O canal do YouTube Leitura com Chocolate, elegeu À meia voz como o melhor livro de poesias lido em 2024. Muitíssimo obrigada!
Prêmio Leitura com Chocolate: Melhor de poesias do ano 2024!
2 01 2025Comentários : Leave a Comment »
Tags: À meia voz, Ladyce West, Leitura com Chocolate, Literatura Brasileira, Poesia Brasileira, Prêmio
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Conselhos de quem sabe, para ler mais em 2025
31 12 2024
O conselho vem dos juízes do Booker Prize de 2024, que recebi na newsletter do Booker. Todos são escritores e tiveram um ano dedicado à leitura de outros escritores para votar nos melhores do ano. A tradução é minha, e informal
Edmund de Waal
Aconselho você encontrar alguém que leia com você, um amigo. Falar sobre livros é uma atividade que faz a leitura uma parte mais natural do dia a dia. Aquelas perguntas: até onde você chegou, com o livro tal? Que mais você vai ler, depois deste? É uma estratégia perfeita para ler mais e mais. E, leve um livro onde quer que você vá. Você encontrará momentos escondidos em que você poderá ler.
Sara Collins
Uma coisa que ajuda é manter disciplina na leitura, tratando a leitura como um trabalho a ser feito em horas específicas e dar prioridade à ela. Mas devo dizer, que sei que estou diante de um vencedor em potencial quando encontro um livro que não posso deixar de lado. Houve alguns que acabei colocando apoiados à minha frente enquanto eu lavava pratos ou enquanto estava na Stair-Master, ou que me fizeram perder meus horários diversas vezes. Estou louca para contar para as pessoas quais foram esses livros. Quando um livro tem esse efeito, não é nunca uma guerra arranjar um tempo para ler, é uma luta organizar todas as outras coisas à volta daquela leitura. Qualquer um que goste de ler saberá a que me refiro.
Yiyun Li
Sempre defendi a ideia de leitura vagarosa e sempre. Não acho que vivemos num mundo mais atarefado do que as pessoas do passado, mas vivemos num momento com muitas outras distrações. Sempre digo a meus alunos que no lugar de ir para a internet ou abrir o telefone nos primeiros minutos da manhã, nesse mesmo período, eles podem ler por 15 ou 20 minutos de Guerra e Paz. Se fizerem isso ai fim de 12 semanas eles podem acabar de ler o livro inteiro. Para leitores que queiram aumentar o tempo de leitura em suas vidas, talvez pudessem arranjar um canto de leitura onde telas, de todo tipo (telefones, tablets e computadores) sejam proibidos.
Justine Jordan
Leitura e concentração andam cada vez mais difíceis. Li um listinha a respeito. Dica um, coloque seu telefone em outro aposento, e troque o rolar das telas por um livro enquanto come, usa o transporte público ou quando seu amigo não aparece para um encontro. Nadamos num mar de palavras, hoje, então eu também recomendo voltar-se para os clássicos — uma voz de outro tempo pode ser mais eficiente do que a verborreia contemporânea. Mas principalmente, lembre-se do telefone.
Nitin Sawhney
Acho que aderir a um horário para a leitura é a melhor maneira de planejar a leitura de muitos livros. No meu caso, gosto de ler entre 5 e 9 da manhã, quando tenho a mente clara, antes de começar meu dia verdadeiramente. É importante se aproximar de cada livro, página por página até que você se encontre incapaz de deixá-lo de lado. Um ótimo livro força o leitor a continuar lendo até o fim.
