Menina estudando
Luigi Amato (Itália, 1898 – 1961)
óleo sobre madeira
Menina estudando
Luigi Amato (Itália, 1898 – 1961)
óleo sobre madeira
Maçãs no prato, 1987
Carlos Scliar (Brasil, 1920 – 2001)
Vinil e colagem encerados sobre tela, 26 x 37 cm
Juízo final, século VI
Mosaico
Basílica de Santo Apolinário Novo, Ravena
Toda metrópole desenvolve áreas urbanas com sotaques, poder econômico, serviços que tornam bairros verdadeiras aldeias dentro de seu perímetro. Elas facilitam a interação das pessoas, fazem de vizinhos, amigos e estabelecem regras de conduta nem sempre explícitas para os de fora, mas conhecidas pelos que ali moram. Não é a toa que há bairros tão famosos quanto as cidades onde se encontram: Nova York tem Queens, Brooklyn; Londres, East Side e Kensington Park; Paris, Montmartre e Trocadéro; São Paulo, Bexiga e Vila Mariana e Rio de Janeiro, Vila Isabel e Ipanema. Nos bairros, similaridade de gostos e atitudes são grandes e não é raro o comércio de sucesso em um local não ser bem sucedido em outra parte da cidade. A vila, de umas vinte casas, descrita em Entre cabras e ovelhas tem esse perfil de comunidade bem tecida. Críticos da obra, dizem que é ‘mais uma história de vilarejo inglês’, tema muito explorado. Mas o grupo de pessoas nesta obra forma uma sociedade preconceituosa que serve de mecanismo central para o desenrolar da trama e solução de um mistério.
A literatura mundial está repleta de exemplos da moralidade circunscrita a aldeias ou comunidades, mantida pelo mexerico ou especulação sobre o comportamento de um ou mais habitantes. Dar ouvidos a indiscrições, à maledicência é natural dos seres humanos. Yuval Noah Harari, no primeiro capítulo do livro Sapiens: uma breve história da humanidade relaciona o mexerico, a fofoca, como ferramenta importante na evolução cognitiva da humanidade. Decisões tomadas em conjunto, por uma aldeia, defendendo território ou valores locais não são incomuns e o comportamento tribal nem sempre é judicioso. Pode ser arbitrário e com frequência infundado. Na literatura moderna há numerosos exemplos retratando o irracional de um grupo: o romance vencedor do Prêmio Goncourt O sol dos Scorta (2004) de Laurent Gaudé; o conto de Mark Twain, The Man That Corrupted Hadleyburg (1900), a peça teatral Assim é (se lhe parece), de Pirandello (1917) são variações no tema. É justamente esse comportamento insular que permite duas meninas, fascinadas pelo desaparecimento de uma senhora da vila, saírem por conta própria para resolver este enigma, no meio do caminho resolvem para si o mistério da onipresença de Deus, instigadas pelo sermão dominical na igreja que frequentam.

O título do livro vem do evangelho de São Mateus (Mateus 25:31-46) e nos dá a diretriz da questão moral da trama. No Juízo Final fiéis seriam divididos entre bons e maus, ovelhas e cabras. Não há como ficar em cima do muro, ou você é cabra ou ovelha. Aos poucos, à medida que conhecemos os habitantes da vila, através das aventuras de Grace e Tilly, duas meninas de dez anos, que investigam o desaparecimento da Sra. Creasy e procuram achar Deus no lugar em que moram já que acreditam que Ele manteria todos os moradores a salvo, descobrimos que nem sempre se é simplesmente ovelha ou cabra. As duas meninas detetives, que traçam o caminho narrativo da trama, começam sua investigação no verão de 1976, um dos verões mais quentes da Inglaterra e para os moradores do local, aparentemente interminável. Intrigadas com o desaparecimento de alguém que conheciam, elas se mostram determinadas a descobrir o mistério. Mas suas perguntas acabam por explicar um acontecimento passado em 1967 que levou toda a comunidade a reagir de maneira inusitada. Nove anos depois essas pessoas ainda se encontram controladas pelo passado que as prende a um voto de silêncio coletivo, levado a sério até o presente.
