Minutos de sabedoria: Ralph Waldo Emerson

23 05 2020

 

 

Charles Courtney CurranUm canto confortável, 1887

Charles Courtney Curran (EUA, 1861–1942)

óleo sobre tela,  22 x 30 cm

 

 

“Nada é rico senão a inexaurível riqueza da Natureza. Ela mostra apenas a superfície, mas tem a profundidade de um milhão de metros.”

 

Ralph Waldo Emerson

 

emersonRalph Waldo Emerson (1803 – 1882)

 





Meu amor pela leitura, texto de Maria Helena Cardoso

23 05 2020

 

 

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)ww.lukemartineau.com,óleo s tel,Ollie-Imogen-and-Tati-oil-on-canvas-24-by-38-ins-2013-680x429Ollie, Imogen e Tati, 2013

Luke Martineau (Inglaterra, 1970)

óleo sobre tela, 60 x 96 cm

http://www.lukemartineau.com

 

“Os anos da Rua Paraíba, 214 marcam um período intenso na minha vida.  Meu amor pela leitura era tal que chegava a descurar dos estudos para me dedicar aos romances. Burlava com a maior facilidade a fiscalização de mamãe, que nesse ponto era bastante severa. Assim que me apanhei lendo em francês, nem ela nem meus irmãos (que só vieram a ler nessa língua algum tempo depois), puderam controlar minhas leituras.  Após as aulas, aos domingos e feriados, passava inteiramente entregue à minha paixão: lia tudo que me caía sob os olhos, não havendo nada que me interessasse tanto, nem cinema, nem festas, nada. Os meus estudos de inglês, muito me serviam nesse particular. Tinha um professor que preferia conversar com mamãe sobre jardinagem e galinhas, sendo suas aulas de meia hora, no máximo, com exceção de quando papai se achava em casa. Para mamãe, entretanto, inglês era a matéria de que eu mais gostava e à qual mais me dedicava, isto não só porque o professor nos ajudava a tapeá-la, falando conosco na sua presença, aquelas frases de principiantes:”What is this?“, “Where is the door?”, “How are you?“, “What is the matter with you?” e outras da mesma categoria, como também entre os compêndios adotados por ele havia um, o Inglês sem Mestre, que me auxiliava a mistificá-la.  Era um livro de tamanho bem maior do que o comum de estudo, capa dura, marrom. Metia dentro o romance que lia no momento e passava o dia com ele aberto ostensivamente, fingindo que preparava as lições para o dia seguinte. À noite, enquanto ela conversava com as irmãs, sentadas ao redor da mesa da sala de jantar, lá estava eu, absorta no estudo, pensava ela. De vez em quando, porém, reclamava:

— Helena, não sei que estudo é esse seu, ouvindo conversa ao mesmo tempo, assim não pode aprender.

Não respondia nada, mergulhada que estava na leitura apaixonante, de onde nem um tiro de canhão me arrancaria.  Quando, porém, as reclamações se amiudavam muito, abandonava a sala, indo para o meu quarto.

Dias havia, entretanto, em que, receosa de que acabasse desconfiando da minha grande dedicação ao estudo de inglês, mudava de tática.  Despedia-me dizendo que ia à casa de vovó, trancava a porta do meu quarto (cada um de nós tinha o seu naquele casarão), saindo pela porta da frente. Assim que transpunha o portão de ferro, parava uns passos adiante e, depois de alguns minutos de espera, voltava de manso, inspecionando o corredor da entrada para ver se tinha alguém e, se não, entrava rápida, pulava a janela do meu quarto, que deixara aberta de propósito. Metia-me debaixo da cama e ali passava o dia lendo romances, na maior felicidade, apesar dos sobressaltos e a despeito da posição incômoda, deitada de costas. De vez em quando, mamãe, na sua faina de dona de casa caprichosa, vinha varrer e catar as folhas secas que poderiam ter caído nos vasos de begônia que se alinhavam ao longo da entrada.