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Sincronicidade: lendas arturianas…
26 12 2024Rei Artur e seus cavaleiros celebrando Pentecostes veem Imagem do Santo Graal, c. 1475
Manuscrito encomendado por Jacques d’Armagnac, Duque de Nemours (França,1433-1477)
Folio 610v BNF Fr 116
Biblioteca Nacional da França, Paris
Neste Natal dei para meus sobrinhos, a cada um, uma versão diferente, quadrinhos e história para crianças, de um dos cavaleiros da corte do Rei Artur, recentemente redescoberto pelo historiador e escritor Emanuele Arioli, que lançou o livro Segurant: o cavaleiro do dragão, aqui no Rio de Janeiro [Vestígio: 2024] em meados deste ano, cuja palestra assisti encantada na Livraria da Travessa. Eu havia lido a versão ‘para adultos’ assim que cheguei em casa mas separei em novembro alguns livros para reler nesta semana entre o Natal e o Ano Novo e esse volume foi um dos escolhidos.
Há dezesseis anos escrevo neste blog. Os leitores sabem de minhas preferências, até mesmo da leitura de história medieval como passatempo para o momento em que me canso da ficção. Com frequência digo a meus alunos que apesar de amar minha especialidade, arte europeia moderna [1863-1945] é possível, que se tivesse que fazer tudo de novo, me tornasse medievalista. Mas eles também já me ouviram mencionar outras opções que igualmente me fascinam, como o século XVII na França, com Luís XIV, o século de ouro na Holanda…. e provavelmente não me levam mais a sério! Tudo pode me encantar. A gente ama aquilo que conhece. Ai, ai, são tantas fases, tanto que ler, aprender, absorver até que se torne um conhecimento que respiro e transpiro… difícil escolha! Mas a época medieval também é problemática, mesmo que se divida em Alta e Baixa Idades Médias. Há séculos e séculos de intrincadas briguinhas, arrufos, compromissos de casamento quebrados, mortes, assassinatos, traições entre herdeiros, centenas de cidades-estado cada uma do tamanho de um botão de camisa, com regras de comportamento para diferentes classes sociais, para cidadãos ou não cidadãos, leis que variam em poucos quilômetros de distância, restrições religiosas fora e dentro da própria Igreja, enfim, um mapa do ocidente como uma colcha de fuxicos em que cada retalho representa um domínio com regras próprias. Esse mundaréu sempre me intimidou pela quantidade de informação a ser guardada.
Minha sedução pela Idade Média começou quando cheguei aos Estados Unidos ainda muito jovem. Apesar de ter tido sólida base gramatical da língua inglesa, essa não tinha sido minha língua estrangeira preferencial. Francês, adquirido através de uma sequência de anos na Aliança Francesa, poderia até ser considerada uma quase segunda língua, porque comecei a aprendê-la aos dez-onze anos. E como meus pais eram daquela geração que lia francês fluentemente, não era raro esbarrarmos em livros franceses em casa. Em inglês eu não tinha fluência e precisava aumentar o vocabulário urgentemente se quisesse passar no Toefl para completar meus estudos. Poucos meses depois de chegar a Baltimore, entrei para um grupo de leitura em que a maioria das pessoas era ligada à universidade Johns Hopkins. Foi uma grande batalha ler os livros escolhidos. Mas enfrentei e ainda li mais do que os que eram pedidos. Desse primeiro ano de experiências em um grupo de leitura, algo que eu não conhecia nem havia ouvido falar dessa maneira de encontrar amigos leitores, dessa época de adaptação à força ao país — e depois disso, sempre frequentei grupos de leitura não importava em que estado ou cidade eu morasse –, três livros, desse primeiro ano, me marcaram profundamente: Of Mice and Men, de Steinbeck, The French Lieutenant’s Woman, de John Fowles (que depois me levou a ler The Magus), e The Once and Future King de T.H. White.
A imensa fantasia de The Once and Future King sobre o Rei Artur, Merlin e demais personagens da Távola Redonda me seduziu com grande facilidade. Lembremos que a essa altura eu ainda não era uma historiadora, e havia deixado no Brasil um curso de letras em Literatura Francesa na UFF e dois anos de história da arte com ênfase em semiótica, percepção, filosofia da arte e afins. Reli The Once and Future King ainda uma vez no mesmo ano em que o conheci. Daí por diante li diversas lendas medievais. Mas a lenda do Rei Artur sempre terá para mim esse gostinho especial, de achado miraculoso. E isso foi muito antes de qualquer versão no cinema.
