Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)
óleo sobre tela, 63 x 79 cm
Olímpia Couto (Brasil, contemporânea)
vinil sobre tela colado em eucatex, 90 x 70 cm
Augusto Frederico Schmidt
As flores do jambeiro vão caindo.
E aos poucos reina em sangue a madrugada.
Deste alto, o olhar domina ao longe
O mar tranquilo e azul.
E no mar, um veleiro vai fugindo
E o vento o afasta para longe,
para o reino que não sei.
Foge o veleiro e foge o tempo,
Para onde vão?
Não sei.
Vejo apenas as sombras
E as estrelas,
E mesmo a magra lua
Se esconderam;
E que no mar,
As asas claras de um veleiro
Fogem para um reino que não sei.
Em: Eu te direi as grandes palavras – seleção poética, Augusto Frederico Schmidt, Rio de Janeiro, José Aguilar:1975, p. 134
Guillermo Marti Ceballos (Espanha, 1958)
óleo sobre tela, 70 x 70 cm
Dizem que não há coincidências. Próximo ao Carnaval procurei por livros de autores de que gostei no passado. Queria ter certeza de que iria me divertir com a leitura. Lembrei-me de Claudia Piñeiro, cujo As viúvas das quintas-feiras havia me agradado imensamente. No entanto, o livro que achei em uma livraria virtual, Betibu, só chegaria às minhas mãos de 3 a 5 dias e eu queria algo para ontem. Entre vésperas de feriados, não dava para esperar. Passei na pequena livraria perto de casa, e logo na bancada, lá estava um volume da autora, à minha espera: Tua. Levei na hora e não me arrependi.
Se você vai passar um fim de semana em casa, uma tarde, se for um dia chuvoso, se precisa esperar por algumas horas na fila do DETRAN, do médico, do que seja, invista nessa pequena obra de suspense com humor. Desde as primeiras páginas não consegui colocar o livro de lado e foi devorado em meras quatro horas. Não tenho visão de super-herói, mas são só 140 páginas bem espaçadas. E a leitura foi dinâmica por conta da ansiedade de saber sua resolução.
Dizem em inglês “Hell hath no fury like a woman scorned” [A fúria do inferno não se compara à de uma mulher desprezada]. Claudia Piñeiro demonstra como esse fenômeno pode se manifestar. Trata-se de uma história de muitas traições entre os poucos personagens principais da trama: um casal, uma filha adolescente, a secretária dele e sua sobrinha. O ritmo é muito rápido, como se estivéssemos diante de um script, de um roteiro para a televisão ou cinema. Aliás Cláudia Piñeiro é roteirista para televisão e dramaturga, além de escritora de romances de suspense.
Mais cativante ainda, além da boa trama, é seguir a racionalização que cada personagem usa para justificar suas ações. As cenas em que Inês reflete sobre sua vida, e o que deve fazer para consertá-la, são de muito humor. Tenho certeza que em um momento ou outro, qualquer mulher se reconhecerá no absurdo retratado, e vai sorrir, por conhecimento de causa.
Claudia PiñeiroMeu único senão: gostaria de ter visto o desenvolvimento da história da adolescente melhor tecido com o resto da trama. Achei a história um pouco paralela, sem justificar completamente sua presença. Dizer mais, sobre um livro de suspense seria injusto, eu acabaria por me tornar indiscreta e revelar mais do que devo. Posso dizer no entanto que este é um livro divertido, cuja leitura nos faz virar páginas com ansiedade e que o esforço é bem recompensado no final.
Tom e Jerry na praia, disputas e perseguições de lado.
Bom ver brigas resolvidas. A vida é curta. Ninguém ganha com desentendimentos. Mas brigas que levam anos são mais difíceis de resolver. O rancor cria raízes. Por isso é surpreendente que uma das mais famosas brigas literárias do século XX tenha chegado ao final este mês: Paul Theroux e V. S. Naipaul, voltaram a se falar.
V. S. Naipaul tinha como “discípulo” Paul Theroux. Os dois eram muito amigos. Até o dia em que Naipaul decidiu vender alguns presentes que Theroux havia lhe dado…
Pronto. Briga feita. Por anos não se falaram. Quase duas décadas!