 

7_Henri_Lebasque_(French_artist,_1865-1937)_Girl_with_Flowers_1909Menina com livro, 1909

Henri Lebasque (França, 1865 – 1937)

óleo sobre tela

 

Ouvia, com o coração batendo, o ruído dos seus chinelos, pra lá pra cá, a vassoura de palha varrendo, louca de medo que me descobrisse. Mas nunca acontecia: continuava seu trabalho, longe de suspeitar que me achava ali bem perto. As horas passavam na maior rapidez e eu lia, lia, completamente esquecida do mundo e da realidade, vivendo apenas aquilo que o livro contava.

À hora do jantar saía de debaixo da cama, pulava de novo a janela e entrava pela porta da frente como se estivesse chegando naquele momento da casa de vovó. Deitada debaixo da cama, com luz insuficiente, os braços cansados de manter o livro à altura dos olhos, lia toda uma enfiada de livros a mais disparatada possível: Capitain, Pardaillan, Fausta Vencida de Miguel Zevacco, O Piano de ClaraO Violino do Diabo, Anjos da Terra, de Perez Escrich, Memórias de um Médico, Visconde de Bragelone, Vinte Anos Depois, Conde de Montecristo, de Alexandre Dumas, quase tudo de Júlio Verne, todos os fascículos de Sherlock Holmes, Nick Carter e Arsène Lupin e os primeiros romances de Paul Bourget, em grande moda da Bibliotèque de Ma Fille, a Filha do Diretor do Circo, que me pôs triste muitos dias, tudo misturado com Recordações da Casa dos Mortos, Le Crime de Sylvestre Bonnard, Le Lys Rouge, Crime e Castigo e muita coisa de que não me lembro. Mas não havia livro que chegasse para a minha enorme sede. Como não tinha dinheiro para comprar, recorria às colegas do colégio, lia escondido os do meu tio e o vendeiro vizinho nos emprestava alguns: O Judeu Errante, de Eugênio Sue e vários fascículos dos Dramas do Novo Mundo de Gustavo Aymard, além de alguns de Escrich. Siô Mané e Siô Chico, além de nossos fornecedores de gêneros, contribuíam também para o nosso desenvolvimento intelectual. Quando não havia outra fonte onde buscar, lá ia atrás deles , que sempre desencavavam algum velho romance de Escrich o façanhas de índios americanos. Outro meio de arranjar eram os amigos de Dauto, sendo necessário, porém, que lhe pagasse quatrocentos réis para comprar cocada baiana na venda de Zé Miliano, botequineiro da esquina da rua. Como pagamento era sempre adiantado, passava antes pela venda, comprava as cocadas e depois então ia em busca de Caio Líbano ou outro que tivesse livros. Em casa, esperava impaciente, chegando à calçada de minuto em minuto para ver se ele aparecia na esquina. Mas, qual, as horas passavam e nada. Já sabia, era só procurá-lo no quintal e encontrava-o trepado no mais alto galho do , pois abacateiro. Tinha conseguido entrar num dos momentos em que estava no interior e subira na árvore para se livrar de mim. Não podia atingi-lo, pois não tinha coragem de subir tão alto. Embaixo, pedia, chorava, ameaçava e ele, nada.

Só descia depois que tinha acabado de ler o livro que eu tinha pago para que buscasse pra mim. Mas não me corrigia: era só faltar leitura e me deixava seduzir pelas suas promessas de que daque vez procederia diferente.”

 

 

Em: Por onde andou meu coração: memórias, Maria Helena Cardoso, Rio de Janeiro, José Olympio: 1968, 2ª edição, Coleção Sagarana, volume 70, pp: 59-60

Maria Helena Cardoso, professora, escritora, ficcionista e memorialista.  Nasceu em Diamantina, MG em 1903 e faleceu  no Rio de Janeiro em 1994.  Passou a infância em Curvelo, MG, onde fez os primeiros estudos, prosseguindo-os em Belo Horizonte, onde se formou na Escola de Farmácia.  Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1923.  [Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras: 1711-2001, Nelly Novaes Coelho]

Obras:

Por onde andou meu coração, memórias, 1967

Vida,vida, romance, 1973





Flores para um sábado perfeito!

