Natureza Morta
Angelo Simeone ( Itália/Brasil, 1899 – 1974)
óleo sobre tela colada em placa, 48 x 62 cm
Natureza Morta
Angelo Simeone ( Itália/Brasil, 1899 – 1974)
óleo sobre tela colada em placa, 48 x 62 cm
Ilustração Margaret Evans Price
Do espelho da tua sala,
procura o exemplo seguir:
ele reflete e não fala,
tu falas sem refletir…
(Carlos Guimarães)
“
O carteiro Joseph Roulin, 1888
Vincent van Gogh (Holanda, 1853–1890)
óleo sobre tela, 81x 65
Museu de Belas Artes de Boston
A vida peculiar de um carteiro solitário, de Denis Thériault, traduzido por Daniela P. B. Dias, é um livro difícil de definir. Prosa e verso se misturam e formam um todo potente. O enredo trata de um homem solitário, carteiro, com personalidade limítrofe ao autismo que, para seu próprio divertimento, abre sistematicamente cartas que leva para casa, cartas vindas ou endereçadas a pessoas na sua rota. Sua curiosidade inicial é a fascinação pela caligrafia que vê nos envelopes, arte a qual se dedica. Durante a execução destes pequenos crimes, levando as cartas para casa, abrindo-as com vapor, lendo-as e colocando-as de volta na rota original, apaixona-se simultaneamente por uma mulher que não conhece e pela poesia japonesa.
Com encanto, este pequeno romance trouxe-me memórias vívidas de duas obras: uma do cinema e outra da literatura. Lembrei-me da comédia australiana Malcolm (1986), dirigido por Nadia Tessa e estrelado por Colin Friels, que trata de um homem com características de autismo cuja paixão por carros de controle remoto o leva a cometer um crime: as habilidades de Malcolm são usadas por uma quadrilha para assaltar um banco. Aqui também a personalidade limítrofe de Bilodo, um homem tão solitário e recluso quanto Malcolm, o leva a se envolver em crime, ainda que de sua própria vontade. Outra lembrança foi da peça de teatro Cyrano de Bergerac, de Edmond de Rostand, que será muito provavelmente conhecida de Denis Thériault, canadense da província de Quebec, cuja língua materna é francês. Nesse clássico da literatura francesa, obra trágica, um poeta declama os versos de outro que se esconde da amada, por não se achar à altura da bela moça. O versos são de sua autoria, mas quem os declama, a voz e a aparência são de outro homem. Há uma quase simetria com o que acontece com carteiro Bilodo, que toma o lugar do poeta Gaston Grandpre e escreve haicais em seu nome para conquistar Ségolène, na distante Guadalupe, no Caribe.

Em um livro tão pequeno é de surpreender as reviravoltas caracterizando uma linha narrativa complexa, que além da história de amor, explana claramente sobre poesia japonesa, do haicai ao enso, forma circular da poesia nipônica. Thériault passa alguns conhecimentos da filosofia zen, explora o uso do kimono mágico e ainda produz para deleite do leitor uma coletânea de belos haicais. Para minha surpresa, que sempre considerei haicai poesia quase enigmática, evanescente, um punhado dos haicais apresentados no texto vêm repletos de forte sensualidade, claras imagens eróticas, que fazem paralelo interessante às conhecidas xilogravuras policromadas, Ukiyo-e, retratando o mundo flutuante pelos tradicionais mestres japoneses.