O gesto de reconciliação veio de Theroux, a parte que havia se sentido ferida. Talvez, aos 73 anos de idade, ele tenha aprendido a perdoar. Mas, contrário à sabedoria popular, nem sempre a sensatez é resultado da idade. Paul Theroux, que não é bobo, deve ter reconhecido que presentes são dados para que o recipiente faça o que quiser com eles. Ou não seriam presentes, seriam empréstimos…
O momento da reconciliação foi público, durante o Festival Literário de Jaipur na Índia. Em uma palestra, Paul Theroux elogiou o livro de Naipaul, Uma casa para o Sr. Biswas, comparando o recipiente do Nobel de Literatura em 2001, com o autor britânico do século XIX, Charles Dickens. V. S. Naipaul, que estava na plateia, mostrou, aos 82 anos de idade, como havia sido importante a amizade deles e como a briga o havia afetado. Teve um momento de catarse, chorando abertamente ao ouvir os elogios de seu antigo discípulo. Um momento de dar engasgo na garganta…
Boas novas!
Fonte: The Telegraph
Ilustração de Joseph Leyendecker.
O livro é o portão de acesso
à liberdade e ao saber.
E nem sequer cobra ingresso:
basta abri-lo, entrar… e ler!
(Antônio Augusto de Assis)
Guillaume Apollinaire
Caligrama
Quando se menciona a palavra surrealismo poucos, hoje, pensam na literatura ou na poesia. O que passa pela cabeça são os relógios derretidos de Salvador Dali ou os homens com chapéu coco e uma maçã no rosto de René Magritte. Vivemos em um mundo mais influenciado pela imagem gráfica do que pela palavra escrita. No entanto, o surrealismo foi um movimento estético primeiramente literário, fundado por André Breton, um romancista e pintor por surrealiadade e batizado pelo poeta Guillaume Apollinaire (1880-1918), pai da poesia concreta.
Lembrei-me da importância de Apollinaire durante a leitura de Nadando de volta para casa, de Deborah Levy, porque parte do poema do poeta francês Il pleut [Chove] (imagem acima) tem papel importante e simbólico na narrativa. O poema como podemos ver tenta imitar no papel, com as palavras de seu corpo, as gotas de chuva caindo.
[Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação
Chovem também encontros maravilhosos da minha vida ó gotículas
E estas nuvens empinadas começam a relinchar um universo de cidades mínimas
Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma música antiga
Escuta caírem os elos que te retém em cima e embaixo]
Guillaume Apollinaire, do livro Calligrammes. [Salut monde dont je suis la langue]
Guillaume Apollinaire, como o personagem do romance mencionado acima, era polonês, Wilhelm Albert Włodzimierz Apolinary Kostrowicki, e adotou o nome Guillaume (tradução para o francês de Wilhelm) Apollinaire (afrancesamento de um de seus sobrenomes). Nascido na Itália, imigrou para a França onde se tornou importante intelectual; inventou o termo surrealismo e, semelhante às sibilas da antiguidade, profetizou o uso da precisão na digitação de um texto, ou poema, pelos novos meios de reprodução: o cinema e o fonógrafo .
Apollinaire foi o primeiro a usar o termo surrealista publicamente em 1917 na sua peça teatral em dois atos e um prólogo, Les Mamelles de Tirésias, drame surréaliste [As tetas de Tiresias, drama surrealista]. O termo se tornou popular imediatamente. [Mais tarde, em 1947, com permissão de Mme Apollinaire, viúva do poeta, Francis Poulenc inaugurou a ópera-bufa do mesmo nome, com libreto de Apollinaire, e figurinos de Erté.]
Convite da première de Les Mamelles de Tirésias.
Mas a maior influência de Apollinaire foi e é ainda na poesia concreta. Foi a publicação de Calligrammes, em 1918, que o levou a ser considerado o pai da poesia concreta moderna e a dar o nome a uma classificação inteira de poemas (caligramas) cujas palavras formam uma imagem com significado relativo ao seu conteúdo: Caligramas, Poemas de Paz e Guerra, 1913-1916.
O Caligrama [combinação de duas palavras: caligrafia e telegrama] é fruto da fascinação de Apollinaire com o telégrafo sem fio, sobretudo com contribuição do francês Émile Baudot, que em 1874, inventou uma máquina que transformava os sinais telegráficos de modo automático, em caracteres tipográficos. Apollinaire definiu seus caligramas como uma idealização do verso livre. Era poesia com precisão de digitação, usando novos meios de reprodução.