Parte do charme da história está na investigação das meninas. Inocentes, elas vão de porta em porta, fazendo perguntas que para os habitantes da vila são indiscretas e abrem fissuras na cortina de silêncio que mantêm. Por causa de sua ingenuidade, as meninas oferecem um ponto de vista novo, cândido e, por isso, colocam seus interlocutores em situações de inesperado melindre e grande humor. Aliás, o humor prevalece nesta narrativa, com alguns momentos de riso espontâneo do leitor, o que dá um tom jovial e fino à história. Além disso há a sátira bem desenvolvida sobre a crença em milagres, imagens milagrosas, comportamento religioso e cobertura sensacionalista da imprensa.
Joanna Cannon
Ao final, é quase irrelevante se descobrimos as razões do desaparecimento da Sra. Creasy. Narrado numa prosa pitoresca, com tradução de Celina Portocarrero, este livro retrata paranoia coletiva, preconceitos numerosos e atitudes arrogantes. É uma história repleta de mistério, suspense, intriga, interpretações maliciosas de ações do dia a dia, maledicências repetidas sem pensar em consequências e segredos. Tudo bem equilibrado pela ironia e humor.
Recomendo como um excelente entretenimento. A Semana Santa vêm aí, a pouco mais de um mês, este seria um ótimo companheiro para dias de lazer. De no máximo cinco estrelas, dou-lhe quatro, por dois motivos: primeiro, um muito pessoal, acho que a história poderia ser mais curta (mas esta tem sido uma objeção tão comum nas minhas leituras que me pergunto se não ando impaciente demais) e segundo, eu gostaria de ter tido no início do texto um pequeno mapa da vila e de suas casas. Li este livro em um dos meus grupos de leitura e todos os participantes acabaram por fazer anotações tentando localizar melhor as casas, para não ter que voltar a capítulos anteriores à procura de quem se falava. Mesmo assim uma leitura muito agradável.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Menino lendo
Alexandros Christofis (Grécia, 1882-1953)
óleo sobre tela, 36 x 27 cm
Bloco de Carnaval
Edésio Esteves (Brasil, 1916)
óleo sobre tela, 60 x 73 cm
Graciliano Ramos
Graciliano Ramos (1892-1953)
Amantes modernos
Emma Straub
Rocco: 2018: 384 páginas
SINOPSE
Autora, entre outros, de Os Veranistas, também publicado no Brasil pela Rocco, e colaboradora de veículos como Vogue e The New York Times, Emma Straub coleciona elogios pela forma sensível e bem-humorada com que esquadrinha o cotidiano e as relações amorosas e familiares no mundo atual. Em Amantes modernos, Andrew, Elizabeth e Zoe se conhecem desde a faculdade, época em que tinham uma banda e muitos sonhos. De lá pra cá, eles se casaram – Elizabeth com Andrew, Zoe com Jane – e deram início a negócios e famílias, sempre fazendo de tudo para agarrar-se à identidade da juventude. Mas é no verão em que seus filhos estão prestes a entrar na faculdade e decidem ir para a cama juntos que estes amigos de longa data colocam seus próprios passados em perspectiva e se dão conta de que a idade finalmente chegou, e é preciso passar o bastão para a geração seguinte
Menina com a máscara
Adilson Santos, (Brasil, 1944)
óleo sobre tela

Bacia, c. 1579
Ateliê Patanazzi
Faiança, 45 x 47 cm
[Parte do serviço de jantar de Alfonso II d’Este, Duque de Ferrara (1533-1597)]
LOUVRE
Peças de jantar com narrativa [istoriato] como esta eram feitas para grandes serviços, em Urbino. Em geral decoradas em toda superfície como nesta bacia com três lóbulos que fez parte do serviço de jantar comemorando o casamento de Alfonso II d’Este com Margherita de Gonzaga em 1579. Foi atribuído ao ateliê Patanazzi. Nele encontra-se duas marcas do Duque de Ferrara: a pedra em chamas e a legenda “Ardet Aeternum” que representam a família dos duques de Ferrara.
Reverso, parte de baixo da bacia.
Detalhe no topo a pedra em chamas e a legenda dos duques de Ferrara.
Ilustração de John Gannam, 1948.
Entra o sol pela vidraça
e em teu leito empalidece,
deslumbrado pela graça
que teu corpo lhe oferece.
(Durval Mendonça)
Ilustração de Duy Huynh.
Em: A última palavra, Hanif Kureishi, São Paulo, Cia das Letras:2016, p.254