Eis que estou lendo também, o livro Eu vou, Tu vais, Ele vai de Jenny Erpenbeck, que está sendo uma leitura maravilhosa e devo ainda acabá-la antes do final do ano oficial, apesar de tê-la começado no dia de Natal. Uma das coisas que me encanta nesse livro de Erpenbeck são as referências literárias e musicais que encontramos logo no início da obra: alusões a leituras clássicas e a composições musicais. Se eu já era uma leitora curiosa, no tempo em que fazia uma lista para depois procurar na enciclopédia ou quando munida do Petit Larousse, que sempre tive ao meu lado nas leitura, procurava um mínimo de informação sobre lugares, personagens históricos ou literários; depois da internet sou compulsiva em consultar dados às vezes até mesmo para verificar se minha memória não me trai. E diga-se de passagem as leituras no Kindle, onde no momento preciso em que encontramos uma palavra, um fato, menção de um livro, um local, podemos colocar o dedinho em cima da palavra e imediatamente obter naquele mesmo minuto, alguma informação sobre o que não se conhece, é uma das grandes contribuições ao conhecimento de todos nós, à educação, ao alargamento de nossas visões.
Pois dentre as dezenas de alusões literárias em Eu vou, Tu vais, Ele vai esbarrei numa referência a Tristão do romance medieval Tristão e Isolda, lenda, que até o renascer da fantasia como uma fatia das obras de ficção contemporânea, andava um tantinho esquecida. A menção é breve, pelo menos por enquanto; ainda não terminei a leitura, mas aparece assim: “Como Brancaflor, Richard pensa, a mãe de Tristão.” [84] Parei para pensar Brancaflor, não me lembrava que esse era o nome da mãe de Tristão. Mas cheguei a saber o nome da mãe dele? Deveria saber? Fui atrás. A mente da gente é estranha. Associações às vezes são esdrúxulas. A primeira coisa que me veio à mente, quando li o nome dessa senhora, foi: “Brancaflor, bonito nome, todo junto, quando poderia e deveria ser escrito separado. Como o nome daquela mulher aqui do Rio de Janeiro, que mandou matar o marido, que tinha muitos filhos adotivos, mais de dez, e que esteve nas manchetes da televisão aqui no Rio de Janeiro: Flordelis.” Vai entender a cabeça da gente. Enfim o romance de Tristão e Isolda é uma lenda medieval, também do ciclo Arturiano. Isolda uma princesa da Irlanda. Para mim, esse romance e mais dois romances famosos, também fizeram parte do meu dia a dia, de outra forma: foram um conjunto de três gravuras do século XIX que decorava na minha casa, na Carolina do Norte, uma pequena parede na entrada de nossos aposentos, Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e Paulo e Virgínia: uma lenda medieval, um romance renascentista e um casal francês do final do século XVIII. Essa trinca foi a leilão antes de nos mudarmos para o Rio de Janeiro. Isso é outra história, curiosa, mas para outro momento.
Tristão e Isolda, 1902
Edmund Blair Leighton (Inglaterra, 1852-1922)
Óleo sobre tela, 128 x 147 cm
Coleção Particular
Houve uma grande volta às lendas medievais nas artes do século XIX, principalmente na Inglaterra, iniciada com o grupo de poetas e pintores Pré-Rafaelitas em meados do século. Eles exploraram bastante o passado folclórico e contos medievais. Mais tarde, no final, do século XIX, já por toda Europa, a pintura histórica abraçou temas românticos com ardor. Mas esse também é um assunto para outras conversas, pontuações soltas, papo jogado fora, no final de um ano que se encerra. Certamente voltarei a alguns desses temas.
