Não conheço a autoria dessa imagem. Só há uma fonte na internet para ela. Reproduzida muitas vezes. Não confio. Tenho a impressão de que é feita por IA, ainda que alguns atribuam a um pintor do final do século XIX. Nem vou mencionar seu nome para evitar que um rumor se propague. Totalmente fora de seu estilo. É no entanto uma interessante superimposição ao texto que segue. Serve também para alertar a todos vocês que aqui aparecem que há horas em que temos que confiar nos nossos instintos.
“O som do relógio, que expulsara o silêncio, morria em vibrações cada vez mais ténues e distantes. Depois de apagar todas as luzes, Justina foi sentar-se numa cadeira, perto da janela que dava para a rua. Gostava de ali estar, imóvel, desocupada, as mãos abandonadas no regaço, os olhos abertos para a escuridão, à espera nem ela sabia de quê. A seus pés veio enroscar-se o gato, seu único companheiro de serões. Era um animal tranquilo, de olhos interrogadores e andar sinuoso, que parecia ter perdido a faculdade de miar. Aprendera com a dona o silêncio e, como ela, a ele se abandonava.”
Em: Claraboia, José Saramago, Cia das Letras. Original de 1953, publicação póstuma em nova edição.
Duas empregadas, Maria e Margarida, levavam cada, uma cesta, bem pesada: uma resmungava o tempo todo reclamando do peso de sua carga; a outra se ria e fazia graça como se a dela fosse leve.
— Como você pode rir? – perguntou Margarida; sua cesta é tão pesada quanto a minha, e você não é mais forte do que eu.
— É porque, na minha, coloquei uma pequena planta que diminui o peso, respondeu Maria.
— Por favor, me diga, Maria, que planta é essa? Eu queria também ter para aliviar o peso de minha cesta.
Maria responde:
— A planta, tão preciosa que transforma todos os fardos em pesos leves, é a paciência.
Christoph von Schmid nasceu na Alemanha em 1768 e faleceu em 1854. Foi um dos primeiros a escrever contos para crianças. Suas histórias, anedotas, diálogos, são lidos até hoje pelas crianças europeias, principalmente na França, na Alemanha e na Inglaterra. Sua obra está traduzida para muitos idiomas e publicada com ou sem ilustrações, dependendo da idade para qual suas mais de trezentas publicações forem apropriadas. Ele também adaptou lendas locais para contos. Ele foi um dos primeiros escritores a se preocupar com o ensino de valores para crianças.
Este é o quarto livro de Chimamanda Ngozi Adichie que leio. Como outros leitores que gostam de sua escrita esperei dez anos para essa nova produção. Finalmente A contagem dos sonhos veio, trabalho pós pandemia, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Júlia Romeu. É óbvio que não há falta de assunto para a autora, nunca houve, por tudo que já li dela, Chimamanda continua loquaz na sua escrita.
A sensação que tive é que após alguns anos sem publicar, a autora tinha muito, muito mesmo, a dizer sobre mulheres e seus sonhos. O livro é extenso. Sinto que poderia ser dividido em dois excelentes romances com diferentes diretrizes. Isso porque ele relata desejos, sonhos e o cotidiano de quatro mulheres que lutam para se realizar economicamente, profissionalmente, além de preencherem seus destinos de esposas, amantes, mães e filhas. Não é um conjunto fácil de tarefas a concretizar. Essa luta, a persistência na busca, a procura do preenchimento do sonho é a coluna dorsal da obra. Ela trata das expectativas frustradas, dos obstáculos do dia a dia, e mostra a quase impossível ideia de casar sonho com realidade.
Não falta vontade, perseverança, educação ou dinheiro a três dessas mulheres: Chiamaka, Zicora e Omelogor, as três nigerianas. O caso de Kadiatou já é diferente desde de seu nascimento. Outra obra deveria ser escrita para ela. Originária da Guiné ela se faz adulta dentro dos ditames da educação muçulmana. Traz consigo os limites de seu papel social que diferem daqueles das outras três personagens, quando emigra, acaba sofrendo consequências traumáticas pelas quais não é responsável.