23 05 2020

 

 

IRACEMA OROSCO FREIRE - OST, Natureza Morta, VASO DE FLORES, COPO DE LEITE . 36 X 44Vaso de flores com copos de leite

Iracema Orosco Freire (Brasil, século XX)

óleo sobre tela,  36 X 44 cm





Rio de Janeiro, um parque à beira-mar

22 05 2020

 

 

 

 

GERALDO ORTHOF (1903-1993) - Parque Guinle e Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro,ost, 60 x 80 cm.Parque Guinle e Palácio Laranjeiras, Rio de Janeiro

Geraldo Orthof (Áustria/Brasil, 1903 – 1993)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm





Imagem de leitura — Auguste Oleffe

21 05 2020

 

 

Auguste Oleffe (Bélgica, 1867-1931) Em agosto, 1909 - Terrasse de la maison du peintre, chaussée de Wavre, ost, 200 x 200, Museu Real de Belas Artes BruxelasTerraço da casa do pintor, à rua Chaussée de Wavre, em Bruxelas, 1909

Auguste Oleffe (Bélgica, 1867-1931)

óleo sobre tela,

200 x 200 cm

Museu Real de Belas Artes,  Bruxelas





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

20 05 2020

 

 

CARLOS LEÃO, Natureza morta - Óleo sobre tela - 38x46 cm - ACID 1974 (Coleção do Professor e Dr. Luiz Fernando da Costa e Silva)Natureza morta, 1974

Carlos Leão (Brasil, 1906 -1983)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm





Saber viajar, texto de Francisco de Barros Júnior

20 05 2020

 

 

AGOSTINHO BATISTA DE FREITAS (1927-1997)Maria Fumaça na Paisagem Campestre, ost,. 1992. 50 x 71 cm.Maria fumaça na paisagem campestre, 1992

Agostinho Batista de Freitas (Brasil, 1927-1997)

acrílica sobre tela, 50 x 71 cm

 

 

“É frequente ouvirmos alguém afirmar que só viaja à noite, por ser “muito pau” aguentar dez ou doze horas a olhar pelas janelas, sentados em bancos incômodos, sem ver nada de importância, a não serem pastos, matos e morros longínquos. É que esses cavalheiros são daqueles de quem falam as escrituras: “oculos habent sed non vident“. E deles tenho pena.

Para quem sabe ver, não há paisagens monótonas. Numa campina verdejante onde pasta o gado, nos rápidos segundos que durou a visão, se soubermos ver, notaremos se os bois estão gordos, qual a raça predominante, divertimo-nos com o bezerrinho assustado pelo treme instintivamente o nosso pensamento vai para a fazenda em que passamos a infância, ou visita à estância de amigos, e à nossa memória acodem episódios relacionados com o que acabamos de ver. A paisagem é desoladora, só pedras e mato ressequido, mas tem, no alto de um barranco ou encosta empedrada cortada a prumo, um coqueiro esguio, ou elegante ipê coroado de ouro e pensamos na linda fotografia que poderíamos tomar…

Até o repugnante quadro  de uma rês morta e centenas de urubus, a se banquetearem uns, outros infartados, empoleirados nas árvores, é tema para uma série de divagações. De que teria morrido? Cobra? Erva? E figuramos o vaqueiro que, tendo visto de longe os tétricos necrófagos adejando em círculo, esporeia o cavalo para verificar, pesaroso, a perda, e depois or ao patrão dar a triste notícia nesse tom de mágoa, que conhecemos quando um vaqueiro fala da perda de uma cabeça de gado.