O que me levou a pensar em sincronicidade foi perceber e rememorar tantas histórias arturianas à minha volta, em tão pouco tempo. Referências: dos presentes de Natal que dei, às minhas primeiras leituras no Estados Unidos, à menção de Tristão e Isolda no livro de Erpenbeck, às gravuras no recluso hall de entrada, tudo parece me manter nesse passeio literário circular. Não estou conseguindo deixar a Idade Média de lado. O tema está no que leio e relembro. Ah, sim, esqueci de mencionar, um fac-símile da lenda de Tristão e Isolda, de uma publicação inglesa do século XVI, ilustrada por xilogravuras, foi o primeiro presente que meu marido me deu. Ele certamente conhecia meus interesses e soube me conquistar.
Boas leituras!
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“O Natal das primeiras experiências I” crônica de Flavio Machado
23 12 2024O Natal das primeiras experiências, I
Flavio Machado
Lembro da primeira vez que vi o natal acontecer. Na madrugada acordei e vi deslumbrado ao lado da árvore de natal, o velocípede pedido a papai noel. Como era bonito o meu velocípede de metal.
A árvore era um capitulo a parte em nossa casa, naqueles dias era simplesmente a nossa árvore de natal, ficava incógnita no quintal durante o ano, plantada em lata de 20 de litros, quando aproximava – se o dia 25 de dezembro, ela ganhava destaque, a lata enferrujada ganhava papel alumínio para lhe cobrir as feridas do tempo, a árvore enfeitava-se de bolas coloridas, e no alto a estrela guia, simbolizando a estrela que apontou caminho para a manjedoura. E para um toque europeu, enchíamos de algodão, para dar ares europeus, um costume daquele tempo nas casas suburbanas.
E na nossa casa tinha um pequeno presépio que minha mãe desembalava de cima do armário, a representação da cena do nascimento de Jesus em Belém, eu lembro que aquela cena tinha uma ar de grande importância, aos meus olhos de menino
No subúrbio era uma festa, o dia seguinte, desfile de presentes entre a garotada. Tudo muito especial para o menino que descobria o natal, A nossa casa era simples, um quarto e sala em uma rua ainda sem calçamento do Engenho da Rainha, mas aos olhos do menino era um palacete, um castelo como daquelas intermináveis histórias que minha avó contava.
E simplicidade era a palavra-chave, o ar ingênuo daqueles anos, qualquer coisa era motivo de comemoração, por mais singelo que parecesse. Na minha casa não se falava tanto de religião, mas eu sabia por escutar que comemorávamos o nascimento de Jesus. E aquele presépio tão pequeno hoje, mas que era gigantesco na época, tão pobrezinho e tão rico.
Agora depois de passados tantos anos, a lembrança daquele natal, emociona de verdade o coração envelhecido, mas não imune a essa nostálgica madrugada, quando o velocípede de metal surgiu na sala. E o menino resiste, e de repente surge pedalando com o presente sonhado. Como gostaria que todos pudéssemos recuperar as primeiras emoções de alegria, seja numa noite distante de natal, seja mais recente, e que Jesus esteja conosco, assim como aquele menino parecia entender vendo a cena retratada do nascimento de nosso Senhor, nosso Salvador, num pequeno presépio montado na memória.
05 de Novembro de 2024.
Cabo Frio, RJ
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Poema com pena, de Almir Correa
17 12 2024Poema com pena
Almir Correa
Fiz um poema
e não sei se vale a pena
poemar.
É um poema com pena
pena do céu
pena da terra
pena do mar.
Não tem mais pena de índio
Porque índio já não se acha em nenhum lugar.
Mas ainda tem
pena de arara azul
pena de galinha sem cabeça
pena de pato pateta.
Tem tanta pena
pena até de travesseiro.
Só não tem pena nenhuma do burro
porque burro não tem pena.
Em: Poemas Malandrinhos, Almir Correa, São Paulo, Atual:1992
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Presentes? Pequenos livros…
12 12 2024
Não sei se as pessoas andam com pouco tempo, mas algumas chegaram a me contatar, lá por volta de setembro, para que eu desse algumas dicas de bons livros que fossem curtos. Inicialmente pensei em livros com 250 ou menos páginas. Fiz um pequeno apanhado. Mas isso levou a mais pedidos de livros de menores tamanhos, quase contos.
