outros.  Como há muitas versões da Canção de Roland, todas em manuscritos que deram por sua vez origem a outras tantas lendas, é difícil de precisar exatamente quem fazia parte desse exército ou aqueles cuja existência são pura lenda. 

Roland morreu numa batalha na região basca da França.  A tropa vinha da Península Ibérica onde lutava contra os sarracenos.  Dependendo da versão os autores do massacre de Roncesvales, podem ser tanto bascos quanto muçulmanos.  Sabe-se que essa batalha realmente ocorreu, está historicamente comprovada e em espírito pertence ao contexto das Cruzadas e da Reconquista cristã da Península Ibérica. 

 

A morte de Roland, 1462

Iluminura em de manuscrito

Autor desconhecido

Bruges, Flandres [Bélgica]

 

 

Uma coisa interessante é que a Canção de Roland teve grande popularidade no Brasil no século XIX. Isso graças a um livro de um médico português, Jerónimo de Moreira Carvalho, que escreveu em 1737, portanto no século XVIII, uma continuação da Canção de Roland: Segunda parte da História do Imperador Carlos Magno e dos doze pares de França. Esse romance de cavalaria se tornou leitura de grande sucesso no Brasil do século XIX.  Aliás, esse é um de dois portugueses que escreveram uma continuação de história de Carlos Magno.  O outro,  História nova do Imperador Carlos Magno, e dos doze pares de França de José Alberto Rodrigues, impressa em Lisboa em 1742.  Essa no entanto, não foi popular no Brasil. 

 

 





Nossas cidades: Itanhaém

10 06 2025

Vista de Itanhaém, 1911

Emídio de Souza (Brasil, 1868-1949)

óleo sobre tela colado em eucatex, 29 x 49 cm





Julian Barnes lista seis livros favoritos

9 06 2025
ilustração Laurence Fellows

 

 

O escritor inglês e vencedor do Man Booker Prize em 2011, com o livro O sentido de um fim, deu à revista The Week, uma pequena lista de seus livros favoritos.  Foi uma lista diferente da que eu imaginaria, mas são obras muito boas.

1 – A viúva Couderc, George Simenon.  Infelizmente não encontrei a tradução para o português.  Foi publicado em 1942.  “Todos os anos, Simenon se irritava com aqueles “idiotas” de Estocolmo que  ainda não lhe haviam dado o Nobel de literatura.  Na época eu achava aquilo muito louco; agora acho bastante apropriado.  Seus romances duros são poucos e rigorosos, demonstrando profundo conhecimento da natureza humana.  Este é um dos melhores.”

2 – Rapazes de zinco de Svetlana Alexievich, publicado em 1989. “Alexievich ganhou o Nobel, como deveris, em 2015, por suas histórias polifônicas retratando o final do Comunismo Soviético.  Rapazes de zinco retrata as experiências terríveis dos soldados sovi[eticos no Afganistão.”

3 – O início da primavera [The beginning of Spring], Penelope Fitzgerald, publicado em 1988.  Não encontrei tradução para o português, mas achei em espanhol, inglês e italiano. “A história se passa na Rússia pré-revolucionária. Esse é o melhor das quatro grandes obras de Fitzgerald.  Irônico, inadequado, sábio, e terno ao mostrar os incompetentes. A obra de Fitzgerald tem uma graça moral que permanecerá e sobreviverá às obras mais espalhafatosas da nossa época.

4 – Persuasão, Jane Austen, publicado em 1817. Os meus três romances favoritos do século dezenove foram escritos por mulheres. Middlemarch Jane Eyre  são os outros dois.  Persuasão é o último romance de Austen, sombrio, irônico e intenso.  Imagine que mais ela poderia ter escrito se não tivesse morrido aos 41 anos. 

5 – Amours de voyage, de Arthur Hugh Clough, publicado em 1849.  “Um longo poema e também um pequeno romance — sobre amor, dúvida e viagem; sobre perder a chances oferecidas, sobre não entender o momento, analisar demais e covardia moral. Clough é contemplativo, argumentativo,  inteligente e extremamente moderno.

6 – Ethan Fromme, Edith Whaton, publicado em 1911.  “Wharton disse que “para escrever esse livro eu trouxe grande alegria e total conforto”.  Com a maioria das edições tendo próximo de 100 páginas, o livro combina a densidade de uma novelaem carater e tema com a simplicidade e força de um conto. Como muitos de seus livros, uma tragédia, para uma época não trágica. E ela escreveu o original em francês!

NOTA:  Você encontrará minha resenha sobre O sentido de um fim de Julian Barnes aqui neste blog.  Julian Barnes é um dos meus escritores favoritos.  Preparo nesse momento a lista do livros de mais gostei nesses primeiros 25 anos do século XXI e tenho dois livros de Barnes na minha lista.