Denis Thériault
Com o uso de imagens surpreendentes, poucos e inesquecíveis personagens, esta história está localizada entre o mundo do sonho e a realidade. Traz um pouco de assombro ao leitor, do início ao fim. A trama, muito bem desenvolvida, ressalta a solidão de Bilodo, cujo único amigo é Bill, o peixe de aquário, seu animal de estimação. A solidão forma cada um de seus pensamentos e ações. Este é um homem que vive através da vida dos outros, no canto seguro de seu pequeno, previsível e metódico mundo. Há uma tênue conexão que o segura, que o mantém no dia a dia, agindo no mundo que conhecemos. Ela é ancorada nas suas obsessões, na tenacidade e precisão com que enfrenta o que há de novo no mundo. Bilodo é um homem que aprecia detalhes e encontra beleza não só no gesto de uma caligrafia bem feita mas nas regras precisas da poesia japonesa. É a rigidez desses conceitos que o seguram no cotidiano. E ele se esforça para superar suas limitações, reconhece a dificuldade de trazer aos seus pequenos poemas a mágica da poesia, mas quando o consegue, encontra finalmente seu destino cármico. Este livro é quase um poema-prosa, que se desdobra em múltiplos significados e ângulos cada vez que o examinamos. Um prazer de leitura.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Lendo:
Homo Deus: uma breve história do amanhã
Yuval Noah Harari
Cia das Letras: 2016, 448 páginas
SINOPSE
Neste “Homo Deus”: uma breve história do amanhã, Yuval Noah Harari, autor do estrondoso best-seller Sapiens: uma breve história da humanidade, volta a combinar ciência, história e filosofia, desta vez para entender quem somos e descobrir para onde vamos. Sempre com um olhar no passado e nas nossas origens, Harari investiga o futuro da humanidade em busca de uma resposta tão difícil quanto essencial: depois de séculos de guerras, fome e pobreza, qual será nosso destino na Terra? A partir de uma visão absolutamente original de nossa história, ele combina pesquisas de ponta e os mais recentes avanços científicos à sua conhecida capacidade de observar o passado de uma maneira inteiramente nova. Assim, descobrir os próximos passos da evolução humana será também redescobrir quem fomos e quais caminhos tomamos para chegar até aqui.
Baía de Botafogo, RJ, 1978
Manuel Kantor (Argentina, 1911 -1993)
óleo sobre tela, 24 x 41cm

LENDO:
Um velho que lia romances de amor
Luís Sepúlveda
Ática: 1995, 94 páginas
SINOPSE:
O primeiro e mais premiado romance do chileno Luis Sepúlveda está de volta, após ser traduzido em inúmeros países. O autor baseia-se em sua experiência na Amazônia para contar a história de Antônio Bolívar, um homem que vai viver com a mulher na maior floresta tropical do mundo e aprende que a vida na selva não é para qualquer um. Ao sentir necessidade de se transportar para um universo idílico, longe da cruel realidade da vida, Antônio passa a se interessar por romances de amor.
Jarra com aplique de bacante, anos 50 a 75 E. C.
Provavelmente, norte da Itália
Vidro, 19 x 10 cm
Corning Museum of Glass
Essa jarra mostra embaixo da alça um aplique de máscara de bacante, uma seguidora do deus Baco, deus do vinho. Dois métodos de formação e de adesão de apliques que eram usados na Europa durante e depois da Renascença também foram usados na era romana. No primeiro o vidreiro preenche acima do nível uma forma com vidro fundido, pressiona a forma de encontro à jarra e esquenta de novo a jarra para retirar o excesso de vidro em volta da decoração. No segundo método o vidreiro aplica uma bola de vidro fundido à jarra e imprime nela o molde (a forma) do desenho desejado, como se faria com uma estampa. Quanto maior o vidro fundido aplicado, maior a extensão da jarra que será “amaciada” no fogo, e isso muitas vezes conduz a distorções da forma. Por isso mesmo, grandes apliques grandes aplique são em geral moldados e fundidos à vasilha (neste caso uma jarra) depois que a peça tenha esfriado um bocado. Mas pequenos apliques são em geral colocados pelo método da estamparia, como descrito acima.
Momento à sós, 2010
Linda Apple (EUA, contemporânea)
óleo sobre tela, 20 x 20 cm
“Assim, dos vinte aos trinta anos trabalhei duro de manhã até a noite e todo o meu tempo era utilizado para conseguir pagar as dívidas. Quando me lembro dessa época, só me vem à cabeça que eu trabalhei muito. Imagino que a vida das pessoas normais na casa dos vinte seja mais divertida, mas quase não tive condições de aproveitar a juventude por falta de tempo e dinheiro. Mas mesmo nessa época eu lia livros sempre que conseguia. Por mais que estivesse ocupado, por mais que a vida fosse difícil, a leitura continuou sendo uma grande alegria para mim, assim como a música. Ninguém podia tomar de mim essa alegria.”
Em: Romancista como vocação, Haruki Murakami, tradução: Eunice Suenaga, Alfaguara: 2017, p.24.
Natureza morta
Modesto Brocos (Espanha/Brasil, 1852-1936)
óleo sobre tela, 28 x 38 cm