A formiga e a cigarra, poesia de Afonso Louzada

18 12 2014

 

la cigale et la fourmiIlustração para a fábula de La Fontaine, de Calvet-Rogniat.

 

 

A formiga e a cigarra

 

Afonso Louzada

 

 

Depois de acumular barras e barras de ouro,

a formiga, afinal, sentiu o último alento,

pesarosa, talvez, como bom avarento,

de não poder levar consigo o seu tesouro.

 

–“A minha vida foi um trabalho incessante!

Trabalhei! Trabalhei sem parar um instante!”

 

Naquele mesmo dia, estranha coincidência,

exausta de cantar, a boêmia da cigarra

o derradeiro adeus deu, cheia de eloquência,

à vida que levara, ao léu, sempre na farra.

 

— “Cantei! Cantei, alheia ao mais, despreocupada,

que a vida é só amor; o resto não é nada!”

 

E, juntas, para o céu elas foram subindo.

A cigarra cantava, estuante de alegria:

— “Mas que dia! E que sol! Como tudo está lindo!”

— “O meu ouro ficou…” a formiga gemia.

 

Foi recebê-las Deus: — “Responde-me cigarra;

o que fizeste lá? O que fizeste, narra.”

 

— “Cantei. Sempre cantei, em meio à humana dor,

a alegria da vida, a alegria do amor”.

 

— “E tu?” — “Eu trabalhei. E tudo lá ficou…”

Depois de ouvi-las, Deus bondoso lhes falou:

 

–“O trabalho merece e a glória do Paraíso.

Mas tu, (disse esboçando esplêndido sorriso,

 

sob a fascinação do canto da cigarra)

se levaste, afinal, uma vida bizarra

 

alegraste, porém os corações aflitos

que sangravam de dor, dos humanos precitos”.

 

…  E à flor dos lábios tendo seu melhor sorriso,

abriu para a cigarra as portas do Paraíso.

 

 

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1947, pp, 11-12.

 





Trova do meu bem

16 12 2014

 

Mulher, 1905,Stanislaw Wyspianski, esposa do pintor,pastel, 36x36Mulher, 1905

[esposa do pintor]

Stanislaw Wyspianski (Polônia, 1869-1907)

pastel sobre papel, 36 x 36 cm

 

 

Eu não explico a ninguém,

pois ainda não compreendi

porque te chamo meu bem

se sofro tanto por ti.

 

(Gilka Machado)





Desafio #poemaday nº 7 — as margaridas

8 12 2014

 

OldDesignShop_Daisies1904

 

Margarida

 

Ladyce West

 

Margarida
Singela
De miolo amarelo
E coroa dobrada
Amarela, branca, rosada.
Nome de mulher-flor.
Não se parece a outras tais,
Orquídea, Hortênsia,
Petúnia, Íris e Zínia,
Dália, Rosa, Magnólia,
Violeta ou Verônica
lindas flores-mulher.
Como a Rosa
Santa é.
Em inglês sobe à nobreza
Lá, Margaret é princesa.
Também é pata famosa
Com sobrinhas orgulhosas.
Mas sua grande função
É a divinação …. do amor.

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 2014





Resenha: Há quem prefira urtigas, de Junichiro Tanizaki

7 12 2014

 

Shibai_Ukie_by_Masanobu_OkumuraCena de uma peça, [Shibai Ukie], c. 1740

[Teatro Edo Ichimura-za]

Masanobu Okumura (Japão 1686-1764)

 

 

Uma narrativa sensível e indireta. Delicada. Com um tema que me pareceu um tanto datado: divórcio. Foi difícil, para mim, me situar em um tempo anterior à Segunda Guerra Mundial, em um Japão cujas principais metáforas para a explicação dos sentimentos foram o teatro Kabuki ou músicas cantadas que diferenciam a língua falada em Tóquio da língua falada em outra área. As metáforas, extensas, nesse livro, vêm cheias de considerações que eu sabia estar perdendo, limitada pela minha ignorância sobre a cultura do país na época.

 

sp 01 e 02-11-2011 033_mod

 

A introdução à metáfora do teatro logo no início do romance passa ao largo de quem não conhece os personagens. Sim, no palco há uma boneca mulher, que não tem vontade própria. Mas é só isso? Não há de haver mais já que passamos tanto tempo enroscados naquela descrição. Encontrei-me consultando o Google a cada vinte páginas, tentando captar mais do que uma leitura superficial do texto.

Sim, a dúvida do casal, mais dele do que dela, de se separar ou não. Entregar-se à modernidade ocidental ou às tradições nipônicas de pré-guerra é óbvia, permanente e angustiante. Mas por ser parte de uma narrativa metafórica e oblíqua, leva muito tempo para ser desenvolvida.

 

junikiro-tanizakiJunichiro Tanizaki

Penei para achar uma maneira de relatar as minhas frustrações com o romance sem tentar desencorajar quem quer que seja de lê-lo, pois a opinião da maioria dos leitores desse romance é muito mais apreciadora do que a minha. Mas fui forçosamente lembrada dos romances do início do século XX, em que as histórias podem ser longas e um tanto repetitivas porque muitas vezes apareciam em capítulos semanais.

Definitivamente não recomendo sua leitura como uma introdução à literatura contemporânea japonesa, mesmo sendo este autor considerado um dos pais da moderna literatura do país.

