Campestre, poesia de Zalina Rolim

28 10 2014

Aldo Bonadei - Paisagem - Óleo sobre placa - 1964 - 29 x 39 cmPaisagem, 1964

Aldo Bonadei (Brasil, 1906-1974)

óleo sobre placa, 29 x 39 cm

 

Campestre

Zalina Rolim

Longe da estrada, à beira do riacho

que molha os pés revoltos da colina,

vejo-lhe o teto enegrecido e baixo

e a cancelinha baixa e pequenina.

Da chaminé desprende-se um penacho

de fumo branco… Levemente inclina

as verdes palmas sobre o louro cacho,

do coqueiro frondoso, a aragem fina…

Faísca o sol. Do terreirinho à frente

galinhas, patos, debicando o milho,

batem as asas preguiçosamente.

Nenhum rumor de pássaros palpita,

e a roceirinha, adormecendo o filho,

canta lá dentro uma canção bonita.

Em: Criança Brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1949, pp, 73-4

 





Palavras para lembrar — Eduardo Gianetti

28 10 2014

 

 

Swatland SONATA IN A MINOR oil on linen 16 x20 inchesSonata em lá menor

Katie Swatland (EUA, 1981)

óleo sobre tela, 50 x 75 cm

 

 

“A felicidade  não se aprende nos livros, mas pode brotar deles.”

 

Eduardo Gianetti





Trova das Rosas

27 10 2014

 

rosas menina cartão postalCartão postal, início do século XX.

 

Ironia caprichosa

do tempo ao traçar caminhos:

transforma o botão em rosa

e enche a roseira de espinhos!

 

(Pedro Ornellas)

 





Trova da esperança

23 10 2014

 

beijinho, agnes richardsonCartão postal, Agnes Richardson (Inglaterra, 1885-1951)

 

No desejo de pescar

um pouquinho de esperança,

eu espero conquistar

um beijinho de lembrança…

 

(Olivaldo Júnior)

 

 





O califa e o ancião, texto de Latino Coelho

21 10 2014

 

 

an_arab_horseman-large 13Um cavaleiro árabe, 1865

Gustave Boulanger (França, 1824-1888)

óleo sobre tela

Coleção Particular

 

O Califa e o Ancião

Latino Coelho

 

Ia o califa Harum-al-Raschid por um campo, aonde andava a folgar à caça, quando sucedeu de passar por pé dum homem já muito velho, que estava a plantar uma nogueirinha. Então disse o califa aos do seu séquito:
— “Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse no vigor da mocidade, e contasse como certo vir a gozar dos frutos desta planta.” Indo-se então o califa em direitura ao velho, perguntou-lhe quantos anos tinha. “– Para cima de oitenta”, respondeu o velho; “mas, Deus seja louvado, sinto-me ainda tão robusto e saudável, como se tivesse apenas trinta.” “– Sendo assim”, redarguiu o califa, quanto pensas tu que ainda hás de viver, pois que nessa idade já tão adiantada estás a plantar uma árvore que por natureza só daqui a largos anos dará fruto?” “– Senhor, disse o velho, tenho grandes contentamentos em a estar plantando, sem inquirir se serei eu ou outros atrás de mim quem lhe colherá os frutos. Assim como nossos pais trabalharam por nos legar as árvores que nós hoje desfrutamos, assim é justo que deixemos outras novas, com que nossos filhos e netos venham a utilizar-se e a enriquecer-se. E, se hoje nos sustentamos dos frutos do seu trabalho e se foram nossos pais tão cuidadosos do futuro, como havemos de retribuir em desamor aos nossos filhos o que de nossos pais recebemos em carinho e previdência ? Assim, semeia o pai para que o filho possa vir a colher.”

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

 

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário) p. 201

 

Texto usado hoje em alguns colégios no 6º ano do ensino fundamental.





Trova da vida que passa

20 10 2014

 

 

ciranda, anne andersonIlustração de Anne Anderson.

 

 

Lá vai a vida, girando.

Então, giremos também,

que a vida gira, levando

os sonhos que a gente tem.

 

(Jesy Barbosa)

 





Trova da amizade

15 10 2014

 

amigos, bons, margret borissCartão postal, Margret Boriss.

 

 

Guardada como fragrância,

a verdadeira amizade

não se perde na distância,

adormece na saudade.

 

(Ângela Togeiro)

 





A cortina, poesia de Maria Thereza de Andrade Cunha

13 10 2014

 

Caspar David Friedrich, Woman at the Window (1822) oil on canvas, 44 x 73 cm (Alte Nationalgalerie, Berlin).Moça à janela, 1822

Caspar David Friedrich (Alemanha, 1774-1840)

óleo sobre tela, 44 x 73 cm

Alte Nationalgalerie, Berlim

 

 

A cortina

 

Maria Thereza de Andrade Cunha

 

 

Quando a rua em que moro tu subias,

Por detrás da cortina eu te esperava;

E passavas sorrindo, pois bem vias

Que a cortina de rendas ondulava…

 

Como foram felizes esses dias

Em que meu coração se alvoroçava,

Quando longe passavas, e sabias

Que eu, de longe, te via… e te adorava!

 

Deixaste de passar à minha porta.

Da cortina rasgaram-se os babados.

— O tempo, rendas e esperanças corta! —

 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . .

 

Foi trocada a cortina da janela!

A nova é toda  feita de bordados

… Mas, eu gostava muito mais daquela…

 

 

Em:  É primavera… escuta., Maria Thereza de Andrade Cunha, Rio de Janeiro, 1949, p.49-50.





Trova do auto conhecimento

9 10 2014

 

astronauta 2, tintin, milou, hergéTintin e Milou estão na Lua, ilustração Hergé.

 

 

Se o homem conquista o espaço,

por que é que, lutando a esmo,

é incapaz de dar um passo

para dentro de si mesmo?!…

 

(Izo Goldman)





Distração, poesia de João Manuel Simões

7 10 2014

 

 

brinquedos de toda horaAutoria não identificada.

 

 

Distração

 

João Manuel Simões

 

 

Azar: acabei por esquecer

num baú antigo

a caixa de lápis de cor

com que eu costumava pintar

o arco-íris.

(Foi antes de pegar o trem

que me trouxe ao presente).

Por isso sou obrigado a me contentar,

hoje,

com as imitações desenhadas no céu,

depois da chuva.

 

 

Em: Poemas da infância,antologia poética,  João Manuel Simões, Curitiba, Livros HDV: 1989, p. 60