Selecionei alguns que tinha aqui em casa. Como essas conversas haviam sido através do meu Instagram, [@escritora.ladycewest] fiz alguns sete vídeos. Tive sucesso. Na verdade mais sucesso do que imaginei. Mas foram poucos os vídeos. Depois de uma vasta pesquisa, agora tenho aproximadamente uma série de uns setenta livros. Esses colocarei no Instagram e aqui no blog a partir de 2025. E colocarei minhas opiniões sobre eles.
Mas hoje, aproveitando que o Natal se aproxima, resolvi colocar aqui aqueles livros que já mencionei que são pequenos e de excelente qualidade. Não cheguei a colocar todos os vídeos no blog. Francamente sou muito sem experiência digital e isso tudo, que as pessoas parecem fazer brincando, para mim, leva muito tempo.
Já tenho uma poesia por dia no meu Instagram. Se vocês quiserem ver é o mesmo Insta daí de cima. Mas essa exposição ainda não faz parte de mim. Ainda não gosto. Sei que tenho que mudar. Nós todos temos. Mas não é fácil. Aqui vai então a lista dos livros de que já falei anteriormente.

1 – O papel de parede amarelo, Charlotte Perkins Gilman, Editora José Olympio, 112 páginas
O papel de parede amarelo é um clássico da literatura feminista publicado pela primeira vez no Brasil.
Para tratar a esposa fragilizada, um médico aluga uma fazenda histórica, na tentativa de criar ali um retiro de recuperação emocional. O lugar é encantador, com uma bela mansão colonial e jardins amplos e sombreados. Tudo parece compor o cenário perfeito. Mas algo de muito estranho se passa naquela casa… especialmente no quarto em que o casal se instala, com o sombrio papel de parede amarelo.
Desde sua publicação, em 1892, o drama narrado por Charlotte Perkins Gilman tem sido categorizado como uma narrativa de aberração mental, uma história de terror ao estilo de Edgar Allan Poe ― não só pela temática, mas pela qualidade textual. Os críticos contemporâneos observam, no entanto, que O papel de parede amarelo apresenta elementos que vão além da fantasia ou do delírio, fazendo com que este livro, como afirma Elaine R. Hedges, no posfácio à presente edição, seja “um dos raros textos literários de uma autora do século XIX que confrontam diretamente a política sexual das relações homem–mulher, marido–esposa”. Talvez seja esse o motivo pelo qual o texto original tenha sido rejeitado por alguns editores até sua publicação na New England Magazine .
O fato é que a autora, grande intelectual feminista e professora, que atinge seu ápice literário neste conto, foi responsável por uma produção extremamente relevante de textos não ficcionais sobre a condição da mulher em seu tempo. Por ter vivido sob depressão durante um período e haver recebido tratamento psicológico duvidoso, é possível perceber elementos autobiográficos na história que temos em mãos. Quando nos aproximamos da personagem feminina de O papel de parede amarelo , uma mulher deprimida e submetida a um tratamento impositivo e infantilizador, percebemos que a incômoda estranheza sentida por ela tem suas causas em algo além da casa e das aberrantes visões despertadas pelo papel de parede amarelo. E o estranho, como observou Freud, é aquilo que nos é mais familiar.
2 – A casa de papel, Carlos Maria Dominguez, Editora Francis, 104 páginas
Na primavera de 1998, Bluma Lennon, uma professora de Cambridge, está lendo um livro de poemas de Emily Dickinson quando é atropelada. Após a sua morte, um colega e ex-amante recebe um exemplar de A linha da sombra, de Joseph Conrad, em que Bluma escrevera uma misteriosa dedicatória e que lhe era agora devolvido. Intrigado, ele parte numa busca que o leva a Buenos Aires com o objetivo de procurar pistas sobre a identidade e o destino de um obscuro, mas dedicado bibliófilo e a sua intrigante ligação com Bluma. A casa de papel é uma fábula sedutora sobre o amor desmesurado pelas bibliotecas e pela literatura. Uma envolvente intriga policial e metafísica que envolve o leitor numa viagem de descoberta e deslumbramento perante os estranhos vínculos entre a realidade e a ficção.
