Violeta, poesia de Casimiro de Abreu

26 04 2019

 

 

 

moça com arvore

 

 

 

Violeta

 

Casimiro de Abreu

 

 

Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
— Se eu deixo as rosas do prado
É só por ti-violeta!

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores…
— Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar do teus amores!

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
— Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel -violeta!

 





Ninho, poesia infantil de Miguel Torga

24 04 2019

 

 

 

43b5b877650df623ea9df470e80481bcDesconheço a autoria.

 

 

Ninho

 

Miguel Torga

 

 

Sei um ninho.

E o ninho tem um ovo.

E o ovo, redondinho,

Tem lá dentro um passarinho

Novo.





Estela e Nize, soneto de Alvarenga Peixoto

11 04 2019

 

 

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)SSem título,  2014

[No camarote]

Reynaldo Fonseca (Brasil, 1925)

óleo sobre tela

 

 

Estela e Nize

 

Alvarenga Peixoto

 

Eu vi a linda Estela, e namorado

Fiz logo eterno voto de querê-la;

Mas vi depois a Nize, e é tão bela,

Que merece igualmente o meu cuidado.

 

A qual escolherei, se neste estado

Não posso distinguir Nize d’Estela?

Se Nize vir aqui, morro por ela;

Se Estela agora vir, fico abrasado.

 

Mas, ah! que aquela me despreza amante,

Pois sabe que estou preso em outros braços,

E esta não me quer por inconstante.

 

Vem, Cupido, soltar-me destes laços,

Ou faz de dois semblantes um semblante,

Ou divide o meu peito em dois pedaços!

 

Em: Alvarenga Peixoto, Obras Poéticas.  Edição da Prefeitura do Município de São Paulo, [Coleção Documentos – Clube da Poesia], 1956, p.29.

 

Alvarenga Peixoto (Brasil, 1742-1793) advogado e poeta do círculo da Inconfidência Mineira.  Foi preso e degredado para a África.





Palavras para lembrar — Hermann Hesse

9 04 2019

 

 

 

Lisa SchneiderLesende1,60x80cm2004,ostLeitora, 2004

Lisa Schneider (Lucerna, Suiça, 1955)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

 

 

 

“Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo.”

 

Hermann Hesse





A abelha, poesia infantil de Rosa Clement

6 04 2019

 

 

 

abelhaAbelha feliz, ilustração anônima, acredito ser brasileira.

 

 

A Abelha

 

Rosa Clement

 

A abelha voou, voou.

Queria molhar o pé

e pousou na minha xícara

cheia de leite e café.

 

A abelha voou, voou.

desenhando um coração.

Queria provar um pouco

da geléia no meu pão.

 

A abelha voou, voou

Queria voar no céu

e eu que queria provar

um pouquinho de seu mel.

 

A abelha voltou, voou.

Queria me deixar feliz.

Achou que eu era um doce

e pousou no meu nariz.

 

(2010)





Trova do amigo

2 04 2019

 

 

 

0fed4a463c53c41ed00bd5ab351a1a20No campo de golfe, ilustração autor desconhecido.

 

 

Quando te chamo de amigo,

Declaro-te pleno apoio:

Não só no que tens de trigo;

Também no que tens de joio.

 

(Antônio Augusto de Assis)

 





Sobre Conan Doyle, texto de Michel Houellebecq

1 04 2019

 

 

 

André Dérain (1880-1954) Femme assise lisant, ostSenhora sentada, lendo

André Dérain (França, 1880 – 1954)

óleo sobre tela

 

 

“Em cada romance de Sherlock Holmes pode-se reconhecer, naturalmente, os traços característicos do personagem, mas por outro lado o autor nunca deixa de introduzir um aspecto novo (a cocaína, o violino, a existência do irmão mais velho Mycroft, o gosto pela ópera italiana… certos serviços prestados no passado a famílias reais europeias… o primeiro caso resolvido por Sherlock, ainda adolescente).  A cada novo detalhe revelado desenham-se novas zonas de sombra e afinal surge um personagem realmente fascinante: Conan Doyle consegue criar uma mistura perfeita entre o prazer da descoberta e o prazer do reconhecimento.”

 

Em: Plataforma, Michel Houellebecq, tradução Ari Roitman e Paulina Wacht, Rio de Janeiro, Editora Record: 2002, p. 107





O escritor no museu: Honoré de Balzac

28 03 2019

 

 

 

487px-Balzac_(par_Boulanger)

Honoré de Balzac, 1836

Louis Boulanger (França, 1806-1867)

óleo sobre tela, 61 x 50 cm

Museu de Belas Artes de Tours





Vou agora sonhar… poesia de Da Costa e Silva

25 03 2019

 

 

 

dreaming_large__0Sonhando grande

Aditya Phadke (Índia, contemporâneo)

Óleo sobre tela,  76 x 91 cm

 

 

Vou agora sonhar…

 

A minha vida, sempre inquieta como o mar,

É de renúncia, sacrifício e desencanto:

Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,

Estende-se o horizonte, além do meu olhar…

 

Na imensidade azul, fico a cismar, enquanto,

A refletir o céu, vai-se acalmando o mar…

Acalma-se também minha dor, por encanto:

— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar…

 

 

Em: Da Costa e Silva, Poesias Completas, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985 [edição do centenário] p.295





Memória, texto de Francisco Azevedo

23 03 2019

 

 

 

Joel Oliveira - quadro óleo sobre tela 20x30cm LeituraLeitura

Joel Oliveira (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 20 x 30 cm

 

 

 

“Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim, como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, caras de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem um pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.”

 

Em: Eusoueles [fragmentos], Francisco Azevedo, Rio de Janeiro, Editora Record: 2018, p. 127.