Trova dos professores

15 10 2025
Desconheço a autoria.

 

 

Professores são abelhas

distribuindo, em seu afã,

os polens que são centelhas

das flores de um amanhã!

 

(João Paulo Ouverney)





Homenagem ao dia dos Mestres, 15 de outubro!

15 10 2025

Mestre lendo um pergaminho

[DETALHE, veja completo abaixo]

Koto Yoshin (Japão, ativo entre 1830-1850)

Escola Kano, provavelmente cópia de pintura chinesa, como era comum entre os artistas da Escola Kano

Coleção particular

A verdade e a vida

 

José Jorge Letria

 

O jovem discípulo de um mestre “chan” confrontava-o, frequentemente, com perguntas de difícil resposta, deixando, ao fazê-las, transparecer a sua juvenil impaciência e o seu desejo de encontrar resposta para as mais intrincadas perguntas.

Ele sabia que o mestre não gostava de grandes abstrações, preferindo a simplicidade da evidência. Porém, um dia perguntou-lhe:

– Mestre, o que é a verdade?

– A verdade – respondeu o mestre, com os olhos postos na linha do horizonte – é a vida de cada dia, nada mais.

Insatisfeito com o caráter demasiado vago da resposta, o discípulo retorquiu:

– Mas a vida de cada dia mais não é do que a soma das coisas que acontecem em cada dia que passa. Olhando para o que acontece, é sempre igual, não se descobre a diferença e muito menos a verdade.

Prontamente o mestre respondeu-lhe:

– Mas é aí que reside a diferença. Uns veem que é assim e outros não. Essa é que é a verdade.”

 

 

José Jorge Letria, Contos da Antiga China

 

 

 





“Infância”, poesia de Manuel de Barros

13 10 2025

Bicicleta de Paraty, 2008

Arluce Gurjão, (Brasil, 1968)

óleo sobre tela, 30 x 40 cm

 

Infância

 


Manoel de Barros

 

Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando… pingando das árvores…
Um regador de bruços no canteiro.

Barquinhos de papel na água suja das sarjetas…
Baú de folha-de-flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maçã verde no prato.

Um peixe de azebre morrendo… morrendo, em
dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis, aos bois.

 

 





A vida como viagem, José Saramago

10 10 2025

Beijo no metrô de Nova York

Philip Hawkins (Inglaterra, 1947)

óleo sobre tela

 

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

 

José Saramago, Viagem a Portugal, 1981





Trova do pião

9 10 2025
Cadê? Chico Bento procura… ilustração Mauricio de Sousa.

 

Nos meus tempos de menino

tinha na palma da mão

a fieira do destino

nas voltas do meu pião!

 

(Antonio Claret Marques)





Sobre os grandes escritores, Marcel Proust

8 10 2025

Pierre de Nolhac, retratado por seu filho, 1909

Henri de Nolhac (França, 1884-1948)

óleo sobre tela

 

 

 

É o que se dá com todos os grandes escritores: a beleza de suas frases é imprevisível, como a de uma mulher que ainda não conhecemos; é criação, porque se aplica a um objeto exterior em que eles pensam — e não a si — e que ainda não expressaram. Um autor de memórias de nossos dias que quisesse imitar disfarçadamente a Saint-Simon poderia em rigor escrever a primeira linha do retrato de Villars: “Era um homem corpulento, moreno… de fisionomia viva, franca, impressiva”, mas que determinismo lhe poderá fazer encontrar a segunda linha que começa por: “E na verdade um tanto aloucado”? A verdadeira variedade está nessa plenitude de elementos reais e imprevistos, no ramo carregado de flores azuis surgindo, contra toda expectativa, da sebe primaveril, que parecia incapaz de suportar mais flores; ao passo que a imitação puramente formal da variedade (e o mesmo se poderia argumentar quanto às outras qualidades do estilo) não passa de vazio e uniformidade, isto é, o contrário da variedade, e se com isso conseguem os imitadores provocar a ilusão e a lembrança da verdadeira variedade é tão somente para as pessoas que não a souberam compreender nas obras-primas.

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





Primavera em Lima, texto de Mario Vargas Llosa

7 10 2025

Jardim florido

Elizabeth Peña (Peru, contemporânea)

óleo sobre  tela, 76 x 76 cm

 

 

“Era uma dessas manhãs ensolaradas da primavera limenha, em que os gerânios amanhecem mais arrebatados, as rosas mais perfumadas e as primaveras mais crespas, quando um famoso galeno da cidade, o doutor Alberto de Quinteros — testa ampla, nariz aquilino, olhar penetrante, retidão e bondade no espírito —, abriu os olhos e espreguiçou-se em sua espaçosa residência de San Isidro. Viu, através das cortinas transparentes, o sol dourando o gramado do bem-cuidado jardim cercado por canteiros de crótons, a limpeza do céu, a alegria das flores, e teve essa sensação de bem-estar proporcionada por oito horas de sono reparador e uma consciência tranquila.

 

Mario Vargas Llosa, Tia Julia e o escrevinhador

 





Trova da criança

6 10 2025

Quando criança eu queria

crescer dez anos num mês

e, agora, o que não daria

pra ser criança outra vez!…

 

(Elton Carvalho)

 





Bucólica Nostalgia, poema de Adélia Prado

6 10 2025

Casario

Antonio Ferrigno (Itália-Brasil, 1863 – 1940)

óleo sobre madeira. 35 x 27 cm

 

 

 

Bucólica Nostalgia


Adélia Prado

Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,

aparece dourada. Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!





Lidos em setembro

2 10 2025

Lidos:

A mão e a luva, Machado de Assis

Terra sonâmbula, Mia Couto

O que resta de nós, Virginie Grimaldi

The collected Stories of Lydia Davis, Lydia Davis

 

Ainda lendo:

A cultura importa, George Scruton

O analista de Bagé, Luís Fernando Veríssimo