As quatro mulheres são apresentadas em sequência, e têm suas vidas levemente entrelaçadas. Chiamaka abre a narrativa. Ela é escritora-jornalista especializada em escrever colunas para revistas de viagem, vem de família rica, emigra para os EUA, não tem problemas financeiros e é apoiada pelos pais, mas não consegue encontrar um parceiro de vida adequado. Zikora, a segunda que conhecemos, é amiga de Chiamaka e pode até ter sido apresentada ao leitor anteriormente, já que sua história apareceu como um conto independente, em 2020, Zikora, pela Amazon Original Stories. Lá, é personagem principal. Aqui, a mesma história: advogada de sucesso em Washington DC, que se vê igualmente lograda na escolha de um companheiro de vida. Quando engravida é deixada de lado pelo homem que ama. Foi durante o parto e nos dias subsequentes que conseguiu perceber as dificuldades que sua mãe teve, e consegue reconciliar seu desejo com o que sua mãe imagina para ela e o neto. Omelogor, é prima de Chiamaka, mas as duas não poderiam ser mais diferentes. Ela também se muda para os Estados Unidos para estudar. Tem muito sucesso no campo das finanças. Mostra também seu lado de defensora das mulheres quando dá conselhos para homens, incentivando-os a agir de maneira mais ‘civilizada’ em seu blog. Entra em controvérsias, mas é autêntica. Das três nigerianas, ela é a personagem mais tridimensional, suas faltas, pecados, erros de julgamento a fazem uma pessoa completa. Talvez seja a mais interessante das nigerianas.
Chimamanda Ngozi Adichie
Finalmente, na sequência, temos a história de Kadiatou, comovente, triste, de grande poder dramático. Sua relação com as outras mulheres retratadas é que ela foi empregada de Chiamaka, e vai para os EUA, asilada, procurando uma vida melhor para sua filha. Essa história, completamente diferente das outras, até mesmo no tom, lembra um caso real que chegou às manchetes dos jornais por volta de 2011, quando de uma camareira de hotel foi abusada por um homem de negócios de alto nível, em Nova York. Para mim, essa história deveria ser um livro à parte. Principalmente porque na seção final quando voltamos a saber de Chiamaka — cujo relato fecha o livro — percebemos ainda com maior precisão a diferença de tom usado nas três primeiras narrativas, e a dela. E também os problemas que afetam Kadiatou serem de muito maior grandeza do que os enfrentados pelas outras.
O que as une é a constante procura do amor e da felicidade. Todas acabam frustradas pelos homens que escolhem, pelas escolhas que fazem ou pelas pressões sociais. Com esse perfil fica óbvio que Chimamanda Ngozi Adichie continua dando voz às frustrações das mulheres que lutam contra o machismo, o racismo e desigualdades sociais. Tudo dentro do tradicional perfil de suas obras, que conquistaram, a cada publicação, milhares de leitores devotos. Mas neste livro acredito que ela poderia ter sido mais sucinta. O livro é longo. E se arrasta em algumas passagens. Para mim, sua melhor obra até hoje, mais redonda, mais completa, é Meio Sol Amarelo, narrativa de grande impacto. Se você nunca leu Chimamanda Ngozi Adichie, recomendo que comece com Hibisco Roxo, o mais leve e mais direto de seus romances. Mas recomendo A contagem dos sonhos com as restrições mencionadas acima.
De cinco estrelas, no máximo eu lhe daria entre três e quatro. Mas não há meios pontos nesse jogo. Fico com quatro, em admiração por todo trabalho dessa escritora.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem incentivos para a promoção de livros.
Batalha de Roncesvales, em 778: morte de Roland. c. 1455-1460
Jean Fouquet (França, ? – 1481)
Iluminura das Grandes Crônicas da França
Biblioteca Nacional da França, Paris
A Canção de Roland é um poema do século XI, talvez a mais antiga canção épica, que dá início à literatura francesa, mesmo tendo sido, na sua forma original, escrita em uma língua românica. A obra inspirou muitas outras criações sobre a França e circulou por toda a Europa. Ela narra a morte heroica de Roland, no campo de batalha de Roncesvales. A batalha aconteceu no dia 15 de agosto de 778, e Roland, que era sobrinho de Carlos Magno, comandava o exército da retaguarda, formado pelos Doze Pares de França, um grupo lendário de cavaleiros associados a Carlos Magno. Na tropa liderada por Roland os cavaleiros são: Roland, Olivier, Gérin, Gérier, Bérenger, Otto, Samson, Engelier, Ivon, Ivory, Anséïs e Girart de Roussillon. Mas em outros poemas e lendas da época, esses cavaleiros poderiam ser outros. Como há muitas versões da Canção de Roland, todas em manuscritos que deram por sua vez origem a outras tantas lendas, é difícil de precisar exatamente quem fazia parte desse exército ou aqueles cuja existência são pura lenda.
Roland morreu numa batalha na região basca da França. A tropa vinha da Península Ibérica onde lutava contra os sarracenos. Dependendo da versão os autores do massacre de Roncesvales, podem ser tanto bascos quanto muçulmanos. Sabe-se que essa batalha realmente ocorreu, está historicamente comprovada e em espírito pertence ao contexto das Cruzadas e da Reconquista cristã da Península Ibérica.
