Não te desvies da estrada,
buscando atalhos bisonhos;
a vida não vale nada
se sufocares teus sonhos…
(Ercy Maria Marques de Faria)
Não te desvies da estrada,
buscando atalhos bisonhos;
a vida não vale nada
se sufocares teus sonhos…
(Ercy Maria Marques de Faria)
Torre Eiffel, 1924
Robert Delaunay (França, 1885 – 1941)
óleo sobre tela, 161 x 96 cm
Museu de Arte de Saint Louis, MO
Guy de Maupassant foi um dos assinantes do protesto contra a construção da Torre Eiffel. Seu nome aparece sob o manifesto, chamado Protestation des artistes, publicado em 14 de fevereiro de 1887, no jornal Le Temps. O escritor detestava tanto a construção, que se tornaria o próprio símbolo da França, que mudou de residência em Paris, para não mais avistar a Torre Eiffel das janelas de seu apartamento.
O sol, cumprida a rotina,
cerra o painel em que atua,
some por trás da colina
e abre o portão para a lua.
(Dorothy Jansson Moretti)
Cleómenes Campos
No começo do mundo,
quando tudo falava, um Monte, certo dia,
interrogou a um Vale, a quem mal conhecia:
— “Quem é mais alto de nós dois?”
O Vale respondeu-lhe. admirado, depois:
“Eu só te sei dizer que é o mais profundo…”
Em: Poesia Brasileira para a Infância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva: 1967, Coleção Henriqueta, p. 113.
Bastos Tigre
—Ora um beijo… afinal que custa um beijo?
Eu não digo que o dês a toda gente;
Porém a mim, se se apresenta o ensejo,
Por que mo negas, peremptoriamente?
Lábios juntos… zás-trás! E o meu desejo
Satisfeito! É tão rápido!… Consente!
Nenhum grande pecado eu nisso vejo;
E que fosse! O bom Deus é complacente…
— Não dou, já disse! E grito se mo deres!
— Bem, não faças tamanho espalhafato…
(Beijos não faltarão, haja mulheres!)
Mas, meu benzinho, vamos ser cordatos;
Como é que a dar-me um beijo, tu preferes
Dá-los na boca ignóbil dos teus gatos?!…
Em: Antologia Poética, Bastos Tigre, Volume 2, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1982, pp, 389-90
Moça lendo
Adam Clague (EUA, contemporâneo)
óleo sobre tela, 32 x 30 cm
Surpreendentemente fácil de ler, foi minha impressão de A redoma de vidro de Sylvia Plath. Era uma das leituras que me faltavam para uma compreensão mais redonda do século, da escrita por mulheres e do feminismo em geral. Permanentemente listado entre obras que devem ser lidas, eu, receosa de confrontar a depressão que pode eventualmente levar ao suicídio, tema conhecido da obra, evitei a leitura. Foi uma bobagem. Deveria tê-lo lido há muito tempo.
Não é um clássico como eu imaginava. É uma obra que dá a sensação de inacabada, assim como a vida de sua personagem principal, ainda que acabá-la seja um de seus objetivos. Dividida em duas partes que se conectam tenuemente, o leitor sai de uma ensolarada experiência de uma jovem, com problemas de autoestima, inteligente e crítica, que aproveita um prêmio de um mês em Nova York, e acaba com mesma jovem, mais tarde, cuja ansiedade, depressão e realidade sombria parecem incompatíveis com a personagem que conhecemos no início.
O que mais marca nessa narrativa é o retrato, de dentro, digamos assim, dos pensamentos, considerações e preconceitos de uma pessoa imersa em agonia mental, no desespero, que o fim da vida parece, de fato, ser a única solução plausível das reais opções que poderia ter. É aqui que este livro se torna importante, por retratar como pensa alguém cuja solução para a vida é terminá-la, assim como fez a autora, pouco tempo após a publicação de A redoma de vidro, seu único livro de prosa.
No entanto, a narrativa não me comoveu. É distante. Pude reconhecer o sofrimento retratado, mas passei incólume, sem identificação e com empatia moderada. Além disso, esperava um livro mais direto na posição feminista, já que é considerado leitura obrigatória para feministas. Mas a delação da discriminação contra mulheres, ou as descrições do que era esperado das mulheres, ainda que tivessem sido talvez inesperadas para a época, hoje parecem leves, observações inteligentes mas moderadas.