3 – O fuzil de caça, Yasushi Inoue, Editora Estação Liberdade, 112 páginas
No Japão, o período do pós-guerra trouxe definitivamente à tona toda sorte de questões que mantiveram caráter de tabu durante tanto tempo, numa tradição secular de silêncio e discrição. Isso faz com que o enredo de O fuzil de caça, cujos personagens estão enleados em um caso de amor extraconjugal, não constitua por si só uma novidade ou um fator de estranhamento. É também na forma, e não apenas em sua temática, que a obra se consolida como fundamental no panorama da literatura japonesa contemporânea.
Lançando mão da tradição do romance epistolar, convida o leitor à posição de voyeur de uma comunicação unilateral e inusitada entre um caçador, Josuke Misugi, e um escritor. Três cartas, endereçadas a um mesmo homem por três mulheres diferentes, imprimem uma textura trágica à trama.
O jogo de narradores; as cartas como único veículo para a torrente de alta tensão emocional que se revela ao leitor; o exercício constante da concisão e o lirismo que transpira de uma prosa que se mantém sempre vizinha do território poético: a estética e o conteúdo se entrelaçam, e o entrecho se apresenta belo como uma trilha na neve. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre o que é dito e o que é velado mantém o mundo da solidão presente em cada linha e constante em todos os personagens. Permeiam estas páginas o isolamento e a carência de franqueza nas relações humanas, que as cartas reveladas por Misugi tentam romper e atravessar.
4 – Não é um rio, Selva Almada, Editora Todavia, 96 páginas
Com sua prosa precisa e econômica, a argentina Selva Almada é uma das vozes mais originais da literatura de língua espanhola contemporânea. Seu universo também é peculiar: a autora não fala da cosmopolita Buenos Aires. Seu ambiente é o mundo interiorano, onde vilarejos quase esquecidos no mapa abundam em histórias em que a violência, os laços familiares e velhos costumes ainda são decisivos. É o caso deste novo romance, um livro que trata da amizade e seus segredos. Durante uma pescaria entre três homens, a complexidade com que se forjam os afetos é revelada como o próprio curso de um rio. Enero Rey e Negro levam Tilo, o filho adolescente de Eusébio (o amigo morto dos dois), para pescar. Enquanto bebem vinho, cozinham, falam e dançam, eles lutam com os fantasmas do passado e do presente. Esse momento íntimo e peculiar que conecta a trajetória desses três homens também os liga à vida dos habitantes locais nesse ambiente cercado de água e regido por suas próprias leis. Há perdas e mortes prematuras. Mas há também a teimosa vitalidade da natureza: um matagal coberto de árvores centenárias, animais, pássaros; o rio trazendo vida nas suas entranhas; as gentes nascidas e criadas nessa paisagem que a protegem com unhas e dentes contra os intrusos. Humano, mas ao mesmo tempo animal e vegetal, este romance flui como uma conversa entre seres que se amam.
5 – Todas as manhãs do mundo, Pascal Quignard, Editora Zain, 96 páginas
Século XVII, à época do rei Luís XIV, um aclamado mestre da viola da gamba, o senhor de Sainte Colombe, vive para a música. Homem de poucas palavras, de constantes ataques de cólera, dedica-se incansavelmente ao seu instrumento, isolado em sua cabana. Desde a morte da esposa, para quem compusera em homenagem o Túmulo dos lamentos, vivia sozinho com as duas filhas, a quem ensinara a música desde muito cedo. Recebe, certo dia, a visita de um jovem músico de dezessete anos, o senhor Marin Marais, que deseja estudar com o mestre e aprender os segredos da viola da gamba. Estes dois músicos com visões opostas de mundo refletem sobre a vida e a arte em uma trama brilhante na qual ficção e realidade se misturam neste que é um dos mais conhecidos livros de Pascal Quignard.