E enquanto a nossa fantasia trabalha, os quilômetros são vencidos e os minutos se passam sem que tenhamos tempo para nos aborrecer.  Até na monotonia das travessias marítimas temos como nos distrair e ilustrar, vendo surgir as nuvens de peixes voadores, os numerosos  golfinhos que afloram à superfície como se nadassem rolando sobre si mesmos, as gaivotas que adejam à volta do navio, ou o inesperado jato d’água de alguma baleia longínqua. E essas cenas nos ficam na memória, servindo mais tarde para tornar mais agradável a nossa conversação.

Estas considerações vieram-me de começo, quando ia dizer-lhes que a nossa viagem S. Francisco abaixo ia decorrendo sem que sentíssemos passarem os dias.”

 

Em:  Caçando e pescando por todo o Brasil, 3ª série: no planalto mineiro, no São Francisco, na Bahia, de Francisco de Barros Júnior, São Paulo, Melhoramentos: s/d, pp. 139-140.

 

Francisco Carvalho de Barros Júnior (Campinas, 14 de dezembro de 1883 — 1969) foi um escritor e naturalista brasileiro que ganhou em 1961 o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria de literatura infanto-juvenil.

Francisco Carvalho de Barros Júnior, patrono da cadeira n° 16 da Academia Jundiaiense de Letras, colaborou em vários jornais e revistas e é o autor da série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil, um relato de viagens pelo Brasil na primeira metade do século XX, descrevendo diversos aspectos das regiões visitadas (entre outros botânica, animais e populações caboclas e indígenas).

Obras:

Série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil

Primeira série: Brasil-Sul, 1945

Segunda Série: Mato Grosso Goiás, 1947

Terceira Série: Planalto Mineiro – o São Francisco e a Bahia, 1949

Quarta Série: Norte,  Nordeste,  Marajó, Grandes Lagos, o Madeira, o Mamoré, 1950

Quinta Série: Purus e Acre, 1952

Sexta Série: Araguaia e Tocantins, 1952

Tragédias Caboclas, 1955, contos

Três Garotos em Férias no Rio Tietê, 1951, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraguai, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Aquidauana, infanto-juvenil





Nossas cidades: Recife

19 05 2020

 

 

Joel Oliveira, (Brasil, contemp)Recife em Luz, ano 2013, 90X170cm, Óleo sobre TelaRecife em Luz, 2013

Joel Oliveira, (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 90 x 170cm





O escritor no museu: Mário de Andrade

18 05 2020

 

 

 

Mario de ANdrade por Portinari, 1935, ost, 73 x 60 cm,Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros - USP (São Paulo, SP)Mario de Andrade, 1935

Cândido Portinari ( Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela, 73 x 60 cm

Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros

USP (São Paulo, SP)





O relógio, poema de Jorge de Lima

17 05 2020

 

 

l27horlogedesapience28theclockofwisdom29fromabout1450O relógio do saber, século XV. — L’Horloge de Sapience (Bruxelles, Bibliothèque Royale , ms. IV 111

 

O relógio…

 

Jorge de Lima

 

Relógio, meu amigo, és a Vida em Segundos…

Consulto-te: um segundo!  E quem sabe se agora,

Como eu próprio, a pensar, pensará doutros mundos

Alma que filosofa e investiga e labora?

 

Há de a morte ceifar somas de moribundos.

O relógio trabalha… E um sorri e outro chora,

Nas cavernas, no mar ou nos antros profundos

Ou no abismo que assombra e que assusta e apavora…

 

Relógio, meu amigo, és o meu companheiro,

Que aos vencidos, aos réus, aos párias e ao morfético

Tem posturas de algoz e gestos de coveiro…

 

Relógio, meu amigo, as blasfêmias e a prece,

Tudo encerra o segundo, insólito — sintético:

A volúpia do beijo e a mágoa que enlouquece!

 

[A Instrução, Maceió, 1907]

 

Em: Poesias Completas, Jorge de Lima, vol. I, Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora: 1974.p. 45