Guillaume Apollinaire, do livro Calligrammes [Reconnais-toi cette adorable personne]
Guillaume Apollinaire foi ainda influente na gestação de outros movimentos das artes plásticas como o Futurismo, Cubismo e Orfismo. Mas nada que se comparasse ao poder de previsão que ele demonstrou em sua famosa palestra, “L’Esprit Nouveau et les Poétes,” [O novo espírito e os poetas] de novembro de 1917, quando incitou outros poetas a abraçarem a inovação e previu que a poesia do futuro seria inventiva e surpreendente. O dia chegaria em que poetas iriam brincar com seus versos, e teriam a habilidade de combinar palavras com imagens.
A título de curiosidade, em 1917, Apollinaire morava no bairro de Montparnasse em Paris e contava entre seus amigos e atendentes dessa palestra Pablo Picasso, Gertrude Stein, Marie Laurencin e Marcel Duchamp, todos ainda longe dos louros que receberiam mais tarde, como pensadores culturais da modernidade.
[Autorretrato]
Tamara Lempicka (Polônia, 1898-México, 1980)
Coleção Particular
Em 2012, seguindo uma publicação no jornal britânico The Guardian, em que seus leitores listavam as melhores frases de abertura de um romance de língua inglesa, publiquei aqui as poucas “melhores frases” em língua portuguesa que me chegaram à memória. Mas desde então comecei a prestar mais atenção ainda às frases de abertura dos livros que leio. Aos pouco irei postando, ocasionalmente uma ou outra abertura que me intrigue. Começo hoje com a escritora inglesa, Deborah Levy.
Em: Nadando de volta para casa, Deborah Levy, Rio de Janeiro, Rocco: 2014, p. 9, tradução de Léa Viveiros de Castro.
NOTA: LINK para a lista de melhores frases de abertura em língua sugeridas pelos leitores da Peregrina, publicadas em 6 de junho de 2012.
Alex Cree (Inglaterra, contemporâneo)
Os ingleses são mestres de listas. Já expliquei anteriormente que gosto de listas porque ela me fazem pensar sobre assuntos que passariam em branco… Os melhores livros do século XXI já foram causa de postagem aqui em abril do ano passado quando o jornal inglês The Guardian fez a pergunta a seus leitores: “daqui a cem anos que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?” — Se interessado, aqui está a minha resposta.
Desta vez, falo da lista feita pela BBC sobre os melhores livros do século até o momento e pergunto: você já leu algum deles?
1 – A fantástica vida breve de Oscar Wao — de Junot Diaz, publicado no Brasil pela Record.
2 – O mundo conhecido — de Edward P. Jones, publicado no Brasil pela José Olympio
3 – Wolf Hall — de Hilary Mantel, publicado no Brasil pela Record.
4 – Gilead — de Marilynne Robinson, publicado no Brasil pela Nova Fronteira.
5 – As Correções — de Jonathan Frazen, publicado no Brasil pela Cia das Letras
6 – As incríveis aventuras de Kavalier e Clay — de Michael Chabon, publicado no Brasil pela Record
7 – A visita cruel do tempo — de Jennifer Egan, publicado no Brasil pela Intrínseca
8 – Billy Lean’s Long Hallftime Walk — de Ben Fountain, sem publicação no Brasil
9 – Reparação — de Ian McEwan — publicado no Brasil pela Cia das Letras
10 – Meio Sol Amarelo — de Chimamanda Ngozi Adichie, publicado no Brasil pela Cia das Letras
11 – Dentes Brancos — Zadie Smith, publicado no Brasil pela Cia das Letras
12 – Middlesex — de Jeffrey Eugenides, publicado no Brasil pela Cia das Letras
De posse desta lista vou passar o Carnaval no ar condicionado, lendo. Na mesinha de cabeceira estão: Middlesex — versão em inglês comprado no seu lançamento (2003) e ainda não lido, mas outros membros da casa leram e gostaram. Dentes Brancos, versão em português também não lido apesar de comprado quando publicado no Brasil, por recomendação do marido. Wolf Hall que está na mesma situação. MAS, há algo a meu favor: conheço boa parte dos autores por outras publicações… Por que ainda não li estes livros? Prestem atenção ao número de páginas…. Tem que ser muito bom para que valha toda a dedicação. Há alguns autores que têm crédito comigo: Hilary Mantel é uma autora cujas obras conheço desde os tempos em que morei fora do Brasil. Já li muitos de seus romances… Já ouvi ótimas opiniões sobre Meio Sol Amarelo, mas acabo de ler Americanah da mesma autora e vou dar um tempo. Ian McEwan também é velho conhecido e Reparação já vi duas vezes no cinema. Preciso espaçar o envolvimento com o tema, apesar de gostar bastante de sua prosa.
Mas saio deste Carnaval certamente enriquecida por alguma excelente leitura.