A morte de Roland, 1462
Iluminura em de manuscrito
Autor desconhecido
Bruges, Flandres [Bélgica]
Uma coisa interessante é que a Canção de Roland teve grande popularidade no Brasil no século XIX. Isso graças a um livro de um médico português, Jerónimo de Moreira Carvalho, que escreveu em 1737, portanto no século XVIII, uma continuação da Canção de Roland: Segunda parte da História do Imperador Carlos Magno e dos doze pares de França. Esse romance de cavalaria se tornou leitura de grande sucesso no Brasil do século XIX. Aliás, esse é um de dois portugueses que escreveram uma continuação de história de Carlos Magno. O outro, História nova do Imperador Carlos Magno, e dos doze pares de Françade José Alberto Rodrigues, impressa em Lisboa em 1742. Essa no entanto, não foi popular no Brasil.
O escritor inglês e vencedor do Man Booker Prize em 2011, com o livro O sentido de um fim, deu à revista The Week, uma pequena lista de seus livros favoritos. Foi uma lista diferente da que eu imaginaria, mas são obras muito boas.
1 – A viúva Couderc, George Simenon. Infelizmente não encontrei a tradução para o português. Foi publicado em 1942. “Todos os anos, Simenon se irritava com aqueles “idiotas” de Estocolmo que ainda não lhe haviam dado o Nobel de literatura. Na época eu achava aquilo muito louco; agora acho bastante apropriado. Seus romances duros são poucos e rigorosos, demonstrando profundo conhecimento da natureza humana. Este é um dos melhores.”
2 – Rapazes de zinco de Svetlana Alexievich, publicado em 1989. “Alexievich ganhou o Nobel, como deveris, em 2015, por suas histórias polifônicas retratando o final do Comunismo Soviético. Rapazes de zinco retrata as experiências terríveis dos soldados sovi[eticos no Afganistão.”
3 – O início da primavera [The beginning of Spring], Penelope Fitzgerald, publicado em 1988. Não encontrei tradução para o português, mas achei em espanhol, inglês e italiano. “A história se passa na Rússia pré-revolucionária. Esse é o melhor das quatro grandes obras de Fitzgerald. Irônico, inadequado, sábio, e terno ao mostrar os incompetentes. A obra de Fitzgerald tem uma graça moral que permanecerá e sobreviverá às obras mais espalhafatosas da nossa época.“
4 – Persuasão, Jane Austen, publicado em 1817. Os meus três romances favoritos do século dezenove foram escritos por mulheres. Middlemarch e Jane Eyre são os outros dois. Persuasão é o último romance de Austen, sombrio, irônico e intenso. Imagine que mais ela poderia ter escrito se não tivesse morrido aos 41 anos.
5 – Amours de voyage, de Arthur Hugh Clough, publicado em 1849. “Um longo poema e também um pequeno romance — sobre amor, dúvida e viagem; sobre perder a chances oferecidas, sobre não entender o momento, analisar demais e covardia moral. Clough é contemplativo, argumentativo, inteligente e extremamente moderno.“
6 – Ethan Fromme, Edith Whaton, publicado em 1911. “Wharton disse que “para escrever esse livro eu trouxe grande alegria e total conforto”. Com a maioria das edições tendo próximo de 100 páginas, o livro combina a densidade de uma novelaem carater e tema com a simplicidade e força de um conto. Como muitos de seus livros, uma tragédia, para uma época não trágica. E ela escreveu o original em francês!“
NOTA: Você encontrará minha resenha sobre O sentido de um fim de Julian Barnes aqui neste blog. Julian Barnes é um dos meus escritores favoritos. Preparo nesse momento a lista do livros de mais gostei nesses primeiros 25 anos do século XXI e tenho dois livros de Barnes na minha lista.
Louis-Emile Pinel de Grandchamp (França, 1831-1894)
óleo sobre tela
Nada nos satisfaz
Michel de Montaigne
Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos examinar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregássemos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto todo esse nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coisa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Disso dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eternamente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio). Não importa o que venhamos a conhecer e desfrutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobiçosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não tenham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apoderamos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida; viu homens cumulados de riqueza, honra e glória, orgulhosos da boa reputação de seus ftlhos; e entretanto não havia um único que, em seu foro íntimo, não se remoesse de angústia e cujo coração não se oprimisse com queixas dolorosas; compreendeu então que o defeito estava no próprio recipiente, e que esse defeito corrompia tudo de bom que fosse colocado de fora em seu interior (Lucrécio). O nosso apetite é indeciso e incerto: não sabe conservar coisa alguma, nem desfrutar nada da maneira certa. O homem, julgando que isso seja um defeito dessas coisas, acumula e alimenta-se de outras coisas que ele não sabe e não conhece, em que aplica os seus desejos e esperanças, honrando-as e reverenciando-as; como diz César: Por um vício comum da natureza, acontece termos mais confiança e também mais temor em relação às coisas que não vimos e que estão ocultas e desconhecidas.
“Devemos abster-nos, na conversação, de observações críticas, mesmo que sejam as mais bem intencionadas, pois magoar as pessoas é fácil; difícil, se não impossível, é melhorá-las.”