6 – O último amigo, Tahar Ben Jelloun, Editora Bertrand, 128 páginas
Escrito em estilo direto e claro, O Último Amigo é também um retrato cruel do Marrocos dos anos de repressão e das desilusões que se seguiram. Além dessa paisagem humana e política, e até a reviravolta final, O Último Amigo deixa entrever uma sociedade complexa e contraditória, arcaica e moderna. Mesmo quando se é exilado do Marrocos, volta-se lá para morrer.
7 – O Carrasco que era santo, Josué Montello, Editora Nova Fronteira, 102 páginas
Com a morte do carrasco, o rei ordena que Ludgero assuma o cargo. Inconformado com a pena de morte, ele e seu amigo Libório armam um plano de fuga para os condenados. Lenda medieval narrada por uma contadora de histórias, que diverte e ao mesmo tempo provoca sérias reflexões.
Já estou me preparando para postagens o ano inteiro sobre livros pequenos. Aguardem.
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Resenha: Kentukis, de Samanta Schweblin
11 12 2024Brinquedos de férias
Valentina Valevskaya (Ucrânia, contemporânea)
óleo sobre tela, 40 x 50 cm
Cheguei à escritora argentina Samanta Schweblin por Kentukis, tradução de Guilherme Pires, [ed. Fósforo] por este livro ter sido incluído na primeira seleção de finalistas do Booker Internacional, em 2020. Mais tarde descobri que a obra também havia sido nomeada como melhor ficção científica de 2020, por diversos críticos internacionais, como relata o início da sinopse da Amazon: A Guardian & Observer Best Fiction Book of 2020 * A Sunday Times Best Science Fiction Book of the Year * The Times Best Science Fiction Books of the Year * NPR Best Books of the Year. Com toda essa retumbante aprovação, muitos diriam que eu estava pronta para ser desapontada. Não exatamente. Mas tenho alguns problemas com a narrativa. A proposta é astuta, o tema é interessante e do momento. Combina avanços tecnológicos em robótica com o uso das redes sociais. E em sua narrativa retrata o imediatismo e falta de continuidade a que nos habituamos com os clipes nos diversos portais de interação pessoal.
A história gira em torno de robôs comandados à distância, disfarçados de animaizinhos de pelúcia que se tornam companheiros de quem os compra. Seus olhos são câmeras e por intermédio de pessoas que os dirigem, a milhares de quilômetros de distância, como se dirige um drone, eles podem se relacionar com seus mestres (donos). Podem servir de companheiros, semelhantes a um animal de estimação. mas que precisam de recarga na bateria. Eles podem causar problemas inesperados também aos seus donos. Chamados kentukis, ele são vendidos como companheiros-brinquedos e rapidamente fazem sucesso no mundo inteiro.
“Agora existiam aqueles aparelhos por todos os lados, tantos que até seu pai parecia começar a entender do que se tratava. Estavam frequentemente no noticiário, retratados em reportagens de comportamento ou em histórias de fraudes, roubos e extorsões. Os usuários compartilhavam vídeos em todas as redes sociais, com suas invenções caseiras de kentukis presos a drones, montados em patinetes ou passando o aspirador pela casa. Tutoriais decorativos, conselhos pessoais, milagres de sobrevivência diante de acidentes insólitos. Um kentuki panda assustando um gato e fazendo-o saltar pelo ar. Um kentuki coruja com gorro natalino batendo em sete taças com a ponta do nariz e fazendo soar uma canção de Natal.”