Levei muito tempo para ler este livro, é possível que eu tenha criado expectativas irreais. Mas talvez realmente haja muito dito sobre essa obra porque Sylvia Plath se suicida após sua publicação. Na leitura feita desta vez, não acho que mereça toda a fama que o leva a ser um clássico do século XX, como é considerado por muitos.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
“Dava para perceber que Marco era um misógino porque, apesar de todas as modelos e vedetes de televisão presentes na sala, ele só prestava atenção em mim. Não por bondade ou curiosidade, mas porque calhou de eu ter sido oferecida a ele como uma carta de um baralho em que todas as cartas são idênticas.”
Em: A redoma de vidro, Sylvia Plath, tradução de Chico Mattoso, Rio de Janeiro, Biblioteca Azul: 2019, p. 120
Bar Amarelinho na Cinelândia
Virgílio Dias (Brasil, 1956)
óleo sobre tela
“… Mais tarde, já na Faculdade, e morando no Catete, me lembro que sábado, de tarde, as vezes a gente metia uma roupa branca bem limpa, bem passada (depois de vários telefonemas à tinturaria) e vínhamos, dois ou três amigos, lavados, barbeados, penteados, assim pelas cinco da tarde, fazer o footing na Cinelândia. E estavam ali moças de Copacabana e do Méier, com seus vestidos de seda estampados, a boca muito pintada, burburinhando entre as confeitarias e os cinemas. Não nos davam lá muita atenção, essas moças: seus pequenos corações fremiam perante os cadetes e os guardas-marinhas, mais guapos e belos em seus uniformes resplendentes com seus espadins brilhantes.
Tudo isso passou: o sábado inglês, as dificuldades do trânsito e o próprio tempo agiram, e nesta bela tarde de sábado em que me extravio pelo Centro, há apenas alguns palermas como eu zanzando pela Cinelândia. Só agora reparo nisso, e então me sinto um velho senhor saudosista; não há mais sábado na Cinelândia, creio que não há mais cadetes nem guardas-marinhas, todos são tenente-coronéis, capitães-de-corveta e de fragata, perdidos em Agulhas Negras, quartéis, cruzadores recondicionados nesses mares do mundo. …”
Em: A borboleta amarela (crônicas), Rubem Braga, 6ª edição, Rio de Janeiro, Record: 1982, p. 117
O casamento, [A boda], 1792
Francisco de Goya (Espanha, 1746 -1828)
óleo sobre tela, 269 x 396 cm
Museu do Prado
Reynaldo Valinho Alvarez
Diante de Goya, no Museu do Prado,
vejo sombras que as sombras circundantes
parecem reencarnar. Voltando à rua,
vou para o centro velho. Nestes rostos
que me fitam ou não, há retrarados
do mesmo Goya. Sombras tão goyescas
quanto as sombras que vi entre outras sombras.
Assombra-me o prodígio ao sol ardente
de uma Espanha estival. Que liame estreita
os vínculos dos tempos num só tempo?
Que força une as cadeias com que Cronos
ligou as mãos de tantos entre os séculos?
Agora encaro a praça e vou contando,
como os níqueis do bolso, tantos Goyas.
Em: A faca pelo fio: poemas reunidos, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Imago: 1999, p.59
NOTA: esta postagem é uma homenagem a Reynaldo Valinho Alvarez que faleceu esta semana, aos noventa anos. Um dos poetas contemporâneos de que mais gosto, com provam as diversas poesias de alguns de seus livros que possuo.
Jardim
Henriqueta Lisboa
— Menina faceira
de laço de fita
não vás tão bonita
sozinha ao jardim.
Se pensar Beija-Flor
que teu laço é flor,
pelos ares levará
um anel dos teus cabelos.
— Mamãe, não tenha cuidado,
eu sei dar laço bem dado.
— Menina trigueira
de faces vermelhas
no jardim sem teu irmão
não fiques, não.
Se Beija-Flor imagina
que teu rosto é flor,
menina, minha menina,
de certo um beijo te dá.
— Quando ele me der um beijo,
nas minhas mãos estará.
Em: O menino poeta, Henriqueta Lisboa, (Edição ampliada) Imprensa Oficial de Belo Horizonte, Governo do Estado de Minas Gerais: 1975, pp 65-66