 





Imagem de leitura — Willem Haenraets

6 12 2014

 

WillemHaenraets (Holanda 1940)Leitora

Willem Haenraets (Holanda, 1940)

 





Imagem de leitura — Denis Gringas

3 12 2014

 

 

Denis Gringas, (França), Leitura na praia, óleo sobre tela, 75 x 90 cmLeitura na praia

Denis Gringas (França)

óleo sobre tela, 75 x 90 cm

 





Resenha: Segredo de justiça de Andréa Pachá

27 11 2014

 

gilles sacksickMulher lendo

Gilles Sacksick (França, 1942)

 

Acabo de ler Segredo de Justiça, a nova coletânea de crônicas da juíza Andréa Pachá. Gostei tanto deste volume quanto do anterior. Esse também é de fácil leitura, grande entretenimento e como no primeiro volume virei a última página e fiquei com uma sensação de otimismo pelo futuro, coisa rara cá pelas minhas bandas.

Após a leitura do primeiro livro, A vida não é justa [Nova Fronteira: 2012] há dois anos, lembro-me de ter-me surpreendido com a criatividade das soluções encontradas no dia a dia pelos brasileiros comuns, antes mesmo dessas soluções serem testadas pelo sistema judiciário. Nessa segunda coletânea, há a mesma exuberância de soluções para o que nos aflige no cotidiano, mas minha reação foi diferente: fiquei estranhamente absorta, entregue à reflexão, considerando a disparidade entre os sonhos que trazemos conosco e possibilidade de suas realizações. Como na publicação anterior, essa coletânea de casos da vara de família mostra os seres humanos em momentos de grande fragilidade, e pelos olhos considerados da juíza, conseguimos aceitar comportamentos que, não fosse a maneira como são retratados, provavelmente não imaginaríamos aceitá-los tão prontamente. Andréa Pachá habilmente mostra a seus leitores um espelho, onde podemos ver de maneira nítida a reflexão dos nossos próprios preconceitos.

 

capa_-_segredo_de_justica_ed

 

O sucessivo desfilar dos casos nessa coletânea me levou a alguns dias de recolhimento, à reconsideração de experiências minhas, de familiares e amigos próximos, aos divórcios, casamentos longevos, heranças, divisão de bens, orfandade, morte súbita e demais acontecimentos não programados, que presenciei em família ou através de amigos. Todos os casos são únicos e peculiares porque os participantes são indivíduos. E é nesses momentos que se vê as verdadeiras feições de cada um dos envolvidos e os princípios respeitados pelos familiares. Acabei dedicando algumas horas a repensar as soluções de que participei em horas críticas, por ocasião de luto, de divórcios, separações ou nascimentos fora do casamento, paternidade ou maternidade inesperadas, enfim, um leque inteiro de vivências inevitáveis no convívio de uma família e na pluralidade das soluções encontradas por aqueles que conheço. Dessa vez as crônicas de Andréa Pachá me pegaram em um momento diferente, produzindo muita reflexão, sobre o passado e trazendo um pouco mais de compaixão para os meus amigos, familiares e conhecidos, protagonistas desses eventos. Não há solução genérica, ideal e feliz, que agrade a todos os envolvidos em um divórcio, em uma guarda de menores ou de idosos, ou de qualquer outra crise familiar. Existe apenas “o melhor que se pode fazer naquelas circunstâncias”. Olhei com carinho e compaixão para os divórcios, heranças, e soluções encontradas após mortes súbitas na família. Nem sempre essas soluções foram do agrado de todos, mas certamente foram o que de melhor poderia ter sido feito em cada ocasião. Dar-se esse perdão, ter-se essa compreensão das águas passadas, não tem preço!

 

ANDRÉA-PACHÁ-CRÉDITO-PARA-FÁBIO-SEIXOAndréa Pachá, foto: Fábio Seixo.

 

Recomendo a leitura dessas crônicas. Elas mostram o Brasil e os brasileiros de maneira diferente da que vemos na televisão e nos romances. Outra coisa que fazem, e muito bem, é mostrar um pouco de como a nossa justiça funciona. Diga-se que é estranho que através de filmes e de programas na televisão estejamos frequentemente mais familiarizados com o processo judicial americano do que com o brasileiro. São obras como esta que nos ensinam a função das decisões judiciais e como elas ocorrem por aqui. Uma verdadeira aula de civilidade dada de forma leve, divertida e ponderada.





Quadrinha do poeta

26 11 2014

escritor computador, Amadeu, disneyAmadeu é escritor, ilustração de Walt Disney.

Meu destino é fazer versos.

Fazer versos, correr mundo…

Para os bons, eu sou poeta;

para os maus, sou vagabundo…

(Nidoval Reis)





Amanhecera, poema de Bernardino Lopes

25 11 2014

José Marques Campão Cavalgada 17 x 24 cm – OSM Ass. CIE e Dat. 1947Cavalgada, 1947

José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)

óleo sobre madeira, 17 x 24 cm

IX

Bernardino Lopes

Amanhecera. O tropeiro

Passa, cantando na estrada;

No seu casebre o roceiro

Prepara as foices e a enxada.

Ao rumor a luz casada

Enche de vida o terreiro;

Parecem bruma cerrada

As flores, lá! do espinheiro…

Aspira-se o olor suave

Do bom café… Alto e grave

Bate o pilão nas cozinhas.

Há junto à horta uns barrancos

Onde a  mulher de tamancos,

Distribui milho às galinhas.

Em: Cromos, 1881





Imagem de leitura — Onelio Marrero

24 11 2014

 

onelo marrero, lectriceLeitora

Onelio Marrero (Cuba/EUA, 1958)

óleo sobre tela