O projeto de Samanta Schweblin é ambicioso. Em sua narrativa seguimos diversos kentukis, comprados com diferentes propósitos, vivendo em várias partes do mundo, dirigidos por pouquíssimas pessoas. Para nos dar a ideia desta imensa variedade de experiências dos kentukis e da profusão de personalidades de seus donos, a sequência narrativa é picada, em stacatto, não tem continuidade. Temos uma colcha de retalhos, flashes de vidas cujos personagens não conhecemos e só iremos conhecer aos poucos. São pequenos contos inacabados, que mais tarde, ao acaso, voltamos a visitar. Essa técnica engenhosa nos ajuda na compreensão da multiplicidade de aventuras dos robô-drones e no entendimento da variada localização desses brinquedos – da Alemanha à Amazonia, por exemplo. Mas torna difícil para o leitor seguir as ‘aventuras’ sem ter que voltar atrás algumas páginas para se conectar uma vez mais com os personagens: daquela casa, daquela cidade, daquele país. Esses relatos das vidas dos kentukis e a sequência de aventuras independentes espelha os pequenos vídeos, pedaços das vidas de pessoas que não conhecemos, em situações que podem ou não ser comprometedoras, que podem ou não ser agradáveis, qua aparecem em um feed de qualquer das populares redes sociais.
Além de retratar a multiplicidade de realidades encontradas pelos kentukis, Samanta Schweblin insere observações de alerta sobre o perigo de abrirmos nossas vidas a esses dispositivos de conexão social. Logo no início um dos personagens reflete: “Não se podia contar com o bom senso das pessoas, e ter um kentuki circulando por aí era a mesma coisa que dar as chaves da sua casa a um desconhecido.” E sobre a necessidade de haver alguma regulamentação das novas engenhocas que vieram fazer parte do nosso cotidiano.
Samanta Schweblin
Por se tratar de literatura, sinto que a interação dos personagens com os kentukis poderia ser um tantinho mais desenvolvida. Mas, no todo, o livro cobre a vida das pessoas comuns e a imensa necessidade humana de companheirismo. Esses personagens que observamos pelos olhos dos kentukis são solitários: mal conhecem seus amantes, amigos ou familiares. Isso não escapa ao leitor. Acompanhamos, as preocupações da autora quando percebemos que vivemos num período de transição entre uma vida com privacidade e a, atual, quase sem ela, onde podemos ser reconhecidos por câmeras de segurança nas ruas de qualquer região urbana, identificados entrando e saindo de aeroportos, edifícios, estacionamentos, shoppings, calçadas movimentadas, elevadores comerciais, transportes coletivos. E mais, o livro aborda a imensa curiosidade humana sobe a vida alheia, que sempre existiu, mas que hoje tem a aprovação de todos. Essa história aborda também necessidade de muitos de exibirem aquilo que os rodeia ou faz parte de suas vidas. Essa aceitação à vigilância sobre o outro, que tomou conta das televisões abertas no mundo inteiro, desde a virada do século vinte e um, é a essência dessa obra. Atrás de cada kentuki há um ser humano atraído por alguém, qualquer alguém, porque ele não escolhe quem o compra, que então observa, sem a expectativa de interferir naquela realidade. Isso nem sempre acontece, mas quando acontece os resultados são imprevistos. Kentukis é um livro que retrata exatamente essa “descoberta” do século: a sedução que temos pela vida alheia:”O que era aquela estúpida ideia dos kentukis? O que fazia toda aquela gente circulando por pisos de casas alheias, olhando como a outra metade da humanidade escovava os dentes?” A descoberta de que a vida cotidiana, sem nada extraordinário, banal é chocante: “Por que as histórias eram tão pequenas, tão minuciosamente íntimas, mesquinhas e previsíveis? Tão desesperadamente humanas.“
Kentukis coloca esse espelho à nossa frente para vermos o que como sociedade estamos desenvolvendo, as regras que deixamos para trás e permitimos o novo, sem regulamentação. O mundo anda depressa. Será que sabemos nos comportar quando há tanta coisa nova? Há um personagem nessa história que diz: “ou você se moderniza ou a vida te atropela”. É um bom sumário do espírito dos tempos.
Se você gosta de ficção científica com crítica social, na tradição de Huxley ou Orwell, bem leve, este livro lhe agradará. Recomendo.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
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